histria e crtica da comunicao
francisco Rui Cdima

Francisco Rui Cdima

Histria e Crtica da Comunicao 

LISBOA, 1996 

 memria 
                         dos colegas e amigos
                         Emdio Rosa de Oliveira
                         e
                         Pedro Miguel Frade

ndice 


 I.  Introduo: da histria  crtica da comunicao       4
 II. Histria, escrita de fico                            9
     II.1. No grande jogo da Histria                       21 
 III. Escrita, Poder, Estado - o contexto da emergncia  
          da cultura alfabtica                        31
IV. O dispositivo tipogrfico                          44
     IV.1. O novo espao pblico e o dispositivo       
          disciplinar do olhar                         44
     IV.2. A origem da tipografia e da esfera pblica 
          burguesa                                60
V. Histria, poltica e jornalismo                     75   
     V.1. O jornalista, o historiador e os media            
75   
     V.2. Elogio e elegia do jornalismo                81 
     V.3. O sistema poltico e a informao televisiva -    
     
          ou a iluso naturalista das notcias do mundo     93 
VI. Modelos e profecias da aldeia global: Marshall McLuhan  
122
VII. O dispositivo comunicacional moderno e os soft media   
136
VIII. A questo televisiva: a paisagem audiovisual  
          portuguesa                                   165
IX. Dramaturgias da videocultura                       185
X. O retorno da techne                                 206
XI. O futuro interactivo                               215
BIBLIOGRAFIA                                      227

 
 



 I. Introduo: da histria  crtica da comunicao


                              O real no se mostra,
demonstra-se
                                        Gaston Bachelard
 


     Se  certo que a realidade tem uma natureza
essencialmente comunicacional, partimos deliberadamente neste
texto 1 para uma reflexo em torno da genealogia de estruturas
histrico-comunicacionais, das respectivas mediaes
simblicas e tecnolgicas e da sua insero no campo dos media
- dos hard aos self media - no esquecendo as novas questes
que o ciberespao est a introduzir nos estudos de
comunicao.   Do mesmo modo se far a anlise de contextos,
prticas, regularidades, e das condies de produo histrica
do real comunicacional, da lei dos sistemas que orientam o
aparecimento de enunciados e discursividades como
acontecimentos singulares.
     Na abordagem dos diferentes tempos comunicacionais,
procurar-se- problematizar a emergncia de campos de
mediao, designadamente a partir da interpretao das grandes
mutaes scio-culturais, analisando  a configurao dos
diferentes traos, paradigmas ou sistemas. Trata-se
fundamentalmente de desenvolver uma reflexo no mbito da
histria - e da crtica - dos media, no contexto da crise das
grandes narrativas e da superao do modelo clssico dos
media, uma anlise que se pretende portanto crtica da
histria e simultaneamente crtica designadamente dos
mass media. 
     Sero considerados diferentes universos neste conjunto de
textos - as sociedades de cultural oral; a emergncia da
escrita; o universo tipogrfico,   a imprensa; a o jornalismo
televisivo e os media de massa; as 'dramaturgias alternativas
- self-media, videoart, interactividade, etc., procurando
estabelecer os dispositivos histrico-culturais das diferentes
pocas  e/ou estruturas comunicacionais.
     A problemtica da histria dos media  aqui desenvolvida
em  diferentes abordagens, a primeira das quais tem uma
preocupao fundamentalmente terica e metodolgica. 
Procurar-se- repensar as diferentes contribuies
provenientes do mbito da filosofia e da teoria da histria,
com relevncia, quer para o trabalho historiogrfico no campo
dos media, quer para uma crtica da prpria histria enquanto
'grande narrativa' na encruzilhada de saberes em crise.  
      A histria dos media no , no nosso entender, a
histria conjuntural de determinado 'fenmeno', ou campo
meditico, dados como totalidade inexpugnvel,  sim, uma
figura global sempre em processo de mudana, um corpo de
tenses, uma cadeia de interdependncias recprocas.  Nessa
medida a histria das mediaes simblicas e tecnologias - das
sociedades de cultural oral s dramaturgias da ps-modernidade
- emerge como um universo fecundo de sentido, em constante
actualizao, sendo certo que quanto mais densos e
aprofundados so os problemas e dependncias recprocas, mais
se tornar visvel a constituio de um dispositivo
historico-cultural comum pr- e ps-alfabtico, este ltimo
configurado como autntico paradigma comunicacional, em
relao ao qual se anunciam agora os seus prprios limites,
isto , o analfabetismo do sculo XXI no significar
certamente o desconhecimento da escrita, mas com certeza a
inadequao s novas escritas infocomunicacionais.
     Trata-se, em sntese, de provocar uma reflexo em torno
da genealogia de estruturas comunicacionais, numa perspectiva
fundamentalmente historico-cultural.  No estudo dos diferentes

tempos histricos procurar-se- problematizar o sentido da
emergncia - o sentido e os signos da histria - de diferentes
universos comunicacionais e respectivos campos mediticos e
ps-mediticos, a partir essencialmente da anlise das
mutaes observveis nas linhas de fractura e na configurao
das diferentes estruturas.    
     Em anlise estaro quer os macro acontecimentos e as
grandes estruturas histricas, quer os micro fenmenos
comunicacionais, do fait-divers aos meta-acontecimentos e 
actualidade trgica.  Procurar-se- conduzir este trabalho 
definio dos seus parmetros isomrficos, na sua genealogia, 
confrontando os mecanismos de regulao da produo simblica
nas diferentes pocas.  Em acrscimo prope-se o
aprofundamento da reflexo entre o campo de dominao e o
campo de comunicao, analisando  os dispositivos de dominao
propriamente ditos, designadamente a partir da noo de
dispositivo historico-cultural ps-alfabtico, e com base no
postulado que considera a histria da comunicao,
nomeadamente do campo dos media clssicos, como a histria de
um fluxo unvoco de dominao. 
     Colocar-se- ento ao historiador o problema das
condies de produo histrica - de um quadro legal, de um
discurso, ou saber, de um relato vnementielle, por exemplo. 
 atravs do trabalho 'arqueolgico' e 'narrativo' dos
contextos, discursos e condies de possibilidade que se
chegar  descrio intrnseca desses documentos, das
formaes discursivas em que se inserem e da figura
epistemolgica que se forma.  
     Importar pois trabalhar o sistema que orientou o
aparecimento  de acontecimentos singulares e as formas e o
contedo de visibilidade desse real mediatizado.  Emergir,
nestas circuntncias,  um acontecimento-monumento,  produto de
um contexto que lhe deu corpo segundo relaes de foras e de
interesses, de condies de enunciao e de contextos
especficos. 
     Esta  abordagem diacrnica e transversal  histria dos
media que aqui surge estruturada como um conjunto de
apontamentos para uma histria crtica da comunicao,
pretende fundamentalmente referenciar elementos que permitam
configurar o que designaremos, portanto, por dispositivo
histrico-cultural de dominao, que se estabelece nas
relaes entre o campo da comunicao e o universo poltico,
partindo exactamente da emergncia das mediaes simblicas e
tecnolgicas e da contextualizao das estruturas
comunicacionais em diferentes tempos histricos. 
     Os pressupostos tericos que pautam este nosso trabalho
procuram apoiar-se numa epistemologia da histria dos media, e
procuram portanto introduzir na operao histrica do campo
dos media a prtica arqueolgica, ou seja, como refere
Foucault, a descrio intrnseca dos monumentos, a
fragmentao dos documentos, na sua unidade e descontinuidade,
tentando captar o invariante comum de certo nmero de traos.  
     No campo dos media, a prtica histrica, a genealogia da
esfera comunicacional,  por excelncia uma genealogia de
prticas discursivas: uma vez discursivamente mediatizado no
h forma de estudar o real, ou a histria, a no ser atravs
das suas concretizaes discursivas.  Para a nos remete
tambm o conceito de simulacro em Baudrillard, como se ver,

bem como a crtica da noo de acontecimento, que faremos a
partir de Ricoeur, nomeadamente, e que nos reenvia para a
falncia da noo tradicional de acontecimento devido 
neutralizao do real nos signos e narrativas que o pretendem
referenciar. 
     Assim, problematizaremos questes para ns
inultrapassveis no domnio da teoria da histria dos media,
nomeadamente no que concerne  definitiva impossibilidade de
reificao do real atravs das narrativas histricas, bem como
 explicitao da dimenso ficcional da histria uma vez
aceite o fim da dicotomia entre narrativa de fico e
narrativa histrica.  Tudo se resume, no colocar da questo
nestes termos: Como voltar ao social quando a realidade de que
se fala  j discurso?. 
      exactamente da confrontao entre os diferentes nveis
histrico-culturais que delimitam diferentes universos
mediticos, confronto que faz explicitar claramente a
resultante de dominao comum aos diferentes perodos, que
sobressai o que do nosso ponto de vista se afirma como
decisivo enquanto elemento histrico aglutinador do que se
poder considerar, em termos latos, a emergncia dos media: o
dispositivo histrico-cultural de dominao nas suas
diferentes metamorfoses, isto , e para s citar alguns dos
parmetros de maior relevo, enquanto aparelho burocrtico de
dominao, enquanto aparelho ideolgico de Estado e enquanto
agente legitimador de um real mass-mediatizado, verdadeiro
imprio normativo.
     Uma das ideias centrais que preside a este trabalho, ,
portanto, o da estreita relao, da interaco existente entre
o campo dos media e o campo de dominao, ou o campo poltico. 
Filiando-nos no pensamento pioneiro e na obra de Marshall
McLuhan, Harold Innis e Jack Goody, nomeadamente, diramos
inclusive que  no rebatimento de um sobre o outro que tomam
corpo as estruturas histrico-culturais, polticas, do campo
social.  No limite, seria desse agenciamento que se
estruturariam os modos de produo.  Veremos isso na
emergncia da escrita, na origem da tipografia, e voltaremos a
confirm-lo com os soft media.
     Com a subordinao da expresso grfica  fontica - e
consequente emergncia do significante desptico, como Deleuze
se lhe referiu, assiste-se, com efeito, no propriamente 
iluminao do homem, mas, antes,  sua excluso. A escrita,
por exemplo, ao modificar todo o sistema de comunicao
prprio das sociedades orais modifica no somente o sistema
scio-cultural mas, de facto, todo o modo de dominao.  O
mesmo acontece com a tipografia: com esta nova tecnologia a
recontextualizao do dispositivo de dominao verifica-se
fundamentalmente com a emergncia da esfera pblica burguesa,
atravs tambm de uma nova  ordem disciplinar do olhar - e
depois com a esfera pblica crtica. Do mesmo modo, 
reconverte-se com a civilizao do livro e a imprensa
peridica - suportes privilegiados do Estado forte,
centralizado, enfim, do Estado absolutista.
     A actualizao que o dispositivo de dominao sofre na
modernidade, em plena sociedade informatizada, provoca de
alguma maneira a  pulverizao dos parmetros anteriores:
crise da esfera pblica e do conceito de pblico; crise do
regime de representao e de percepo; crise do homem e sua

hibridao nos diferentes cruzamentos com as tecnologias;
crise das grandes narrativas, crise da histria, crise da
ordem poltica clssica.  Nada se modifica, no entanto,
relativamente ao pressuposto de base:  a natureza dos meios,
da comunicao, so as tecnologias, que enformam e estruturam
o modelo das sociedades, o histrico, o cultural, o poltico,
isto , o processo de mudana est implcito nas formas da
tecnologia dos meios de comunicao.  Nada se modifica,
tambm, relativamente  transparncia da comunicao: ela ,
como dizia Lyotard, 2o novo crcere+.   
     Esta reflexo conduz, finalmente, ao equacionamento de
uma oposio perversa: se o sistema poltico de fim-de-sculo,
acompanhado do seu sub-sistema jurdico-administrativo , cada
vez mais, um meio de comunicao, o sistema dos media acaba
por ser tentado a ocupar esse vazio, afirmando-se cada vez
mais tambm, como um meio de poder e de dominao. As posies
invertem-se e esta nova liturgia comunicacional de que falava
Lucien Sfez 1 tende a tornar-se de facto numa nova teologia em
relao  qual importa desde j conhecer-lhe os mltiplos
contornos para, como tem sido crnico, estarmos desde logo
aptos a profess-la. S depois sero aceitveis as tambm
mltiplas dissidncias.


 


II. Histria, escrita de fico 



          La mtaphore est le pouvoir par lequel le discours
peut redcrire Ia ralit.
          Et superbement - seule une humeur mythise ouvre et
dcouvre le monde.
                                             Paul Ricoeur


     Se  certo que no campo epistemolgico da histria
diferentes duraes, novas estratificaes e novos objectos
tm sido definidos, no menos certo ser dizer que no campo da
histria dos media, disciplina ainda em gestao, laboratrio
experimental, a ter de se definir um objecto ele s poder ser
difuso, de fronteiras indefinidas, enfim, um objecto
heurstico por excelncia.
     Com As Palavras e as Coisas 1 o homem passou a surgir
como que des-historicizado, claramente desinserido de
processos teleolgicos.  Eduardo Loureno foi uma das vozes
que ento considerou ter-se chegado ao fim do humanismo: 2
(...) o que Foucault anunciava, na esteira, alis de Heidegger
e em termos heideggerianos, no  o fim do Homem em sentido
banal de um apocalipse orgnico ou antropolgico, mas de uma
sua "imagem".  Esta "imagem"  aquela segundo a qual "o homem"
aparece como "objecto" das cincias humanas e postula assim
uma unidade a priori que precisamente a diversidade e a
irredutibilidade das "imagens" culturais no confirma+ 2 .
     De facto, ao se considerar Foucault como o filsofo da
morte do homem pelo fim do conceito moderno de "homem" como

sujeito central, absoluto, objecto da histria, redefine-se em
simultneo o prprio conceito de sujeito histrico, agora no
objecto estatstico, cronolgico, mas sujeito diverso,
ambguo, complexo.  Da Michel Foucault poder dizer, quase de
forma testamentria, que, de facto, no analisava fenmenos de
poder mas produzia, ao invs, uma histria dos diferentes
modos de subjectivao do ser humano na nossa cultura.  A
histria parecia estar da para a frente liberta do sujeito e
do narcisismo transcendentais.  Sartre, por exemplo, apesar de
pessimista, pronunciava-se ento desta forma: 2Foucault d s
pessoas aquilo de que elas precisavam: uma sntese eclctica
onde Robbe-Grillet, o estruturalismo, a lingustica, Lacan,
Tel Quel so utilizados sucessivamente para demonstrarem a
impossibilidade de uma reflexo histrica+ 1 .
     Mais do que essa aparente impossibilidade Foucault
estabelecia uma geologia do transitrio um espao a
redistribuir na analtica da economia do poder.  Louis
Althusser introduzia entretanto uma nova categoria,
equivalente de certa maneira  proposta de Foucault: a do
"processo" sem sujeito nem fim (e/ou objecto) 2 .
     Se pensssemos no clssico de Deleuze/Guattari,
falaramos do funcionalismo das micro-multiplicidades, das
mquinas desejantes, das micro-anlises e das formaes
moleculares - 2o que nos interessa  o modo como qualquer
coisa trabalha, funciona, qual a mquina+ 3 .  Com os autores
de O Anti-dipo surgia a recusa do imperialismo do
significante, a recusa do objecto territorializado, enfim, a
instituio de um "objecto parcial" aberto aos maquinismos
moleculares que trabalham a histria.
     Melhor que ningum, no entanto, Foucault, com os
instrumentos metodolgicos e a argumentao epistemolgica da
Arqueologia do Saber  contribui decisivamente para a
eliminao do conceito positivista de sujeito e
simultaneamente para a recusa do velho dogma da continuidade e
da totalidade histricas.
     Com Foucault o documento deixa de estar meramente
subordinado a um alinhamento resultante de uma crtica interna
e externa; passa a ser trabalhado do interior: 2Elle
(l'histoire) l'organise, le dcoupe, le distribue, l'ordonne,
le rpartit en niveaux, tablit des sries, distingue ce qui
est  pertinent de ce qui ne l'est pas, repre des lments,
dfinit des units, dcrit des relations+ 4 .
     Decompor pois o documento e reconhecer as
descontinuidades simultaneamente como instrumento e objecto de
investigao, eis, por assim dizer, duas novas vertentes
fulcrais no campo da epistemologia da histria. O fundamental
em Foucault  exactamente a ruptura operada no modo de
questionamento do documento, considerado agora como monumento,
como se de novo surgisse a rejeio da palavra monumental. 
Para Foucault os problemas da histria poder-se-iam resumir
apenas nessa questo: 2L'histoire dans sa forme
traditionnelle, entreprenait de 'mmoriser' les monuments du
pass, de les transformar en documents et de faire parler ces
traces qui, par elles-mmes, souvent ne sont point verbales,
ou disent en silence autre chose que ce qu'elles disent; de
nos jours, l'histoire, c'est ce qui transforme les documents
en monuments, et qui, l o on dchiffrait des traces laisses
par les hommes, l o on essayait de reconna-tre en creux ce

qu'ils avaient t, dploie une masse d'lments qu'il s'agit
d'isoler, de grouper, de rendre pertinents, de mettre en
relations, de constituer en ensembles (...) L'histoire de nos
jours, tend  l'archologie, -  la description intrinsque du
monument+ 1 .
     Ora  exactamente esta descrio intrnseca do monumento
que, mais do que evidenciar a aparente impossibilidade de
reflexo de que falava Sartre, abre efectivamente a
possibilidade de uma outra reflexo histrica. 
     O enunciado surge entretanto como uma nova produtividade:
2L'nonc, loin d'tre le principe d'individualisation des
ensembles signifiantes (l' "atome" significatif, le minimum 
partir duquel il y a sens) c'est ce qui situe ces units
significatives dans un espace o elles se multiplient et
s'accumulent+ 2 .
     Na descrio arqueolgica das novas estratificaes
histricas  singularidade do enunciado ope-se a rede
complexa do discurso.  no discurso que se articula a questo
da descontinuidade. Na descrio arqueolgica o discurso 
tratado no como documento - e de uma forma interpretativa ou
alegrica - mas enquanto prtica, na sua especificidade,
atravs de uma analtica das suas modalidades, definindo e
diferenciando tipos e regras de prticas e de formaes
discursivas.
     No limite, estudar a comunicao a partir da suas
estruturas genealgicas, histricas,  estudar a histria
discursivamente, traduzindo em descrio arqueolgica as
diferentes epocalidades, arquivos e modos de dominao,
traduzindo, enfim, novos modos de subjectivao dos indivduos
perante novas formas de racionalizao do poder: 2A histria
no cessa de no-lo ensinar - o discurso no  simplesmente o
que traduz as lutas ou os sistemas de dominao, mas o que
pelo qual se luta, o poder de que se se procura apossar+ 3 . 
     Nova hiptese: seja a histria uma arte de encenao. 
Ento, do historiador se poderia dizer o mesmo que Bram van
Velde dizia do artista contemporneo: 2Le peintre est un oeil,
un oeil aveugl, qui continue de voir, qui voit ce qui
l'aveugle+. De um exerccio de ausncia se trata.  A histria
no  mais do que um espao lacunar, um espao "branco", que
manifesta, ou pelo menos deixa pressentir a formao e o
cruzamento de uma pluralidade de objectos discursivos, de uma
massa documental "monumental".  Certeau iria um pouco mais
longe referindo-se ao aspecto laboratorial da disciplina: 2A
histria no  cientfica se por cientfico se entender o
texto que explcita as regras da sua produo+ 1 . 
Tratar-se-, antes, de uma operao de questionamento de
camadas sedimentares diversas, constituintes,  partida, de
uma rede de opacidades, no limite, do prprio indizvel: 2O
documento no  qualquer coisa que fica por conta do passado,
 um produto da sociedade que o fabricou segundo as relaes
de foras que a detinham o poder+ 2 .
     Histria, lugar de ausncia, portanto.  Espao cruzado de
proibies: ao historiador, numa situao de
contemporaneidade, coloca-se a questo da distanciao
relativamente ao objecto. Tal como Michelet dizia - 2celui qui
voudra s'en tenir au prsent,  l'actuel, ne comprendra pas
l'actuel+ -, Pierre Nora considerava que a histria do
presente fere, faz sangrar, porque rema quase fatalmente

contra a corrente da imagem que uma sociedade tem necessidade
de construir acerca de si mesma para sobreviver+ 3 .  
     Mas o exerccio desconstrutor prolonga-se: embora sempre
negado no passado, o subjectivismo positivista e o primado
vnementiel fizeram tudo menos histria. Do lado da recepo
um novo espao se gera entretanto: ler a histria, ler os
media,  ler o livro-labirinto,  penetrar o caos: a leitura
gera produtividades, como uma se de uma reescrita se tratasse,
isto , toda a problemtica poder residir no na escrita mas
sim na leitura do (s) texto (s).  Abstraindo, o texto  ele
prprio a sua ausncia.
     Por ltimo, e concretamente no domnio da histria dos
media, haveria que situar a noo de acontecimento como um dos
principais lugares de proibio da prpria histria.
Relativamente  histria, atravs da representao do real e
dos efeitos de fico, os media operam como mquinas
produtoras de simulacros, negando-a.  Por outro lado, como
geradores do acontecimento, pela sua performatividade, como
manipuladores do desenlace do real, os media produzem - e
legitimam - a prpria histria.
      pois fundamental recolocar a questo das condies de
possibilidade de uma histria dos media.  Perante uma
estratgia claramente simulacral, por um lado, e, por outro,
pela sua performatividade, pela capacidade de efectivarem o
acto anunciado pelo prprio facto de o enunciar,  criando um
real apenas seu, um real de simulacros, os media reforam com
a sua constante modelizadora a caracterstica simblica
especfica dos documentos/monumentos.  A massa documental
mediatizada  to s um gigantesco monumento meditico. 
Estamos assim cada vez mais afastados do documento ''incuo''
e "objectivo".  
     O documento incuo, portanto, que se pretendia reposio
fiel do real, reificao do acontecimento, transforma-se
duplamente num documento/monumento: no s comporta em si uma
inscrio originria, simblica, poltica, como tambm se
constitui sobretudo em documento meditico, efeito de real ou
sua representao.  As condies de possibilidade da histria
dos media so assim as condies de possibilidade de
questionamento destes "novos" documentos, so as condies que
exigem o ultrapassar de prticas historicistas esgotadas na
cronologia, na instaurao da verdade e da transparncia do
documento, por prticas arqueolgicas que fazem da sua
abertura a sua complexidade.
      O acontecimento constitui-se assim, obviamente, em
simultneo, ao mesmo tempo que as narrativas que o pretendem
referenciar.  E  de facto desta ferida narcsica - que o
corpo da histria nunca poder sarar -, que nascer tambm a
aparente aporia de uma impossibilidade de reflexo histrica. 
Comea a ficar claro que mais do que possvel essa reflexo 
em Foucault verdadeiramente ingente, na tentativa maior de
compreender atravs de que mecanismos nos tornmos
prisioneiros efectivamente da nossa prpria histria. 
Trata-se de uma reflexo que parte da descrio intrnseca dos
2monumentos+ para as prticas discursivas, e no uma
histoire-bataille a partir de documentos incuos.
      no fundo uma reflexo que denega o impasse aparente da
modelizao quando se pensa que a crise do prprio modelo da
anlise da representao se circunscrevia e se esgotava na

questo da fidelidade da representao do real nos seus
signos, sendo a histria apenas a histria cronolgica dos
seus signos, dos seus simulacros.   este carcter totalizante
que se ultrapassa claramente recusando os historicismos e a
prpria anlise da representao clssica.
     De facto, as prticas sociais e discursivas, que
constituem o contexto scio-histrico deixam sobretudo traos
e no propriamente representaes do real. Tal como em
Foucault, o nosso projecto  pois o de atingir na sua
totalidade lgica os conceitos de uma poca, as condies
reais de uma interrogao e de um saber, tratando 2no mesmo
plano e segundo os seus isomorfismos, as prticas, as
instituies e as teorias procurando o saber que as tornou
possveis, a camada de saber constituinte e histrico (...).
Todas estas prticas - refere Michel Foucault -, (...) tomo-as
ao nvel de traos, quer dizer, quase sempre de traos
verbais.  O conjunto destes traos constitui uma espcie de
domnio considerado como homogneo: no se faz a priori entre
os traos nenhuma diferena e o problema  de encontrar entre
estes traos de ordem diferente, traos comuns suficientes
para constituir aquilo que os lgicos chamam classes, os
estetas formas, as pessoas de cincias humanas estruturas, e
que so o invariante comum de certo nmero de traos+ 1 .   
     Dizamos que os media, distanciando-nos do real, atravs
do seu discurso, dos seus traos, da sua histria,  a prpria
histria que pem em questo, por um lado, e, por outro lado, 
ultrapassam de facto a sua funo de meros veculos do real
para se tornarem em grandes mquinas produtoras do artefacto,
do pseudo-acontecimento, no dizer de Boorstin. Baudrillard
sublinhava a questo de forma paradigmtica: 2De certa
maneira, o consumo generalizado de imagens, de factos e de
informaes tambm se esfora por esconjurar o real nos sinais
do real, por conjurar a histria nos sinais da mudana (...).+
2 . Sobretudo devido ao logro que constitui o simulacro, o que
os media deixam passar , segundo Jean Baudrillard,  a
conotao espectacular da crnica, a vertigem da realidade.
Ainda com Baudrillard poderamos concluir que a 2imagem, o
sinal, a mensagem tudo o que consumimos,  a prpria
tranquilidade selada pela distncia ao mundo e que ilude, mais
do que com promete, a aluso violenta ao real+ 3 . 
     Poder-se-ia dizer, portanto, que o historiador, e
nomeadamente o historiador dos media, defronta-se
constantemente com essa reescrita - ou pura e simplesmente
no-escrita do acontecimento, esse jogo de efeitos de fico e
de produtividades adjacentes que os media acabam de facto por
instituir como real.  O que se poder considerar a instituio
do efeito de real na histria  sem dvida corroborado por
Michel de Certeau quando reconhece que os media ocupam hoje em
dia, em grande parte, o lugar que a histria tinha no sculo
XIX 4.  Isto , o positivismo historicista que no sculo
passado institua a verdade do historiador como algo de
absoluto e irrefutvel, parece estar a ser substitudo neste
sculo pelo discurso dos media.
     No espanta pois que Boorstin ao referir por exemplo que
o cinema duplica a impresso de realidade, consagrando o
ilusrio, defenda, na sua perspectiva, estar assim criado o
mecanismo ideolgico que legitima uma classe no poder desde o
sculo XIX, alimentado que est o sonho de modelao do real. 

Da Godard ter dito em certo momento que a burguesia emergente
criava um mundo  sua imagem, mas criava tambm uma imagem
para o seu mundo.
     Do anterior apelo ao historiador como testemunha do real
passou-se hoje para o apelo aos media: so eles que vo
assegurar portanto o efeito de real. 2O real fala-vos: eis a
legenda inscrita debaixo das representaes produzidas pelo
historiador.  Isto fascina uma sociedade que tem uma relao
cada vez mais abstracta consigo mesma e com as coisas, e que
volta a exigir esta fico do real+ 1 .
     Em concluso, e na medida em que asseguram o efeito de
real, os media estabelecem aquilo a que Michel de Certeau
chama o relato doutrinal da cultura, ou seja, o discurso da
representao nacional - no limite, a prpria Histria.  
todo um regime de fico que se expe.  A histria surge ento
com o seu estatuto espectacular nas mais diversas montagens
ficcionais.
     As condies de possibilidade da histria como grande
narrativa esto assim suficientemente anatemizadas na medida
em que cada vez mais os traos que nos ficam do real so j em
si representaes mediatizadas, so j efeitos de real,
vertigem do real.  A crise da referencialidade associa-se
assim  prpria crise das grandes narrativas como paradigma da
modernidade.  O percurso foucaultiano alis no  mais do que
a imploso desse conceito monstruoso de "histria-monumento".
Uma epistemologia da histria dos media, evidenciando por
demais a crise da referencialidade e a crise da noo de
acontecimento, vem sobretudo colocar em evidncia o logro de
uma histria-cincia, de uma histria que poderia como que
efectivar uma colagem inquestionvel ao passado.  com efeito
na demarcao dessa colagem, isto , no prprio questionamento
arqueolgico dos documentos, como vimos, que uma histria em
aberto ganha as suas condies de possibilidade - e
simultaneamente falece a grande narrativa histrica. 
     Quanto  histria dos media propriamente dita, ela
redefine-se na reconstituio da matriz de onde procedem as
estratgias, as prticas discursivas, os dispositivos de um
poder que se afirma quer na dimenso simblica, quer na
dimenso tecnolgica.  Importa alis reconhecer  partida que
a histria dos media tem sido a histria de um fluxo meditico
de dominao totalizante, de reproduo infinita do
acontecimento neutralizado nos signos e nas narrativas que
pretendem referenciar um real distante.  Cabe ao historiador
portanto localizar esses fluxos de dominao no contexto mais
lato dos prprios dispositivos histrico-culturais que emergem
com novas estruturas comunicacionais.
     Frantz Fanon falou-nos da importncia do transistor na
guerra da Arglia.  Enzensberger citou um ministro
sul-africano que dizia que a televiso conduziria ao
desaparecimento dos brancos da frica do Sul.  Poder-se-ia
dizer, entre inmeros outros exemplos, que os media, apoiados
nas novas tecnologias digitais, nas redes interactivas e
tambm nos satlites, ou faro alastrar a democracia
participada  aldeia global - transformando-a na to desejada
ciber-democracia ou transformaro esta num colossal Gulag,
numa mediacracia de que se desconhecero os patronos.   
     Por aqui chegamos ao problema do poder.  Sobretudo a
partir da sociedade industrial, conseguido que foi o domnio

sobre a massa, os media passaram a dar a ver novas
invisibilidades do poder, as suas estratgias, a sua economia
poltica e a sua tecnologia.  Atravs dos novos dispositivos
emergem as formaes discursivas de dominao e, em termos
histricos, uma genealogia que permite 2desvendar o que a
formulao poltica dos problemas do poder mascara, ou  como
se produzem os efeitos de verdade no interior de discursos que
no so eles prprios nem verdadeiros nem falsos+ 1 .
     E embora a histria se deva ler enquanto texto aberto 
produtividade, o certo  que os media so hoje, por
excelncia, o lugar institucional em que o texto que pretende
referenciar o real se expe como fbula do mundo; veiculam
assim discursos cuja complexidade se dilui na aparncia de
verdade.  A funo da recepo  a da inevitvel desconstruo
dessa rede.   Alheando-se do carcter monumental do texto
histrico veiculado e produzido pelos media, o historiador
corre o risco de confundir o discurso do poder com a prpria
histria, ou seja, corre o risco de aceitar a funo
neutralizadora que o campo mediador da comunicao social
exerce - e aceitando-a, aceita a sua prpria neutralizao e
retoma o historicismo em toda a sua extenso. 
     Concedendo-se aos media clssicos capacidade para a
inculcao de valores estranhos ao corpo social,
reconhece-se-lhes de igual modo prioridade para veicularem uma
determinada verdade produzida pelas mais diversas centrais de
informao, instituies  margem do corpo social, da
comunidade comunicacional, por assim dizer.  Da a transformar
essa verdade em histria vai um passo - um passo performativo,
tcnico.
     Para o historiador dos media, hoje, o facto  uma cesura
e no parte de uma sucesso. De uma forma geral,  no permite
que o discurso do objecto se sobreponha ao discurso sobre o
objecto, isto , h todo um trabalho sobre as descontinuidades
por forma a que possam emergir as redistribuies recorrentes
e no o documento pura e simplesmente memorizado.  Explicando
melhor: hoje no interessa de todo centrar a investigao no
acontecimento mas sim no mbito de uma genealogia e de um
contexto que no marginalize esse mesmo acontecimento 1. 
Acontecimento que , como vimos, um conceito em crise,  embora
o no seja o campo que se abre ao historiador no sentido de
topologizar regras annimas, histricas, determinadas no tempo
e no espao, definidoras de pocas com base em prticas
discursivas e sociais.  No trabalho dessas prticas  portanto
bvia a importncia do conceito de acontecimento mesmo
enquanto oscilao ou varivel.  A arqueologia da histria no
exclui pois os acontecimentos dispersos.  A figura da histria
no-cronolgica, a prtica arqueolgica, retm o acontecimento
no no sentido de uma restituio vnementielle,
historicista, mas no sentido da configurao de conjuntos
significantes a partir de discursos, narrativas,
acontecimentos dispersos.  Sem dvida pois que a histria 
cada vez mais o texto que resulta da confluncia entre uma
prtica disciplinar que se pretende cada vez mais rigorosa,
cada vez mais cientfica, e, de facto, uma arte narrativa.
     Qual ento o lugar do historiador?  Se, como vimos, no
sculo XIX o historiador era tido como um legitimador dos
discursos emergentes do campo social, afirmando-se assim como
pea integrante da Instituio, no sculo XX, nomeadamente

aps os Annales, ele afirma-se cada vez mais como margem; tem,
por isso mesmo, certos preconceitos relativamente aos media e
procura sobretudo distanciar-se dos seus campos de
legitimao.  
     E se no sculo XIX no, reino de Prometeu, o grande
problema era impor limites  acumulao do poder econmico
privado, hoje, no reino de Hermes, o essencial reside em
limitar o poder do Estado-fico e dos imprios mediticos,
criando formas de autonomizao do campo comunicacional dos
indivduos - um campo em rede matricial.  Sem dvida que a
estratgia do historiador passa tambm por aqui: detectar os
arquiplagos de sentido e de singularidade, dar a pluralidade
ao texto, no no percurso de uma s formao discursiva mas
num domnio mais complexo - precisamente onde se cruzam as
diferentes formaes que institucionalizam o saber-poder.  Se
o poder isola a desordem, se divide para reinar, se ordena um
saber pretensamente objectivo, o historiador passa por ser um
dos seus contrrios. 
     A desconstruo a operar vem na linha do que dizia Lucien
Febvre quando definia a histria como uma coleco de
cadveres: o papel do historiador  fazer emergir a histria,
2dar vida ao cadver+, inquirir e decompor os testemunhos. 
Certeau, mais arguto, propunha: 2A inteligncia da histria
est ligada  capacidade de organizar diferenas ou ausncias
pertinentes e hierarquizveis, porque relativas a
formalizaes cientficas actuais+ 1 .  E sobre Foucault: 2A
histria do presente, da nossa identidade formula-a Foucault
como anlise das relaes saber-poder na nossa sociedade.  A
hiptese geral do seu trabalho seria que as relaes, as
estratgias e as tecnologias do poder que nos constituem, nos
contrariam e nos constituem, vo de par, permitindo e
produzindo formaes de saber e de verdade que lhes so
necessrias para se solidificarem como evidentes, naturais,
tornando-se ao mesmo tempo invisveis.  Inversamente, a
anlise do saber, das formaes discursivas e dos seus
enunciados deve ser feita em funo das estratgias do poder+
2. Organizar as diferenas que excedem a norma e a coerncia
das sries, isolar os objectos que distinguem hierarquias,
estabelecer sistemas de pertinncia epistemolgica,
redistribuir os materiais mediatizados, estas algumas das
tarefas do novo historiador.
     Confrontado com uma epistemologia da histria dos media,
o lugar social - o lugar de produo cultural,
poltico-econmico -  cruzado por uma srie de oposies que
importa reter e sobre as quais convir trabalhar.  Desse
2no-dito+ complexo de objectos discursivos emergiro alguns
dos parmetros que constituiro, aps desenvolvida
investigao no domnio especfico da histria dos media, o
seu prprio texto.  Refiro-me concretamente a parmetros que
devem circular e redistribuir-se por uma grelha globalizante
de coordenadas tais como universalidade e singularidade,
instituio e margem e espacialidade e temporalidade.  Ser
pois excessivo delimitar um objecto especfico no mbito da
histria dos media.  
      da analtica da complexa rede que temos em esboo que
resultar, na estratificao e na diacronia, o novo texto
histrico que se pretende formalizar.  Texto forosamente em
aberto, alis, tal como Paul Veyne definia a procura de

verdade: 2le mouvement de la vrit est un mouvement d'errance
au hasard+. Mas antes de entrarmos especificamente nas
questes discursivas importa ver ainda que a operao
histrica no campo dos media no se reduz a uma arqueologia
com base nos pressupostos avanados por Michel Foucault. 
Contribuio maior, sem dvida, ela no deixa de estar aberta
a outras propostas.  E aqui cabe recordar o trabalho de
questionamento do campo comunicacional que Louis Qur tem
desenvolvido. Em Des miroirs quivoques - Aux origines de la
communication moderne  1 Qur procura contribuir
fundamentalmente para um melhor entendimento dos
reajustamentos sociais e culturais sofridos na modernidade,
quando novas estruturas comunicacionais emergem.  Considera
que, quer as cincias sociais, quer as chamadas cincias da
comunicao so impotentes para trabalharem o entrecruzamento
das mediaes tcnicas e simblicas do campo comunicacional. 
Segundo ele h portanto que recorrer a uma teoria do espao
pblico para encontrar um projecto epistemolgico alternativo
que reconstrua os objectos deslocados pelos sociologismos,
historicismos, anlise emprico-analtica, etc.  A questo
centra-se pois na objectivao, atravs de uma anlise
crtica, dos meios de determinao e conhecimento do objecto. 
Refira-se, no entanto, que a proposta alternativa de Qur no
se fundamenta apenas numa teoria do espao pblico, mas,
tambm, nos problemas colocados pela recepo, ou nas questes
levantadas pelas dimenses pragmtica, histrico-cultural e
scio-cultural.
     Concretamente, o objectivo da teoria do espao pblico 
o de 2elucidar o processo de instituio ou de especificao
histrico-cultural dos suportes da operacionalidade da
comunicao+ 2 , a saber, o discurso interpretativo e
normativo sobre o social e a figurao das dimenses do saber,
do poder e da lei.  De referir que a enunciao desta
alternativa epistemolgica passa ainda pela interposio de um
plo institucional forte, que Qur designa de 2terceiro
simbolizante+ e que , por assim dizer, o fundador da prpria
comunicao e dos modelos culturais, a fonte de conhecimentos,
motivaes e normas.
     Uma das questes fundamentais para a operao histrica
no campo dos media  a cristalizao de um dispositivo
histrico-cultural de dominao no qual esto ancoradas
tecnologias e formas de comunicao especficas.  Esse
dispositivo  portanto para ns fulcral, e iremos tentar
delimit-lo quer na abordagem da escrita, quer na da
tipografia ou dos media ps-industriais.
     Finalmente, e tendo bem em conta que a questo da
cientificidade em histria passa desde logo pela
impossibilidade de explicitar as regras da sua prpria
produo, tentaremos estabelecer, por um lado, uma inevitvel
aproximao entre a emergncia dos diferentes dispositivos
histrico-culturais e a prpria concepo de episteme,
entendida como conjunto de relaes que numa dada poca
interrelaciona prticas discursivas, figuras epistemolgicas e
sistemas formalizados e, por outro lado, redefinir a nossa
matriz a partir, nomeadamente, da interaco entre mediaes
tcnicas e smblicas e do que no seu trabalho social 2excde
 la fois leur fonction de fait, leur r&le empirique, la
conscience historique qu'ils (les media) ont d'eux-mmes et

les reprsentations que nous nous faisons de leur mission et
de leur fonctionnement+  1 .
     Reconstruir, pois, a matriz possvel o negativo da
emergncia dos media, para depois vermos de onde procedem os
seus dispositivos, os seus processos, as suas estratgias, 
esse o nosso objectivo. Tentando ir um pouco mais longe do que
a vertente emprica positivista, quer as escolas novas e
velhas da histria, quer inclusivamente a vertente
semiolgico-estrutural, pretende-se estabelecer, constituir,
um novo objecto que permita restaurar os fluxos recorrentes
das novas estruturas histrico-comunicacionais.  Situando-nos
agora ao nvel da dimenso histrico-cultural, procuraremos
assim um outro entendimento do sentido da emergncia das
mediaes simblicas e tecnolgicas para que fique
suficientemente a descoberto o trabalho dos media ao nvel do
dispositivo histrico-cultural e, enfim, tanto quanto
possvel, a operatividade histrico-social dos media, os seus
efeitos polticos e a forma de, no fundo, redistribuir o
direito civil - individual -  comunicao.





     II. 1. No grande jogo da Histria 


     Leia-se a 2abertura+ de L' archologie du savoir: 2Voil
des dizaines d' annes maintenant que l'attention des
historiens s' est porte, de prfrence, sur les longues
priodes comme si, au-dessous des pripties politiques et de
leurs pisodes, ils entreprenaient de mettre au  jour les
equilibres stables et difficiles  rompre, les processes
irrversibles, les rgulations constantes, les phnomnes
tendanciels qui culminent et s' inversent aprs des
continuits sculaires, les mouvements d' accumulation et les
saturations lentes, les grands socles immobiles et muets que
l'enchevtrement des rcits traditionnels avait recouverts de
toute une paisseur d' vnements+ 1 . 
     Lance-se o primeiro dado: s sucesses lineares que foram
at ento, por excelncia, o objecto de investigao,
sucedeu-se um jogo de desprendimentos (dcrochages) em
profudidade.  Ora, aproximadamente na mesma altura, em
disciplinas como a histria das ideias e das cincias, das
mentalidades e tambm da literatura, nestas disciplinas que
escapam em grande parte ao trabalho do historiador e aos seus
mtodos, a ateno deslocou-se das vastas unidades que eram
descritas como 2pocas+ ou 2sculos+ para fenmenos de
ruptura. 
     As totalidades diluem-se assim em redistribuies,
interrupes, descontinuidades. As 2tendncias seculares+ que
anteriormente permitiam falar de relaes fixas e de coerncia
nas estruturas, confrontam-se agora inevitavelmente com o que
Foucault designou de irrupo dos acontecimentos nas
estruturas que a histria tradicional pretende sem labilidade. 
Veja-se, por exemplo, em Braudel: 2Pour nous, historiens, une
structure est sans doute assemblage, architecture, mais plus
encore une ralit que le temps use mal et vhicule trs

longuement. Certains structures,  vivre longtemps, deviennent
des lments stables d'une infnit de gnrations. elles
encombrent l'histoire, en gnent, donc en commandent,
l'coulement+ 2 . Poder-se-ia inclusive esboar uma crtica a
Braudel em trs momentos: em primeiro lugar pela insustentvel
estabilidade das estruturas; num segundo momento porque a
prpria crise das grandes narrativas dificilmente deixar
ainda crer que a histria possa ser uma explicao do social
em toda a sua realidade 1,  em terceiro lugar porque a
histria narrativa se reapropriou da noo de acontecimento
enquanto ocorrncia ou 2irrupo+, ultrapassando assim o
impasse da crtica do positivismo como crtica do
vnementielle.  O prprio Marc Ferro vem a considerar, nos
Annales, o fait-divers como objecto de histria privilegiado,
como uma necessidade da histria 2 se bem que acabe por no
fundamentar a rigor esse objecto da micro-histria.  E 
curioso notar, por exemplo, que Pierre Nora considerou que o
acontecimento em relao  histria tradicional havia mudado
de natureza devida  transformao operada pelos media,
criando sistema de inflao fenomenolgica 3 .
               A prpria cientificidade do trabalho histrico
passa a ser problematizada.  Michel de Certeau faria
comparaes com o estatuto da crnica, narrativa equvoca
adstrita a um sujeito de enunciao, e dizia que a histria
no  cientfica se por cientfico se entender o texto que
explicita as regras da sua produo 4 .  E se  bvia a crise
que resulta da falncia das noes de testemunho, documento,
prova (e outras) isso no implica que a paixo pelo carcter
narrativo das discursividades e da histria se registe a um
outro nvel da razo.  Fernando Gil diria que a prova  uma
arte, mas uma arte que transporta em si o rigor da
nacionalidade cientfica  5 .
          A histria narrativa surge assim indubitavelmente
no j na ordem da durao ou das estruturas, mas na ordem do
discurso procedendo a novos questionamentos quer do documento,
quer do testemunho, enfim, das modalidades de explicao do
real, das formas de argumentao e da prova, do diferendo e da
impossibilidade de testemunhar, da ordem morfolgica e dos
seus impasses, da performatividade, da modelizao.
          No limite, a histria, enquanto escrita de fico ou
2arte de encenao+ como lhe chamava Certeau, rege-se nas suas
concretizaes discursivas, submetendo-se  actualidade do(s)
saber(es), reciclando os seus prprios isomorfismos, as
hierarquias de importncia em todo esse trabalho,  fundando
uma prtica cientfica, uma 2cincia+, mas de modo a
subtra-la  ideologia do seu passado e revelando esse passado
como ideologia.  sem dvida essa grande inquietao crtica,
o novo questionar do documento, do testemunho e da prova, que
conduz, no trabalho do historiador, a uma reavaliao da
interpretao a fazer das prticas discursivas, do discurso
histrico e do arquivo, enfim, da nova ordem do discurso e da
sua improbabilidade legitimadora. 
          Em causa, portanto, uma histria-devir, feita de
dinamismo interno, uma histria que coloca a sua abertura em
oposio  2imobilidade das estruturas+, ao seu sistema
fechado, e substitui a procura da totalidade pela anlise da
raridade, isto , pela descrio de um conjunto de enunciados
no enquanto totalidade plena e pictrica mas enquanto nicos

conjuntos significantes que foram enunciados entre uma
infinidade de possveis.  Da, por exemplo, a sua definio de
arquivo: o arquivo no  a soma de todos os textos, a
acumulao dos documentos, mas a lei do que pode ser dito, o
sistema que rege o aparecimento de enunciados como
acontecimentos singulares 1 . 
     Da tambm que a prtica arqueolgica se coloque como uma
proposta de atingir na sua totalidade lgica os conceitos de
uma poca, as condies reais de uma interrogao e de um
saber analisando o princpio de coeso das sries, vendo qual
o 2sistema vertical+ que so susceptveis de formar, quais as
relaes entre as sries, etc. 2. Poder-se- acrescentar, no
limite, que interessa observar se se constituir ou no um
sistema vertical no apenas entre traos, sries de traos,
etc., permitindo a descrio de determinados isomorfismos
interestruturais, dispositivos histrico-culturais,
invariantes comuns, redes de simultaneidades, a partir
exactamente das homologias formais entre diferentes conjuntos.
     Torna-se finalmente necessrio desmistificar a instncia
global do real como totalidade a restituir.  No existe 2o+
real que se reencontraria na condio de falar de tudo ou de
certas coisas mais 2reais+ que as outras, e que se perderia se
nos limitssemos a trabalhar sobre abstraces inconsistentes,
sobre outros elementos, outras relaes: 2(...) Un type de
rationalit, une manire de penser, une technologie, um
ensemble d' efforts rationnels et coordonns, des objectifs
dfinis et poursuivis, des instruments pour l'atteindre, etc.,
tout cela c' est du rel, mme si a ne prtend pas tre Ia
rationalit elle-mme, ni la socit tout entire+ 1 . O
essencial no reside portanto na distino ou discriminao
dos 2nveis de realidade+, como sublinhou Roger Chartier, mas
sim na compreenso de como a articulao dos regimes de
prticas e de sries de discursos produzem aquilo que se
designa como 2realidade+ 2 .
          Nessa trajectria, nessa mise-en-ab-me
transdiscursiva procura-se fundamentalmente, reduzindo e
intensificando a nossa relao com o mundo, a deteno nos
fragmentos, as cintilaes, o registar visibilidades,
revendo-nos neles e ao mesmo tempo vendo como se afastam de
ns. A prpria literatura parece ser muitas vezes mais
sensvel a estas questes do que a histria como bem se
assinalava relativamente a Italo Calvino: 2A pendular
oscilao das referncias e a permanente metamorfose do
sentido de tudo impedem cada vez mais Palomar de ajuizar sobre
o mundo, afastam-no das normas universais e da esperana da
compreenso das coisas+  3 . Dir-se-ia finalmente que se a
nica procura histrica do 2sentido+  a do outro,  porque,
nas palavras de Certeau, este projecto, contraditrio, 2vise 
'comprendre' et  cacher avec le sens l'altrit de cet
tranger, ou, ce qui revient au mme,  calmer les morts qui
hantent encore le prsent et  leur offrir des tombeaux
scripturaires+ 4 .
          As condies de possibilidade de uma histria-devir,
inacabada, passam, em primeiro lugar, pela recusa das
modalidades de legitimao do trabalho dos historicismos e dos
seus sucedneos.  Um dos autores europeus que a par de
Foucault mais tem trabalhado estas condies de possibilidade
 Paul Ricoeur.  Colocando a hiptese da existncia de uma

unidade funcional entre os mltiplos modos e gneros
narrativos (das narrativas que tm uma pretenso  verdade
histrica s que a no tm) e tratando a qualidade temporal da
experincia como referente comum  histria e  fico como
pontos de partida da sua reflexo, os seus trabalhos tm
constitudo nos ltimos anos pontos de referncia essenciais
para a problematizao da histria.
     Recuemos um pouco no tempo:  nos anos 60 - poca de
ouro, por assim dizer, do estruturalismo francs - que a
2velha+ oposio entre rcit fictif e rcit historique 
repensada de forma radical, encontrando-se, por exemplo em
Roland Barthes, a explicitao de uma ruptura fundamentada em
termos tericos no texto 2Le discours de l'histoire+ 1. A
Barthes perguntava-se se 2(...) la narration des vnements
passs, soumise communment, dans notre culture, depuis les
Grecs,  Ia sanction de Ia science historique, place sous Ia
caution imprieuse du rel, justife par des principes d'
exposition rationelle, (si) cette narration differe-t-elle
vraiment, par quelque trait spcifique, par une pertinance
indubitable, de Ia narration imaginaire, telle qu'on peut Ia
trouver dans l'pope, le roman, le drame?+... O texto em si 
a resposta a esta questo.  Barthes parte do discurso de
historiadores e de autores clssicos como Herdoto, Maquiavel,
Michelet, para desenvolver esta sua abordagem do tema, que,
diga-se, surge praticamente isolada, no fosse o caso de
existirem algumas referncias esparsas no contexto da
historiografia anglo-americana.
     Para Barthes, os sinais de enunciao no enunciado
histrico visam, mais do que dar ao historiador a
possibilidade de exprimir a sua subjectividade, p&r em
confronto dois tempos: aquele que designa como 2tempo crnico
da histria+ e o do 2discurso+, do 2tempo-papel+, este,
segundo Barthes, no-cronolgico. 2La prsence, dans Ia
narration historique, de signes explicites d'nonciation
viserait  'dchronologiser' le 'fil' historique et 
restituer, ne serait-ce qu titre de rminiscence ou de
nostalgie, un temps complexe, paramtrique, nullement
linaire, dont l'espace profond rappelerait le temps mythique
des anciennes cosmogonies, li lui aussi par essence  la
parole de pote ou du devin+ 2 .
     As grandes questes referentes ao discurso da histria
estavam assim enunciadas: por um lado, o fim da dicotomia
rcit de ftctionlrcit historique; por outro, a tentativa de
encontrar a linha de demarcao entre o tempo cronolgico e o
no-cronolgico.
     Numa perspectiva meramente lingustica poder-se- aceitar
que as marcas de enunciao explicitam um tempo
no-cronolgico, configuracional.  Porm, a radicalidade com
que esses dois tempos se confrontam  bem mais complexa - e
fulcral.  Digamos que a mais importante contribuio de
Barthes se situa, na sequncia do seu texto 2Introduction 
l'analyse structural du rcit+  1 em defender que no enunciado
histrico se encontram as mesmas classes de unidades de
contedo que se encontravam no rcit de fiction. O que est
pois em causa  justificar a histria como arte de encenao
ou como narrativa, sem descurar o pressuposto elementar, a
razo legitimadora, a coerncia do programa.  Ser portanto
necessrio, em primeiro lugar, ir ao encontro da natureza

narrativa da histria.
     Para Paul Ricoeur, em 2La narrativit+  2 , estudo onde
todo esta questo  claramente problematizada - e que  uma
espcie de introduo  trilogia de Temps et rcit - podem ser
considerados dois aspectos distintos na constituio narrativa
do conhecimento histrico.  O primeiro  o conceito de
discurso narrativo - srie de acontecimentos com uma ordem
especfica, que deixa j antever que a 2histria dos
historiadores+  uma espcie do gnero histria contada.
Gallie reconhecia j em 1968, em Philosophy and Historical
Understanding, que o que impedia historiadores e epistemlogos
de reconhecer esta verdade era o preconceito que tinham em
considerar exactamente a relao entre histria e fico, dado
estarem demasiado absorvidos pelas 2evidncias+ na histria,
isto , a prova documental, o arquivo, a tradicional oposio
histria-crnica versus histria-cincia, etc.
     A leitura de histria deriva, portanto, da nossa
competncia em seguir histrias, em 2seguir uma narrativa+,
sendo portanto a histria um tipo particular de narrativa. 
Ricoeur pe claramente em evidncia este aspecto: a histria
dos historiadores (history) enquanto rcits de aces humanas
passadas, so susceptveis de 2ser seguidas ou compreendidas
da mesma maneira geral que o so todas as histrias (stories)+
3 .
     A questo da natureza narrativa da histria no , porm,
uma questo absolutamente pacfica.  A prov-lo esto os
infindveis argumentos anti-narrativistas que se poderiam
encontrar em toda a teoria da histria.  De uma forma geral
toda essa genealogia das escolas que tm problematizado a
natureza da histria, tm vindo a considerar que, por um lado,
ela nada tem a ver com os gneros literrios, e, por outro,
que deve ser considerada como no-vnementielle, assim
fazendo a crtica do historicismo.  importante referir que no
conjunto dos historiadores no-narrativistas Ricoeur comeou
por escolher significativamente Fernand Braudel e Paul Veyne. 
Braudel porque, a pretexto do acontecimento ser uma 2oscilao
curta, rpida e nervosa+ e servir assim exclusivamente ao
retomar da histoire-bataille, defende uma histria da longa
durao, das estruturas macro-histricas, uma histria que
Braudel pretende situar no plo oposto da
histria-vnementielle, recusando por conseguinte um dos
critrios minimais ao entendimento da natureza narrativa da
histria.  Quanto a Paul Veyne, verifica-se da mesma forma um
recuo do conceito de acontecimento, que , alis, segundo
Ricoeur, acompanhado por um recuo semelhante do conceito de
narrativa - e isto acontece de uma forma geral entre os
historiadores contemporneos que 2tendem a considerar a
narrao como restituio dos acontecimentos na linguagem dos
prprios actores da histria e nos termos das suas
conjecturas.  A histria  assim desde logo uma pesquisa que
rompe com toda a narrativa que seria indiscernvel daquela que
os actores da histria poderiam ter produzido na altura
prpria+ 1 .
          Veyne assume deste modo a sua radicalidade: s a
conceptualizao histrica, entendida como uma determinao de
invariantes, interessa.  O acontecimento, entendido como
varivel, faz parte do 2inventrio das diferenas+ -
subproduto da construo do modelo invariante.  importante

ressalvar nesta sequncia a posio que Ricoeur posteriormente
defende ao considerar que mais para alm dos crits sur
l'histoire de Braudel  possvel determinar um regime de
mise-en-intrigue na sua obra La Mditerrane... o que permite
dizer desassombradamente o seguinte: 2Ia notion mme
d'histoire de longue dure derive de l'vnement dramatique,
au sens qu'on vient de dire, c'est  dire de
l'vnement-mis-en-intrigue+ 2 .     
              Ora, para Ricoeur, a simultaneidade do recuo da
noo de narratividade e de acontecimento tem a ver com o
facto de os historiadores se apoiarem num conceito no crtico
de acontecimento.  Ricoeur prope em sua substituio o
conceito de ocorrncia como extensivo  macro e 
micro-histria, justificando que  perfeitamente compatvel
com a noo de ocorrncia defender que os acontecimentos so
construdos ao mesmo tempo que o so as narrativas que os
enquadram: o acontecimento ocorre no discurso.
          A razo desta noo crtica podemos encontr-la no
facto de Ricoeur pensar que a funo da noo de acontecimento
 a de preservar, para alm das construes do historiador, a
convico de que qualquer coisa se produziu efectivamente, que
aconteceu realmente, mas que, tal como o nmeno kantiano, pode
ser apenas pensado e no conhecido;  a coisa em si, uma pura
ideia a que no corresponde nenhum objecto material. 
Finalmente, nesta aproximao  natureza narrativa da
histria, e depois de uma crtica ao conceito de
acontecimento, Ricoeur formula uma crtica ao conceito de
histria.
          Em primeiro lugar, como trao comum quer ao
literrio quer ao histrico, h a referir as duas dimenses de
todas as narrativas: a dimenso cronolgica e a
no-cronolgica.  A cronolgica  episdica, tem a ver com a
2art de suivre+ o rcit, com o aguardar das contingncias; a
no-cronolgica situa-se no descortinar dos conjuntos
significantes a partir de acontecimentos dispersos.  A
actividade narrativa combina assim estas duas dimenses: a
cronolgica - sequencial - e a no-cronolgica -
configuracional.  Para alm disso, 2a histria, enquanto
narrativa 'verdadeira', implica que o mais simples rcit seja
sempre mais do que uma srie cronolgica de acontecimentos e,
por outro lado, implica que a dimenso configuracional no
faa esquecer a dimenso episdica sob pena de abolir a
prpria estrutura narrativa+ 1 .
          Ora, ao privilegiarem o sequencial sobre o
configuracional, os argumentos anti-narrativistas no
reconhecem a combinatria entre ambas, bem como a continuidade
do rcit para a histria, a estrutura teleolgica e o carcter
configuracional do acto narrativo, no reconhecendo portanto a
natureza narrativa da histria.
          Num outro plano, o da natureza do discurso
narrativo, importa ver se, no obstante as suas diferenas -
as chamadas 2pretenses referenciais+ entre rcit historique e
rcit de fiction se h uma estrutura comum que autorize a usar
o conceito de rcit como homogneo, denotando um nico modo de
discurso.  Tomando por base a anlise estrutural da narrativa
poder-se-ia dizer que h uma prioridade do aspecto
configuracional do rcit da derivando a subordinao da
sintagmtica a uma paradigmtica correspondente.  Verifica-se

portanto uma tendncia para 2descronologisar+, sendo reduzidos
os aspectos temporais a propriedades formais subjacentes.
          E, tal como Ricoeur claramente explicita,
deparamo-nos aqui com a ironia de onde parte essencialmente
esta obra: 2Enquanto a tendncia de muitos historiadores era
de privilegiar o carcter cronolgico e sequencial da
narrativa, e da tirar argumentos contra o carcter narrativo
da histria, a tendncia dos crticos literrios de obedincia
estruturalista ser, inversamente, de consignar o aspecto
cronolgico da narrativa somente  estrutura de superfcie, 
camada de 'manifestao' (Greimas) e de no reconhecer 
estrutura profunda seno traos acrnicos+ 1 .
          J em Propp se estava na via da descronologizao da
estrutura narrativa - o que implicava que todas as questes de
gnese e de histria em geral fossem subordinadas s de
estrutura - o que quer dizer que a tese morfolgica sugeriria
a tese gentica... Em Greimas esse passo  decisivo com a
pretenso 2acrnica+ do modelo actancial, verificando-se a
passagem da sequncia cronolgica do rcit a uma estrutura
acrnica caracterizada por relaes no sucessivas, ou melhor,
construindo, segundo Ricoeur, um modelo paradigmtico sem
dimenso diacrnica originria.
          Este , no entanto, um modelo criticado por Ricoeur,
nomeadamente porque considera existirem factores
irredutivelmente sequenciais na narrativa: h uma
2temporalidade+ irredutvel na narrativa.  As noes de
preuve e de qute contm, de imediato, esse carcter
diacrnico indesmentvel.  Se para Greimas a noo de preuve
 como que um resduo diacrnico na anlise estrutural, para
Ricoeur todo o movimento do contrato  luta, da alienao ao
restabelecimento da ordem  sucessivo por natureza.  portanto
a qute-intrigue o factor cronolgico irredutvel que
narrativisa a prpria intriga. Finalmente, diz Ricoeur: 2Nous
avions  dfendre l'aspect confgurationnel du rcit contre
toute rduction de celui-ci  une simple anedoctique
d'vnements.  Il nous faut maintenant nous battre sur l'autre
front et dfendre la dimension chronologique du rcit contre
toute rduction  une matrice achronique de pures relations
logiques (...) La conjonction entre les deux argumentations
semble suggrer que c'est un trait universal de tout rcit, de
fiction ou non, de conjoindre une dimension squentielle et
une dimension configurationelle.  C'est cette conjonction ou
cette comptition qui, selon moi, constitue Ia structure de
base du rcit+ 2 .
          O propsito da funo narrativa  pois de apreender
como um todo modalidades narrativas do discurso - do rcit de
fiction s formas empricas como o romance histrico, a
biografia, a autobiografia.  Que diferentes modos narrativos -
como o rcit de fiction e o rcit historique apresentem uma
certa unidade estrutural e nesse sentido constituam um nico
jogo de linguagem - isso parece decorrer do que ficou exposto
atrs.  Veremos que para alm de um jogo de linguagem comum
aos dois rcits h uma complementaridade entre ambos que os
faz emergir, em ltima instncia, na prpria linguagem.  H
uma complementaridade entre rcit de fiction e rcit emprico. 
Essa complementaridade no deriva s do fundamento da prpria
constituio inteligvel da historicidade, da sua
hermenutica, mas  exigida por ela: temos necessidade do

rcit emprico e do rcit de fction para levar  linguagem a
nossa situao histrica.  nesta troca entre histria e
fico - e entra as suas pretenses referenciais opostas, que
a nossa historicidade  levada  linguagem. 
          Convm referir que histria e fico tm pretenses
referenciais opostas na medida em que a pretenso referencial
da histria ao real  directa e a pretenso referencial do
rcit de fiction  indirecta.  Mas ainda que opostas elas so
complementares: a pretenso da histria  a de ser uma
representao do real - por outro lado a pretenso da fico 
de reescrever o real a partir de um sistema auto-suficiente de
smbolos, de uma poiesis l mimesis aristotlica, uma
mise-en-intrigue cuja pretenso referencial , indirectamente,
o real.
          Pode, portanto, dizer-se que histria e fico so
ambas 2verdadeiras+ se bem que segundo modalidades diferentes,
do mesmo modo que so diferentes as suas pretenses
referenciais.  Assim, se, por um lado, s a histria pode
articular a pretenso referencial como uma pretenso 
2verdade+, por outro lado os rcit de fction podem ter a
pretenso de reescrever a realidade segundo as estruturas
simblicas da fico.
          E considerando que, por um lado, a dimenso mimtica
da fico, no se referindo directamente  efectividade dos
acontecimentos mas  sua estrutura lgica,  sua metaforizao
e significao, pode ligar directamente ao universal - e que,
por outro lado, a histria, na sua preocupao de representar
o real com mais ou menos rigor, deixa-se prender sobretudo ao
contingente, esquecendo o essencial, no se poderia dizer,
parafraseando Ricoeur, que 2en nous ouvrant au diffrent,
l'histoire nous ouvre au possible, tandis que Ia fiction, en
ouvrant  l'irrel, nous ramne  l'essentiel+? 1 .
          A narrativa  finalmente, a 2guardi do tempo+ - e 
a histria enquanto narrativa que reinscreve o tempo vivido
sobre o tempo csmico, cabendo portanto  fico resolver o
que  negligenciado pelo tempo vivido. 

III. Escrita, Poder, Estado - o contexto da emergncia da   
cultura alfabtica  
                         
                    crire, ou diffuser par le livre, c'est
s'impliquer dans le                          collectif,  un
niveau o le dsir ne peut plus directement                 
     tre renvoy comme tel; Lacan oppose avec justesse     
                    langage et parole: le premier sert 
'communiquer', mais                          forme un 'mur de
langage', tandis que la parole cherche la                   
     rponse de l'Autre.                                    
                         Catherine Clment

     Sem dvida nenhuma que a Histria, e em particular o
conhecimento, seguiram, a cada momento, como que subordinados,
na dependncia mais estreita das mudanas fulcrais, das
descontinuidades, que se tm operado no domnio das mediaes
simblicas e tecnolgicas.  Ao nvel da escrita, o
aparecimento dos primeiros mitogramas, e, mais tarde os
ideogramas sumero-acadianos, a evoluir j para uma transcrio
fontica, conseguida com o alfabeto de consoantes fencio e

pouco depois pelo alfabeto voclico e consonntico grego, so,
a par do desenvolvimento do universo tipogrfico e, enfim, de
todas as novas tecnologias aplicadas aos media no universo
ps-tipogrfico e na sociedade ps-industrial, momentos
capitais dessa evoluo. 
     A escrita mitogrfica, primeiro de todos esses elos e as
representaes pictogrficas de objectos que traduziam, no
fundo, a palavra que a eles se aplicava, tinham alis uma
relao estreita com a prpria oralidade.  Leroi-Gourhan
defendia que previamente aos conjuntos simblicos de figuras
tinha forosamente existido um contexto oral com o qual
estavam coordenados e a partir do qual reproduziam
espacialmente os valores 1 .  Kristeva, por exemplo, defendia
que inclusivamente dois nveis simblicos aparentemente
distantes, como a arte primitiva e a linguagem, se confundiam
naquilo a que Leroi-Gourhan chamava 2le couple intellectuel
phonation-graphie+.
     De facto ele assim o assinala dizendo que o contedo das
primeiras figuraes parietais implicava j uma conveno de
conceitos altamente organizados pela linguagem. 
     Do aparecimento dos primeiros grafismos para o
aparecimento da escrita (em sentido restrito)  fundamental
reter, por um lado, que h conjuntos simblicos iniciais que
no desaparecem e, por outro lado, que no se podem
estabelecer cortes entre os processos pictogrficos,
ideogramticos e fonticos.  O nico corte a registar, se 
que assim se pode dizer, no acto de fundao da escrita,  o
momento em que a expresso grfica se subordina completamente
 expresso fontica pelo uso do dispositivo linear - processo
a que Leroi-Gourhan chama a 2conquista adquirida com a
escrita+ e que Deleuze considera, na reciprocidade de
subordinao, como uma ruptura no prprio mundo da
representao 1 .
     2 no sentido do restringimento das imagens para uma
rigorosa linearizao dos smbolos que a escrita tende. 
Possuindo o alfabeto, o pensamento clssico e moderno possui
mais do que um meio de conservar na memria o resultado exacto
das suas aquisies progressivas nos diferentes domnios da
sua actividade; dispe de um utenslio pelo qual o smbolo
pensado se submete  mesma notao na palavra e no gesto. 
Esta unificao do processo expressivo implica a subordinao
do grafismo  linguagem sonora, reduz o desperdcio de
smbolos que  ainda caracterstico da escrita chinesa e
corresponde ao mesmo processo seguido pelas tcnicas no
decurso da sua evoluo+ 2 .  Sem reconhecer a reciprocidade
de subordinao entre a escrita e a voz fundadora, Gourhan
capta assim o momento por excelncia da instituio de um
simblico que j comporta em si toda a violncia discriminante
da origem, no acto de fundao da escrita. 
      pois, este tambm, o acto de fundao do alfabeto
voclico e consonntico, que aqui nos interessa
particularmente.  Digamos que se atinge assim o ponto nodal de
todo um processo evolutivo complexo que tem a sua origem
prxima no simbolismo abstracto do sapiens e no dispositivo
simblico que tem na linguagem o seu instrumento principal. 
Este nvel intermdio, antecipador directo do prprio
dispositivo linear, assimila alis todo um conjunto de
fenmenos relativos  insero espacio-temporal, sua possesso

e ''domesticao" simblica.  Simultaneamente, como j
referimos,  recusada a inumerabilidade do signo, o
significante torna-se "desptico",  
     Apesar da relao estreita entre inscrio e oralidade
no se pode dizer que haja uma prioridade do escrito sobre o
vocal, ou, inversamente, do fonema sobre o grafema.  Trata-se
de uma questo sem sentido histrico, como referiu Kristeva 1
. A interaco entre ambos  que se revela esclarecedora.  Da
mesma forma que  pertinente a complexa rede interactiva entre
a escrita e o poder, tambm o  a que se estabelece entre a
escrita e o dolo, ou entre a escrita e o Estado.  Para j
convm sublinhar que no se trata de proceder a filiaes
evolucionistas mas antes a observar ritmos de descontinuidade,
clivagens, no processo de interiorizao e divulgao do
alfabeto fontico.  A haver uma filiao histrica s poder
ser no sentido de que o que est hoje ligado simbolicamente,
esteve verosimilmente ligado outrora por uma identidade
conceptual e lingustica.  Leroi-Gourhan diria, de outro modo,
que a nossa cultura electrnica tem por suporte um aparelho
fisiolgico que data de h 40 mil anos: 2Toda a evoluo
psico-motriz, desde os primeiros vertebrados, processou-se por
adio de novos territrios, que no suprimiram a importncia
funcional dos precedentes, preservando-lhes o seu papel
especfico, cada vez mais enraizado nas funes superiores+ 2
. 
     De Leroi-Gourhan ficou entretanto em suspenso aquilo a
que Deleuze/Guattari chamam o "paradoxo" que se desprende das
suas anlises: 2As sociedades primitivas so orais no porque
no tenham grafismo, mas, pelo contrrio, porque o grafismo 
aqui independente da voz, e marca nos corpos signos que
respondem, reagem,  voz, mas so autnomos e no determinados
por ela; pelo contrrio, as civilizaes brbaras so
escritas, no porque tenham perdido a voz mas porque o sistema
grfico perdeu a sua independncia e as suas dimenses
prprias, orientando-se pela voz, subordinando-se a ela,
extraindo dela um fluxo abstracto desterritorializado que
retm e faz ressoar no cdigo linear da escrita+ 3 . 
     A questo fundamental  portanto a da subordinao da
expresso grfica  fontica, a instituio do
significante-desptico e, com ele, a expresso acabada da
escrita como primeiro fluxo desterritorializado na sua origem
imperial. 
     Contrariando de alguma forma Lvi-Strauss, que defendia a
hiptese da apario sbita da linguagem (2Les choses n'ont
pas pu se mettre  signifiquer progressivement.  A la suite
d'une transformation dont l'tude ne relve pas des sciences
sociales, mais de la biologie et de la physiologie, un passage
s'est effectu d'un stade o rien n'avait un sens,  un autre
o tout en possdait+) 1 , Leroi-Gourhan 2 defende,
relativamente  escrita, que a sua emergncia no se fez a
partir do nada grfico, no foi fortuita, da mesma forma que,
por exemplo, a agricultura no existiu sem a interveno de
estdios de evoluo anteriores; o seu contedo inicial no
foi de igual modo fortuito.  O smbolo grfico pressupe j em
si uma linguagem humana.  Inversamente, como referiu Derrida,
qualquer linguagem supe uma escrita originria.  Tal como
para o Estado, cujo acto de fundao deriva de um continuum e
no propriamente de um momento zero, tambm para a linguagem e

para a escrita o "momento zero" no existe.  Esta uma questo
que nos parece fundamental, at porque o seu cerne reside no
nos mitos fundadores da origem, mas sim nas formas de
variabilidade.  O que interessa, pois,  a variao e no a
origem da lngua.  Aproximamo-nos assim do conceito de grama
em Derrida - a lngua como movimento - o que permite
exactamente a colocao de uma srie de questes da ordem da
poltica da lngua e no exclusivamente da ordem do
fonolgico. Desaguamos nos Mille Plateaux 3 : 2Toutes les
langues sont en variation continue immanente: ni synchronie,
ni diachronie, mais asynchronie, chromatisme comme tat
vritable et continu de la langue.  Pour une linguistique
chromatique, qui donne au pragmatisme ses intensits et
valeurs+. 
     Finalmente, e legitimando-nos no continuum, poderamos
afirmar, com Deleuze: subordinando-se  voz, o grafismo
subordina a voz.  2A voz deixa de cantar para ditar, editar; a
grafia deixa de danar e de animar o corpo para se escrever
nas tbuas, nas pedras, nos livros (...). O rebatimento da
grafia sobre a voz fez com que da cadeia saltasse um objecto
transcendente, voz muda de que toda a cadeia parece agora
depender, e em relao  qual se lineariza.  A subordinao do
grafismo  voz induz uma voz fictcia das alturas que j no
se exprime, inversamente, a no ser pelos signos da escrita
que emite (revelao)+ 1 .  Dito de outro modo, e ainda
citando Deleuze/Guattari: 2Em vez de um grafismo plurvoco com
a forma do real, h uma bi-univocizao que forma o
transcendente de onde sai uma linearidade; em vez de signos
no-significantes que compem as redes duma cadeia
territorial, h um significante desptico donde correm
uniformemente todos os signos, num fluxo desterritorializado
de escrita+.
     To importante, contudo, como analisar o contexto em que
se verifica a subordinao da expresso grfica  fontica 
problematizar o sentido da emergncia das diferentes mediaes
e a forma como elas se articulam com o poder. Da escrita
mitogrfica para a escrita alfabtica, numa primeira anlise,
passamos de uma sociedade recolectora do Paleoltico para a
economia de mercado que fundamenta a prpria revoluo urbana. 
Quer isto dizer que a escrita, a emergncia da notao
fontica, estaria  partida subordinada  evoluo
tecno-econmica da civilizao em que se insere, ou, pelo
menos, interagindo entre o modo de comunicar e o modo de
produzir dessa mesma civilizao, ou, ainda, e um pouco mais
longe, segundo Harold Innis, subordinando o prprio modo de
produo.
     Ora, sabendo-se que  com o fim do nomadismo recolector
que surgem exactamente as economias produtora e de mercado, e,
por acrscimo, se solidificam as sociedades em que se comea a
notar a estratificao social, ento  concluir-se-ia que a
escrita estaria tambm na base da prpria emergncia das
sociedades com Estado.  Por aqui se pode ir tambm ao encontro
do que Jack Goody defende, a saber, que exactamente a variao
dos modos de comunicar  to determinante nas mudanas
histrico-estruturais como a dos modos de produzir.
     Avancemos, porm, com Lvi-Strauss 2 que identifica a
escrita como uma "tcnica de opresso": 2O nico fenmeno que
a tem fielmente acompanhado  a formao das cidades e dos

imprios, isto , a integrao num sistema poltico de um
nmero considervel de indivduos e a sua hierarquizao em
castas e classes (...) ela parece favorecer a explorao dos
homens, antes da sua iluminao.  Se a minha hiptese for
exacta,  necessrio admitir que a funo primria da
publicao escrita foi a de facilitar a servido.  Percebe-se
assim porque  que a luta contra o analfabetismo se confundia
segundo Lvi-Strauss, com o reforo do controle dos cidados
por parte do Estado.
     H, no entanto, algo a ressalvar relativamente  posio
de Lvi-Strauss.  Partindo do pressuposto de que h sempre uma
funo de subordinao a atravessar a funo de comunicao,
pode concluir-se que  ilusrio procurar na escrita a origem
de toda e qualquer hierarquia ou dominao 1.  No limite
poder-se-ia dizer que a prpria relao
significante/significado  j uma relao de subordinao 2 . 
Ora, se a escrita no  realmente a origem de toda a
hierarquia, isso quer dizer que formas de subordinao
anteriores j tinham sido estabelecidas - e essas poderiam
inclusive ser as de outras sociedades com Estado, ou pelo
menos de sociedades hierarquizadas pelo regime de
consanguinidade; no poderiam ser, de qualquer modo,
sociedades sem lngua.  Ao privilegiar exactamente no o mito
fundador da escrita, mas antes a sua funo de continuum de
dominao, Goody aproxima-se, claro, de Deleuze.
     Num outro texto, Lvi-Strauss 3  retoma a sua tese
anterior, situando-a geogrfica e politicamente, e
considerando, de certa maneira, ao contrrio de Jack Goody,
que a escrita est de facto na origem de sociedades
hierarquizadas: 2Le seul phnomne qui semble toujours et
partout li  l'apparition de l'criture, non pas seulement
dans la Mditrranne orientale mais dans la Chine
proto-historique, et mme dans les rgions de l'Amrique o
des bauches d'criture taient apparus avant la conqute,
c'est la constitution de socits hierarchises qui se
trouvent composes de ma-tres et d'esclaves, de socits
utilisant une certaine partie de leur population pour
travailler au profit de l'autre partie. Et quand nous
regardons quels ont t les premiers usages de l'criture, il
semble bien que ces usages aient t d'abord ceux du pouvoir:
inventaires, catalogues, recensements, lois et mandements+. 
Esta  j de facto uma outra questo, implcita tambm em
Goody quando defende o papel da escrita na mise-en-place de
novos modos de dominao.  Poder-se-ia prosseguir a partir do
mot d' ordre contido  na linguagem uma vez que, como refere
Deleuze, o marcador de poder est j contido na prpria
linguagem, -lhe uma funo intrnseca.
     McLuhan fala da agressividade de organizao do modelo
romano na irradiao do poder do centro para a periferia.  Ele
v a formao e alargamento do Imprio assentes sobretudo
nesse alicerce de poder que era a prpria escrita.  Alis,
cita o declneo do Imprio Romano, no sculo V, no a partir
das invases brbaras e da crise interna, mas sim do prprio
sistema de comunicaes entre o centro e a periferia. 
Justifica-o citando Seltman (Approach to Greek Art): 2Os
gregos no se aproveitaram tanto da alfabetizao quanto os
romanos com a sua alta organizao de produo de papel e
comrcio de livros.  Atribui-se ordinariamente ao declneo dos

suprimentos de papiro, no ltimo perodo do Imprio Romano, o
colapso dos imprios e do seu sistema de estradas.  A estrada
romana era, com efeito, em todos os sentidos, a estrada do
papel+ 1 .  Anotemos, no entanto, que para McLuhan a
assimilao e interiorizao da tecnologia do alfabeto
fontico transfere o homem do mundo mgico da audio para o
mundo neutro da viso, isto , da "esfera tribal" para a
"esfera civilizada".
     A questo da funo da escrita na variabilidade da
dominao  ainda retomada por Goody: "L'acquisition du
langage est  la base de tous les institutions sociales, de
tout le comportement normatif+ 2 ; ou: 2Il est clair que
l'adoption de formes crites de communication fut une
condition intrinsque du dveloppement d'tats plus tendus,
de systmes de governement plus impersonnels et plus
abstraits+ 3 .  De sublinhar, portanto, que a adopo de
formas escritas de comunicao foi uma condio intrnseca e
no 2a+ condio...
     Passemos da questo do estabelecimento de linhagens
hierrquicas e da emergncia do Estado para a questo do poder
- e de Goody para Pierre Clastres.  Fundamentalmente de raz
cultural, a questo da natureza e origem do poder nas
sociedades ditas arcaicas 2ter o seu momento de fundao
quando essas mesmas sociedades abandonam a economia de
subsistncia e descobrem a escrita, passando, no limite, de
sociedades sem poder para sociedades com Estado,
considerando-se, no entanto, que nenhuma classificao das
sociedades empricas nos pode esclarecer nem sobre a natureza
do poder poltico nem sobre as circunstncias do seu advento+
4 .  Se Lvi-Strauss defendia que o Estado surgia com a
escrita, Clastres no o nega, embora reconhea que o poder
poltico e o Estado propriamente dito no admitem um "grau
zero". Clastres cita depois Lapierre para sublinhar que 2o
poder realiza-se numa relao social caracterstica:
comando-obedincia+, resultando daqui que as sociedades onde
no se observa esta relao essencial so sociedades sem
poder.  Logo - o poder fundamentar-se-ia sim nessa relao
essencial.
     A questo que se levanta  a seguinte: se num acto
ilocutrio h sempre uma funo de subordinao - e
considerando-se que uma tal hierarquia  no fundo uma relao
comando-obedincia, alis tal como Nietzsche defende - 2 pela
linguagem e no pelo trabalho que passa a relao do senhor e
do escravo+ ou como em Deleuze/Guattari: 2A dominao
exerce-se atravs e na transcendncia do significante+
(Anti-dipo): ou ainda: 2Na linguagem antes do imprio da
ordenao sintctica, h o imprio da ordem, do veredicto+
(Mille Plateaux) -, ento teramos que concluir que no
existem sociedades sem a relao de subordinao
comando-obedincia, sem poder, desde que se estabeleam formas
empricas de comunicao.
     Clastres volta atrs e pergunta, exactamente, se o poder
poltico existe unicamente numa relao que se resolve numa
relao de coero (o ser do poder: a violncia), isto , se
quando no se verifica, como vimos, a relao de
coero-violncia, se deixa de poder falar de poder.  Conclui
que 2no  evidente que coero e subordinao constituam a
essncia do poder poltico em toda a parte e em todo o sempre+

1 .  S aparentemente no entanto se trata de um paradoxo uma
vez que Clastres introduz a forma no coerciva de poder,
especfica das sociedades sem lngua.  Portanto, em
determinadas sociedades, formas no coercivas de poder
antecipam-se  prpria linguagem.

     Esta interpretao divergir, enfim, de Goody (e de
Lvi-Strauss) que no se referem a um poder no-coercivo. 
Apontam, quer  subordinao hierrquica intrnseca  funo
de comunicao, quer s primeiras utilizaes da escrita por
parte do poder, respectivamente uma funo de subordinao e
uma estratgia de opresso.  "Coero" e "subordinao"
constituem assim, no limite, a essncia do acto de
comunicao, e, enfim, do poder.  2Induisant  croire que
l'criture survient au pouvoir (on peut en gnral, et on peut
crire  l'occasion), qu'elle peut s'allier  lui, le
prolonger d'un complment ou le servir, Ia question laisse
penser que l'criture peut arriver au pouvoir, ou le pouvoir 
l'criture.  Elle exclut d'avance qu'on identifie l'criture
comme pouvoir ou qu'on reconnaisse le pouvoir ds l'criture. 
Elle auxiliarise, et vise donc  dissimuler que l'criture et
le pouvoir ne s' exercent jamais separment, si complexes que
soient les lois, le rgime ou les relais de leur collusion
(...) L'criture n'arrive pas au pouvoir.  D'avance elle y
est, elle en a et elle en est+ 1 .  
     No fundo, e ao contrrio do que prope Clastres, o que
nos parece fundamental  no separar a questo da emergncia
do poder (e do poltico) da da linguagem.  H, com efeito, uma
circularidade constante entre as diferentes mediaes,
tornando-se impossvel a cristalizao de qualquer prioridade
ou sequncia de uma relativamente  outra.
     Parece-nos assim retomarem-se aqui posies j expressas
no domnio exactamente da antropologia poltica.  O
evolucionismo de Morgan pressupunha uma passagem das
sociedades sem Estado para as sociedades com Estado baseada
quer na consanguinidade quer na territorialidade. 
Evans-Pritchard, por seu lado,  abertamente contra o "mito"
fundador do Estado e prefere, tal como Clastres, uma
omnitemporalidade do poltico assente no estabelecimento da
ordem social (para Pritchard as linhagens seriam j uma
espcie de linguagem que traduziria a prpria estrutura social
e poltica da sociedade).
     A questo da origem do Estado  na perspectiva de
Evans-Pritchard (e tambm de Fortes) uma questo meramente
filosfica, aceitando, no entanto, que de sociedades muito
pequenas onde a estrutura poltica se confunde com a estrutura
de parentesco se tenha evoludo para sociedades com uma
autoridade centralizada, um aparelho administrativo e
instituies judiciais.  H ainda a reter a proposta de
Southall 2 em que se sugere um continuum entre as sociedades
sem Estado e as sociedades com Estado, sem que de qualquer
modo se esquea que h um momento em que o rei-dspota
mediatiza autonomamente grupos de interesses: 2Os papis
polticos especializam-se  custa dos papis rituais+ 3 .
     Chegamos ento ao momento da instaurao da mquina
desptica.  O dspota regula os mecanismos de inscrio, as
marcas na carne e coloca-se em filiao directa com Deus: 2O
corpo pleno como scius deixou de ser a terra,  agora o corpo

do dspota ou o seu Deus (...) A mquina  que se modificou
profundamente: em vez da mquina territoral, h a mega-mquina
do Estado, pirmide funcional em cujo cume est o dspota+ 4 .
     Com ele, obviamente, o seu squito, domesticador do
esprito selvagem, agora brbaro, autnticos agentes de
desterritorializao, filiadores da inscrio imperial, 
frente dos quais se encontram os escribas e os sacerdotes. 
Mas vejamos de que forma atravs do sacerdote se verifica a
figurao da inscrio imperial.  A partir de Warburton (Essai
sur les hiroglyphes des Egyptiens) finda a crena de que o
padre egpcio inventou os hierglifos com o nico objectivo de
2cacher leur science au vulgaire+ (a vehicle for secrecy) foi
de igual modo desmistificado o sentido de dissimulao
imanente  origem da escrita, ao seu mito fundador.  Retirado
o effet de voile  origem da escrita e todo o efeito de enigma
que o seu mito fundador circunscrevia h que reconhecer que 
exactamente nesta errncia da marca, nos sentidos
contraditrios que antecedem o significante desptico, que
ganha forma o poder do dspota.  2Le vulgaire ne sait plus
alors o donner de la tte, o trouver le ma-tre-sens, le
dp&t o la disposition du savoir+ 1 .  Trata-se pois de um
regime pr-significante onde impera a inscrio nmada,
arbitrria, embora territorializada.
     Quando o valor representativo do signo afecta o prprio
espao do domnio simblico do poder, isto , quando a marca 
bvia, rapidamente  substituda por signos abstractos que
concedem, por acrscimo, ainda mais poder ao j de si
arbitrrio poder do dspota.   curioso notar que a prpria
inveno da escrita alfabtica era atribuda no Egipto ao
secretrio do Rei - o verdadeiro hierofante - se bem que no
domnio da mitologia fosse atribuda a Toth, o verdadeiro
escriba dos deuses - o deus da sabedoria e da arte de
escrever.  
     O secretrio do Rei teria substitudo finalmente as
coisas por palavras, sobretudo com o objectivo de assegurar
uma inequvoca circulao da informao ao nvel do poder. 
Nesse aspecto a escrita fontica no deixava de constituir um
"segredo de Estado", uma escrita de poder, tarefa facilitada
dado tratar-se agora de um veculo invisvel e no de um
hierglifo.  
     Particularmente evidente no Egipto onde, apesar de tudo,
as marcas continuaram a prevalecer mesmo depois da emergncia
da escrita,  o facto do padre colocar a alternativa do
alfabeto "sagrado" ao poltico, aps, efectivamente, a
radicao e ''democratizao" da fonetizao.  Digamos que,
descodificado um segredo, um novo cdigo, novo enigma, deve
surgir, sob pena de estabilizao, ou mesmo reduo, da
dominao simblica e, claro, da hegemonia da casta
sacerdotal. Trata-se, no fundo, da funo clerical de
assegurar a expanso dos crculos de signos, isto , da sua
recapitalizao.
     Da mesma forma que no acto de fundao da escrita h um
sistema de representao simblica semelhante, extensvel s
grandes civilizaes da Antiguidade, tambm se verifica, quer
no Egipto, quer na China, quer na Amrica, ainda que com
variaes ao nvel hierrquico, a presena do
Secretrio-dspota, que pode ser o reth, ministro, o sbio, o
escriba.

     O alfabeto, no fundo, opera  transferncia do poder da
classe sacerdotal para a classe militar: 2O alfabeto
significou o poder, a autoridade e o controle das estruturas
militares  distncia.  Quando combinado com o papiro, o
alfabeto decretou o fim das burocracias templrias e dos
monoplios sacerdotais do conhecimento e do poder+ 1 . 
Enquanto na posse da classe sacerdotal a escrita ainda no
est em definitivo sobre-codificada, sofre portanto constantes
recapitalizaes -  esse pelo menos o caso do Egipto que
conheceu os hierglifos, a escrita hiertica (que os gregos
pensavam exactamente ser do uso exclusivo dos sacerdotes,
embora fosse do uso laico) e a escrita demtica, ''popular''. 
Os hierglifos, como j referimos, foram porm utilizados at
ao sculo V, como escrita monumental, de revelao, sendo pois
por excelncia a escrita "sagrada" 2 .
     Todo o sistema primitivo passa a ser sobre-codificado
pela formao imperial.  Segundo Deleuze/Guattari  esta
sobre-codificao que define precisamente a operao que
constitui a essncia do Estado.  Mais:  o dspota que faz a
escrita,  a formao imperial que faz do grafismo uma escrita
propriamente dita.  2Legislao, burocracia, contabilidade,
cobrana de impostos, monoplio de Estado, justia imperial,
actividade dos funcionrios, historiografia - tudo se inscreve
no cortejo do dspota+  3 .
     Atendendo ao nomadismo ideogrfico egpcio, o que o
dspota faz, em ltima instncia, no  a escrita, mas uma
reescrita, dando constantemente a ver a mscara,
reterritorializando o significante durante tanto tempo quanto
o necessrio por forma a no permitir a legibilidade do rosto,
e portanto a manter o segredo.  Este parece-nos ser de
qualquer modo um caso excepcional, visto que na maior parte
das civilizaes verifica-se de facto uma transio ntida das
castas sacerdotais para as militares com tudo o que isso
implica ao nvel da radicao do dispositivo linear - aquele
que melhor servia s "estradas de papel", e aos grandes
imprios militares e coloniais.
     A ausncia da escrita no servia tanto o arbtrio do
dspota quanto a sua efectiva radicao, fosse ela
pr-significante, ou significante-desptica.  Alfabetizar era
pois reforar o poder sobre os alfabetizados, vinculando-os ao
cdigo hegemnico.
     Finalmente, com a radicao do dispositivo linear 
sobretudo o movimento de desterritorializao que impera.  "Os
signos da terra" so substitudos pelos "signos abstractos". 
Para trs ficam portanto os geo-grafismos, o territrio de
ressonncia da inscrio, do cdigo e da marca primitiva.  No
novo regime "o significante  o signo que se tornou signo do
signo, o signo desptico que substitui o signo territorial,
que franqueou o limiar de desterritorializao; o significante
no  mais do que o signo desterritorializado.  O signo que se
tornou letra.  O desejo j nem se atreve a desejar, tornou-se
desejo de desejo, desejo do desejo do dspota.  A boca j no
fala, bebe a letra.  O olho j no v, l.  O corpo no se
deixa gravar como a terra, prostra-se em frente das gravuras
do dspota, a outra terra, o novo corpo pleno+ 1 .
     Fica ento a questo do efeito de palimpsesto, enfim,
como diria Deleuze, a questo de preexistirem mquinas
imperiais relativamente s formaes histricas tradicionais:

2em ltima anlise j no se sabe quem , de facto, primeiro,
nem se a mquina territorial de linhagens no pressupe uma
mquina desptica+  2 
     Trata-se no fundo de inverter a relao entre a letra e o
dolo - o dolo nasce da letra e no o contrrio, como se
pretendia inclusive na mitologia, fazendo derivar a escrita do
prprio Toth 3 .  No limite h sempre uma escrita prvia, uma
religio. 2Pas de premier texte, pas mme de surface vierge
pour son inscription, et si le palimpseste exige la matire
d'un support nu pour une archi-criture, pas de palimpseste+ 4
.
     A escrita, o poder e o Estado, encobrem, no fundo, a
mquina desptica, gerando como que um mega-efeito de
latncia.  Desvendado o enigma do palimpsesto, verificar-se-
deste ponto de vista que  a poltica que produz a lngua, que
o princpio constitutivo da linguagem no est na lngua mas
na mquina abstracta.   nela que provavelmente tudo se funda. 

          Voltando, porm,  questo da instaurao da mquina
desptica e tomando como referncia os autores aqui
mencionados, bem como outros, aos quais nos referiremos, vemos
que a emergncia da escrita altera de facto radicalmente todo
o universo da oralidade, nomeadamente nos seguintes aspectos:
operando  transio de universos audiotcteis e sagrados para
universos profanos, onde impera a ordem visual (McLuhan e
Mircea Eliade); operando  transio de universos mgicos e
mitopoiticos para universos onde emerge a razo,
lgico-empricos (Vernant e Cassirer); delineando a passagem
de sociedades fechadas, que tm como que uma unidade
biolgica, para as nossas sociedades abertas que funcionam por
meio de relaes abstractas, tais como trocas, cooperao,
alfabeto (Karl Popper, Deleuze/Guattari) enfim, levando 
emergncia de novos modos de dominao que correspondem, no
fundo,  introduo de um novo modo de comunicao,
instituindo assim um novo dispositivo de sujeio inerente 
mega-mquina da formao imperial desconhecido das sociedades
orais conforme defendem Jack Goody e nomeadamente Louis Qur:
2en modifiant le systme de communication, l'criture
transforme non seulement le systme socio-culturel mais aussi
tout le mode de domination.  Plus prcisment, elle substitue
une domination anonyme, abstraite et dcontextualise,  une
domination mdiatise par des individus (anciens, prtes,
propritaires fonciers...) et par le groupe de voisinage
(controle par la convenance).  L'crit est en effet corrlatif
non seulement de la constitution d'un appareil de domination
bureaucratique (possibilit d'enregistrement et de
comptabilisation) mais aussi de l'avnement de l'change
marchand et de la Loi comme moyens de rgulation dominants+ 1
.
 

     
IV. O dispositivo tipogrfico



     IV.1. O novo espao pblico e o dispositivo disciplinar
do olhar  

  

                              Le regard est le medium des
mdias.
                                        Jean Baudrillard  


     Numa perspectiva histrico-cultural, tivemos sobretudo em
conta, para o caso da escrita, os reajustamentos, as
inflexes, que as diferentes civilizaes e as diferentes
idades da Histria sofrem quando novas estruturas
comunicacionais, novas mediaes simblicas e tecnolgicas
emergem - e, nessa medida, definimos o dispositivo que se
constitui com a emergncia da escrita.
     Para o caso da tipografia seguiremos o mesmo percurso, se
bem que um outro nvel hermenutico se nos coloque, mais
concretamente, aquele que resulta de uma reinterpretao do
desenvolvimento do universo tipogrfico em plena idade
clssica.
     Iniciemos ento uma abordagem do universo tipogrfico
fazendo incidir a anlise, numa primeira parte, sobre
diferentes modelos culturais do campo representativo clssico
e pr-clssico, bem como dos seus dispositivos de
representao do real, para depois passarmos, numa segunda
parte,  tecnologia tipogrfica propriamente dita, emergente
nessa estrutura histrico-cultural.
     Comearemos portanto pela anlise da instituio do
dispositivo imanente ao que designaremos de progressiva
radicao de uma ordem disciplinar do olhar, da visualidade, a
partir dos finais da Idade Mdia.
     Trata-se assim essencialmente, nesta primeira parte, de
confrontar uma srie de contributos diversos no sentido de
problematizar tambm o contexto da emergncia do espao
pblico. Procura-se, sobretudo, uma aproximao   natureza
das mediaes simblicas, concretamente no domnio da
visualidade, na instituio do regime do olhar
ps-alfabtico.     Vamos analisar pois, fundamentalmente,
tecnologias do olhar, estratgias que se produzem na
espacialidade e na estrutura do espao figurativo, nos corpos,
enfim, tcnicas que nos permitem localizar a emergncia de um
espao simbolicamente activo, espao gerador de hierarquias,
ainda que elas no passem nesta primeira abordagem de um jogo
de cumplicidades,  jogo que se explicita exactamente nesta
aproximao a uma arqueologia da "alfabetizao" do olhar.
     Porqu ainda a questo da teoria do espao pblico? 
Trata-se sobretudo de uma questo epistemolgica.  Uma
epistemologia da histria das mediaes tecnolgicas e
simblicas pecaria certamente por defeito se no operasse 
desconstruo do(s) espao(s) produtores de hierofanias e
fices.  Da cena para a rua, da catedral para a feira, do
atelier do tipgrafo para o caf, do salo para o domiclio,
enfim, do pblico para o privado, em ltima instncia,  no
pulsar de todas estas redes de sociabilidade, destes lugares
de quotidianidade que emergem os rostos e as mscaras das
sociedades, os seus smiles e simulacros, e por onde passam as
estratgias normativas, de poder, e reivindicativas - ou de
"resistncia". 
      exactamente sobre o final da Idade Mdia - altura em

que se verifica o acentuar da diviso entre esfera pblica e
esfera privada (na alta Idade Mdia no h ainda uma esfera
pblica autnoma separada da esfera privada - o que h  uma
"publicidade representativa" do monarca ou do senhor feudal
simbolizada atravs do selo rgio, por exemplo, ou por toda
uma fenomenologia imanente ao corpo jurdico do rei ou  sua
publicness), mas , dizia, sobre o final da Idade Mdia, que,
nomeadamente atravs de Huizinga, se havia j apontado a
emergncia da visualidade: 2Um dos traos fundamentais do
esprito do declnio da Idade Mdia  o predomnio do sentido
da vista+ 1. 
     Vrios historiadores atribuiram ao perodo que se segue
ao sculo V a.C., na Grcia, a introduo da ordem visual na
escultura, na cincia e na literatura. McLuhan abordava a
questo de um outro modo: 2Do ponto de vista da aguda e
intensa conscincia que hoje temos dos componentes visuais da
experincia, o mundo grego afigura-se tmido e tacteante. 
Nada existe, porm, na fase manuscrita da tecnologia
alfabtica, que fosse suficientemente intenso para romper o
globalismo sensorial e separar inteiramente o visual do
tctil.  Nem mesmo o alfabeto romano teve fora para faz-lo. 
Foi somente com a experincia da produo em massa de tipo
exactamente uniforme e repetvel que a fisso dos sentidos
ocorreu e a dimenso visual se separou dos outros sentidos+ 2
.  E explicitando melhor a sua posio em relao ao que chama
de "fisso dos sentidos": 2O que  necessrio  saber porque 
que o desenho primitivo  bidimensional, ao passo que o
desenho e a pintura do homem alfabetizado tendem para a
perspectiva.  Sem tal conhecimento no podemos compreender
porque  que o homem deixou de ser 'primitivo' ou audiotctil
na tendncia dos seus sentidos.  Nem poderamos chegar a
entender porque  que o homem desde Czanne abandonou o visual
em favor dos modos audiotcteis da experincia.  Esclarecida
essa questo, podemos abordar mais facilmente o papel que
tiveram o alfabeto e a tipografia na atribuio da funo
dominante ao sentido da viso na linguagem e na arte em toda a
extenso da vida poltica e social+ 1 .
     No fundo, quer o alfabeto, quer a tipografia, marcam dois
momentos de ruptura afinal com o mesmo significado, isto ,
geram e concluem a separao entre o universo tctil e o
universo visual.  O alfabeto f-lo de uma forma radical e
nova, enquanto a tipografia lhe confere uma nova autoridade,
uma outra legitimidade - a que lhe advm do facto de
corporizar e uniformizar sem ambiguidades a notao grfica. 
Michel Butor diria de outra forma: 2Dans l'imprim l'auteur se
lit comme s'il tait un autre+  2 .
     Se atendermos, porm, a Qur, concluiremos que mais
importante do que a prpria redistribuio epistmica,
historico-estrutural, proposta por McLuhan,  a instituio do
dispositivo de dominao imanente  prpria gnese de novas
mediaes tecnolgicas, tal como vimos para o caso da escrita
- e veremos para o caso da tipografia.  Por agora vejamos como
se foram sedimentando as prticas, as tecnologias do olhar e
do campo representativo, a partir do classicismo greco-romano,
por forma a melhor nos situarmos na emergncia do espao
pblico renascentista, anunciador das grandes transformaes
que se operaram na esfera moderna da comunicao,
designadamente no plano das mediaes simblicas e

tecnolgicas. 
     Continuando todo o procedimento ritualizante e
fenomenolgico que remonta a prticas to antigas como o
embalsamento egpcio, a escultura grega ou a pintura
renascentista, a fotografia conseguiu no sculo XIX algo que
sempre havia sido desejado pelo homem desde os tempos mais
remotos: exorcizar o tempo, salvar o ser, em absoluto, pela
sua aparncia, como disse Andr Bazin.
     De facto, os rituais funerrios egpcios, constituem na
Antiguidade uma prtica de salvao do corpo, uma vitria
sobre a inexorabilidade do tempo.  As mmias dos faras,
encerradas no labirinto das pirmides, asseguravam assim a
perenidade do corpo da mesma forma que, com o mesmo objectivo,
Alexandre se fez representar na necrpole de Sido, ou, enfim,
Lus XIV se fez retratar por Lebrun.
      assim que a raiz ontolgica da fotografia e do cinema,
no que concerne concretamente  figurao primitiva do duplo,
se tem de ir procurar exactamente nessas prticas diversas. 
     Com a escultura grega arcaica  j claramente uma
concepo antropomrfica que ameaa querer constituir-se como
centro do campo representativo. A prpria mitologia, se no
Egipto j tinha encontrado Toth como o fundador da escrita, na
Grcia tem em Cadmo o deus introdutor das letras do alfabeto e
em Ddalo, o primeiro a dar vida aos corpos de mrmore, o
artista qui deorum simulacro primus fecit, o criador das
esttuas 2o primeiro a abrir-lhes os olhos, a descerrar-lhes
os lbios, aquele que lhes alargou as pernas, desprendeu os
braos do corpo, soube infundir-lhes vida, de tal modo que
pareciam mover-se, caminhar, olhar, respirar, erguendo-se 
hiprbole repercutida por Plato no Menon de que era preciso
prend-las para que no fugissem+ 1 .
      assim a prpria mitologia a denunciar um momento
fundamental da Antiguidade, a saber, o fim do transe tribal,
como lhe chamou McLuhan, isto , o momento em que o homem se
liberta da ressonncia das prticas mgicas das sociedades
orais.  Poder-se- dizer, pois, que a escultura grega emerge
com o alfabeto fontico.  O mito de Cadmo, no fundo, explica
isso mesmo.
     Contudo, na Grcia, numa primeira fase, a plstica
arcaica no  ainda da ordem da mimesis como viria a ser a
escultura imperial em Roma no sculo de Augusto, ou mesmo a
escultura helenstica tardia.  A escultura arcaica grega,
fundamentalmente constituda por imagens de divindades, por
deuses antropomorfizados, filiava-se numa poiesis, numa ordem
de expresso e significao plural, por assim dizer.  No se
tratava de facto da imagem do homem ou da imagem de um mundo
coeso, que, tal como na pintura de vasos ou nos frescos, no
era ainda um mundo unificado, 2um mundo no interior do qual os
corpos e os intervalos de espao livre que os separa seriam
somente as diferenciaes ou as codificaes de um continuum
de ordem superior+ 2 . 
     Este  de facto o perodo em que se comea a notar como
que uma progressiva hemorragia do simbolismo.  Como veremos,
este fenmeno no se verificar somente no domnio da arte. 
Lvi-Strauss, alis, j se havia referido a esta questo nas
entrevistas a Georges Charbonnier: 2Un ethnologue se sentirait
parfaitement  son aise, et sur un terrain familier, avec
l'art grec antrieur au V sicle et mme avec la peinture

italienne quand on l'arrte  l'Ecole de Sienne.  L o le
terrain commencerait  ceder sous nos pas, ce serait donc
seulement, d'une part avec l'art grec du V. sicle, de
l'autre, avec la peinture italienne  partir du Quattrocento+
1 .
     Lvi-Strauss coloca assim a questo em termos do
progressivo desaparecimento da funo semntica da obra, o
qual se verifica no contexto de uma aproximao 2de plus en
plus grande du modle qu'on cherche  imiter, et non plus 
signifier+  2 , ou, de outro modo, 2l'art, me semble-t-il, a
perdu le contact avec sa fonction significative dans la
statuaire grecque, et il le reperd dans la peinture italienne
de la Renaissance+ 3 .
       pois  este investimento da ordem da mimesis sobre a
poiesis, investimento do olhar, portanto, e que se poderia ver
como um "desperdcio dos smbolos da linguagem"
(Leroi-Gourhan) ou como pura "evaporao do sentido da obra"
(Gilbert Durand), que nos remete exactamente para a
progressiva radicao de uma ordem dos signos
desterritorializados, o que  de facto extremamente revelador
quanto  cada vez maior importncia a dar  "visualidade" na
fundao de um verdadeiro regime disciplinar do olhar, e do
seu significado em termos da emergncia do espao pblico, da
"aptido de ver" e, no fundo, da emergncia da prpria razo
moderna. 
     A poiesis simblica tinha sobretudo a haver, segundo
Durand, com a confirmao de um sentido e uma liberdade
pessoal: 2 por isso que o smbolo no pode ser explicitado: a
alquimia da transmutao, da transfigurao simblica, em
ltima anlise s pode realizar-se no seio de uma liberdade. 
E o poder potico do smbolo define melhor a liberdade humana
do que qualquer especulao filosfica: esta obstina-se em ver
na liberdade uma escolha objectiva, enquanto que na
experincia do smbolo verificamos que a liberdade  criadora
de um sentido: ela  potica de uma transcendncia no seio de
um sujeito, por mais objectivo e empenhado no acontecimento
concreto que ele seja.  Ela  o motor da simblica+ 4 . 
      assim que na transio do romnico para o gtico se
opera um corte que  para Durand exactamente um dos trs
estdios de "extino" simblica, de desvalorizao do
smbolo: 2Este deslizar para o mundo do realismo perceptivo,
no qual o expressionismo substitui a evoluo simblica, 
sobretudo visvel na passagem da arte romnica para a arte
gtica. A arte romnica  uma arte "indirecta", toda de
evocao simblica, face  arte gtica to "directa", da qual
o "trompe-l'oeil" flamejante e renascentista ser o
prolongamento natural (...) Enquanto que o estilo romnico,
embora com menos continuidade do que Bizncio, mantm uma arte
icnica que assenta no princpio teofnico de uma angeologia,
a arte gtica aparece como um procedimento que a torna o
prottipo do iconoclasmo por excesso: ela acentua a tal ponto
o significante que este passa de cone a imagem naturalista
perdendo o seu sentido sagrado e tornando-se simples ornamento
realista, simples "objecto artstico" (...). Desde o sculo
XIII, as artes e a conscincia j no se propem reconduzir  a
um sentido, mas sim "copiar a natureza".  O conceptualismo
gtico pretende ser um decalque realista das coisas tais como
so+ 1 . 

     Ora, em absoluto, "copiar a natureza" s era possvel a
partir efectivamente do sculo XV com a perspectiva
artificialis.  Digamos pois que j antes do Conclio de Trento
se nota, como diria Bazin, que a pintura ocidental "comeou a
despreocupar-se da expresso de uma realidade espiritual com
meios autnomos, para tender para a imitao mais ou menos
completa do mundo exterior 2 .
      isso que vamos encontrar em Huizinga quando ele se
refere ao "predomnio do sentido da vista" no declnio da
Idade Mdia.  A residia segundo ele, a razo da progressiva
iconolatria medieval. 
     Novalis, por outro lado, dizia: 2La pense et le voir se
ressemblent. La facult de pressentir l'avenir et de rappeler
le pass ont des rappports avec la facult de voir loin+. E
outro estudioso da Antiguidade, Jean Franklim,  no seu livro
Le Discours du Pouvoir, afirmava: 2La lumire qu'il (le
soleil) dispense sur les objets de la connaissance signifie la
vrit.  Le sujet connaissant quivalent  un sujet voyant,
l'organe de la connaissance est donn pour organe de la vue,
la facult de la vue pour facult de la raison (l'oeil ou
l'me), l'exercice de la vue pour l'exercice de la raison(...
) l'aptitude  conna-tre c'est l'aptitude  voir+ 3 . 
     Mais para alm do livro, as imagens medievais finais, os
vitrais, so os livros dos iletrados como dizia um cronista da
Renascena.  A potica transcendente de que falava Durand
havia j terminado. O novo modo de representao, isto , o
regime analgico, emerge do prprio aristotelismo: 2A potica
de Aristteles, que ser a Bblia da esttica ocidental at ao
romantismo, repousa essencialmente sobre a noo de imitao. 
A imitao no  mais do que a extrema degradao da
redundncia 1.+
     A questo da pertinncia do estudo da perspectiva como
forma simblica explicou-a Marisa Dalai Emiliani no prefcio
que escreveu para a j citada obra de Panofsky: 2A chaque
priode artistique,  travers la structure gomtrique de
l'espace figuratif - qu'elle soit identifie avec les
coordonnes euclidiennes du Quattrocento ou avec les rapports
topologiques lmentaires prdominants dans l'art actuel - les
schmas et les catgories de pense, les degrs fondamenteaux
de la connaissance qui caractrisent la vie d'une socit 
une poque dtermine, trouveraient leur expression+ 2. 
     Importa no entanto dessacralizar o mito da origem da
perspectiva na Renascena.  Panofsky j havia dito que o seu
trabalho sobre a perspectiva tratava exactamente do quase
atravs do qual Ernst Gager separava a Antiguidade e o
Renascimento: 2L'Antiquit a connu le vritable espace,
presque  l'gal de la Renaissance+ 3 .  E no  de facto por
acaso que o "homem como medida de todas as coisas" no  um
conceito renascentista mas sim antigo, concretamente de
Protgoras.  Este parece-nos ser um indcio de uma importante
questo epistemolgica.  No fundo no h um Renascimento, h
renascimentos ...
     Ou seja, poder-se-ia dizer que h como que uma constante
imanente  'arqueologia' de estruturas histrico-culturais,
sejam elas por exemplo a moral sexual, a estrutura geomtrica
do espao figurativo  ou a linguagem: 2(...) il ne faut pas
conclure (dizia Foucault relativamente  moral sexual) que la
morale chrtienne du sexe tait en quelque sorte 'pr forme'

dans la pense ancienne; il faut plut&t concevoir que trs
t&t, dans la rflexion morale de l'Antiquit, s'est forme une
thmatique - une 'quadri-thmatique' - de l'austrit
sexuelle, autour et  propos de la vie du corps, de
l'institution du marriage, des relations entre hommes, et de
l'existence de sagesse.  Et cette thmatique,  travers des
institutions, des ensembles de prceptes, des rfrences
thoriques extrmement diverses, et en dpis de beaucoup de
remaniements a gard a travers le temps, une certaine
constance+ 1 .
     De facto poder-se-ia dizer por exemplo que a ptica do
mundo greco-romano era j dominada pelo desenvolvimento dos
fundamentos da geometria euclideana (que tinha emergido
exactamente em funo do alfabeto fontico) e da
"perspectiva", bem como das leis da reflexo em espelhos
planos e esfricos, de algumas premissas da lei da refraco e
do percurso ptico 2 .
     Ora, o que importa sobretudo reter  que no estamos de
facto perante um sistema rgido, fundado no Renascimento, mas
antes perante um elemento estilstico susceptvel de ser
continuamente reelaborado e reinterpretado nas diversas pocas
ou regies da arte 3 .  Veremos que o mesmo acontece com o
dispositivo histrico-cultural de dominao. 
     A perspectiva artificialis, propriamente dita,
interessa-nos  sobretudo porque  a partir dela que se poder
justificar a transformao da espacialidade no Renascimento:
2(...) Envisageant ainsi la perspective et la reprsentation
de l'espace comme la manifestation concrte d'un tat
spcifique de la civilisation, j'ai t amen  me demander si
la fortune du systme plastique labor par le Quattrocento
n'tait pas aussi bien lie au dclin d'une certaine forme
matrielle et intelectuelle de l'activit des hommes qu'a son
apparition.  J'ai t aussi amen  concevoir une
dmonstration en partie double: naissance et dclin d'un
espace plastique li  la naissance et au dclin d'un tat de
civilisation (...). Contrairement  Wolfflin qui tend 
considrer la fonction visuelle indpendemment des autres
fonctions intelectuelles, je crois qu'il est ncessaire de
l'tudier par rapport  l'activit totale de l'homme  une
poque donne+ 4 .
     Alis, essa descontinuidade operada na espacialidade
renascentista havia  sido referida por Cassirer como sendo a
ruptura estabelecida entre o espao psico-fisiolgico, da
percepo sensvel (que no conhecia, por exemplo, a noo de
infinito) e o espao matemtico estruturado em termos de
infinito, continuidade e homogeneidade; ou, como referiria
tambm Panofsky, baseando-se em Cassirer: 2Alors que la
fonction de la perspective de la Renaissance pourrait se
comparer  celle du criticisme, on pourrait mettre en
parallle la fonction de la perspective romano-hellnistique
et celle du scepticisme.  En fait, on avait russi a oprer la
transposition de l'espace psychophysiologique en espace
mathmatique, en d'autres termes, l'objectivation du
subjectif+ 1.
     Esta objectivao do subjectivo  sobretudo uma
objectivao do olhar.  O "olho-sujeito"  j de facto uma
concepo da Renascena, em antecipao clara  analogia que
Descartes fazia em La Dioptrique entre o olho e a cmara

obscura, que mais tarde ir produzir uma imagem anloga  do
campo perspectivo renascentista, recolocando-se por isso, por
excelncia, no lugar do sujeito, no lugar produtor de sentido,
um espao que se funda - e se centra - agora, no olhar.
     Tambm aqui, e retomando em parte o que j foi dito, a
concepo do espao que est na base da perspectiva
renascentista difere obviamente da dos Gregos.  Para estes,
como refere Jean-Louis Baudry, o espao  descontnuo e
heterogneo (em Aristteles, mas tambm em Demcrito, onde o
espao  o lugar de uma infinidade de tomos indivisveis)
enquanto que em Nicolas de Cues vai nascer uma concepo do
espao formado pela relao entre elementos que se encontram
igualmente vizinhos e afastados da "fonte de toda a vida". 
Por outro lado, a construo pictural dos Gregos teria
respondido  organizao da cena fundada sobre a
multiplicidade dos pontos de vista (tal como surgir, no
teatro, a cena politpica antiga e medieval), enquanto que a
pintura da Renascena vai elaborar um espao centrado (2A
pintura no  mais do que a interseco da pirmide visvel
seguindo uma distncia dada, um centro fixo e uma determinada
luz+ - Alberti) em que o centro coincide com o olho que ser
justamente chamado por Jean Plerin Viator (De Artificialis
Perspectiva, 1505) de "sujeito" 2 .
     Nas vias abertas por Jean Duvignaud para uma antropologia
do imaginrio 3 baseada nos lugares do espao, nas suas formas
e nos seus discursos - das muralhas que o burgo destri ao
espao huis-clos do teatro -  muito claramente definido o
lugar da imagem do homem na variabilidade das concepes do
espao.  Duvignaud exemplifica tambm os dois principais
espaos do imaginrio com duas figuras que denotam formas
opostas de representao do homem: uma, atribuda a Villard de
Honnecourt (sc. XIII)  exactamente o prolongamento medieval
do descontnuo grego, espao de disseminao da figura, espao
descentrado, portanto.  Trata-se de facto de um conjunto de
esquematizaes geomtricas que compem figuras humanas e onde
a lei  a da disperso das linhas.  Nada pressupe o ponto
focal exclusivo, nada pressupe to pouco a perspectiva.  A
este propsito Duvignaud cita Baltrusaitis (La stylistique
ornamentale dans la sculpture romane): 2Il existe un 'dessous'
ornamental de cette figuration plastique, et ce dessous est
sans doute plus qu'une infrastructure: il rappele la nature et
les figures dissmines dans une tendue nomade, en tout cas
une varit d'espaces juxtaposs et que ne coordonne pas un
espace de pouvoir ou du sacr, un espace unique+ 1 .
     O ltimo dos "nmadas"  Bosch, como referiu Certeau 2 . 
No oposto de Bosch e Honnecourt est, porm, o
homem-microcosmo de Vitrvio, amplamente redifundido por
Leonardo, Alberti, Vasari, etc.  Aqui, o homem  j
verdadeiramente o "centro do mundo", para ele convergem linhas
de fuga, dele parte o ponto focal, o corpo  aqui a metfora
do humanismo.
     Por um lado, pois, a pluralidade de lugares, a
disseminao do espao; por outro, o seu reajustamento
centrado, habitado por um s corpo, ele prprio centro do
cosmos.
     No  s, no entanto, a concepo do espao que muda
radicalmente.  H um imenso movimento de descontextualizao a
atingir a Europa nos sculos XV/XVI.  2Tudo sofre uma

reviravolta:   o tempo liberta-se pouco a pouco das redes
simblicas e, deixando de se medir pela vida humana, e pelos
ciclos astrais, tende a tornar-se a medida de todas as coisas. 
Agora  o espao que ser medido pelo tempo.  A geometria
torna-se a linguagem da nova temporalidade objectiva,
simultaneamente o seu critrio e a sua expresso; da em
diante todo o espao se prende nela.  A verdade do corpo,
dizem os primeiros tericos da perspectiva como Alberti,
retomado por Leonardo, est na geometria.  O sentido da
representao depende da sua fidelidade ao real e ela depende
da geometria.  J no  o sentido da imagem representada que
d o seu valor ao espao que o envolve, como na iconografia
medieval mas o contrrio+  3 .
     Simultaneamente, duas mediaes temporais opostas - e
complementares - esto em confronto: o Livro de Horas e o
relgio - a nova mquina medidora e quantificadora do tempo
homogneo.  E no  por acaso, como bem notou Clara Meneres em
L' horloge et le concept de temps en Occident 4 , que os
Livros de Horas "degeneram" no final do sculo XVI,
exactamente na altura em que surge Coprnico e as concepes
cosmolgicas se renovam: 2 partir de ce sicle, l'esprit
europen adopte la pense scientifique et sa mthodologie.  Le
quantitatif prend le dessous sur le qualitatif et
l'analogique.  Le temps cesse d'tre sacr pour devenir
exclusivement astronomique, voire scientifique.  Et de ce
fait, il n'est plus ncessaire d' exorciser la dure par des
prires rituelles  chaque nouvelle heure+.
     Com o Renascimento, o espao deixa de dominar para ser
dominado; a prpria espacialidade encontra uma lei.  Bruno
Zevi notava que ao nvel da arquitectura, com Brunelleschi,
pela primeira vez, o edifcio deixava de possuir o homem, para
ser este, aprendendo a lei simples do espao, a possuir o
segredo do edifcio 1 .
     Dominado o espao, emergem as figuras de fico e a
representao imaginria.  E a esfera pblica burguesa.   o
reino, por excelncia, do voyeur.  Dominando o espao, o homem
deixa dominar-se por ele.  Era exactamente isso que anunciavam
as esttuas das catedrais gticas que continham j a esfera
espacial que as "fechava".  A prpria imagem do homem muda com
a concentrao no espao fechado que  a cidade - a
ville-machine, ou a ville-matrice de Duvignaud: 2Cette machine
ne tourne pas a vide.  De tout cela, de ces fragments de
nature ou de matire, la ville fait autre chose, qui n'est
plus la chose, mais la dtourne vers un signe.  Et de ce
dtournement, la ville construit d'innombrables signes ou
mtaphores.  Elle est une machine  transformar la matire en
symboles.  L'homme qui l'habite se nourit lui-mme de ces
symboles, loigne le dsir ou la mort, efface la panique d'un
tte  tte avec le cosmos, et trouve dans le discours
abstrait le centre de gravit de son existence+ 2 .
     Espaos nmadas e espaos centrados, voltamos a
encontr-los respectivamente com as sacre representazione e os
"mistrios" politpicos medievais, e com a matriz de toda a
representao - o espao fechado da cena  italiana, que vem
acentuar, de facto, a tentao do Prncipe - propondo-lhe uma
viso do mundo que lhe restituir a soberania procurada, se
bem que ainda como utopia.
     O campo visual autonomiza-se, portanto.  Isso explicar

teses como as de Huizinga e Elias: 2L'orientation du mouvement
de civilisation vers une 'privatisation' sans cesse plus
prononce et plus complte de toutes les fonctions
corporelles, vers leur dplacement hors du champ visuel de la
socit+ 3 .
     Nesse sentido, j no final da Idade Mdia, somos
progressivamente confrontados com um controlo das pulses cada
vez mais acentuado; a lei no  tanto o exp&r, mas sim o
esconder.  Lembremos por exemplo, as relaes extra-conjugais
do homem e a evoluo do casamento no Ocidente: apesar das
presses da Igreja a monogamia s se institucionaliza, de
facto, de uma forma obrigatria para os dois sexos, a partir
do Conclio de Trento, no sculo XVI (1545-63).  At ento 
vulgar nas famlias burguesas filhos bastardos serem criados e
educados juntamente com os legtimos, embora com direitos
diferentes.  Esconder, dissimular,  ainda a lei que prevalece
sobre a "ingenuidade", a nudez medieval: a toilette de noite
aparece sensivelmente ao mesmo tempo do leno, do guardanapo,
do garfo.  Com o olhar vem o pudor.  Ao rosto, sobrepe-se a
mscara.
     Veja-se por exemplo Erasmo em A Civilidade Pueril: 2
indigno de um homem bem educado descobrir, sem necessidade, as
partes do corpo que o pudor natural leva a esconder.  Quando a
necessidade nos forar a faz-lo, devemos dar mostras de um
decente recato - ainda que ningum nos observe.  No h lugar
onde os anjos no se encontrem!  E o que mais lhes apraz numa
criana  o pudor - companheiro e vigilante dos bons costumes. 
Por outro lado, se a decncia nos ordena que escondamos essas
partes dos olhares dos outros, menos ainda as devemos tocar
com as mos+ 1 .
     Esta ordem do olhar, ordem disciplinar do olhar, funda,
por si s, o incio de todo um processo de dominao e
normativizao do social a partir, portanto, do final da Idade
Mdia.  A se encontrar, pois, um dos ndices mais
importantes da constituio, ou melhor, da redefinio, do
dispositivo histrico-cultural de dominao na emergncia da
modernidade.  Veja-se, por exemplo, um dos casos limite, o do
dispositivo disciplinar - o panopticon de Jeremy Bentham.
     Algo mais suave no seu dispositivo, mas ditado, de certa
maneira, pelos mesmos motivos, so de facto os manuais de boas
maneiras dos sculos XV-XVI, entre os quais est o j citado
livro de Erasmo publicado em 1530.
     Tratava-se fundamentalmente, nesta literatura de
civilidade, de prescrever normas de conduta, padres de
comportamento, corrigir gestos, se bem que nessa altura, como
notou Philippe Aris, ainda se no falasse em civilidade ou
decoro, mas em cortesia: 2No sculo XV estes manuscritos de
cortesia so o equivalente, para o modo como se conduzir, das
relaes de costumes do direito; no sculo XVI constituem
relaes de regras costumeiras de comportamento ('Cdigos de
comportamento') que definiam como cada um se devia comportar
nas diversas circunstncias da vida quotidiana+ 1 .  O facto 
que a vulgarizao desta literatura - e nomeadamente do livro
de Erasmo foi de tal modo importante que de um indivduo que
cometesse uma qualquer grosseria, se dizia ento - 2No leu a
Civilidade Pueril!+...
     A mscara interpe-se exactamente ao olhar: 2L'oeil est
au service d'une dcouverte du monde: c'est la pointe avance

d'une 'curiosit' encyclopdique qui, au XVI sicle, 'entasse
frntiquement' les matriaux et pose ainsi les fondements de
la science moderne.  Le rare, l'trange, le singulier - objets
dj collectionns par l'attention mdivale - sont saisis
dans la 'ferveur' d'une ambition: 'que rien ne demeure pour
l'homme tranger et que tout lui devienne servi teur'
(Alphonse Dupront, Espace et Humanisme).  Il y a un 'vertige
de curiosit', qui orchestre alors le dveloppement de toutes
les 'sciences curieuses' ou 'sciences occultes'.  L'ivresse de
savoir et le plaisir de voir pntrent l'obscur et dplient
l'intriorit des corps en surfaces offertes  l'oeil (...)
Cette curiosit conqurente et jouissante, occupe  dvoiler
le cach, a son symbole dans les rcits de voyage avec le face
 face du dcouvreur, vtu, arm, crois, et de l'Indienne
nue'+ 2 . 2(...) Le corps du monde devient une surface offerte
aux inquisitions de la curiosit.  A l'poque, il en va de
mme pour le corps de la ville et celui du malade, mus en
espaces lisibles.  Par les 'petits pertuis' d' expriences
sucessives, le voile traditionnel qui cachait l'opacit des
choses se dchire et permet de reconna-tre la terre
oculairement+ 3 .
     Para trs ficavam os banhos pblicos medievais,
frequentados inclusive pelas religiosas.  Para trs ficava a
alegria de ter uma 'alma' no corpo,... a alegria de ser - que
Drieu la Rochelle referiu; E do mesmo modo que Foucault havia
referido na Histoire de la Folie, tambm Michel de Certeau
considera em La Fable Mystique que 2face  Ia rationalit
bourgeoise montante, se dressent les modles d'une folie
(l'idiot, Ia femme, l'enfant, le sauvage)+.  Origem de toda
esta inverso: o "olho-sujeito" que transforma a terra-me em
terra-objecto. Foucault chamava o "grand renfermement" da
loucura s diferentes reaces suscitadas pela presena do
louco na Idade Mdia e na Idade Clssica: 2(...) Si le fou
apparaissait familirement dans le paysage humain du Moyen
Age, c'tait en venant d'autre monde.  Maintenant, il va se
dtacher sur fond d'un problme de police, concernant l'ordre
des individus dans la cit.  On l'accueillait autrefois parce
qu'il venait d'ailleurs; on va l'exclure maintenant parce
qu'il vient d'ici mme, et qu'il prend rang parmi les pauvres,
les misreaux, les vagabonds.  L'hospitalit qui l'accueille
va devenir, dans une nouvelle quivoque, la mesure
d'assainissement qui le met hors circuit.  Il erre, en effet;
mais il n'est plus sur le chemin d'un trange plerinage; il
trouble l'ordonnance de l'espace social.  Dchue des droits de
la misre et dpouille de sa gloire, la folie, avec la
pauvret de l'oisivet, appara-t dsormais, tout schement,
dans Ia dialectique immanente des tats. (...) L'internement
se fait massif (...) 1 . (...) Le classicisme a invent
l'internement, un peu comme le Moyen Age la sgrgation des
lpreux+ 2 .
     Compreende-se assim que Artaud tenha dito, por outras
palavras, o mesmo que Clavel haveria de dizer de Foucault e da
sua Histoire de la Folie, quando o acusou de ter sido o grande
destruidor do Iluminismo.  Artaud referia-se concretamente 
Renascena e dizia o seguinte: 2Avec une ralit qui avait ses
lois surhumaines peut-tre, mais naturelles, la Renaissance du
XVI sicle a rompu; et l'humanisme de Ia Renaissance ne fut
pas un agrandissement, mais une diminution de l'homme+ 3 .

     A loucura, a homossexualidade, a prostituio compem a
excluso-espectculo em que se transforma o "grand
renfermement" no final da Renascena. 2Le corps devient un
tableau lisible et donc traduisible en ce qui peut s'crire
dans un espace de langage.  Grce au dpliement du corps
devant le regard, ce qui en est vu et ce qui en est su peuvent
se superposer ou s'changer (se traduire).  Le corps est un
chiffre en attente de dcryptage.  Ce qui du XVII au XVIII
sicle rend possible la convertibilit du corps su, ou de
l'organisation spatiale du corps en organisation smantique
d'un vocabulaire - et inversement -, c'est la transformation
du corps en tendue, en intriorit ouverte comme un livre, un
cadavre muet offert au regard  4.+
     Sob o olhar-sujeito a loucura constitui-se assim em
rejeio, j que ela prpria era uma paradoxal manifestao do
no-ser, do nada.  No espanta, pois, que meses aps ter sido
publicado o decreto de fundao, em Paris (1656), do Hospital
Geral, um em cada cem parisienses tenha sido internado.  A
esfera pblica burguesa estava assim mais tranquila.  Os
corpos visveis so ento os da Razo.  De facto, com
Descartes a loucura  exlio: o sujeito que pensa no pode ser
louco, no duvida do seu prprio corpo nem dos sentidos... Com
Descartes a viso geomtrica e mecnica do espao
renascentista  retomada como o nico espao cientfico, o
reino do algarismo matemtico.
     Se Bizncio foi iconoclasta, se procedeu a uma verdadeira
extino simblica, o Ocidente no o foi menos.  o caso do
sculo XVII, e concretamente do cartesianismo, que vem de
facto assegurar o triunfo de um novo iconoclasmo, baseado no
triunfo do "signo" sobre o smbolo operando a uma 2reduo do
ser  teia de relaes objectivas que dele resultou,
liquidando no significante tudo o que era sentido figurado+,
como referiu Durand. 2Um iconoclasmo to radical no se
desenvolveu sem graves repercusses na imagem artstica
pintada ou esculpida.  O papel cultural da imagem pintada foi
extremamente minimizado num universo em que  dirio o triunfo
do poder pragmtico do signo.  At mesmo Pascal afirma o seu
desprezo pela pintura, prefaciando assim o abandono social a
que ser votado 'o artista' pelo consenso ocidental, inclusive
durante a revolta artstica do romantismo.  O artista, como o
cone, j no tem lugar numa sociedade que pouco a pouco
eliminou a funo essencial da imagem simblica+.  Assim, e
ainda segundo Durand 2a virtude essencial do smbolo  a de
assegurar no seio do mistrio pessoal a prpria presena da
transcendncia e no esclerosar-se em dogma e em sintaxe+ 1 .
     De certo modo era isso que tienne Gilson queria dizer
quando definia a pintura de Giotto at Czanne como a
representao de coisas.  A partir de Czanne poder-se- dizer
que Durand e Lvi-Strauss esto em sintonia: a arte continua a
no encontrar sada para a "possessividade", isto , continua
a ter um carcter sobretudo representativo, distanciando-se
por isso de um excesso de significao, ainda que tenham
havido ameaas de ruptura com o impressionismo, o cubismo, a
arte abstracta, sem contudo conseguirem aquilo a que
Lvi-Strauss chamava o excs d'objet da arte primitiva, e
entrando numa era apictural ou na era do "academismo do
significante" por oposio  fase pr-impressionista do
"academismo do significado"  2 .

      ainda o iconoclasmo que est presente na derradeira
etapa da extino progressiva do poder humano de se relacionar
com a transcendncia, do poder de mediao natural do smbolo.
A mimesis continuar a reinar, provavelmente toda-poderosa, no
campo representativo.  Parafraseando Alberto Pimenta: 2A
histria da cultura  a histria da superioridade do ssia
sobre o original, do smbolo sobre a coisa representada+ 1 . 
Derrida diria, que toda a histria da filosofia ocidental era
uma fotologia. 
     Foucault  tambm sensvel a toda esta questo: 2O incio
do sculo XVII  o tempo privilegiado do 'trompe-l'oeil', da
iluso cmica, do teatro que se desdobra e representa no seu
interior outro teatro, do quiproqu, das fantasias e vises; 
o tempo dos sentidos enganadores;  o tempo em que as
metforas, as comparaes e as alegorias definem o espao
potico da linguagem.  E exactamente por isso deixa o saber do
sculo XVI a lembrana deformada de um conhecimento misto e
sem regras em que todas as coisas do mundo podiam aproximar-se
ao acaso das experincias, das tradies ou das
(in)credulidades. Doravante, as belas figuras rigorosas e
constringentes da similitude vo ser esquecidas 2 +. Como
refere Foucault 3 : 2 (...) At ao sculo XVI o signo
significa namedida em que revela semelhana com aquilo que
indica (...). A partir do sculo XVII perguntar-se- como 
que um signo pode estar ligado quilo que significa. A tal
pergunta a idade clssica responder pela anlise da
representao; e por sua vez o pensamento moderno pela anlise
do sentido e da significao+. 
     Digamos que , no fundo, o prolongamento do mito grego de
Narciso que subjaz a todas estas prticas do olhar e, enfim,
do olhar-se.














 
     IV.2.   A origem da tipografia e da esfera pblica
burguesa


*//*
               D.Quixote l o mundo para demonstrar os livros
(...).  o 
               jogador desregrado do Mesmo e do Outro.  Toma
as coisas por aquilo     
               que elas no so, e as pessoas umas pelas
outras (...).  a primeira
               das obras modernas pois nela se v a razo

cruel das identidades
               e das diferenas zombar incessantemente      
dos signos               
               e similitudes (...).
                                   Michel Foucault 



     Origem, e no tanto gnese, ou genealogia, exactamente no
sentido em que Walter Benjamim definia o "vir-a-ser" do
objecto histrico, esse salto em direco ao novo objecto, em
direco ao que emerge do prprio inacabamento da histria
fragmentria, objecto em devir, no qual residem as figuras do
descontnuo na histria.
     Digamos que ser desse modo que melhor se poder definir,
na abordagem do universo ps-tipogrfico, questes sobretudo
relacionadas com a teoria do espao pblico onde, vimos j, um
dos aspectos fundamentais a destacar neste perodo de
transio da Renascena para a Idade Clssica  exactamente o
da instaurao de uma ordem disciplinar do olhar, constitutiva
do dispositivo historico-cultural que caracteriza o universo
tipogrfico.
     Nesta passagem  reside algo de fundamental para a
caracterizao da episteme clssica, no que concerne
concretamente  emergncia da tipografia e, enfim, da esfera
pblica burguesa. Vejamos ento, ainda que, de incio, numa
abordagem genealgica, como se processou a transio do
universo pr-tipogrfico para a chamada galxia Gutenberg.
     Com a total desarticulao do Imprio Romano e o
progressivo alargamento do poder brbaro a todas as regies
que anteriormente estavam sob domnio romano verifica-se em
toda a Europa meridional uma situao de profunda recesso
global, conhecendo-se hoje, da fase pr-gutenberguiana, 
essencialmente obras copiadas  pelos monges beneditinos a
partir de textos fundamentais do cristianismo, alguns mesmo da
cultura antiga e, muito em particula, a Bblia. A Igreja
torna-se, alis, a verdadeira continuadora do Imprio,
conseguindo a unidade religiosa possvel para a Europa.
     Durante este perodo de desagregao social, poltica e
cultural,  a nica fora que permaneceu viva, como defendeu
Regine Pernoud, foi precisamente o ncleo familiar, o que se
viria a traduzir efectivamente numa preponderncia muito
marcada, na poca medieval, da vida privada sobre a vida
pblica, aspecto a ter obviamente em conta na caracterizao
da genealogia da esfera pblica burguesa.  De facto,
poder-se- dizer que as duas grandes instituies que
legitimam de igual modo uma hipottica identidade europeia
latente perante o caos brbaro so, portanto, por um lado a
famlia e, por outro, a Igreja.  Acima delas, a
transcendncia.
     Poder-se-ia dizer em relao a este perodo, que o
universo pr-tipogrfico  fundamentalmente marcado, por um
lado, pela constante transcendental, teocntrica, e, por outro
lado, pelo progressivo desenvolvimento - e aproximao - de
dois trfegos distintos: o trfego da mercadoria e o trfego
da notcia.  E a verdade  que com a civilizao do livro tudo
iria mudar ...
      pois no contexto da sociedade pr-capitalista emergente

nos finais da Idade Mdia que surge esse trfico paralelo onde
mercadoria e notcia se complementam, para empregar uma
expresso de Habermas  1 2(...) Los clculos del comerciante
orientado en el mercado necesitaban, como consecuencia de la
extensin del comercio, de informacin ms frequente y ms
exacta sobre hechos y antecedentes especialmente lejanos.  Por
eso, desde el siglo XIV el viejo trfico epistolar del
comerciante da lugar a una especie de sistema profesional de
correspondncia.  Los primeros trajectos de los emisarios, de
los llamados correos ordinrios - que partan en determinadas
fechas -, fueron organizados por los comerciantes de acuerdo
con sus proprios fines.  Las grandes ciudades comerciales son
al mismo tiempo centros de trfico de noticias, cuya
permanencia se hizo urgente en la medida en que el trfico de
mercancias y de papeles-valor se hizo tambin permanente. 
Casi al mismo tiempo que surgen las bolsas,
institucionalizaron el correo y la prensa los contactos y la
comunicacin duraderos.+
     Por seu lado, McLuhan ao tentar definir a prpria
estrutura historico-cultural da emergncia da tipografia
f-lo, reconhecendo, nomeadamente, o primado da visualidade
sobre o audiotctil caracterstico das sociedades orais e
inclusive do perodo medieval, mas apontando tambm que 
nesse contexto que se verifica, em simultneo, o despontar das
economias nacionais e dos governos centralizados dos Estados
europeus emergentes, que se reviam, por assim dizer, na
proposta do carismtico condottiero, do Prncipe, de
Maquiavel, o qual havia sido, no fundo, o resultado de uma
concepo poltica de Estado unitrio um pouco  imagem - e
pela evocao - do passado grandioso da Roma imperial.
     A este processo no  estranha, ainda, a questo da
emergncia das lnguas vernculas.  A conquista romana havia
divulgado por toda a Europa meridional o latim.  De facto, se
as estradas romanas haviam sido as estradas do papel, elas
haviam sido tambm as estradas do latim, lngua que era, mais
do que um trao-de-unio, um latim de casta, instrumento
efectivamente mais de dominao do que de comunicao 2.
     Essa homogeneidade quebrar-se- inevitavelmente com as
sucessivas invases de que a Europa meridional  alvo. A pouco
e pouco a especificidade dos dialectos locais tende a retomar
o lugar outrora ocupado pelos latinismos.  No  de admirar
que as primeiras regies a afirmarem o seu prprio vernculo
fossem as dos dialectos germnicos, pouco atingidos pela
romanizao.  2On peut estimer que les clivages qui se
manifestrent en cette occasion eurent des consquences trs
durables sur l'attitude des populations europennes, en
pnalisant celles qui restrent le plus longtemps lies  une
culture latine qui ne leur tait dsormais plus accessible que
par l'intermdiaire des clercs.  Peut-tre mme peut-on voir
l l'une des raisons profondes du partage historique de
l'Europe entre un Nord plus t&t alphabtis et conquis par la
Rforme, et un Sud plus latinis, qui restera fidle au
catholicisme+ 3 . 
     O processo de radicao das lnguas vernculas  alis
extremamente lento.  Poder-se- dizer que s no sculo XVII
estabilizam definitivamente.  Nas igrejas, porm, o latim
continua distante desse processo de laicizao, e s as
abandonar j em pleno sculo XX, aps o Conclio Vaticano II

- no por ele, mas antes pela entrada do microfone nas
igrejas, como bem notou McLuhan 4... Alis, e para retomar
agora a questo do dispositivo de dominao ps-medieval,
McLuhan refere que a tipografia, ao estimular e promover os
nacionalismos o faz precisamente na medida em que transforma
as lnguas vernculas em meios de comunicao de massa 5 : 2Se
a palavra impressa transformou as lnguas vernculas em meios
de comunicao de massa, elas, por sua vez, constituram-se em
instrumentos de autoridade governamental centralizada,
infinitamente mais poderosos do que todos aqueles que os
romanos haviam conhecido, como o papiro, o alfabeto e as
estradas pavimentadas+.
      pois dentro desta ordem politico-cultural,  em plena
fase mercantil do capitalismo, que se desenvolver o segundo
elemento constitutivo desse trfico prematuramente
capitalista, isto , a imprensa.
     Ora, como bem viu Michel Foucault, no mercantilismo as
relaes entre riqueza e moeda estabelecem-se na circulao e
na troca, e no j na preciosidade do metal.  Mas assim como
se procede a uma desqualificao do metal, procede-se  a uma
sobrevalorizao da notcia: 2El trfico de noticias mismas se
han convertido en mercancas.  La informacin periodstica
profesional obedece, por tanto, a las mismas leyes del
mercado, a cuyo surgimiento debe ella su propia existencial+ 6
.
     No se pode pois desligar a emergncia da tipografia da
prpria emergncia da sociedade burguesa nos seus eixos
econmico e cultural - fundamentalmente esses.
     Quer, de facto, como vimos, a transio do feudalismo
para um pr-capitalismo mercantilista na sua vertente
econmica - criao das feiras, de novos mercados, de bancos,
actividade seguradora, etc. (com tudo o que essa transio
implicava ao nvel da interaco entre um trfico das
mercadorias e um, por assim dizer, essencial trfego da
informao), quer, por outro lado, a prpria emergncia das
Universidades, que exigiam uma produo de textos seriada, 
qual as peaciae j no podiam responder, ambas as vertentes -
econmica e cultural, foram assim decisivas para a prpria
emergncia dos caracteres mveis metlicos da prensa de um
ex-ourives de seu nome Joahnnes Gutenberg.
     Michel de Certeau j havia referido que a distncia entre
a Idade Mdia e o Renascimento poderia mesmo ser nomeada por
aquilo que separa o copista antigo do tradutor moderno: na
verdade, com a tipografia, o trabalho de reposio de toda uma
cultura antiga cede progressivamente ao trabalho de traduo
de todo um saber clssico.  As universidades esto obviamente
no cerne dessa ruptura.
     Olhemos um pouco para trs, vejamos o que se passava com
os manuscritos.  Digamos que os sculos de ouro do manuscrito
so concretamente os sculos XIII, XIV e XV.  At ao sculo
XII temos essencialmente uma dominante monstica, de
restabelecimento de todo um acervo da Antiguidade; a partir do
sculo XII, com a emergncia das universidades e o
desenvolvimento da instruo laica, enfim, com o despontar da
nova classe burguesa (legistas, conselheiros, altos
funcionrios, mercadores) assiste-se fundamentalmente 
configurao de um perodo laico, tendo por centro intelectual
a prpria universidade, a partir da qual, atravs do novo

sistema de produo artesanal em cadernos, se atingiu,
digamos, um activo comrcio de livros manuscritos, muitas
vezes manuscritos por vrios copistas - cada um com o seu
peaciae.  
     Em paralelo com este novo regime de produo 
fundamental referir a introduo da indstria do papel na
Europa: o pergaminho  progressivamente substitudo, embora o
papel no trouxesse grandes vantagens a no ser ao nvel da
produo - que poderia ser praticamente ilimitada; mas era
mais frgil, mais poroso  tinta, pior para a iluminura, por
exemplo.
     Nasce, portanto, como vimos, um novo pblico de leitores,
exterior  vida religiosa, e, em simultneo, em cada centro
universitrio, uma autntica corporao de profissionais do
livro, desde o copista laico ao organizador de bibliotecas.
     A produo de cpias  ento feita da seguinte maneira:
existe o manuscrito de base - o exemplar - que a universidade
empresta, contra o pagamento de uma taxa, j devidamente
corrigido e revisto aps cada nova utilizao; no entanto, no
se trata do emprstimo da obra na sua totalidade mas sim por
cadernos separados - o que permitia obviamente uma circulao
maior do que um s exemplar.  Eram estes cadernos que recebiam
a designao de peaciae.
     Ainda que, por exemplo, em Paris, este sistema vigorasse
no final da Idade Mdia, o certo  que as primeiras prensas
parisienses, e de um modo geral todo o perodo que antecede a
imprensa peridica - nomeadamente o perodo dos incunbulos -,
tinham por principal objectivo a reproduo dos clssicos
antigos e no os grandes textos universitrios modernos.  Esta
era alis a tendncia que j se notava no perodo laico dos
manuscritos: mais de dois mil exemplares copiados nos sculos
XIII e XIV de obras de Aristteles chegaram at ns... Mas, de
facto, se essa produo acontecia ao nvel do manuscrito
medieval, ela vai voltar a verificar-se no perodo dos
incunbulos.   medida que nos aproximamos de 1440, o copista
 cada vez mais um produtor de srie.
     No fazia sentido, entretanto, aproximarmo-nos da
inveno da tipografia sem que o papel no viesse em seu
auxlio, transformando-se por excelncia no seu suporte.  A
Europa tinha-o descoberto no sculo XII, atravs dos rabes,
que o tinham trazido da China, onde a xilografia era j
prtica corrente... Nos finais do sculo XIV o papel era j
utilizado de uma forma geral em toda a Europa, tendo comeado
inicialmente por Itlia, depois sul de Frana, Sua, etc.
     Chega pois o ano de 1440.  Segundo as crnicas de Colnia
de 1499 "a admirvel arte da imprensa" tinha nascido em
Mogncia-sobre-o-Reno, na Alemanha, atravs das "formas
frreas" - os caracteres mveis metlicos -, que Gutenberg
havia criado.  Jean Fust, que havia ajudado Gutenberg na sua
investigao, leva-o em 1455 a tribunal pedindo-lhe o capital
emprestado, e dele, Gutenberg, pouco mais se sabe a partir de
ento... Sabe-se no entanto que o primeiro livro impresso - a
Bblia de 42 linhas -  de sua lavra.   conhecida exactamente
como a "Bblia de Gutenberg".
     Fecha-se assim o crculo: tal como Jean Fust, rico
burgus que est por detrs dos trabalhos de Gutenberg, tambm
os primeiros editores foram comerciantes: 2Le bailleur de
fonds - le capitaliste - intervient pour jouer un r&le

essentiel.  C'est lui qui supporte les risques des
enterprises; c'est lui qui se charge d'couler la production,
et c'est bien souvent lui qui choisit les textes  editer. 
Parfois aussi, il est amen  fonder un grand atelier dans
lequel on travaille selon les mthodes de la grande industrie
- et non plus seulement sous simple artisanat+ 7 .
     A partir de ento os textos passam a estar devidamente
normalizados, assinados, apoiados em ndices, colofons, notas,
etc.  H uma clara oposio neste aspecto entre a cultura
tipogrfica e a manuscrita.  Assim, para E. Eisenstein, o
aparecimento do livro separa duas "renascenas" profundamente
diferentes: "Un mouvement littraire et artistique rgional,
italien, encore pris dans les contraintes et les limites de la
culture manuscrite, et qui (contre Burckhardt et surtout
contre Panofsky) n'est pas fondamentalement diffrent des
phmres renaissances carollingiennes ou du XII sicle. 
Puis, aprs l'invention de l'imprimerie, un mouvement europen
qui affecte tous les domaines de la connaissance; le livre ne
lui sert pas seulement de multiplicateur, mais bouleverse les
conditions d'une volution culturelle qu'il roriente en
profondeur.  Alors commence vraiment la modernit+ 8.
     Como prope Elsabeth Eisenstein, a tipografia no marca
apenas uma evoluo, mas sobretudo uma ruptura cultural
profunda da qual resultam consequncias comulativas.  No h
dvida pois que em causa est o repensar de toda a
modernidade, desde a Renascena e Reforma  Revoluo
Cientfica dos sculos XVI-XVII, e enfim, at  Idade
Clssica: "C'est l'imprim qui est au coeur du processus de
modernisation culturelle que connait  l'Europe  partir de la
fin du XV sicle+ 9 .
     Ora, se os manuscritos e os pergaminhos estavam
efectivamente ligados  distribuio feudal dos bens, a
tipografia ver emergir o Estado moderno e um novo pblico
leitor, laico, o qual viria a estar na origem das grandes
mutaes ps-Gutenberg.
     Tal como refere Habermas, na medida em que a imprensa
servia  burguesia dominante para dar a conhecer ordens e
disposies, pela primeira vez os seus destinatrios se
converteram em "pblico".
      alis exactamente a constituio de uma esfera em que
as pessoas privadas se renem na qualidade de pblico, o que,
segundo Habermas, melhor define a emergncia da esfera pblica
burguesa, situando-se assim fundamentalmente nos sculos
XV-XVI a gnese da "publicidade burguesa", a emergncia das
suas redes de sociabilidade e dos seus jogos de teatralidade. 
Poder-se-ia dizer inclusive que a este nvel, Sennett 10 e
Habermas no distariam muito se, por esfera pblica, se
entendesse o 2lugar onde se produzem violaes toleradas da
moral+... Mas a questo  bem mais complexa.  Veremos que num
segundo tempo a prpria definio de esfera pblica se torna
mais problemtica.
     Retomando a questo do "novo pblico" veremos que
Elisabeth Eisenstein introduz um novo elemento concedendo ao
atelier do tipgrafo o estatuto de centro  difusor de ideias,
congregador de gente letrada, lugar de encontro pblico,
esfera de sociabilidade: 2Dans l'Europe dchire du XVI
sicle se constitue ainsi  partir de l'atelier, autour du
livre, une communaut intellectuelle qui va bien au-del de

l'idalisation collective ou de la simple proclamation
d'intention.  Cette premire Rpublique de lettres partage une
mme conception du savoir et du travail; elle a en commun des
enjeux.  En amont comme en aval du livre, nouveau vecteur
culturel, sont ainsi runis les conditions d'une circulation
originale de l'intelligence et du savoir+ 11.  Os prprios
ateliers dos tipgrafos eram uma espcie de velhos cenculos
de gente cultivada onde homens de cincias e letras mantinham
reunies frequentes.  Rabelais chegou a ser o membro mais
ilustre dos cenculos de Lyon, por onde passaram parte das
personalidades de primeiro plano da vida intelectual do tempo. 

     Mas foram os crculos parisienses que desde meados do
sculo XVI, a partir da criao do primeiro crculo literrio,
mais se destacaram.   o caso do crculo dos Morel na
residncia de Jean de Morel, mordomo de Henrique II e
aposentador-mor de Catarina de Mdicis;  o caso tambm do
salo do Palcio de Metz, grande centro de reunies mundanas e
literrias.  Tratava-se portanto aqui da circulao de um
saber diverso do dos antigos oradores das praas pblicas.  
nas ''plateias" de leitores, nos auditrios atomizados, nas
bibliotecas, nos sales, e mais tarde nos cafs, que mergulham
as razes da Razo moderna, e da esfera pblica literria
emergente nos finais do sculo XVII. 
     A ideia de pblico, alis, era j muito clara em pleno
sculo XIV.  Veja-se por exemplo Boccaccio, contemporneo de
Chaucer e de Ferno Lopes: convicto de que s seria lido se
tomasse a iniciativa de difundir ele prprio a sua obra,
escreve vrias cartas ao seu amigo Maghinardo dei Cavalcanti
enviando-lhe um exemplar de luxo, recopiado, de uma das suas
obras mais recentes.  A razo do envio da obra, segundo o
prprio Boccaccio, residiria no facto do seu amigo desfrutar
de excelentes relaes e assim o poder melhor divulgar pelo
pblico (emittat in publicum).  De uma outra vez, ao dedicar o
seu De Claris mulieribus a Andreina Acciagnoli, levanta a
mesma questo: 2Si vous jugez bon de donner  mon livre le
courage de se produire en public (procedendi in publicum), une
fois rpandu (emissus) sous vos auspices, il chappera, je
crois, aux insultes des malveillants+ 12.
      portanto este novo pblico laico, culto, que est na
origem  do quadro conceptual do espao pblico habermasiano,
definido como o lugar onde se met-en-scne uma sociedade
fundada sobre a comunicao racional em que o actor , por
assim dizer, um pblico esclarecido, fundador da prpria
esfera pblica literria, anunciadora do iluminismo, e no
propriamente como queria Sennett, o - apenas - "homem pblico"
das condutas vulgares, jogador da teatralidade no espao
social.
     Enquanto que para Habermas a esfera pblica literria
emerge a partir do sculo XVII, em paralelo  corte e contra
ela, estando por isso na base da prpria desintegrao do
Antigo Regime (veja-se, por exemplo, a importncia da imprensa
de opinio em todo esse processo), para Sennett o "homem
pblico" emerge exclusivamente nas sociedades que continham j
em si os germes do declnio do regime absolutista.  Para alm
do desfazamento bvio, na temporalidade, que se verifica entre
os dois autores, uma outra dissimetria se poder notar, em
termos de contedo.  Para Sennett o homem pblico  aquele que

aceita o anonimato ou a impessoalidade da troca social, sendo
o "espao pblico" exactamente o lugar da teatralidade do jogo
social, da mediao simblica do relacionamento social, onde
se comunica de forma annima, sem declinar a identidade
pessoal.  Esta concepo no deixa, pois, de ser polmica. 
Para Louis Qur, por exemplo, o interconhecimento, contrrio
ao anonimato, 2no interdita a impessoalidade da mesma forma
que a sociabilidade no exige o anonimato da grande urbe+ 13. 
Mas a crtica mais importante que Qur dirige a Sennett  de
que se verifica em The Fall of Public Man um desconhecimento
latente de que a interaco social se realiza por interposio
do plo fundador dos modelos culturais do campo
comunicacional.
     O espao pblico de Habermas, ao contrrio do de Sennett,
no  o da interaco quotidiana e das condutas vulgares mas 
o da 2instituio+.  Corresponde  emergncia de quadros
institucionais de interaco social.  O que o caracteriza no
 pois tanto o homem pblico - agente da troca simblica, mas
quem incarna o interesse da razo e da emancipao.  De
qualquer modo, reconhecendo que ao espao da instituio
correspondem as estruturas normativas e cognitivas da esfera
da interaco comunicativa, no evidencia, por outro lado, a
dimenso conflitual que o modelo comporta.   exactamente
nesse "desconhecimento" que toma forma a crtica de Louis
Qur: ele aponta a Habermas a subalternizao da dimenso
simblica da instituio, facto que deriva concretamente do
seu modelo jacobinista de criao de um consenso livre de toda
a dominao, imbricado na sua definio de espao pblico, a
saber, o lugar onde emerge um sujeito abstracto, um "actor",
que  o pblico esclarecido a que nos referimos, e no 2os
actores histricos que incarnam o plo do poder e o plo da
discusso crtica+ 14 .
     Se o dispositivo de representao do real, na Idade
Mdia, era o regime analgico, a similitude, onde uma lgica
da revelao, da transparncia, do transcendental, estava na
dependncia directa de uma ressonncia mgica que institua a
unidade das coisas e do mundo, dos discursos e dos objectos, o
dispositivo de representao da Idade Clssica acompanha
necessariamente o processo de laicizao do sujeito histrico,
operando-se, por assim dizer,  prpria laicizao do signo. 
A linguagem torna-se pensamento, opera-se  dissoluo do
vinculo pr-clssico entre a palavra e o mundo.  A linguagem
passa ento a desenvolver-se no interior da representao,
atravs das convenes, de um regime de equivalncia.  Tudo se
passa, alis, como nas relaes entre riqueza e moeda.  Tambm
na linguagem as palavras se confundem, isto , entram num
processo de degradao em relao  sua transparncia
essencial: 2As palavras valem ento mais como signos do que
como marcas (de uma anterioridade)+ 15 .  Ou, como diria
Foucault, se inicialmente a linguagem era um sinal das coisas
absolutamente certo e transparente,  j que se lhes
assemelhava, com a Idade Clssica a palavra perde a sua
natureza divina, inquestionvel, e o seu 'acto de fundao'
deixa de coincidir com o momento da instaurao da verdade.
     Em todo este processo o caracter tipogrfico no deixou
de desempenhar o seu papel, como bem notou Paul Heyer 16 : 2Un
autre lment relatif  l'imprimerie qui eut une influence
directe sur la transformation linguistique qui, chez Foucault,

caractrise l'pistm classique, est la notion que la
tipographie, par son emploi de caractres neutres distinctifs
qui pouvaient tre enfils en des squences significatives, se
trouvait  rvler la nature arbitraire de l'alphabet.  Les
mots pouvaient perdre plus facilement leur pouvoir intrinsque
et tre perus comme de simples outils de reprsentation.  La
technologie - en l'occurrence l'imprimerie en donnait aux mots
une permanence jusqu'alors inconnue (...). C'est l,
peut-tre, ce que laissait entendre Leibniz quand il suggrait
qu'on substituat aux modes tablis d'analyse un alphabet
d'ides.+
     Alis, como vimos, McLuhan defendia que somente com a
experincia da "produo em massa" de tipo exactamente
uniforme e repetvel  que a fisso dos sentidos poderia ter
confinado e a visualidade se evidenciado no domnio da prpria
percepo.  E Deleuze localizava na subordinao da expresso
grfica  fontica, na instaurao do significante desptico,
a emergncia do primeiro fluxo desterritorializado de escrita.
2Na Idade Clssica servir-se de sinais no , como nos sculos
precedentes, tentar encontrar, subjacente a eles, o texto
primitivo de um discurso enunciado e fixado para todo o
sempre, mas tentar descobrir a linguagem arbitrria que
autorizar o desenrolar da natureza no seu espao, os termos
ltimos da sua anlise e as leis da sua composio.  O saber
j no tem de ir arrancar a Palavra aos lugares desconhecidos
onde ela porventura esteja oculta; cumpre-lhe fabricar uma
lngua e fazer com que ela seja perfeita - isto , que sendo
analtica e combinatria, seja realmente a lngua dos
clculos+ 17.
     Classificar , pois, a palavra.  Os sculos XVII e XVIII
introduzem, como vimos, as ordens, as identidades e as
diferenas.  Por aqui se poderia referir as insuficincias do
modelo mcluhaniano, expressas na nossa abordagem da emergncia
da ordem disciplinar do olhar.  Mas por agora importar
sobretudo ir ao encontro das consequncias da prpria
revoluo cientfica dos sculos XVI e XVII (que Elisabeth
Eisenstein havia apontado terem sido j uma consequncia da
tipografia) e, nomeadamente, daquilo que se viria a delinear
como uma "cincia geral da ordem".  Alis, Jack Goody j havia
notado que a introduo da escrita nas civilizaes que
precederam a Renascena, entre outros efeitos, fez despontar
um certo tipo de classificao sistemtica tal como os signos
do Zodaco, por exemplo, ou as tbuas de interpretao dos
signos mgicos do Mdio Oriente, uma vez que a prpria escrita
fornecia  partida os quadros simplificados dos sistemas mais
subtis de classificao, prprios das culturas orais. 
     Veja-se ainda no sculo XVI o exemplo da Tabula
Generalis, de Peter Ramus, que surge na sequncia da tentativa
de reformar o sistema educativo tradicional e de substituir os
velhos mtodos de memorizao pela "memria artificial" das
tbuas e da taxinomia. No h dvida pois que a hiptese
segundo a qual esta maneira esquemtica de tratar as
categorias do saber foi favorecido pelo modo escrito de
comunicar, ganha uma indesmentvel confirmao com o
desenvolvimento da taxinomia no universo ps-tipogrfico,
constituindo-se a partir de ento, como notou Foucault, um
espao de empiricidade que no existira at ao fim da
Renascena e que  marcado nomeadamente pelos quadros

ordenados e, de novo, pelas identidades e pelas diferenas. 2O
centro do saber, nos sculos XVII e XVIII  o quadro+ 18.
     Vejamos ainda como Foucault se refere  questo quando
aborda a histria natural: 2Na Renascena a singularidade do
animal era um espectculo; ele figurava nas festas, nos
torneios, nos combates fictcios ou reais, em reconstituies
lendrias, onde quer que o bestirio desenrolasse as suas
fbulas intemporais.  O gabinete de histria natural e o
jardim, mais como se apresentam na poca clssica, substituem
o desfilar circular do "mostrurio" pela exposio das coisas
em "quadro".  O que se nos depara ao passar daqueles teatros
para este catlogo no  o desejo de saber mas uma nova
maneira de vincular as coisas simultaneamente ao olhar e ao
discurso.  Uma nova maneira de fazer histria. E sabe-se a
importncia metodolgica que assumiram nos fins do sculo
XVIII esses espaos e essas distribuies "naturais" para a
classificao das palavras, das lnguas, das razes, dos
documentos, dos arquivos, em suma, para a constituio de todo
um meio histrico (...). A conservao cada vez mais completa
do escrito, a instaurao de arquivos, a sua classificao, a
reorganizao das bibliotecas, a introduo de catlogos, de
repertrios, de inventrios, representam, no fim da Idade
Clssica, mais do que uma sensibilidade nova ao tempo, ao seu
passado,  espessura da histria, uma maneira de introduzir,
na linguagem j fixada e nos traos que ela deixou, uma ordem
que  do mesmo tipo que a que se estabeleceu entre os vivos. 
E  nesse tempo classificado, nesse devir quadriculado e
especializado que os historiadores do sculo XIX tentaro
escrever uma histria enfim "verdadeira" - isto , liberta da
racionalidade clssica, da sua ordenao e da sua teodiceia,
uma histria restituda  violncia irruptiva do tempo+ 19 .
     , finalmente, do jogador desregrado do Mesmo e do Outro
que aqui se fala, como observmos na epgrafe a este texto: 2O
heri de Cervantes, lendo as relaes do mundo e da linguagem
como o faziam no sculo XVI, descobrindo unicamente pelo jogo
da semelhana castelos nas estalagens e damas nas camponesas,
ficava prisioneiro sem o saber no mundo da pura representao;
mas como essa representao s tinha por lei a similitude, no
podia deixar de aparecer sob a forma derisria de delrio
(...). D. Quixote, mau grado seu,  o objecto da representao
que ele prprio  no seu ser profundo" 20 .
     O Quixote marca pois o novo tempo dos sentidos
enganadores, e como texto romanesco (inclusive, segundo alguns
autores, como o primeiro dos romances modernos), marca a
transio da prosa pica e do passado absoluto lendrio para o
discurso romanesco.  Mas mesmo considerando que a lngua
literria medieval era no seu conjunto uma mise en forme do
idioma vernacular  21, e que, portanto, a nova prosa medieval
era em si um movimento de emancipao relativamente ao latim e
 palavra sagrada, o certo  que essa transio de uma
"mstica" para uma "ertica", ou de uma presena para uma
ausncia, atestada exactamente pela literatura atravs de uma
lenta transformao da cena religiosa em cena amorosa,
realiza-se fundamentalmente pela nostalgia e pelo apagamento
progressivo de Deus como nico objecto de amor 22.  Da a
emergncia do romance 23 se prender com a rejeio da palavra
sagrada e ser portanto o nico gnero a poder traduzir as
tendncias evolutivas do mundo novo em devir: 2C'est dans le

roman seulement que le discours peut rvler toutes ses
possibilits originales et atteindre  des profondeurs
relles.+ 24
     O romance  assim uma estrutura narrativa que depende do
ideologema do signo, est intrinsecamente relacionada com a
lgica do signo em oposio  lgica simblica cosmognica,
simultaneamente plurvoca e restritiva, em oposio,
finalmente,  potica transcendente: 2o ideologema do signo
significa uma infinitizao do discurso que, relativamente
liberto da sua dependncia do "universal" (o conceito, a ideia
em si), passa a ser uma possibilidade de mutao, uma
constante transformao que, embora submetida a um
significado,  capaz de mltiplas geraes e, portanto, de
projeco para o que no  mas ser, ou melhor, poder ser.  E
o signo assume esse futuro j no como ocasionado por uma
causa extrnseca, mas como uma transformao possvel da
combinatria da sua prpria estrutura+25.
     Finalmente, esta redefinio da transio do smbolo para
o signo, em plena galxia de Gutenberg,  sem dvida um
elemento entre muitos outros que nos levam a concluir pela
configurao de um dispositivo nico.  Na verdade, o
dispositivo historico-cultural que marca claramente o universo
ps-tipogrfico no parece ser assim um novo dispositivo,
relativamente ao que tnhamos visto para o caso da escrita,
mas antes uma recontextualizao e uma redefinio do
dispositivo global que informa o universo comunicacional,
nomeadamente os universos ps-alfabticos, a partir de quando
se comearam a estabelecer claramente os contornos culturais e
polticos intrnsecos s novas mediaes simblicas e
tecnolgicas.  So as nuances que se podero verificar na
transio de uma episteme para outra, e, portanto, no prprio
dispositivo de dominao, o que nos parece ser esclarecedor
quanto  prpria redefinio historico-cultural, econmica,
poltica, do modo de articulao destes diferentes factores no
interior das macro-estruturas. 
     Veja-se por exemplo que o universo tipogrfico v
constituir-se no seu seio o prprio Estado moderno, um Estado
burocrtico e taxinmico por excelncia, no se podendo dizer
portanto que se tenha operado uma ruptura clara relativamente
ao dispositivo da galxia do logos e  Antiguidade
greco-romana, uma vez que  com ela que o prprio Estado
emerge e com ele, como vimos, o prprio aparelho burocrtico
de dominao.
     Inclusive, a ordem disciplinar do ollhar no  de todo
radicalmente nova.  Ela  j explcita tambm no universo da
escrita - e  exactamente por isso que Jean Franklin 26 se
permite invocar a ento emergente "aptido de ver" para
justificar de algum modo a aptido de conhecer que desponta, e
com ela, a faculdade da razo antiga.  Esta, por sua vez,
constituir-se- no universo tipogrfico em razo moderna,
denunciando assim um outro reajustamento do dispositivo
global.
     A dominao intrnseca ao dispositivo historico-cultural
tipogrfico no se inscreve apenas atravs da lei que a
instituio Estado moderno consagra, ou da configurao de
todo um relacionamento entre o pblico e o privado ou dos
novos regimes de sociabilidade que passam exactamente pela
emergncia da esfera pblica burguesa e da ordem disciplinar

do olhar nela instituda, mas tambm, e ainda, pela utilizao
que o Poder passa a fazer daquilo a que j se chama os
aparelhos ideolgicos do Estado (absolutista) - no caso, a
imprensa peridica emergente e, em particular, as gazetas.
     Se o universo da escrita era com efeito um imprio do
logos, cujos mecanismos de inscrio e veridico eram
assegurados por uma aristocracia da palavra, poder-se-ia dizer
que, com a tipografia, ao poder da palavra, do logos,
sucede-se a palavra do poder, veiculada agora no pela
oralidade do discurso, pelos retricos, mas sim pela sua
mediatizao atravs da nova tecnologia tipogrfica e, por
conseguinte, pela sua rpida reprodutibilidade pblica. 
Assegurava assim o Estado tambm, mais rapidamente, a
instituio da prpria Lei, da normatividade do social e dos
novos regimes do saber.  Tal como Habermas referia, a imprensa
servia  burguesia para dar a conhecer ordens e disposies
assim se convertendo os seus destinatrios em pblico, muito
embora a noo de pblico no seja tambm aqui, alis como
vimos, nova.  Repare-se na referncia j feita a Boccaccio, ou
ainda em Plato, que na Repblica considerava a cidade ideal
aquela que no deveria ter uma populao maior do que a que
seria possvel reunir em torno de um orador por forma a que
este se fizesse ouvir por todos.   A verdade  que as
monarquias absolutistas no se compadeciam com utopias: o
"pblico" da sua palavra estendia-se agora por vastos
territrios nacionais e a imprensa peridica tinha-se
transformado claramente em instrumento de poder, em veculo da
palavra do dspota, passadas que foram as curiosidades das
primeiras folhas impressas.  Veja-se por exemplo o caso da
Gazette de France de Thophraste Renaudot que chegou a ter em
Luis XIII e Richelieu os seus mais directos colaboradores. 
Veja-se o caso das Gazetas da Restaurao de que se dizia,
nalguns casos, infirmados segundo Jos Tengarrinha 27, que
tinham sido redigidos por D. Joo IV...  Veja-se ainda o caso
da Gaceta de Madrid, fundada pela prpria Casa Real.
     Parece-nos portanto estar claramente configurada a
recontextualizao do dispositivo de dominao no universo
tipogrfico. Dos postulados expressos se infere no haver a
registar uma ruptura epistmica que conduzisse  emergncia de
um novo dispositivo historico-cultural de dominao, mas antes
uma redefinio das principais vertentes que o compem,
surgindo-nos assim como dispositivo global ps-alfabtico na
diacronia histrica da comunicao e dos media.




V. Histria, poltica e jornalismo

                    O servio militar dos poetas  o seu
ingresso no jornalismo 
                                             Karl Kraus


     V.1. O jornalista, o historiador e os media


     No passado, o poder tinha a palavra. Hoje, a histria 

discurso, e a palavra tem o poder. No limite poder-se-ia dizer
que o que resta de histrico   na Histria  o sujeito de
enunciao - o historiador - e o discurso por ele produzido.
Mas se h um sculo atrs cabia aos historiadores a
legitimao do passado, hoje  o jornalista e o campo dos
media que ocupam o lugar do historiador. 
     Um historiador insuspeito, Emmanuel Leroy Ladurie,
respondia com clareza a essa hipottica sobreposio de
papis: 2Haver semelhanas entre o trabalho do historiador e
o do jornalista? Sim. No menosprezo os jornalistas. Eu
prprio fao jornalismo. Creio no entanto que a histria tem
uma profundidade, uma complexidade que o jornalista nem sempre
tem tempo de ter. Mas muitas das vezes a "dmarche"  a mesma.
Trata-se de trabalhar o terreno do arquivo, de coligir os
principais elementos de anlise e de fazer a sntese. O
jornalista tem uma prtica mais superficial...  Por outro
lado, para a histria contempornea, grandes jornalistas fazem
por vezes o trabalho dos historiador. Algumas vezes mesmo
melhor (...)+  1.
      Ser jornalista representa, hoje, cada vez mais, uma
responsabilidade acrescida em relao s demais prticas. Uma
participao que introduz uma nova ordem nos fluxos unvocos
de comunicao. Esta observao deveria colocar a anlise em
torno do campo da comunicao social como decisiva e
estratgica. 
     A pergunta que se colocar de incio  esta: mas ser de
agora a importncia 2desmesurada+ que se pretende atribuir 
comunicao social, aos media, s novas tecnologias e, enfim,
aos seus, mediadores?
      inevitvel o recuo  emergncia da escrita.  No
invocando sequer a importncia que o escriba - enquanto
2agente da inscrio imperial+ -, teve em todo esse processo,
vejamos algumas das consequncias da extenso do novo saber ao
domnio do pblico: para alm da bvia subordinao do sistema
grfico  voz, o nascimento da agricultura e da economia de
mercado; a emergncia do Estado e do aparelho burocrtico de
dominao; a transio de universos mgicos e mitopoticos
para universos onde emerge a razo; a passagem, finalmente, de
sociedades fechadas para sociedades abertas.
     As estruturas sociais e histrico-culturais sofreriam
mais tarde uma nova ruptura, exactamente com Gutenberg, na
transio da Idade Mdia para a poca clssica da burguesia. 
O homem surge como 2o centro do mundo+, emerge o Estado
moderno e est embrionria a gestao de uma esfera pblica
crtica, anunciadora das revolues liberais e da modernidade. 
     Na sociedade industrial e ps-industrial nova ruptura: os
media passam a ser mais do que nunca prolongamentos da palavra
do Poder; o Estado, agora 2providencial+, verdadeiro imprio
normativo, hesita entre a fuga ao seu estatuto ficcional e a
legitimao dos efeitos de real, nas suas diferentes figuras
mediticas de fait-divers ou de pseudo-acontecimento.
          De facto, tal como defendeu Buadrillard, o que
caracteriza a sociedade de consumo  a universalidade do
fait-divers na comunicao de massa: 2Toda a informao
poltica, histrica e cutural  acolhida sob a mesma forma,
simultaneamente andina e miraculosa do fait-dvers. 
Actualiza-se integralmente, isto , aparece dramatizada no
modo espectacular - e permanece de todo inactualizada, quer

dizer, distanciada pelos meios de comunicao e reduzida a
sinais.  O acontecimento irrelevante no constitui pois uma
categoria entre outras, mas a categoria cardeal do nosso
pensamento mgico e da nossa mitologia.+ 1.
     Ora, se os meda ps-industriais pulverizam radicalmente
o quadro de referncia do real, se dele nos do um modelo sem
referente, ento  a prpria realidade que deixa de ser
realista, como significativamente Ionesco se lhe referiu.  O
que fica, na verdade, do ritual dirio de narrativas e mitos
que os media reproduzem exaustivamente, numa autntica
2vertigem+ do real,  sem dvida um megadiscurso desorganizado
privado de sentido por abuso de linguagem, por extrapolao do
real, constituindo-se assim em 2mosaico+ da grande mquina
ficcional moderna.
     Perante um tal quadro,  evidente que uma das possveis
alternativas residir na emergncia de um discurso meditico
de ruptura, ruptura com uma prtica, uma esttica, uma tica,
onde mais uma vez o jornalista ter um papel central, alis,
papel tanto mais importante quanto a crise que ele prprio
mantm se avizinha de um esgotamento de processos de seduo e
encenao, de uma crise do prprio discurso simulacral,
remetendo a Histria para uma espcie de 2estado de coma+.  E
votando o social a um tal ostracismo, retm inapelavelmente o
prprio processo de mudana. 
     Vejamos: o verdadeiro grande mestre de McLuhan, o
professor canadiano (economista, historiador) Harold Innis,
foi quem primeiro percebeu algo to simples como isto: o
processo de mudana social, histrico-estrutural e
tecno-econmico varia e evolui com os prprios meios de
comunicao e o discurso que veiculam; mais: o advento e a
queda de civilizaes e as mudanas culturais poderiam ser
entendidas, em primeiro lugar, em funo da forma predominante
de comunicao.  De facto, quando se reconhece em McLuhan a
novidade, a complexidade, de um aforismo como media is
message, ou a defesa de que, por exemplo, o declnio do
Imprio Romano se poderia sustentar quase exclusivamente pelo
declnio dos suprimentos do papiro, esquece-se que a grande
contribuio epistemolgica tinha sido, de facto, avanada por
Harold lnnis.  Ouer isto dizer, portanto, que as formas de
Estado, de organizao social e poltica, as estruturas
culturais, a prpria identidade do tecido social, a sua
genealogia, o seu desenvolvimento, se organizam e ganham corpo
em funo da emergncia e do declneo das mediaes simblicas
e tecnolgicas.
     Daqui deriva uma outra questo no menos importante: se
atender-mos a que qualquer funo de comunicao pressupe uma
funo de subordinao, ento poder-se- facilmente verificar
que ao modificar um determinado sistema de comunicao,
qualquer que ele seja, o novo media, sistema, tecnologia ou
mesmo discurso introduzido, transformar no somente o sistema
sociocultural em questo mas tambm o prprio modo de
dominao.  E  disso afinal que se trata. 
          Dizamos que o homem mass-meditico, o sujeito
histrico, sobrevive ao estado letrgico, isto , corre o
risco de 2extermnio+ perante o actual fluxo de coaco
meditico, perante a ordem modelizadora que escapa ao real,
perante a desestabilizao das identidades e o que da se
rebate na prpria individualidade e no sentido das coisas. 

Nada de apocalptico se deve extrair daqui, pelo menos para
j, uma vez que os 2sobreviventes+ so os primeiros a resistir
atravs dos diferentes processos de singularizao, daquilo a
que Guattari chamou as 2subjectividades dissidentes+.
     Veja-se que do inacabamento da modernidade s sucessivas
rupturas que percorrem a constituio de dramaturgias
ps-modernas, das micropolticas do quotidiano s revolues
moleculares h uma constante de dissidncia, de fuga 
domesticao, de fuga  lgica de progressiva
desmaterializao ou pura e simples omisso do sujeito
histrico.  Importa que esse processo  no seja estancado. 
Como dizia Paul Virilio, dando um exemplo radical do
2extermnio+ a que nos referimos, veja-se que a guerra total
moderna define-se exactamente pela ausncia do humano, pela
delegao da deciso de declarar a guerra a sistemas
inteligentes, os nicos capazes de reagir em 2tempo real+ 1 a
outros aparelhos do mesmo tipo.
      de algum modo na exploso das pequenas narrativas, na
arte dos pequenos passos, nos discursos da diferena, que o
sujeito, ainda que desestabilizado na sua autonomia, se furta
a essa 2ausncia+ e joga como que a auto-suficincia do seu
processo de singularizao, do seu processo de mudana, do seu
movimento prprio.  O facto de da resultarem muitas vezes os
conhecidos desregramentos, desvios, delrios, o facto de a
residir a raiz de novos intimismos, de novas crises, de a se
constiturem novas comunidades "intersticiais", novas tribos,
por assim dizer,  tambm prova de que se procura em todo este
processo inflectir o sentido desptico da dominao, ou pelo
menos que se quer ver jogado com suficiente autonomia para ter
capacidade de criar por si s, independentemente dos fluxos de
coaco dos mecanismos de gesto meditica do poder. Veja-se
que a Internet  hoje j um embrio disso mesmo. 
     Retomando o campo dos media, a questo que se pe  esta:
a histria dos media tem sido, de alguma forma, a histria de
um fluxo meditico de dominao unvoco, totalizante, de
reproduo infinita do acontecimento neutralizado nos signos e
nas narrativas que pretendem referenciar um real distante;
manter esse fluxo  manter o real  margem dos media, cuja
lgica discursiva no se incompatibilizou de todo, afinal, com
o acontecimento.  provvel, no entanto, que o novo regime
biunvoco, interactivo, se afirme progressivamente, nem que
para isso o tenha que fazer atravs de uma exploso de
univocidades, de pequenos fluxos, numa espcie de resposta aos
inmeros constrangimentos criados pelo actual modelo de
mediao e de dominao.
      essa uma das formas que o sujeito operativo tem de
deixar a sua condio de sujeito passivo perante o modelo de
comunicao, para ensaiar a pulverizao desse mesmo modelo a
partir de uma revoluo molecular, intersticial,
necessariamente minoritria, ou para dizer as coisas mais
claramente: no oficial ou no monopolista, no mnimo - quer
se trate de resistir dentro ou fora do sistema mass-meditico
em si. 
     Da, por exemplo, Umberto Eco falar de uma 2nova era na
liberdade de expresso+ nos finais dos anos 70, a propsito
das rdios livres italianas.   Se para Eco a liberalizao das
frequncias era a prova de que em Itlia se vivia
efectivamente uma crise de consenso social, para Felix

Guattari a questo colocava-se de forma mais complexa: a
evoluo dos meios de comunicao de massa, nos seus percursos
contrrios - por um lado, os sistemas hiperconcentrados,
controlados pelo aparelho de Estado e instituintes das normas
dominantes, por outro, os sistemas miniaturizados, que abrem,
segundo Guattari, a possibilidade de uma apropriao colectiva
dos media, designadamente pelas minorias, e pelas diferentes
comunidades em geral -, tinha, na sua vertente minimal, e
concretamente no caso italiano, uma caracterstica nova, 2no
oficial+ pelo menos, ao contrrio do que acabou por acontecer
em Frana, com a atribuio de frequncias a quem assegurasse
pela sua representatividade a 2boa emisso+. Mas a grande
perverso foi de facto a monopolizao das ondas 2livres+ por
parte de grandes grupos econmicos.
     Ora  exactamente a via aberta pelas rdios livres que,
segundo Guattari, parece ir (ou deveria ir) contra um esprito
de especializao, ameaando assim 2os sistemas tradicionais
de representao social, pondo em questo uma certa concepo
do porta-voz autorizado, do lder, do jornalista (...)+. Para
Guattari 2 num contexto de experimentao de um novo tipo de
democracia directa que se inscreve a questo das rdios
livres.  A palavra directa, a palavra viva, plena de segurana
mas tambm de hesitao, de contradio,  at mesmo sem
sentido,  portadora de cargas considerveis de desejo.  E 
sempre esta parte de desejo que tende a reduzir, a decantar,
os porta-vozes, os intrpretes, os burocratas de qualquer
natureza (...)+.  Radical, certamente, a contribuio de Felix
Guattari no deixa de ser pertinente.  Ele conclui,
finalmente, que 2a lngua dos media oficiais  decalcada das
lnguas policiais, dos meios dirigentes e da Universidade;
tudo conduz, com ela, para um corte fundamental entre o dizer
e o fazer. S tm o direito de fazer aqueles que so
detentores de uma forma lcita de dizer. As lnguas do desejo,
pelo contrrio, inventam novos meios e tm uma tendncia
incoercvel para passar ao acto; elas comeam por 'tocar', por
fazer rir, por transformar, depois do vontade de 'ir
direito', direito queles que falam, direito ao que est em
jogo+ 1 .
     A questo  que 2a via aberta pelas rdios livres+, bem
como a via que as televises 2livres+, locais ou regionais
deveriam abrir, est a fechar-se.  Os exemplos italiano e
francs provam-no  saciedade: a 2cacofonia+  italiana faliu,
em todos os sentidos do termo. Pelo contrrio, so os imprios
do audiovisual  que continuam a alargar o seu espectro
comunicacional. Acresce, por isso mesmo, a responsabilidade
dos mediadores da comunicao social, dos jornalistas, de
todos os profissionais em geral que acabam por no poder
construir alternativas onde elas pareciam surgir com uma maior
viabilidade.
     O actual sistema mass-medtico contm em si, muito
provavelmente, os germes da cancerigenao do sistema e tudo
leva a crer que a resistncia a desenvolver, deva ser
localizada e, sempre que possvel, lute por libertar a partir
de dentro as 2lnguas de desejo+ de que falava Guattari, as
lnguas do social censuradas por essa espcie de autismo que
os media em geral tm alimentado na sua nsia mrbida de serem
apenas a voz do dono. A funo social, poltica e histrica do
mediador  assim decisiva na construo da sociedade

participada e solidria que desejamos. Pode dizer-se que  uma
'funo violenta' na medida em que a escrita - a "lngua do
desejo" -,  ela prpria violenta. 2O que h de violncia na
escrita - dizia Barthes 1 - o que a separa da palavra, revela
nela a fora da inscrio, o peso do trao irreversvel+.
     Hoje, porm, instaura-se progressivamente uma sociedade
mais transparente,  uma sociedade sensibilizada, que apesar de
tudo vive a desiluso das promessas de uma sociedade feliz,
sendo o progresso, no fundo, o desencanto das velhas ideias de
progresso. Se a poltica no suscita o entusiamo, se os signos
da histria enquanto ideia de progresso tardam a encontrar a
sua forma de concretizao, resta-nos ento continuar a
acreditar que na cronologia da histria encontraremos sinais
dispersos de que a ideia de liberdade no foi (no ) apenas
uma fbula.

 
     V.2. Elogio e elegia do jornalismo 


     Na Antiguidade greco-romana vrios eram os suportes de
escrita.  Das tbuas cobertas de cera ao papiro, da pele ao
pergaminho. Diz-se inclusivamente que Petrarca teria usado o
seu prprio traje de couro para anotar algumas ideias... 
     Num perodo  em que precisamente a escrita se completa, 
interessante verificar que as formas embrionrias ento
emergentes que poderemos associar ao 'jornalismo' - tal como
veio a ser conhecido na idade clssica -, existiram sobre
suportes to simples como os citados.
     Dos gregos sabe-se que tinham um gnero de almanaques,
como encontramos nos finais do sculo XV em Frana, com
informao diversa sobre astrologia, curiosidades, etc.
Chamavam-se ento "efemrides", mas no eram mais do que
2jornais+ histricos, anlogos aos anais dos pontfices
romanos.
     Roma vem a conhecer, com o advento da Repblica, em 509,
as Acta Publica, que aparecem depois das "tbuas brancas" - os
Album -, afixadas nas paredes do palcio do Pontfice e depois
tambm nas principais zonas da cidade onde eram, por exemplo,
referenciadas as sesses do Senado.
     No final da Repblica, mas ainda com Jlio Csar,
aparecem as Acta Diurna, verdadeiras folhas de notcias e ecos
da vida romana, recopiadas depois por  oficinas especializadas
e divulgadas principalmente no seio das camadas mais
privilegiadas. Os actuarii, que redigiam e reproduziam essas
informaes, da necrologia aos incncios, das excues 
sexualidade, eram, por assim dizer, autnticos
"noticiaristas".
     As actas circularo, a partir de Augusto, no sculo I a.
C. por todo o Imprio.  atravs da informao que circula
pelas zonas colonizadas que o poder se afirma. Da mesma forma
 com a supresso da informao (entre outras causas,
nomedamente no plano da organizao militar), que o Imprio
entra em declneo 1.
     Na literatura clssica que nos chegou da Roma Imperial
encontram-se diversssimas referncias s Actas,  sua
circulao por cpias e inclusive s leituras pblicas que
delas se faziam 'ao fim da tarde no lago Curtius'.

     Plnio leu nelas o afogamento de um co no Tibre, por no
abandonar o corpo do dono. Plnio, o Moo, pedia a um amigo
que lhe mandasse cpias das Actas da cidade. Sneca deplorava
o facto de as mulheres 'ostentarem os seus divrcios nessas
folhas linguarudas'. Tibrio, mandava inserir nos dirio tudo
o que se dissesse dele para se vingar depois, segundo rezam as
crnicas.
     Mas, no fundo, as actas foram um verdadeiro instrumento
de poder dos imperadores romanos, e apesar da sua utilidade e
da sua divulgao em Roma, nem sempre eram aceites de nimo
leve, nomeadamente por filsofos e escritores. Tcito, por
exemplo, observou nos seus Anais: 2(...) Mas  da dignidade do
povo no entrarem na sua histria seno os feitos ilustres,
bastando aos insignificantes os dirios da cidade+ 2 . 
     Da cultura oral ficaram-nos sobretudo os Poemas
Homricos. Sabemos que apesar das sucessivas "reconstrues
generativas" - do seculo XX ao sculo XII a.C., os Poemas
fornecem-nos informaes mediadas, quer de Micenas e dos
Minicos, quer mesmo das invases dricas. A historicidade da
Guerra de Tria  aqui tambm verosmil, na Ilada, ao tempo
do "jovem" Homero, sendo as aventuras de Ulisses relatadas na
Odisseia. Para Aristteles, por exemplo, nos Poemas estava j
o embrio da tragdia. Para outros, foram mesmo uma verdadeira
enciclopdia do mundo antigo, ou um manual de filosofia. 2A
sua influncia sobre toda a cultura grega, donde passa 
latina, e desta a todas as culturas ocidentais dela derivadas,
 um facto que no  de mais sublinhar. (...) So, por
exemplo, o modelo, directo ou indirecto, de toda a poesia
pica subsequente e influem consideravelmente na lrica (...)+
3 . J na cultura alfabtica, veja-se o exemplo das Histrias
de Herdoto, o "pai da histria". Assim comea a sua narrativa
do sculo V a.C. : 2Eis a exposio do inqurito empreendido
por Herdoto de Tourioi, para impedir que as aces cometidas
pelos homens se apaguem da memria com o tempo, e que grandes
e admirveis feitos, levados a cabo tanto do lado dos Gregos,
como do lado dos brbaros, cessem de ser nomeados+. De
qualquer modo, a notcia, na Antiguidade clssica era de facto
m conselheira. E no s as ms notcias o eram, como vimos.
     A mesma crtica face  notcia vem a verificar-se j na
Idade Mdia. Com o final do Imprio Romano e o progressivo
alargamento do poder brbaro s regies anteriormente
dominadas por Roma, a cultura e a informao ficam de alguma
forma reduzidas s obras copiadas pelos monges beneditinos a
partir de alguns textos fundamentais da cultura clssica e da
Bblia. A Igreja passa a ser como que a continuadora
administrativa do que ficou do Imprio. Os dialectos locais e
o vernculo tendem a ocupar o lugar dos latinismos. A lngua
literria medieval acaba por ser uma  mise en forme do idioma
vernculo. E da mesma forma que o contacto entre senhorios
feudais e trocas comerciais se tornam difceis por essa
altura, tambm a notcia, e a circulao da informao o so.
      pois um perodo de recuperao dos textos antigos e em
simultneo do aparecimento de uma literatura popular e de uma
pica medieval com a particularidade de reatarem a tradio
oral outrora aparentemente abandonada. De facto, quer as
cantigas de gesta, quer as cantigas de amigo, ou as de
escrnio-e-mal-dizer, quer ainda os versos de jogral, no so
mais seno o sintoma de uma regresso ao que havia sido

conhecido dos aedos da Antiguidade clssica.  atravs deles
que a notcia volta a correr. Veja-se, por exemplo, Menndez
Pidal: 2As viagens e as grandes reunies de jograis cumpriam
na Idade Mdia a funo de divulgar a msica e a literatura em
pases muito diversos, substituindo de certo modo os meios
modernos de que mais tarde veio a dispor a imprensa+.
Rodrigues Lapa chega mesmo a considerar o jogral como aquele
que faz a reportagem do  acontecimento mais ou menos
escandaloso da poca.
     Desde o sculo XIV que a notcia se torna um verdadeiro
comrcio. Os nouvellistes comearam por ser uma espcie de
'escribas' dos prncipes e mercadores da poca, organizando,
por exemplo, servios regulares de correpondncia manuscrita -
em Londres chamavam-se writers of letters -, mas  sobretudo
como redactores das primeiras folhas volantes, das 'relaes',
dos canards, etc., que se notabilizam. Emerge assim um
jornalismo pr-tipogrfico.
     A 'publicidade' da notcia manuscrita e impressa, isto ,
a sua circulao pblica, acompanha, portanto, toda essa
evoluo econmica e social da Europa pr-gutenberguiana.
Tratava-se, em todo o caso, de matrias do mbito do
fait-divers. Na sua obra L'Information en France avant le
priodique, J-P Sguin elabora uma  breve estatstica sobre as
temticas focadas nos canards franceses do sculo XVI,
descritos na sua bibliografia. Assim, 109 relatam questes
criminais, 116 calamidades diversas, 95 fenmenos celestes e
180 factos mais ou menos "maravilhosos". Sguin alerta no
entanto para o facto de estes nmeros no corresponderem
exactamente  verdade, uma vez que no existem separaes bem
ntidas entre as diferentes categorias. Sob o ponto de vista
da verosimilhana das narrativas h, claro, que reter o facto
de o real e o fantstico a se interpenetrarem nas mais
diversas propores, muito embora os ttulos de muitas dessas
narrativas serem do gnero "discours trs vritable",
"histoire vritable", etc. Em inmeras passagens os autores 
chegam a afirmar que dizem a verdade porque eles prprios
foram testemunhas.
     Em 1631, Thophrast Renaudot, observava: 2L'histoire est
le rcit de ce qui est advenu. La gazette est le bruit qui en
court+. Ele, que havia lanado a Gazette de France, manteve
sempre a gazeta francesa como um prolongamento do poder,
alis, tanto Richelieu como Lus XII estiveram entre os seus
principais colaboradores, ainda que muitas das vezes
dissimulados, 
     Mas o que  facto  que o 'rudo' a que se refere
Renaudot deixa de ser demasiado frvolo a partir do momento em
que grandes nomes da literatura chegam tambm aos jornais e 
sua crtica - recorde-se, por exemplo em Frana, Marivaux, 
Prvost,  recordem-se tambm as referncias de Diderot, de
Beaumarchais, ou mesmo de Voltaire - que  foi para muitos uma
verdadeira 'agncia de notcias' -, muito embora ele prprio
tambm fosse um crtico feroz das tcnicas do saber prtico...
Beaumarchais, alis, tem uma passagem clssica, nas Bodas de
Fgaro (1784), a favor da liberdade de imprensa e contra as
censuras: 2Pourvu que je ne parle dans mes crits ni de
l'autorit, ni du culte, ni de la politique, ni des gens en
place, ni des corps en crdit, ni de l'Opra, ni des autres
spectacles, ni de personne qui tienne  quelque chose, je puis

tout imprimer librement sans l'inspection de deux ou trois
censeurs. Pour profiter de cette douce libert, j'annonce un
crit priodique et croyant n'aller sur les brises de
personne, je l'appelle le journal inutile. Pou-ou! Je vois
s'lever contre moi mille pauvres diables  la feuille; on me
supprime et me voil derechef sans emploi+... Recordem-se
tambm os Carnets d'Enqutes de mile Zola, verdadeiras
reportagens inditas sobre o quotidiano francs de finais do
sculo passado, que viriam a ser a base de muitos do seus
grandes romances.1 Recordem-se, no Reino Unido, Steele,
Addison, Pepys, etc.2 
     De facto, na Europa, o grande sculo do jornalismo ,
porventura, o sculo XVII, altura em que predomina um
"jornalismo de escritores", ou "jornalismo de opinio",
eminentemente ligados  emergncia de uma opinio pblica
activa, que seria determinante da consecuo das revolues
liberais europeias. A importncia da imprensa na vida cultural
e poltica pr-revolucionria e pr-constitucional da Europa 
assim inegvel. Mesmo assim, h que ter a noo de que os
peridicos eram rgos informativos de segunda ordem, como o
lembra Jurgen Habermas, enquanto que a carta era ainda
geralmente considerada no sculo XVII como a fonte da notcia
mais segura e mais rpida. O facto de as primeiras Gazetas
estarem associadas de forma muito estreita ao poder central do
monarca e  censura, mantinha a credibilidade das gazetas
manuscritas, das "cartas de notcias" e das "epstolas".
     A progressiva desagregao do Antigo Regime na Europa 
pois contempornea da emergncia do parlamentarismo
constitucionalista na Inglaterra do sculo XVII e de um amplo
movimento de renovao liberal,  que se desenvolve em todo o
continente europeu a partir do sculo XVIII.  Veja-se o caso
da Frana. Desde a Revoluo Francesa at ao final do sculo
XVIII (quando comearam a surgir problemas de censura,
primeiro com o Diretrio e depois com Napoleo), entre folhas
revolucionrias e contra-revolucionrias contavam-se muitas
centenas de ttulos, um nmero incomensuravelmente superior ao
total surgido nos 150 anos anteriores, isto , desde o
aparecimento das primeiras folhas. 2Los peridicos pasaron de
ser meros lugares de publicacin de noticias a ser tambin
portadores y guas de la opinin pblica, medios de lucha de
la poltica partidista. Lo que acarre la seguiente
consequencia por lo que a la organizacin interna de la
empresa periodstica hace: la insercin de una nueva instancia
entre la coleccin de noticias y su publicacin: la redaccin.
Pero para el editor esto significaba que pasaba de ser un
vendedor de noticias frescas a un comerciante de opinin
pblica+ 1 . Essa mutao, no entanto, vai iniciar-se
exactamente com o chamado jornalismo de escritores, ou de
opinio, e no propriamente com a constituio e autonomizao
de uma redaco no sentido clssico. Mas se a imprensa de
opinio do sculo XVIII  panfletria e por isso mesmo
recolheu a simpatia da esfera pblica crtica, a verdade  que
das Gazetas  organizao industrial da imprensa h toda uma
arqueologia da crtica do jornalismo a fazer. 
     Crticas  imprensa so frequentes, portanto, em muitos
autores, e nomeadamente na rea da filosofia. Aqui,
poder-se-iam destacar os nomes de Nietzsche, de Kirkegaard, de
Herman Hesse, de Karl Kraus, de Deleuze, de Lyotard, etc.

     O jornalista, mesmo nos finais do sculo XVIII,  ainda
considerado por iluministas e enciclopedistas como um
personagem desprezvel em comparao om o escritor ou
ensasta. Veja-se por exemplo Rousseau, em 1755 : 2Qu'est-ce
qu'un livre priodique? Un ouvrage phmre sans mrite et
sans utilit dont la lecture nglig et mprise des gens
lettrs ne sert qu'a donner aux femmes et aux sots de la
vanit sans instruction+. 
     O prprio Voltaire acaba por considerar que as gazetas
no eram seno "le rcit de bagatelles" e Diderot escreve na
Encyclopdea:  2Tous ses papiers son la pture des ignorans,
la ressource de ceux qui veulent parler et juger sans lire, le
flau et le dgoot de ceux qui travaillent. Ils n'ont jamais
fait produire une bonne ligne  un bon esprit, ni empch un
mauvais auteur de faire un mauvais ouvrage+ 1 .
     Por outro lado, no Reino Unido, todo o perodo anterior 
Revoluo de 1688/89 - que introduz, como se disse, o
liberalismo poltico em oposio ao absolutismo de Cromwell -,
foi extremamente severo em termos de controlo da imprensa.
Veja-se por exemplo o Aeropagitica de Milton, autntico libelo
pelo parlamentarismo e pela liberdade de imprensa. Quando
surge o Daily Courant, o primeiro dirio, em 1702, j se vive
um clima de maior liberdade, nessa altura ainda raro na
Europa. Seria necessrio esperar quase um sculo para que
novos ventos da liberdade, com o clebre artigo 11 da
Declarao dos Direitos do Homem, concedessem  imprensa,
verdadeiramente, o atributo de "quarto poder".
     Precisamente num texto com o ttulo "Crticas a la prensa
en Nietzsche, Kierkegaard e Hermann Hesse", Vintila Horia 2
comea por considerar a imprensa como uma arma de dois gumes -
um "meio de comunicao" e um "meio preciso e eficaz de
corrupo e causa directa da decadncia". 
     Horia refere-se depois s primeiras conferncias de
Nietzshe na Universidade de Basileia, em 1872, e s suas
crticas  corruptela da prpria lngua por parte dos
jornalistas: 2Se no chegarem a sentir uma nusea fsica ante
certos termos e palavras a que nos habituaram os jornalistas,
deixai de aspirar  cultura+. E na A Origem da Tragdia 
2(...) o jornalista, esse escravo do papel dirio, conseguiu
alcanar vitria sobre os mestres mais eminentes no que diz
respeito  cultura do esprito; e se a estes no resta outro
recurso alm do sofrer a metamorfose j observada, assumir a
atitude e as maneiras do jornalista, imitar a 'elegncia do
fcil', que  prpria daquele mister, e aparecer aos olhos de
todos como uma borboleta intelectual (...)+. 
     Tambm Hesse, fala das "pginas de variedades" e do
consumo de vulgaridades e curiosidades sem nenhum valor (no
que faz lembrar Baudrillard), que, vistas de forma
premonitria, anteciparo a catstrofe descrita no seu mundo
ficcional expressionista.
     Mas um dos mais violentos crticos do jornalismo na sua
"descida aos infernos para julgar os vivos e os mortos", na
expresso de Oskar Kokoschka, foi o austraco Karl Kraus,
crticas bem expressas alis, na pequena antologia "Presena
de Karl Kraus contra o jornalismo" 1 . 
     Karl Kraus, , alis, o paradigma do 'jornalista
escritor' j fora de poca. Ele representa um jornalismo de
opinio radicalizado na Viena de final de sculo. Ao longo de

40 anos,  ele que redige praticamente sozinho uma revista
peridica - Die Fackel. As suas crticas venenosas ao sistema
acabaram por mant-lo  margem dos grandes movimentos
artsticos e culturais desse perodo em Viena.  A prpria
imprensa, que no princpio do sculo deixa de se lhe referir,
submetendo-o a uma espcie de morte intelectual, ser sempre
um tema regular nas suas crticas.  Em 1934, aps Hitler tomar
o poder, Kraus dir, quase como sntese do seu pensamento:
2No foi o nacional-socialismo que aniquilou a imprensa, foi a
imprensa que criou o nacional-socialismo+. Num seu texto de
1908 - "Elogio de um modo de vida s avessas" - escreve:
2Chega-me, de longe, um som como o do rudo das mquinas
impressoras;  a estupidez que ressona. Espreito-a,
furtivamente, colhendo ainda algum prazer das minhas prfidas
intenes. E quando o primeiro jornal de manh surge no
horizonte leste da civilizao, deito-me... Tais so algumas
das vantagens de um modo de vida s avessas+. Walter Benjamin
tambm se refere ao "dio" que Kraus votou aos jornalistas:
2Foi ele - Kraus -, em resumo, quem concentrou todas as
energias na luta contra a fraseologia, que  a expresso
lingustica do arbtrio com que, no jornalismo, a actualidade
se apropria do domnio sobre as coisas+ 1 .  
     Hoje, reflectir sobre a histria e a crtica do
jornalismo releva desde logo do questionamento de campo
jornalstico, e do "saber fazer" dos tcnicos de saber
prtico, como Sartre chamava aos jornalistas. Qual, no fundo,
a legitimao de uma prtica, quando ela procede, de forma
recorrente,   auto-excluso de uma hipottica
referencialidade ao real pela incontornvel assuno das
figuras do esquecimento, da narratividade e da ficcionalidade
?  
     A distanciao da prtica jornalstica torna-se
inevitvel para dessacralizar a especificidade de um fenmeno
relativamente novo - se pensarmos na fase da organizao
industrial da imprensa, desde os anos 30 do sculo XIX. Pode
dizer-se que em relao ao texto histrico,  epopeia, 
autobiografia, por exemplo, esse trabalho crtico foi
concretizado (vide Temps et Rcit, de Paul Ricoeur, por
exemplo). Mas em relao  produo jornalstica existe uma
espcie de censura que leva a no ser reconhecido que as novas
e velhas representaes mediticas do acontecimento e do
quotidiano, no fazem mais do que fantasmar e dissimular o
real latente, os diferendos e a virtude civil, em troca por um
real manifesto e pelas manifestaes de superfcie de uma
realidade construda.
     Seguindo a assero de Ricoeur  -  2o fim da dicotomia
narrativa de fico/narrativa histrica e a existncia de uma
identidade estrutural entre as narrativas que tm uma
pretenso  verdade e as que a no tm+ -, jornalismo ,
portanto, narratividade, e, nessa medida, coexiste em unidade
funcional com os mltiplos modos e gneros narrativos. A
questo  que, como referia Foucault, a histria, o discurso,
(o jornalismo, dir-se-ia)  uma representao das relaes de
foras e de poder de um tempo, de uma poca.
     Na excelente antologia organizada por Nelson Traquina 2 e
editada em Portugal, a dicotomia entre os dois mbitos
discursivos pode ser equacionada atravs do texto de Philip
Schlesinger: 2A notcia, tal como surge diariamente, e como 

concebida, est em oposio radical  histria. De facto, o
sistema de ciclos dirios ao longo do dia noticioso tende para
a abolio da conscincia histrica, criando uma perptua
srie de 'primeiros planos', em preterio do aprofundamento e
do background+ (p. 189) .  O paradigma das notcias como
narrativas que reproduzem uma hegemonia, e as prticas de
normalizao do discurso jornalstico, emergem ento como
instrumento de poder que corrompe esse "fazer". E o que fica 
a massa documental na qual se joga o poder de perpetuao das
sociedades histricas e da poltica do tempo.
     Este ltimo aspecto,  recorrente ao longo da antologia.
A questo de 2gerir as notcias como elemento essencial da
luta simblica+  um dos plos de reflexo e de crtica.
Michael Schudson: 2Eu sugiro que o poder dos media est no
apenas (e nem sequer primariamente) no seu poder de declarar
as coisas como sendo verdadeiras, mas no seu poder de fornecer
as formas atravs das quais as declaraes aparecem. As
notcias num jornal ou na televiso tm uma relao com o
'mundo real', no s no contedo mas na forma; isto , no modo
como o mundo  incorporado em convenes narrativas
inquestionveis+ (p. 279). Nelson Traquina, no entanto,
sublinha: 2A concluso geral das duas teorias  que a conexo
entre fontes e jornalistas faz das notcias uma ferramenta
importante do governo e das autoridades estabelecidas  e que
as notcias, em geral, tendem a apoiar as interpretaes
oficiosas dos acontecimentos controversos+ (pg. 136).      
Tambm na crtica da concentrao de meios de comunicao,
Edward S. Herman (op. cit.) remete o dispositivo instrumental
dos media escritos para as redes de dependncias e de
interesses, sublinhando que 2a credibilidade dos meios de
comunicao de massas deriva tambm do facto do seu
comportamento, frequentemente homogneo, surgir 'naturalmente'
a partir da estrutura industrial. (...) A autocensura, as
foras do mercado e as normas das prticas noticiosas podem
produzir e manter uma perspectiva particular to eficazmente
como uma censura formal de Estado+ (p.215). Outros aspectos a
considerar: a notcia como representao/remitificao 
(Robert Hackett, A.D. Rodrigues), e como "aparelho
ideolgico",  emergindo assim os media 2em posio
diametralmente oposta quela que conceptualiza o campo
jornalstico como 'contrapoder'+ (p. 21). Tambm a questo da
concentrao (correlativa da autocensura e da reduo do
pluralismo), sendo cada vez mais referida nos ltimos anos,  
aqui abordada, ou como estrutura burocrtica, ou como projecto
em autonomia - postulando, por exemplo, a exigncia de
organizaes flexveis e no burocrticas (John Soloski), o
que remete para a teoria organizacional (Warren Breed) 2a qual
v o produto jornalstico como sendo essencialmente um produto
de uma organizao e dos seus constrangimentos+ (p. 134) ,
traos que o discurso, inevitavelmente, explicita.  De referir
que os argumentos anti-narrativistas expressos pela maioria
dos autores referenciados na antologia s dificultam a
identificao da prtica jornalstica de uma forma
desdramatizada quanto  ideia da filiao ao real e da sua
reificao.  No  o caso das referncias de Bird e Dardenne 
dualidade objectividade/narratividade. Estes autores pretendem
que o discurso objectivo tambm pode ser "narrativo", o que
no inviabiliza, porm, uma possvel "aproximao" do "real".

Mas, como referem,  quase sempre se  invoca "dois ideais
impossveis" e antagnicos, por exemplo, assim separando 2as
exigncias da realidade que eles (os jornalistas) vem como
atingveis atravs de estratgias objectivas, e as exigncias
da narratividade+. (pg 273).  Do seu ponto de vista, "os
jornalistas sabem que os acontecimentos parecem mais reais aos
leitores quando so relatados em forma de 'estria'; quando
assim , estes do por si a afundar-se na lama da 'fico' e a
puxarem os cintos de segurana da objectividade e do facto+
(p. 277) - e concluem: 2Mais do que constantemente tentar
restabelecer limites, deveramos, contudo, considerar a
observao de Tuchman de que 'ser um reprter' que lida com os
factos e ser um contador de 'estrias' que produz contos, no
so actividades antitticas+ .
     E em Portugal concretamente, que questes se colocam 
histria e  crtica do jornalismo? A difcil conquista da
liberdade de imprensa , ainda hoje, uma realidade de todos os
dias. Nuns pases mais do que noutros. Em Portugal, os estudos
sobre essa luta constante, travada, no fundo, desde a criao
da primeira Gazeta, so ainda abordagens introdutrias do
tema. Mas a nossa histria, neste domnio, no deixa margem
para dvidas. Portugal teve, por exemplo, a mais rigorosa de
todas as censuras inquisitoriais. Dos Index quinhentistas 
Censura Prvia salazarista, passando pelos censores dos
Lusadas e pela criao do Desembargo do Pao com D.
Sebastio,  todo um rol de atrocidades intelectuais, fsicas
e persecutrias, cuja genealogia aprofundada est por fazer.
Neste domnio, como em muitos outros, vivemos no limbo de
todas as ignorncias.
     Um dos  contributos para o estudo do fenmeno censrio em
Portugal  a dissertao de Graa Franco  A Censura 
Imprensa. Recordem-se, a propsito, os trabalhos e/ou
monografias de Artur Anselmo, I. S. Rvah, Raul Rego, Graa
Almeida Rodrigues, Arons de Carvalho, Csar Prncipe e poucos
mais. Em A Censura  Imprensa Graa Franco fez a sntese da
histria da legislao sobre a liberdade de expresso ao longo
de quatro grandes perodos a partir da emergncia do
"constitucionalismo" portugus: de 1820 a 1910 (aqui uma
2abordagem mnima+ de um perodo de 2aprendizagem da
liberdade+ como introduo aos perodos posteriores); de 1910
a 1926; de 1926 a 1968; e de 1968 a 1974. Perodos
extraordinariamente complexos e de vastssimo acervo censrio
e persecutrio.  
      A histria da censura imediatamente posterior 
revoluo liberal de 1820, com as consequncias criadas
designadamente no segundo ciclo da imprensa de exlio, daria
tema para vrias teses. De qualquer das formas a estratgia
seguida na anlise de Graa Franco tem pelo menos a vantagem
de permitir uma leitura comparada entre diferentes perodos.
Tal como  a autora defende, 2A Liberdade de Imprensa, que foi
para o Regime Constitucional, simultaneamente, sustentculo e
causa primeira da sua destruio (tribuna mais eficaz do que o
Parlamento para os defensores da Repblica), encontra na
Primeira Repblica tratamento idntico ao que obtivera no
regime anterior+ (pg. 186).
     Ao longo deste seu trabalho, designadamente no perodo
posterior a 1910, Graa Franco confere no texto de lei, no
fundo, essa relao perversa entre o optimismo da vontade de

liberdade, e o pessimismo, no da inteligncia, mas da vontade
de poder, que se traduzia na represso e no recorte da
liberdade legitimado nos mltiplos "abusos" alegadamente
cometidos por escritores e jornalistas. Nem que para isso
fosse necessrio dar cobertura  represso com legislao
2progressista+ (p. 74, em referncia  primeira lei publicada
aps o fim da Primeira Repblica). Ou nem isso... Chegados a
Salazar, ele prprio confidenciava, nos anos 30, a Antnio
Ferro que o importante era 2a 2acalmao dos espritos, o
esquecimento de dios e paixes (...) modificar pouco a pouco,
pacientemente, as paixes dos homens, atrofiando-as,
calando-as, forando-nos temporariamente a um ritmo vagaroso,
mas seguro, que nos faa descer a temperatura, que nos cure da
febre...+. Mais uma vez,   a histria dos media como a
histria de um fluxo unvoco de dominao. Um sistema
intrinsecamente censrio, que corresponde, em sntese, 
auto-legitimao das ideias que um grupo impe como concepo
do mundo num determinado perodo histrico. Da que, numa
perspectiva histrica, 2sempre que uma forma mais autoritria
pretende assumir as rdeas do poder (...) a Liberdade de
Imprensa recue+ (p. 12). Estaremos ns  vontade para dizer
que j no  assim?  
     No  muito diferente a viso  do clssico de Jos
Tengarrinha,  sobre a genealogia da Imprensa peridica em
Portugal.   parte algumas outras obras tambm de carcter
geral mas de menor relevncia publicados neste domnio (os
Elementos para a Histria da Imprensa Peridica Portuguesa de
Alfredo da Cunha, de 1941, por exemplo) e de algumas
monografias de maior importncia (Georges Boisvert sobre Joo
Bernardo da Rocha Loureiro; Marie-Hlne Piwnik sobre O
Annimo; Jacinto Baptista sobre Herculano e sobre O Mundo; F.
Piteira Santos sobre Proena e A Alma Nacional; os estudos
sobre a Imprensa operria de Csar Oliveira e Maria Filomena
Mnica), entre outras, a obra de Jos Tengarrinha emerge de
facto no panorama pobre da bibliografia portuguesa da rea da
Histria da Imprensa como trabalho de referncia indiscutvel.
          Inicialmente este estudo apresentava-se dividido em
trs partes, que correspondiam 2grosso modo+ a uma proposta de
periodizao da prpria Histria da Imprensa peridica
portuguesa - a saber: os primrdios da imprensa peridica em
Portugal; a imprensa romntica ou de opinio; e a organizao
industrial da imprensa.  A edio revista em 1990 introduz
novos elementos, nomeadamente no que se refere  parte
introdutria, com um novo captulo - 2Os Antecedentes+.  
feita tambm a reformulao da 2primeira poca+ referente aos
2primrdios+ e so ainda integrados dois novos subcaptulos na
actual terceira parte: 2A imprensa ilegal durante a guerra
civil+ e 2Desenvolvimento da imprensa operria+.
          A estrutura da primeira edio  assim mantida, no
se observando de igual modo qualquer reinterpretao da
genealogia da Imprensa no contexto histrico-cultural do
perodo ps-tipogrfico em Portugal.  Alis, essa era j uma
das limitaes da verso inicial, na medida em que, enquanto
texto que traava as 2linhas muito gerais+ da histria da
Imprensa peridica em Portugal, no tinha necessariamente a
pretenso de redimensionar o dispositivo histrico-cultural
que tem caracterizado a nossa histria contempornea, atravs
de uma reflexo de fundo sobre o lugar que o 2quarto poder+

nele veio ocupar, procurando o saber constituinte e histrico,
definindo o sistema que permitiu a emergncia de enunciados
como acontecimentos singulares.
          Ainda assim, alguns elementos importantes so
avanados.  Veja-se em primeiro lugar que os primeiros
peridicos, de que  exemplo para Portugal a Gazeta de Lisboa
(1641), foram desde incio uma espcie de 2aparelhos
ideolgicos de Estado+, 2folha oficial+, suporte do Estado
moderno ento emergente de tal forma que,  imagem do que se
passava em diferentes cortes curopeias, tambm em Portugal a
fidelidade a D. Joo IV e s diferentes polticas de
governao posteriores (inclusive, mais tarde, ao ocupante
francs: Junot obrigou a substituir no cabealho as armas
portuguesas pelas guias francesas) era uma constante - e
quando o no era espreitava-a a suspenso. 
          O primeiro efeito desta ligao da Imprensa ao poder
foi o aparecimento dos primeiros peridicos de crtica social
e satricos, dos panfletos, das muito perseguidas gazetas
manuscritas e, mais tarde, da imprensa de emigrao ou de
exlio, que foi sem dvida o paradigma da imprensa de opinio
em Portugal, se tivermos por referncia os 2grandes
panfletrios+ britnicos, da Revue de Daniel Def?e (1704), ao
Tatler (17O9), e ao Spectator (1711) de Steele e Addison.   
     Trata-se com efeito de uma das pginas de ouro da
histria da nossa Imprensa.  Hoje  reconhecido, tal como
alis j na altura Luz Soriano se tinha apercebido, ser o
jornalismo portugus de exlio, em Londres, produzido na fase
de declnio da monarquia absolutista e em paralelo 
emergncia de uma esfera pblica crtica, 2quem por aquele
tempo, principiou a difundir abertamente entre ns, por todas
as classes da Nao, as ideias liberais+.  Tese idntica
sustenta, por exemplo, Maria Helena Carvalho dos Santos no seu
artigo 2O Portugus - um jomal republicano clandestino+ 1  O
estudo de Tengarrinha, sobre a fase industrial da Imprensa,
comea por referir o aparecimento do Dirio de Notcias (1864)
enquanto modelo da 2Imprensa-negcio+ de que o Times britnico
havia sido o paradigma a partir de 1811. Portugal neste
aspecto no acompanha de forma nenhuma as grandes mudanas
tecnolgicas e comerciais que a partir da dcada de 30 do
sculo passado se produzem praticamente em simultneo nos
pases mais desenvolvidos.  Sinal ou no do 2reino cadaveroso+
de Srgio, o que  certo  que ficmos a dever ao ocupante
espanhol as nossas primeiras folhas impressas.  E a primeira
Gazeta era 2da Restaurao+... O primeiro dirio, por sua vez,
2devemo-lo+ ao ocupante francs... Demasiadas coincidncias
para uma histria to breve.  



     V. 3. O sistema poltico e a informao televisiva - ou a
iluso         
                    naturalista das notcias do mundo  

           frequente depararmo-nos com aproximaes
extremamente redutoras entre o fazer histria e o fazer
notcia, entre o trabalho do historiador e o trabalho do
jornalista, entre, finalmente, a genealogia do acontecimento e
o seu simples relato.  So de facto duas coisas nem sempre

claramente distintas, da surgirem por vezes associaes
contraditrias e perturbantes entre ambos, como  alis o caso
em epgrafe.
          Por exemplo, a seguir-se o quase postulado de
Roberto Marinho - 2hoje em dia, mais do que em qualquer
perodo de nossos tempos, os conceitos de  histria e de
jornalismo mantm uma total afinidade (...),  convivem to
intimamente que tentar separ-los resultar em grave erro de
avaliao histrica ou em imperdovel falha de compreenso do
fenmeno jornalstico+, de nada serviria interpretar a
diversidade de discursos e acervos extra-jornalsticos, ou o
arquivo de uma poca, ou ainda as formaes no discursivas
especficas de uma determinada estrutura histrico-cultural:
tudo seria dado pelo discurso meditico, isto , cair-se-ia
para sempre nesse logro que por vezes nos seduz - crer que so
os media que fazem o acontecimento tout court, que produzem o
real, e que, portanto, para alm desse horizonte de
acontecimento estaramos ou perante o vazio puro e simples -
ou perante uma espcie de "buraco negro" para o qual
precisaramos de avanar a uma velocidade superior  da luz,
para finalmente entrarmos na mquina do tempo e nos depararmos
com os acontecimentos esquecidos pelos media.  essa, de
alguma forma, a aproximao 'pulsional' de Eliseo Vern: 2Os
acontecimentos sociais no so objectos que se encontrariam
"algures no real" e de que os media nos fariam conhecer as
propriedades - eles no existem seno na exacta medida em que
os media os constroem+ (Vern, 1981).
          Na verdade, o velho preceito 2ser  ser
jornalisticamente percepcionado+ no  de facto to idealista
quanto parecia (Coelho, 1988).  Ele  real, muito embora no
se possa perder de vista o acontecimento em si mesmo:
2Produzir o acontecimento  produzir as duas coisas
simultaneamente+.  Para alm disso ele  equvoco porque tem a
ver com um certo ponto de vista, que, alis, provoca em regra
uma 'exploso' de acontecimentos a partir de um s facto: 2L'
vnement rapport dans Ia squence des actualits est avant
tout "une histoire" sur cet vnement lui-mme.  C'est mme
dire davantage car s'il est possible de rduire
tlvisuellement  une "histoire", conforme  l'attente d'un
auditoire, la ralit brute d'un vnement, c'est qu'il est
possible de forger plusieurs "histoires" sur le mme
vnement+ (Morin, 1976: 31).
          O jornalista tem assim essa funo extremamente
especfica e complexa de se interp&r no processo de irrupo
do acontecimento consciente de que o seu relato, sendo 2outro+
acontecimento  2o+ acontecimento - 2Ia parole devient
l'vnement mme+ - como dizia Barthes no seu conhecido artigo
sobre Maio de 68: 2La parole informative (du reporter) a t
si troitement mle  l'vnement,  l'opacit mme de son
prsent (il suffit de songer  certaines nuits de barricades),
qu'elle tait son sens immdiat et consubstantiel, sa faon
d'accder  un intelligible instantan; cela veut dire que,
dans les termes de Ia culture occidentale, o rien ne peut
tre peru priv de sens, elle tait l'vnement mme.  La
distance millnaire entre l'acte et le discours, l'vnement
et le tmoignage, s'est amincie - une nouvelle dimension de
l'histoire, lie dsormais immdiatement  son discours, est
apparue, alors que toute la 2science+ historique avait au

contraire pour tche de reconna-tre cette distance, afin de Ia
contr&ler+ (Barthes, 1968: 108).
     Esta 2colagem+, esta compresso do tempo na palavra do
jornalista, se, em Barthes, foi entendida como uma aproximao
entre o acontecimento e o seu testemunho, e, portanto, uma
nova dimenso na transparncia admitida no trabalho histrico,
para os historiadores teve, aparentemente, outras
consequncias: 2... o prprio acontecimento que, em relao 
Histria  tradicional, mudou de natureza, por causa da
transformao operada pelos mass-media+ (Nora, 1983: 48).
     De facto, este novo sistema inflacionrio trouxe
sobretudo uma mutao radical: se tradicionalmente sempre
foram os historiadores a fazer ascender este ou aquele
acontecimento  2dignidade histrica+, hoje  bvio que as
formas de legitimao so outras, inclusive porque, no limite,
a lgica performativa permite aos media efectivarem o acto
anunciado pelo simples facto de o enunciarem.
     O acontecimento em si mesmo tem assim tendncia a
apagar-se nessa eroso provocada pelo mega-discurso do campo
dos media. A realidade tem de facto uma natureza
essencialmente comunicativa muito embora, paradoxalmente, o
desconhecimento das coisas e do mundo cresa  na razo inversa
do desconhecimento de um mundo de coisas que no ascende 
galxia comunicacional.
     No fundo, considerado na globalidade, 2o sistema
informativo dos media fabrica o ininteligvel (...)
bombardeia-nos com um saber interrogativo, enucleado, vazio de
sentido, que espera de ns o seu significado, nos frusta e nos
realiza simultaneamente com a sua evidncia perturbadora - se
no interviesse uma reflexo do historiador, no passaria, em
suma, de um rudo que perturbaria a inteligibilidade do
prprio discurso+ (Nora, 1977: 253).
     O facto  que cada vez mais nos damos conta que o
acontecimento meditico  de certo modo um fait-divers, no
mais rfo da histria, em todo o caso, mas antes um objecto
de histria privilegiado, um elemento fragmentrio decisivo na
prpria instabilidade das estruturas e conjunturas,  decisivo
tambm, como factor sincrnico, para a recomposio da figura
diacrnica.  
          A noo de acontecimento funcionar assim, segundo
Paul Ricoeur, como ideia do que efectivamente aconteceu, sendo
a sua funo a de preservar, para alm das construes dos
historiadores e dos jornalistas, a convico de que alguma
coisa efectivamente se produziu que no  obra nem de uns nem
de outros.  A noo de acontecimento preservar essa convio,
mas apenas isso, porque, de facto, a ideia de um real 2em si
mesmo+ como totalidade a restituir est de h muito
desmistificada, veja-se, por exemplo Benjamin (Thses sur Ia
philosophie de l'histoire): 2Le vrai visage de l'histoire
s'loigne au galop. On ne retient du pass que comme une image
qui,  l'instant o elle se laisse reconna-tre, jette une
lueur qui jamais ne se reverra+.    
          Mais para alm das condies de interpretao e de
explicao de uma forma de experincia comunicacional e da
especificidade histrico-cultural do meio e da sua mensagem,
procuraremos ainda problematizar as condies de possibilidade
da sua adequao a novas experincias e  refigurao do seu
modelo.

          Concretamente, o caso da informao televisiva.  No
 novidade que o poder poltico tem imposto ao servio pblico
de televiso - e principalmente ao seu principal bloco
informativo - o Telejornal - um modo peculiar de ver a
actualidade, dando a ver uma  verso do acontecimento  que 
desde logo centrada na categoria de dominao de origem, isto
, no sistema poltico-partidrio. 
     Isso implica, desde logo,  que as regras de interpretao
e argumentao do poltico se sobreponham, ou pelo menos
coincidam, com uma hermenutica do que  fazer notcia.  H,
alis, uma figura que caracteriza sobremaneira essa
antecipao do poltico ao jornalstico -  o famigerado
2comissrio+ da informao - tanto antes como depois do 25 de
Abril -, que melhor do que ningum entende esse paradoxo: o da
absteno do especialista, do jornalista, e a consequente
adequao a uma voz que lhe  exterior. H assim uma
estratgia de tenso que estrutura a natureza e o modelo
instrumental e protocolar tradicional da informao televisiva
e que tem a ver fundamentalmente com a preponderncia do
poltico e dos seus subsistemas partidrio e administrativo
sobre qualquer dos outros campos. 
     Historicamente, afirma Bernard Mige o jornal televisivo
foi concedido para forjar de facto um certo tipo de consenso
nacional: 2(...) as suas regras de funcionamento foram sendo
estabelecidas a pouco e pouco - hoje so claramente aceites
por uma grande parte das classes populares e mdias, para quem
o jornal televisivo no  um meio de informao, mas um
elemento de pontuao do seu tempo quotidiano e uma ocasio -
fantasmtica - de tomar parte nos assuntos da nao e do
mundo.  Uma coisa  certa - em Frana o jornal televisivo 
para muitos um "rendez-vous" quotidiano.  Mas se merece o
qualificativo de "quotidiano" merecer tambm o de 'jornal"?+
(Mige, 1986: 89).   
     O processo de fragmentao da imagem da sociedade na
informao televisiva  produzido atravs da justaposio de
acontecimentos-informaes em que cada um  apresentado como
autosuficiente, no explicado, nem explicando outros
acontecimentos-informaes.  Esta  por definio a noo de
fait-divers. No  um enunciado equvoco, mas antes uma
informao total, ou melhor, imanente: contm em si todo o seu
saber: no h necessidade de conhecer o que quer que seja para
consumir um fait-divers.  No reenvia para nada mais a no ser
para si mesmo.  Tudo  dado no fait-divers.  percebido de
maneira idntica por todos.  Esta imagem da sociedade
(diramos composta por um negativo "vnement" e um positivo
"sans vnement")  to fragmentria, por um lado, e to
"realista" por outro, que deve ser reequilibrada exactamente
pela passagem de uma lgica de fragmentao a uma lgica de
homogeneidade, o que  conseguido pela preponderncia
atribuda na informao ao poder poltico, como referimos,
constituindo-se em regime de auto-celebrao do sistema e da
classe poltica.  Como refere Rositi: 2Se si suppone questo
nosso latente, si pu= comprendere come si possa passara dalla
frammentazione alla ricomposizione, da una societ di
individui e di singoli azioni ad una societ di ruoli.- se gli
interessa sono omogenei  pi facile aggregare una moltitudine
di individui in una scala di intervalli secondo Ia maggiore o
minore realizzazione degli stessi interessa. (...) Del resto

esso ci  sembrato emergere da qual senso, di dispersione e di
noia che Ia visione consecutiva di tanti telegiornale ci ha
dato+ (Rositi, 1976: 79-80).
                importante esclarecer, no entanto, que esta
imagem fragmentria e hiperpolitizada no coincide
propriamente com uma deriva sobre as singularidades e a
vitalidade dos actores sociais autnomos relativamente ao
sistema poltico.   Entender as condies de possibilidade da
produo de sentido na informao televisiva e da sua
tradicional retrica da ambiguidade  portanto fundamental. 
Na sequncia do que dissemos inscreve-se tambm a proposta de
Jean Mottet no seu artigo 2Le reportage - des images en
situation+.  Partindo daquilo que considera a "fora de
referncia" de um enunciado do gnero reportagem e do novo
contrato enunciativo que a se estabelece entre destinador e
destinatrio, o autor remete-nos para uma pragmtica do
audiovisual resultando obviamente da um acrscimo de
complexidade: 2L'articulation de l'nonc  son extriorit
smantique repose moins sur une laboration formelle tablie
dans le cadre de la tradition culturelle que sur un certain
nombre de procds lis aux nouvelles conditions de production
et de circulation des noncs+ (Mottet, 1986: 186).
               Que processos so esses?  So nomeadamente
dispositivos que intervm para assegurar simultaneamente uma
articulao verosmil entre enunciado e real e uma
interpelao eficaz do pblico.  O autor pretende dizer que no
actual regime audiovisual a produo de sentido deriva menos
do enunciado e da 2organizao codificada das suas
componentes+ que do produto de uma srie de intervenes
exteriores, extremamente difceis de classificar, mas onde os
sujeitos de enunciao tm um papel considervel.  A questo
que Mottet pe  esta: 2(...) A l'interrogation ce qui est
nonc est-il rel, il faut substituer Ia question: le sujet
de l'nonciation est-il rel?+.
     As questes so portanto complexas e por vezes
contraditrias no registo dicotmico e ambguo em que se
apresentam.  Parmetros mais evidentes nesta retrica do
discurso televisivo podem definir-se atravs das dualidades
demonstrativo/interpretativo; fragmentao/recomposio;
legitimao/deslegitimao; positividade/raridade;
discursivo/no-discursivo; consenso/dissenso; real/fico,
etc.  Da aplicao das dualidades resultar evidente o modelo 
instrumental; da transparncia de processos e intenes
depender em boa parte a alternativa ao modelo, que ter de
passar inevitavelmente pela emergncia das pulses, das
singularidades e da vitalidade do social, do individual e do
cultural, ou seja, pela emergncia das soft news face 
predominncia do poltico, das hard news, mas sobretudo pela
emergncia do modelo interactivo.  E apesar de autores como
Rositi, por exemplo em plena crise da 'cacofonia' italiana,
no acreditarem noutro tipo de possibilidades, como a
televiso de acesso, a televiso local, o servio pblico no
concorrencial, etc., (2Penso che sia venuto il momento di
cominciare a pensare ad una televisione alternativa.- non mi
riferisco a nuovi circuiti 2dal basso+, n ad una televisione
fatia directamente dagli stessi attori sociali; n tanto meno
ad una televisione regionale che i miti partecipazionistici,
perdonabili forse ai suoi fautori, non avvincinano certo a

questa prospettiva di una informazione colletivamente
aotogestita.  Mi riferisco invece ad una televisione pi o
meno decentrata, ma che  gestita da qualcuno che non  Ia
societ e che rimarr comunque una necessita delle nostre
societ+) (Rositi, 1976: 701), suponho que esses so factores
a levar em conta na alternativa ao actual modelo, se bem que
neste final de sculo, a prpria tecnologia venha em socorro
das alternativas ao modelo da televiso generalista clssica. 
     Informao televisiva e poltica acabam por ser, de
facto, na sua aparente e desejvel inconciliao, dois temas
h muito confundidos. A complacncia relativamente a esta
indistino tem sido constante ao longo da histria da
televiso, de tal forma que o tradicional modelo de
Telejornal, nomeadamente, tem tendncia a no dar sinais
2exteriores+ de exausto.  
     Curioso  ver, que por vezes, o poder-emissor, os
responsveis da informao, comeam a assumir publicamente o
esgotamento de um 2programa+ de obedincia ao sistema
poltico.  Veja-se, por exemplo, um caso portugus:
entrevistado em directo pelo Jornal da Tarde de 7.7.88, a
propsito da descentralizao da informao televisiva com a
abertura do Centro Regional de Vila Real, o ento Director de
Informao da RTP, Jos Eduardo Moniz, reconhecia no s a
predominncia do campo poltico na informao de que era
responsvel, como tambm o domnio do centro sobre a
periferia, concluindo que se tratava de um estado de coisas
que s se ficava a dever s dificuldades de gesto de um
processo de descentralizao.  Boa maneira, sem dvida, de
2piscar o olho+ s regies e ao interior durante a inaugurao
de um Centro Regional, mas, de qualquer modo, grande
eufemismo,   que no evitava o esclerosamento do modelo do
Telejornal desse perodo da nossa "democracia de sucesso" - 2o
modelo+ de sempre, finalmente.
     Contraditria tem sido por isso a forma como o
poder-emissor desde sempre prev e rev as suas prticas, o
seu discurso, recicla as suas modalidades de enunciao, para,
no fundo, manter sempre 2o+ modelo.  Se, para citar um exemplo
paradigmtico do ps-II Guerra Mundial, o General de Gaulle
nunca se fez rogado no seu modo de pensar a televiso
(recorde-se a sua conhecida mxima 2Un journaliste  la tte
de Ia Tlvision?  Jamais!  Prenez un conseiller d' tat, ils
sont fait pour a!+) j o 2seu+ Director-Adjunto na ORTF,
Jacques Thibau, afirmava, sem hesitaes que 2La tlvision du
gnrale de Gaulle est une grande tlevison+ (Thibau,
1973:128). 2...Toutes les mesures importantes concernant Ia
tlvision depuis l't 1969 ont t prises par le pouvoir
politique.  Toutes ont t dcides en fonction de
l'entreprise politique de stabilisation qui a suivi Ia
profonde secousse de 1968 et le dpart du gnral de Gaulle,
de ses ncessits et de son volution+ (Thibau, 1973:152). 
Grande culpado?  Georges Pompidou, obviamente: 2Qu'on le
veuille on non - et je sais qu'il y en a qui ne me croient
pas, le journaliste de tlvision n'est tout  fait un
journaliste comme les autres.  II a des responsabilits
particulires.  Qu'on le veuille ou non, Ia tlvision est
considre comme Ia voix de Ia France, et par les franais, et
par l'tranger.  Et cela impose une certaine rserve, et pour
des raisons videntes - Ia premire, c'est que les

responsabilits d'un informateur sont fonction des moyens
qu'il a  sa disposition, et que les moyens de Ia tlvision
sont sans commune mesure aves les autres.  Et Ia deuxime,
c'est qu'ils ont  l'heure actuelle un monopole + (Wolton e
Missika, 1983:65).
     Mas quem ilustrou bem, sem dvida, a 2utilizao
formidvel+ que De Gaulle fez da televiso foi Roland Cayrol
com a seguinte histria: 21964 c'est dj un ge avanc du
gaullisme, en 64 Ia tlvision changeait Ia formule du journal
tlvis.  Un changement de "look" comme on dirait
aujourd'hui. Comment on a prsent aux tlspectateurs le
changement de formule du journal tlvis?  Simplement le
prsentateur habituel du journal, un homme connu du public est
apparu et il a dit: - "il y a ce soir un changement de formule
du journal tlvis.  Pour vous expliquer pourquoi naus avons
dcid de changer de formule, j'ai invit celui qui est
l'auteur du changement de Ia formule".  Une deuxime camra
s'est mise en mouvement et on a dcouvert l'homme assis  cot
du prsentateur, qui tait Alain Peyrefitte, le Ministre de
I'Information qui a expliqu pourquoi le Gouvernement avait
estim utile de changer de formule le journal tlvis+
(Cayrol, 1986: 142).
          Claro que o poder poltico tem vindo a ser cada vez
mais cuidadoso nas relaes que estabelece com os media em
geral e tambm nas declaraes que faz das suas intenes, das
suas orientaes veladas, das suas prticas.  Hoje tudo parece
ser diferente... Vejamos como o Director-Geral da RAI
reflectia sobre estas questes em Setembro de 1985: 2... 
necessario calare nella complessa realt quotidiana gli
indirizzi di un giornalismo senza aggettivi, che sono quelli
di una informazione corretta e libera da steccati, obiettiva,
imparziale e completa, un'informazione per Ia gente e non per
chi  pi potente o pi alla moda. ln altre parole,
un'informazione che non sia comizio e non sia crociata, che
non manipoli le notizie, che non sia faziosa, tardiva o
ambigua (...) Da una parte ci possono essere quei politici che
per demagogia televisiva giocano le loro carte esclusivamente
su sortite ad effeto, sull'apparenza piuttosto che sulla
sostanza, sulla facile denuncia piuttosto che sull'impegno
concreto. Dall'altra ci possono essere quei giornalisti che
vivono esclusivamente per lo 2scoop+ e sullo 2scoop+, magari
amplificando frasi smozzicate, strappate a questo o a quel
personaggio o che, addirittura, tradendo Ia professione,
mettono al servizio della fantasia la loro intelligenza e il
loro mestiere. Bisogna invece ribadire com forza che un buon
rapporto fra televisione e politica deve sottrarsi a queste
due gravissime tentazioni+ (Agnes, 1986: 17-18). 2Nel suo
sforzo di aderire a una realt vivace, in rapida evoluzione,
dalle tome sfaccettature qual  quella del nostro Paese,
l'informazione radiotelevisiva - specie in campo politico -
deve procedere attraverso equilibri che, ovviamente, nom si
raggiungono in un sol giorno+ (Agnes, 1986: 20). E
referindo-se a um 2controle+ a que se no pode fugir: 2...uno
spirito critico sempre pi esigente da parte del pubblico
sulla qualit dell'informazione e sulla professionalit di
quanti Ia producono e Ia diffondono sar Ia sola
giustificazione per poter conservare integralmente la libert
di coloro che esercitano il potere d'informare.+ (Agnes,

1986:23) Finalmente, conclui desta forma Biagio Agnes 2Appunto
per questo a me piacerebbe che proprio in questo campo ci
orientassimo a fare di comune accordo qualcosa di organico e
di concreto.  Ritengo che daremmo un segno palpabile ed
emblematico del nostro impegno civile, se annualmente ci
impegnassimo in una campagna articolata nei modi pi
attraenti, volta a volta per un grande obbiettivo di
cooperazione, di orientamento, di educazione civile. (...)
Penso alla lotta contro Ia droga e l'alcolismo, alla
prevenzione o al recupero della deliquenza minorile,
all'educazione ecologica, al problema degli anziani, alla
tutella della salute pubblica, alla promozione delta
corretezza negli stadi. Riflettendoci potrebbe anche nascere
un riconoscimento periodico destinato alla migliore campagna
televisiva di defesa o progresso civile, all a migliore
iniciativa nel senso di una televisione al servizio della
comunit, di una televisione che sta dalla parte di chi ci
vede e di chi ci ascolta+ (Agnes, 1986: 24).
     Da reflexo de Biagio Agnes no se poder concluir sobre
grandes inovaes no sistema informativo da RAI.  J Graham
Murdock, ao analisar o sistema informativo britnico dos anos
80, que pouco mudou relativamente ao actual, coloca as coisas
de maneira diferente, talvez por ter uma viso distanciada do
meio em si e da prpria produo da informao.  Questo
central, para Murdock,  esta: 2Does the system-both as it
exists now and as it is likely to develop - promote rational
and open political debate in which all the relevant positions
are brought into play and subjected to scrutinyand
interrogation?... I want to suggest that the relationship
between political power and communicative power is centred
around a continuous struggle between competing ways of
defining and explaining political issues.  This struggle
begins with a battle over what is to be counted as belonging
to the realm of politics. In Britain as elsewhere, there is
more or less constant friction and argument between program
makers and politicians, but most of it takes place behind
closed doors and is discretely off the record so that we, the
public know very little about what is decided or why+.  Outra
questo levantada por Graham Murdock tem a ver com o 2news
system+ que se transforma em 2showbusiness+, 2emphasissing
drama, impact and action and marginilising context,
interpretation and analysis.  The result may well be a general
television service which is information rich but knowledge
poor+ (Murdock, 1986: 69-76). E em jeito de concluso: 2At the
center of political life then, are a series of competing
discourses, each with its own vocabulary, way of looking at
the world and conceptual framework for integrating its
favoured ideas and images into a coherent view of the present,
past and future.  These discourses furnish the rationales for
competing political groups-parties, factions, pressure groups
and movements - and provide the platforms on which they seek
to publicise themselves and win support.  The resulting
ideological contest has become increasingly complicated of the
last decade.  As the political field has fragmented so the
number of discourses jostling for attention has significantly
increased, and it is to the television system that much of
their attention is turned, because television can deliver
large audiences. Consequently, political discourses have to

enter through the door of television in order to reach the
constituencies they wish to address.  This is not a simple
process and certainly not a passive one.  As they pass into
the television system political positions and arguments
undergo a process of translation or conversion, so that we
encounter them as viewers, not in their raw state but in the
form of particular types of programming.  These range from
interviewes, round-table discussions and news headlines to
incidents in telenovelas and or the jokes and sketches
comedians perform in variety shows.  This process of
translating political discourses into programmes is the site
of an intense struggle between political actors and
institutions and television professionals... This struggle has
two main dimensions.  It is firstly, a struggle for
visibility.  The key issues here are; who should have access
to the television system with its massive publicity resources
and on what terms?  And where the line should be drawn.  Are
there voices and viewpoints that should be excluded, and if so
on what grounds?  Secondly, it is a struggle for legitimacy. 
The central question here is how the contending positions are
defined and hendled.  Should they be treated with deference
and respect or with hostility?  Should their credibility and
legitimacy be taken for granted or questioned?  These issues
are the stuff on the day-by-day interaction between the world
of organised politics and the world of television programme
making.+ (Murdock, 1986: 70).
     No h dvida pois que em meados dos anos 80 as questes
dos anos 60 se repetem, quer o modelo informativo seja o
ingls, o francs, o italiano ou o portugus.  A estrutura e o
sentido da informao televisiva gera-se assim nessa complexa
relao entre uma determinada situao de enunciao e as
modalidades concretas da sua manifestao significante, por
sua vez marcada pela formao historico-cultural que a tornou
visvel.  
     As declaraes de George Pompidou, produzidas em 1973,
ainda como Presidente da Repblica,  foram comentadas por
George Gaudu ("Des yeux et des oreilles pour Ia tlvision" -
Le JT - Mise-en-scne de l'actualit  Ia tlvision Bemard
Mige (org.), INA, Paris, 1968)  lapidarmente: "Non, pas Ia
voix de Ia France, ses yeux et ses oreilles...+.
     Esta  mesmo a grande questo, por assim dizer, que se
coloca hoje tambm: o modelo instrumental, protocolar
institudo na informao televisiva,  ainda "o" modelo por
excelncia.  tempo de facto de lhe dar olhos para ver,
ouvidos para ouvir...
     Na obra colectiva Le JT - Mise-en-scne de l'actualit 
Ia tlvision  editada imediatamente antes das privatizaes
no audiovisual francs,   o organizador, Bernard Mige, tem
por objectivo principal realar o estudo do fenmeno
informativo televisivo, no numa prespectiva sociolgica,
reducionista, ou apenas semiolglca mas, nas palavras de
Mige, atravs de um debate alargado que se pretenda aberto,
interdisciplinar.
          Tal como em Frana se falou, em diferentes momentos,
de uma lgica ora gaulista ora giscardiana na televiso de
servio pblico, tambm noutras televises de Estado, a
polticas diferentes tm correspondido lgicas diferentes, se
bem que inevitveis constantes lhes sejam comuns: uma viso do

mundo consensual e no-crtica, uma objectividade
"inquestionvel" e acima de qualquer suspeita, um discurso
vazio de sentido, refractrio  representao da sociedade
civil - exceptuando as esferas de soberania - convergindo
assim para a supresso da distino fico/real, ganhando a
informao um estatuto de fico ao qual no  estranha a
capacidade de construir o acontecimento como prope Eliseo
Vern quando refere que, como todo e qualquer discurso, aquele
a que se costuma chamar a actualidade  tambm um objecto
construdo.  
          Tribunal das palavras e das ideias, a televiso, e
nomeadamente as imagens da sua "ordem do mundo" so como a
quintessncia  de uma autntica opacidade comunicativa. De
facto, os logocratas, os tcnicos do saber prctico do
quotidiano que os media instituem como vnculo, so por assim
dizer retransmissores de uma lgica, de um megadiscurso s
aparentemente transparente, que nos confunde na sua aparente
consensualidade, na sua redundncia, recalcando as
virtualidades do socius em favor da normalidade socio-poltica
e da pacificao do exerccio do poder.
     O jornal televisivo foi concebido de facto, como vimos,
para forjar um certo tipo de consenso nacional. Mige, o
defensor desta tese, no se declara efectivamente um crtico
radical do JT: cr, inclusive, que se est a assistir a uma
evoluo - de porta-voz do poder do Estado para "pedagogo da
modemidade".  E antecipando-se ao modelo das privatizaes
imaginava erradamente que o JT seria um ponto forte do servio
pblico da TV, sem concorrncia futura... Nem a experincia
francesa, nem to-pouco a portuguesa o vieram confirmar.
     Outra viso algo optimista  a que sustenta Michle Cotta
ao considerar que desde meados dos anos 60 a televiso
francesa iniciou urna nova fase nas suas relaes com o poder,
nomeadamente aps esse grande choque que foi o aparecimento de
Mitterrand e de Lecanuet na TV, no decorrer da campanha para a
Presidncia, em 1965: "D'un seul coup, des gens de I'
opposition arrivaient  l'antenne.  C'etait un choc
considrable, et aussi une offense  De Gaulle".  Certamente
que o facto de se tratar de uma ex-Presidente da Alta
Autoridade do Audiovisual francs explicar o seu desassombro
em considerar que a partir de 65, com o "servio pblico",
muita coisa teria mudado...
     No artigo de Jean-Michel Salaun "Le Journal des Alpes,
archeque ou prcurseur?", posta a questo em termos de se
saber at que ponto  que a informao das redes locais surge
como alternativa ao jornal nacional, a resposta  clara: o
autor reconhece que ainda aqui o modelo  o parisiense: "le
jounal des Alpes represente bien les Alpes du nord vues avec
des lunettes (de soleil) parisiennes" 1 .
          Uma possibilidade alternativa seria a tecnolgica
propriamente dita.  Mas tambm a as novas possibilidades do
tratamento de imagem "quer reforcem a espectacularizao
meditica ou pelo contrrio se tomem vectores de novas formas
de investigao do mundo e da construo dos saberes, no
resultam, em ltima instncia, nem do talento dos engenheiros
nem das performances das mquinas, mas da natureza das
orientaes de um projecto de jornalismo televisivo, que,
tambm, manifestamente, se procura hoje" 2.
     Mas enquanto um novo projecto no aparece ser importante

analisar mais de perto o que existe.  Para isso contribui
tambm Jean Mottet 3  com o artigo "Le reportage: des images
en situation".  O autor, especialista na anlise do discurso
filmico, prope-se aqui aprofundar um pouco mais algumas das
questes centrais desta obra, nomeadamente no que concerne ao
entendimento das novas condies de possibilidade da produo
de sentido na informao televisiva. Partindo daquilo que
considera a fora de referncia de um enunciado do gnero de
reportagem e do novo contrato enunciativo que a se estabelece
entre destinador e destinatrio, o autor remete-nos para um
modelo complexo e para os dispositivos que intervm para
assegurar simultaneamente uma articulao verosmil entre
enunciado e real e uma interpretao eficaz do pblico 
     Na anlise que fazem do caso francs, Jean-Louis Missika
e Dominique Wolton, se bem que entendam que o poder poltico
se utilizou inicialmente do monoplio televisivo para exercer
um controlo sobre o espao pblico, defendem, no entanto, que
de uma forma geral nos pases ocidentais, de acordo com as
suas prprias tradies, sempre se procurou tornar compatvel
o monoplio televisivo com a democracia. E acrescentavam:
2Certains estiment, encore aujourd'hui, que l'image subjuge la
conscience et renforce la domination politique au lieu d'
manciper les citoyens.  Nous essayons de montrer qu'ils ont
tort + (1983:11).  Convir pois ver de que maneira Missika e
Wolton vo procurar demonstrar a sua razo.  
     Em primeiro lugar, procurando fazer crer que o "homo
telespectator" deixou progressivamente de pertencer  massa
annima, deixou de ser passivo, e, por outro lado,
argumentando que, com o fim da televiso de massa, novas
relaes se passaram a estabelecer entre a televiso, a
sociedade e a democracia.  A televiso fragmentada iniciaria
assim um novo perodo na histria.  Mas estes autores vo mais
longe: afirmam inclusive que a pretendida passividade face s
imagens nunca ficou demonstrada; apesar dos medos e das
angstias, a televiso nunca teria posto em causa a democracia
- adaptou-se-lhe, serviu-a mesmo (1983:93).  Ainda assim
reconhecem que momentos houve, em Frana, em que a televiso
foi objecto de uma politizao violenta, citam os casos da
reviso dos estatutos da ORTF em 1964 e 1974 e tambm o Maio
de 68, considerando ser este o melhor exemplo da dcalage
entre a realidade poltica e o que a televiso d a ver.  
     De facto, em 68, at ao dia 10 de Maio, inclusive,
primeira noite das barricadas, oito dias aps o comeo das
manifestaes, a informao televisiva praticamente no se
havia referido aos acontecimentos.  Aps os acontecimentos de
Maio de 68 os autores reconhecem ter havido uma poltica
contraditria, para o perodo que decorreu entre 1974 e 1981,
balanceando entre um *liberalismo de propsitos e um estatismo
de factos+ apesar de se ter registado uma certa autonomia face
ao poder 1.  Inovaes espectaculares s a partir de 1981, com
a vitria dos socialistas,  que se teriam verificado: uma
delas, a que permitiu aos cidados terem acesso a uma
comunicao audiovisual livre e pluralista; outra, a criao
da "Haute Autorit" para o audiovisual.  Quanto  informao
os autores defendem que 2Les lments dynamiques perdent tout
espoir de changement ou d'avancement...+ (1983:86).
     Vemos assim que a posio condescendente inicial, digamos
assim, que conferia ao 2objecto TV+ um uso de plena

democraticidade, no se confirma de todo na genealogia que os
prprios fazem do caso francs: 2Les dirigeants de la TV ont
toujours t des reprsentants du pouvoir politique (...). La
valse des ministres de l'information et celle des directions
gnraux de la RTF puis de la ORTF montrent l'instabilit
politique du secteur " 1. " Le choix des dirigeants a toujours
t fait en fonction de leur fidelit au pouvoir, parfois pour
les rcompenser, mais trs rarement par leur comptence ou
leur connaissance de la tlvision (...). C'est pourquoi la
scurit de l'emploi  la TV ressemble  celle de la fonction
publique. Elle favorise le conformisme, plut&t que l'audace et
l'imagination 2. Concluem finalmente Jean-Louis Missika e
Dominique Wolton, contrariando aparentemente o optimismo
inicial: 2Il ne peut exister de relations vritablement saines
dans une TV d' Etat+  (1983:107). 
     O exemplo francs, de facto,  disso revelador. 
Atente-se um pouco melhor na genealogia das relaes entre a
informao televisiva e o poder poltico no ps-Guerra, em
Frana.  Muito embora haja autores que defendem que se
assistiu, ainda antes da II Guerra Mundial, a uma atenuao
progressiva da dominao aparente exercida pelo Estado no
audiovisual pblico, e bem assim  desagregao por etapas da
estrutura unitria do servio pblico, como defende Jean Autin
(1984:19), a verdade  que logo em 1953  claramente expressa
no artigo 6, da Lei de TV francesa de 31 de Dezembro - que
define exactamente o servio pblico de televiso -, a
inteno de estabelecer um monoplio da produo e da
programao; antes disso foram tambm revogadas todas as
autorizaes concedidas para postos privados de radiodifuso
antes da Guerra.  Ao contrrio do que refere, portanto, Jean
Autin, o monoplio de Estado foi sendo reforado, at atingir
um quase grau de saturao com o chamado 'monoplio do
General', institucionalizado de facto por De Gaulle entre 1958
e 1974. 
     A RTF  ento dotada, desde logo, de autonomia financeira
mas ficava tambm expressa a sua dependncia directa do
ministro da Informao.  Alguns sinais de abertura do sistema
audiovisual so dados com a reforma de 1964, atravs da qual 
criada a ORTF.  Desde a sua criao at 1974, altura em que 
extinta e transformada em sete organismos de funes
diferenciadas, muitas foram as situaes em que no foi
possvel mascarar a dependncia da televiso face ao poder
poltico - e mesmo quando tal acontecia era sempre,
obviamente, por 'interesse pblico'.  Mesmo aos grandes
paladinos da liberdade como Mitterrand, por exemplo,
acontecia-lhes poderem ser convocados pelo Presidente da
Repblica (refiro-me a Vincent Auriol, em 1948, era Mitterrand
ministro da Informao) a pretexto de um discurso do
Presidente no ter sido transmitido na ntegra - o que seria
certamente 'sabotagem' dos 2neo-anarquistas do Jornal falado+
(Jeanneney, 1986:63).  Por outro lado, Mitterrand no duvidava
ento de que era lgico que a radiodifuso francesa se
pautasse por uma poltica de defesa dos interesses da Frana -
interesses que eram expressos pelo 'representante qualificado'
da Nao - o Governo.
     No final dos anos 50 um outro ministro da informao, o
centrista Roger Frey, j com De Gaulle na presidncia, defende
o monoplio de Estado com estes argumentos: 2L'tat dispose

d'un moyen de communication qui le relie  l'opinion publique:
il serait absurde pour lui de le donner  ceux qui, par la
presse ou ailleurs, cherchent seulement  critiquer ses
actions+ (Jeanneney, 1986:74).  De Gaulle, de facto, nunca
escondeu a sua filosofia dirigista face  televiso de Estado,
por muito que os directores-adjuntos da ORTF, como Thibau,
afirmassem a sua autonomia e a no interveno do General. Nos
momentos mais exaltados, De Gaulle exigia que Peyrefitte no
respondesse sequer a perguntas dos jornalistas: 2Vous les
convoquez, vous leurs dites ce que vous avez  leur dire, vous
le leur dictez (...). Ou ainda: 2Je n'admets pas qu'on mette
la Radio Tlvision franaise  la disposition d'un critique,
ou d'un auteur, ou d'un politicien, prenant de Gaulle pour
sujet, sans que j'aie donn mon assentiment+ (Bourdon,
1990:285).  Ainda assim, homens como Jean d'Arcy, Jacques
Thibau, Philippe Ragueneau, e muitos outros, confirmavam que o
general nunca intervinha directamente junto dos responsveis
da Informao televisiva.  De facto, se para d'Arcy,
Peyrefitte  que  o autor de uma televiso governamental s
ordens do poder (2Je ne crois pas du tout que cette direction
troite ait t exactement dans les vues du gnral de
Gaulle+), para Thibau 2la bibine qu'tait chaque soir le
Journal tlvis n'avait rien  voir avec sa politique+ 1.
Ragueneau, um dos primeiros responsveis pela actualidade
televisiva, desmentia qualquer interferncia do general: 2Je
n'ai jamais reu de lui une instruction directe tout le temps
que je suis reste l+ 2. As coisas passavam-se portanto de
outro modo: Jean-Pierre Hutin, assessor do ministro da
informao Georges Gorse (1967-68), reconhecia que tinha tido
de facto uma linha directa entre ele e os responsveis pelo
jornal televisivo 3 .
     Ora,  precisamente no perodo a que se convencionou
chamar o "monoplio do General" (de Maio de 1958 a Abril de
1968) que a televiso se instala, por assim dizer, no corao
na Nao francesa, no s em termos do nmero de aparelhos
(67% de taxa de penetrao em 1968) e de audincia, mas tambm
pelo territrio coberto (de 6,1% em Setembro de 1957 a 95% em
1969).  tambm, significativamente, no incio deste perodo,
que uma concepo instrumental da televiso, sobretudo do
ponto de vista poltico, se consolida claramente, por vontade
expressa do General,  a fim de 2elevar o esprito pblico+...
     Talvez por isso De Gaulle depressa se adaptou aos novos
tempos da comunicao: em cinco anos de mandato (1958-1962)
ele dirige-se aos franceses por 29 vezes (!).  Jean Lacouture
chamava-lhe ento "o soberano", a sua telegenia era um dado
adquirido, e, sobretudo, tinha feito da televiso um
verdadeiro interface legitimador de qualquer aco poltica. 
Doravante a televiso torna-se um forum a conquistar na luta
poltica e na estratgia reivindicativa: 2Le journaliste de
tlvision apparaitra bient&t comme un relais aussi ncessaire
que le dput+  (Bourdon, 1990:23). 
     A histria do controlo poltico da televiso francesa
neste perodo  sobretudo a histria das relaes entre os
ministros da informao de De Gaulle e as sucessivas direces
de informao da RTF.  Alain Peyrefitte (ministro da
Informao de 1962 a 1966) conta a Jer&me Bourdon (1990:82)
que quando assumiu o cargo constatou com desagrado que o
director de Informao da RTF na altura, Andr-Marie Grard

(que tinha como mxima - 2un journaliste doit tre un
journaliste franais, avant d'tre un journaliste objectif+) ,
reunia todas as manhs com o ministro cessante, Christian de
la Malne... Jacques Sallebert (que j havia sido ministro da
informao), nomeado no final de 1958, responsvel pelo jornal
televisivo, vem mais tarde a tornar pblico 1 que praticamente
todas as manhs era convocado ou pelo ministro Roger Frey, ou
pelo seu director de gabinete, pedindo-lhe explicaes sobre o
"jornal" da vspera... E durante a crise da Arglia, Raoul
Ergman, director-geral adjunto recebia habitualmente em casa,
aos domingos, o telefonema do ministro, com comentrios ao
jornal de domingo.  Os seus filhos j adivinhavam quem era:
"Papa, c'est Debr" ...
     Peyrefitte, aparentemente liberal (e crtico das
2batteries de sonnettes+) ser o ministro dos trs rostos, o
ministro-censor da televiso.  ele que estar na base da
criao de um servio poltico centralizado de ligaes
interministeriais para a informao (SLII), que reunia todos
os porta-vozes ministeriais.  Este organismo permitia ao
ministro, sem intervir directamente junto dos meios, orientar
a escolha e a importncia das informaes.  Segundo
Peyrefitte, o SLII limitava-se a regularizar os pedidos dos
ministrios de acesso  rdio e  televiso.  Para alm disso,
no entanto, este servio deveria estabelecer relaes
estreitas com os diferentes meios de informao sob a tutela
do Estado e organizar campanhas de informao sobre o conjunto
da poltica governamental.  Mas, uma das suas competncias
menos referidas, era ainda assegurar a escuta e a transmisso
de resumos dos jornais radiofnicos e televisivos ao governo. 
O SLII, aparentemente, nunca teve grande sucesso no exerccio
das suas competncias.  Peyrefitte queixava-se de no ser
muito popular junto dos outros ministros.  E a verdade  que,
segundo Bourdon (1990:104), os ministros continuavam a
contactar directamente, por via directa e pessoal, as
redaces da rdio e da televiso... O SLII no era, pois, a
fonte de todas as censuras.
     Significativos factos de sinal contrrio, e talvez por
isso complementares, emergiram ao longo deste perodo.  Um
primeiro aspecto prende-se com uma "liberalizao" dos
contedos no plano da informao, de que passou a constituir
paradigma o magazine mensal de grande-reportagem Cing colonnes
 la une, lanado em Janeiro de 1959 por Jean d'Arcy (ento
director de programas) e por Pierre Lazareff, editor do
France-Soir.  Dizia-se ento deste gnero de programas que
tratavam sobretudo os problemas 'actuais', mais do que
problemas de actualidade.  Era um programa muito popular, com
autonomia face  direco de informao, que procurava
sobretudo os temas-tabu que a informao diria no tratava,
os fenmenos de sociedade - nesse aspecto era de facto, como
dizia Lazareff, um contraponto  poltica do General.  E foi-o
claramente quando abordou temas como os pieds-noirs e a
Arglia.  Lazareff dizia ento que o que mais impressionava
nesse programa era o sentimento de verdade que emergia das
imagens, permitindo assim pensar o meio televiso tambm como
um extraordinrio revelador da verdade.  Mas a par deste,
outros magazines igualmente importantes iriam aparecer: Zoom
(1965-68), Face--face, Les dossiers de l'cran, etc. 
Dossiers e debates faziam assim o contraponto face a uma

informao oficial, sobretudo a partir de 1966 - at a eram
de facto programas raros e muitas vezes interditos por uma
especial vigilncia poltica.  O Estado, em Frana, governava
de facto a televiso, mas, mais do que isso, geria as formas
de representao da poltica no pequeno cran e nessa medida
produzia o seu prprio sentido da histria, produzia a sua
prpria verdade, e a sua legitimao (Brusini e James,
1982:29). 
     Um segundo aspecto, de sinal contrrio, portanto, dizia
respeito  poltica de regionalizao da informao, com a
criao de quinze centros de actualidade televisiva.  O
objectivo aqui no era sequer suspeito - era mesmo considerado
na altura a teoria do equilbrio do ministro Peyrefitte, para
quem, em certas regies da Frana, a oposio detinha um
quasi-monoplio da imprensa escrita, o que legitimaria, na sua
perspectiva, o restabelecimento do equilbrio atravs da
televiso...
     Um outro sinal de abertura, ou uma outra ilha de
independncia, como tambm se dizia, era perceptvel nos
perodos eleitorais.  Por exemplo, na campanha para as
Presidenciais de Dezembro de 1965, em que Mitterand se opunha
a De Gaulle, altura em que, segundo Bourdon (1990:110), emerge
em Frana a figura do 2jornalista-mediador cmplice+, isto ,
o jornalista escolhido pelo candidato para seu entrevistador,
fenmeno que, entre outros, alis, no havia passado
despercebido a Raymond Aron (1987:73), ainda antes do General
assumir o poder, quando considerava que os sinais de abertura
em perodo eleitoral eram efectivamente uma espcie de
2demonstrao simblica de objectividade de uma radiodifuso
que, nos perodos anteriores e posteriores s eleies, 
muitas vezes menos conforme ao ideal democrtico+...
     O SLII, que, entretanto, continuava a sua estratgia de
bastidor, torna-se pouco antes de Maio de 68 o centro das
atenes pblicas, com inmeras referncias na imprensa
relativamente  sua discreta e misteriosa actividade.  O
Nouvel Observateur de 16/5/1966 considera-o ento
inclusivamente a "verdadeira chefia de redaco da informao
televisiva".  Tudo tinha comeado no entanto por uma denncia
de censura na televiso dos republicanos independentes (a
minoria da maioria parlamentar).  Estes acusavam o SLII de ser
uma mquina de guerra, de sonegar as suas actividades, de
truncar e manipular declaraes de Giscard d'Estaing e de no
assegurar a cobertura do face-a-face entre Mitterand e
Giscard.  Este era tambm o perodo de debate parlamentar em
torno da questo da introduo da publicidade na ORTF 1,
problema que se vem a juntar ao da informao, e, em
consequncia,  apresentada uma moo de censura que, para
surpresa de todos, no  aprovada.  Estava-se a 24 de Abril -
e pouco depois seria o Maio de 68. 
     Maio de 68 vem comprovar a tese de que perante
acontecimentos que possam afectar (ou, noutros casos, apenas
"beliscar") a estabilidade dos governos institudos, o servio
pblico de televiso opta pelo silncio, isto , pela censura:
2Les vnements de Mai de 68  l'ORTF commencent plus tard et
se prolongent plus tard que dans le reste du pays, comme si la
soumission plus totale rclamait une revolte plus complte. 
L'incapacit mme de la tlvision  rendre compte des
premiers troubles fait office de dtonateur+ (Bourdon,

1990:255).  Inclusive os magazines de informao como Cinq
Colonnes (8 de Maio) e Panorama (10 de Maio) no tiveram
autorizao de passar imagens sobre os acontecimentos. 
Finalmente, aps vrios visionamentos prvios, a 14 de Maio, a
rubrica Zoom passa imagens seguidas de debate, no segundo
canal.  Dois dias depois Pompidou dir (na televiso) sobre os
acontecimentos: 2Des groupes d'enrags, nous nous en avons
montr quelques uns, se proposent de gnraliser le
dsordre+... Na sequncia dos protestos internos e da greve de
25 de Maio so feitas listas nominativas dos grevistas que
iro mais tarde ser dispensados com o argumento da necessidade
de aligeirar estruturas.  Essa era a regra de um poder que,
segundo Bourdon (1990:267) considerava os jornalistas 2comme
"ses" journalistes et non comme "des" journalistes, en un
temps o le chef de l'tat identifie la fidlit au regime et
 la nation  la fidlit  sa personne.  Dans ses conditions,
la grve de 1968 tait beaucoup plus qu'une greve: le fat de
"dserteurs", selon le mot mme de Jean Jacques de Bresson+
(director-geral da ORTF).  A 31 de de Julho de 1968  extinto
o SLII, sendo substitudo pelo CII (Comit Interministerial de
Informao), que ter doravante uma actividade menos
conflitual com os media.
     Georges Pompidou, que substitua entretanto De Gaulle em
Maio de 1969, aps ter sido seu primeiro-ministro, definia
numa conferncia de imprensa em 1973 a sua poltica para a
informao televisiva.  Considerava que o jornalista de
televiso no  um jornalista como os outros, tem
responsabilidades particulares: 2(...) la tlvision est
considre comme la voix de la France+, gostava ele de
repetir.
     Nada deveria portanto ser deixado ao acaso - e no o foi,
pelo menos a crer tambm em Jacques Thibau: 2(...) Toutes les
mesures importantes concernant le tlvision depuis l't 1969
ont t prises par le pouvoir politique.  Toutes ont t
dcides en fonction de l'entreprise politique de
stabilisation qui a suivi la profonde secousse de 1968 et le
dpart de gnral de Gaulle, de ses ncessits et de son
volution+ 1 . Mas o facto  que com Pompidou se entra numa
fase de liberalizao poltica, na medida em que sindicatos e
partidos polticos vem mais facilitado o seu acesso ao jornal
televisivo.  Para trs tinham ficado quatro importantes
momentos de ruptura com uma prtica rigorosa de subservincia
poltica da televiso pblica: Cinq colonnes, o internacional
e a guerra da Arglia (1959), o poltico e as eleies
presidenciais (1965), e o social e os magazines do segundo
canal (1964-67), e, finalmente, o Jornal em 1969.
     Parece-nos bvio portanto que em matria de relaes
entre o sistema poltico e a televiso, a velha tradio
histrica do monoplio de Estado no campo da comunicao
audiovisual manteve-se, e mais do que isso, agravou-se com a
emergncia dos meios de comunicao social modernos, passando
a assistir-se a uma constante confuso entre poder de Estado e
a governamentalizao dos media, sendo as garantias
suprapartidrias do primeiro representadas pelo segundo, o que
prevertia claramente ambos os sistemas.
     Pode inclusive analisar-se a emergncia da televiso em
Frana como a continuao de algo que j estava claramente
institudo com a prpria radiodifuso.  Roland Cayrol recorda

que at 1957 existiu em Frana um sistema de censura
governamental na rdio, mas com a V Repblica de De Gaulle se
a censura oficial terminou, o reinado governamental na
radiodifuso no.  Nos anos 60, no entanto, assiste-se a uma
progressiva liberalizao nomeadamente, e desde logo, nos
prprios estatutos da ORTF.  Constatar-se- facilmente que os
progressos ento realizados foram irreversveis, muito embora
com Giscard d'Estaing se tenha assistido a uma situao nova
que se poder considerar de profissionalizao do controle
poltico, hierrquico, dentro da prpria cadeia de produo da
informao televisiva, e no j o controle - via telefnica -
a partir do gabinete do ministro da informao.
     Mitterrand foi, no dizer de Jeanneney, o verdadeiro
primeiro introdutor de um novo tipo de relaes entre o
audiovisual e o sistema poltico.  A Alta Autoridade para o
audiovisual, criada em 1982, costuma ser uma referncia
emblemtica para caracterizar esta mutao.  Se considerarmos,
no entanto, a composio da comisso veremos que ela era
constituda por 9 membros, sendo 3 nomeados pelo Presidente da
Repblica, outros 3 pelo Presidente da Assembleia Nacional e
os 3 restantes pelo Presidente do Senado, sendo fcil concluir
pela maioria socialista no seio da Alta Autoridade ...
     Mas apesar do domnio sobre esta instncia de deciso, a
verdade  que o governo socialista francs avanou em 1982 com
uma profunda reforma do audiovisual tendo tomado algumas
medidas que foram extraordinariamente importantes para uma
redefinio do quadro geral do audiovisual em Frana, podendo
por isso compreender-se a tese de alguns de que o artigo
primeiro da lei ento aprovada - 2a comunicao audiovisual 
livre+ - veio a ter alguma comprovao prtica, e nomeadamente
porque foi ento reconhecida legalmente a existncia das
rdios livres, foi lanado o plano por cabo e foi aceite o
princpio das televises privadas locais e mesmo nacionais - o
que foi sem dvida uma deciso poltica de grande relevncia
para a descompresso de uma relao histrica demasiado tensa
entre as duas esferas.
     Porm, no que  informao televisiva diz respeito, tudo
se passou como se de uma remake giscardiana se tratasse. 
Constata Cayrol (1986:145): 2Depuis 1981-82 tous les
Prsidents Directeurs Gnraux de cha-ne ont t remplacs,
tous les Directeurs de l'Informaton, tous les chefs des
services politiques, la maiorit des membres des services
politiques de rdaction, tous les prsentateurs des journaux
tlviss+. Apesar disso, no entanto, muitos desses
jornalistas tiveram desde sempre um comportamento que em nada
os pode identificar com a generalidade das estratgias de
governamentalizao da informao televisiva, e s esta
realidade foi uma 2novidade+ substancial face ao passado
recente na interaco entre o sistema poltico e a informao
televisiva. 
          O caso francs, designadamente o conjunto de
relaes entre o sistema poltico da V Repblica e a
informao televisiva do servio pblico, aqui brevemente
descritas nas suas linhas gerais, ilustra bem algo que importa
no perder de vista, na perspectiva da anlise
historico-cultural global: de facto, se  claro, por exemplo,
que em Portugal, em plena autarcia salazarista e marcelista, a
televiso foi um objecto de instrumentalizao decisivo para a

poltica do regime 1, da mesma forma nos parece claro, com
base no que acaba de ser descrito, que noutros regimes
europeus no ditatoriais, como na Frana de De Gaulle, por
exemplo, essa presena do poltico nas estratgias discursivas
da informao televisiva no deixou de se fazer, isto , no
deixou de ser de facto vtal para o campo de dominao, apesar
de se estar perante um sistema poltico pluripartidrio e
democrtico.  Esta cumplicidade entre sistema poltico e
sistema televisivo no  assim apangio apenas dos sistemas
totalitrios.  Ela desenvolve-se nos servios pblicos das
democracias ocidentais, no s por permisso do articulado
legal, mas tambm pela constante instrumental do sistema
pluripartidrio.
     Concretamente, a lgica protocolar nessa relao perversa
com o monoplio televisivo, em particular na era da
paleo-televiso - antes portanto da desregulamentao e da
fragmentao dos modelos -, assenta em geral na necessidade do
sistema poltico no s se rever e dar a ver diariamente no
gora electrnico, mas ainda de internalizar nas grandes
audincias, atravs dessa prtica, o modo de legitimao quer
da sua representatividade, quer da sua aco poltica. 
Tendncia que, alis - e designadamente na experincia
europeia -, permanece no modelo de concorrncia
pblico/privado.
     Esta questo  de fundamental importncia, pois o que
caracteriza essencialmente um 'servio pblico de televiso',
de acordo com documentos emanados das principais instncias e
entidades europeias, como o Conselho da Europa, a Unesco, e a
prpria Unio Europeia de Radiodifuso (Cdima 89:17-20)  a
escolha mltipla de programas, a defesa das minorias, a no
excluso das diferentes correntes de opinio, a informao
objectiva e independente face ao Estado e a outros centros de
poder e grupos de interesses, enfim, o aproveitamento do
potencial educativo e cultural da televiso, como alternativa
 oferta da televiso comercial.
     Servio pblico deveria querer assim dizer,
prioritariamente, prestao de servio ao conjunto de
cidados, em vez de estratgia comercial destinada a conseguir
a maximizao das audincias.  Mas isso no tem de facto
acontecido, salvo experincias pontuais da BBC, da ARD, na
Alemanha, e de um ou outro canal minoritrio, como a RAI 3 em
Itlia, por exemplo.
      exactamente a oferta comercial das redes privadas que
tem levado, por sistema, o servio pblico europeu, em geral,
a no querer abdicar dos seus mltiplos canais pblicos, com o
argumento de que ao mant-los est a defender a existncia de
uma programao alternativa em relao  oferta comercial dos
canais privados.  Ora, nada mais falso.  A desregulamentao
na era da neo-televiso tem sido de facto, no plano europeu,
uma maneira de manter as modalidades fticas do dispositivo,
onde a fidelizao das audincias, a falta de diversificao,
a serializao dos programas, e a tirania da audimetria marcam
as grandes estratgias dos programadores e difusores pblicos. 
Para alm dsso, no domnio concreto da informao, 
perseguido o modelo de auto-referncia do Estado e do sistema
poltico, como se o tradicional dispositivo de enunciao dos
telejornais j estivesse de tal forma internalizado que no
fosse possvel a "materializao" de outras imagens no cran.

     Assim, os oligoplios perseguem tambm o tradicional
modelo institucional de criao de consensos e os seus blocos
informativos continuam a sobrexpor o campo poltico no pequeno
cran - continuando de igual modo o sistema poltico a ser a
categoria predominante na informao, bem como os
protagonistas do universo dos partidos e as principais figuras
do Estado.  Dessa forma o campo de dominao refora a sua
presena, com o desempenho e a representao meditica,
procurando assegurar a perpetuidade de uma estratgia e a
estabilidade dos seus modelos de consenso e de vnculo social.
     No caso portugus, cujo monoplio televisivo, pelas
razes aduzidas, foi prorrogado um tanto inexplicavelmente -
ao ponto de ser um dos ltimos pases europeus (incluindo os
do Leste) a liberalizar a sua lei de televiso -, o
dispositivo tcnico e intrumental tem mantido, de uma forma
geral, as caractersticas do modelo estrutural e categorial de
sempre. 
     Como referimos (Cdima, 1989:21),  neste sentido que 
possvel interpretar a desregulamentao como uma
pseudoliberalizao, e, do mesmo modo, considerar a
reactualizao da noo de servio pblico, mesmo quando
extensiva aos operadores privados (como alis veladamente se
defenda na Directiva comunitria), como um reposicionamento e
inclusivamente um eufemismo da estratgia de consolidao do
campo de dominao enquanto referente central das prticas
sociais, polticas e culturais e dos processos de regulao,
inscrio das normas de conduta e da sua 2conscincia+ do
mundo.  por isso que, como defendeu Christian Kristen (1985),
a questo da desregulamentao torna-se de facto um novo
discurso de legitimao.
     E no  por qualquer acaso, de facto, que esta
relegitimao do poltico atravs do campo de comunicao se
tem vindo a fazer, nas mltiplas experincias conhecidas, com
um sentido de maximizao das audincias, o que comporta desde
logo uma demisso do Estado da responsabilidade de assegurar
um inequvoco servio pblico de televiso, tanto na rea dos
programas em geral, como especificamente na rea da
informao.  Como se dizia num relatrio colectivo (Lopes da
Silva et altri, 90:130) 2O servio pblico de televiso 
(...) um bem pblico muito especfico, que nas suas funes
informativas e formativas em nada se compara a uma actividade
puramente industrial, ou a um bem de mercado tradicional, no
podendo por isso ser visto como devendo ter por objectivo
principal constituir uma fonte de receitas do Estado+.
     Dir-se-ia, no limite, que o sistema e os diferentes
modelos audiovisuais acabam por estar contaminados por uma
lgica perversa, viral.  Nessa medida, o dispositivo emergiria
nas suas modalidades orgnicas e neutralizaria, no plano
tcnico e discursivo, qualquer estratgia que lhe fosse
estranha ...
     Mas visto globalmente, numa perspectiva  de convergncia
entre sectores e tecnologias, o sistema audiovisual, o campo
de comunicao, poder, enfim, inverter a tendncia de sempre
- o "fluxo unvoco de comunicao" -, atravs da alterao do
modo de relacionamento das audincias com o emissor. Esse
fluxo comunicacional tem circulado atravs do modelo de
pirmide.  Num futuro que se espera no muito longnquo essa
modalidade de interaco poder ser inclusivamente

interactiva,  para a maioria dos cidados nos mercados mais
desenvolvidos, o que significa que as opes dos destinatrios
passariam a ser activas face  tradicional passividade do
indivduo no processo comunicacional.   
     Veja-se, a terminar, alguns dados extremamente
significativos sobre a informao televisiva portuguesa no
perodo que antecede imediatamente a liberalizao e no
perodo imediatamente posterior. 
     O 2Estado laranja+ foi claramente o grande beneficirio
da informao televisiva diria do Canal 1 da RTP, nos dois
ltimos anos antes do aparecimento da concorrncia.  Com
efeito, analisados os dois anurios da televiso pblica dos
anos de 1990 e 1991, verifica-se no s o largo destaque para
o PSD e o Govemo em conjunto, como tambm uma esmagadora
presena do sistema poltico-partidrio na informao
2nacional+, o que significa que, comparativamente, a sociedade
civil mal esteve representada.
     Acresce que comparando o tempo de emisso dos rgos do
poder e dos partidos polticos com o tempo de emisso dos
parceiros sociais, conclui-se que neste mbito se esteve muito
longe de um   2acordo social+ em matria televisiva.  Entre
centrais sindicais e confederaes patronais, no conjunto das
sete associaes representadas, a informao diria de 1991
concedeu menos tempo de emisso ao conjunto daqueles parceiros
sociais do que ao partido que obteve menos tempo - o CDS, com
7,6 por cento do tempo concedido aos rgos de poder e aos
partidos polticos.  Note-se que os valores referidos  so
relativos  utilizao de 2tempo til da palavra+, no sendo
contabilizada qualquer minutagem proveniente das perguntas dos
jornalistas, os tempos 2mortos+, comentrios 2off+, etc.
     Mas veja-se mais em promenor este 2fundo laranja+
televisivo, sobretudo na informao diria, que integra os
blocos dirios (2Jomal da Tarde+, o 2Telejomal+, o 224 Horas+
e os intercalares) e tambm os blocos de fim-de-semana,
designadamente o 2Jomal de Sbado+ e o 2Jornal de Domingo+, 
para alm das edies especiais e do 2Bom-Dia+, transmitido de
manh, dos estdios do Porto.  No c&mputo global destes blocos
dirios a 2maioria absoluta+ foi transposta para a TV em 1990,
totalizando Governo e PSD,  55,1 por cento do tempo registado
aos rgos de poder e aos partidos polticos.  O PS ficou com
10 por cento, o PCP com 7,7, e o CDS com 3,4 por cento.
     Em 1991, Govemo e PSD perderam a 2maioria absoluta+
televisiva, mas ficaram com a 2relativa+: 45,3 contra 12,4 por
cento do PS, o PCP com 8,7 e o CDS com 7,6 por cento. 
Registe-se, porm, que considerado apenas o sistema partidrio
se verifica uma relativa igualdade de circunstncias,
notando-se inclusive um maior tempo concedido ao PS (12,4%),
em 1991, do que ao PSD (8,5%).
     Vendo as relaes entre Govemo e Presidncia da
Repblica, constata-se que Soares, 2apareceu+ 10 por cento em
1990, contra 44,6 por cento do Govemo.  Em 1991 o 2score+ ,
respectivamente, de 7,4 contra 36,6 por cento.  Negativos so
mesmo os 0,5 do PR contra os 22,7 por cento do Govemo nos
2no-dirios+ de 1991.  Mas certamente que as to discutidas
razes de queixa de Mrio Soares contra a RTP no eram as
2quantitativas+. Ridculos foram os minutos dados, ao longo de
todo o ano de 1991, a associaes como a Confederao da
Indstria portuguesa (12m 34s), a Confederao do Comrcio

Portugus (10m 50s), a Associao Industrial Portuguesa (12m
23s) ou a Confederao Nacional dos Agricultores (5m 23s).  
     Apesar da liberalizao da paisagem televisiva em
Portugal, e ao contrrio do que era esperado, o Canal 1 da RTP
no reduziu, em 1992, o tempo de emisso concedido ao Govemo e
ao partido do Govemo, o PSD, comparativamente a 1991.
     Bem pelo contrrio.  Analisado o total do tempo atribudo
aos principais rgos de soberania e tambm aos principais
partidos polticos, no que se refere designadamente 
informao diria, conclui-se que de 1991 para 1992, Govemo e
PSD viram a sua percentagem subir para 57,9 por cento (45,3
por cento em 1991) do tempo total, enquanto os trs maiores
partidos da oposio no conseguiam, juntos, mais do que 21,7
por cento desse mesmo tempo total (28,7 por cento em 1991).  O
restante tempo vai para o Presidente da Repblica (8 por
cento) e para a Assembleia da Repblica (12,4 por cento).
     Daqui se conclui que o salto de mais de 11 pontos
percentuais, verificados no tempo atribudo ao Govemo de
Cavaco Silva, foi concretizado, por comparao com 1991,
retirando tempo aos partidos da oposio e  Assembleia da
Repblica.  S o PSD teve mais tempo que em 1991 (2 pontos
percentuais) e tambm o PR (0,6 por cento).
     No que se refere  informao no diria, a lgica  um
pouco diferente, uma vez que, ao contrrio do que sucedeu em
1991, a oposio (PS+PCP+CDS) consegue obter mais tempo do que
o Govemo e o PSD, respectivamente 49 por cento e 47,2 por
cento do tempo total dos programas de informao no dirios
(41,1 por cento e 47,7 por cento em 1991).
     Voltando  informao diria, convm assinalar a reduzida
importncia que  dada aos 2parceiros sociais+ e  sociedade
civil em geral, uma vez que as categorias indexadas pelos
Servios de Verificao e Estatstica da RTP so-no em
percentagens irrisrias face  predominncia do campo
poltico.  Veja-se os 12 minutos concedidos ao Provedor da
Justia, ou os menos de 2 minutos do Conselho de Estado e
tambm da CDU, os 4 minutos da Ordem dos Advogados, etc.
     Mas quanto s organizaes sindicais houve sobretudo um
acrscimo claro do tempo atribudo  UGT, cerca de uma hora a
mais em 1992, relativamente a 1991. A CGTP, por seu lado,
mantinha em 1992 praticamente o mesmo tempo obtido em 1991 -
1h 41m. J as organizaes patronais mantinham a mdia de
1991, sendo a CAP a privilegiada, embora sem ultrapassar os 45
minutos de tempo til na informao diria de 1992. 
Repare-se, no entanto, que o total do tempo concedido em 1992
s organizaes representativas dos trabalhadores e dos
empresrios (cerca de 5 horas e 15 minutos) no excedeu o
tempo total do partido do Govemo.
     Em sntese, o sistema poltico continuava a dominar a
informao televisiva, com a agravante de se verificar, no
primeiro ano da concorrncia televisiva (muito embora essa
concorrncia existisse s, de facto, entre 6 de Outubro e 31
de Dezembro), um reforo do tempo concedido ao partido do
poder e ao seu Govemo.
     Permanece portanto a habitual angstia do lder poltico
perante a contingncia de no poder contar, no seu jogo
simblico, interactivo, e no seu ritual de soberania, com essa
sedutora mquina chamada televiso.  E para que a crise de
representatividade do sistema poltico e dos seus lderes

carismticos no seja mais afectada do que j est neste final
de sculo, importa legitimar essa presena, sobretudo atravs
da discreta apropriao do 2gora+ electrnico.
     Do ponto de vista do lder carismtico s assim 
possvel a autocelebrao do poltico e a concretizao da
democracia 2aclamativa+.  Mas, como dizia o historiador
francs Roger Chartier, o que essa estratgia d a ver , no
fundo, o mecanismo atravs do qual um grupo ritualiza a sua
concepo do mundo e o seu domnio.  
     J na era da concorrncia, ao ver o rebulio que passa
pelas redaces das pantalhas pblicas e tambm da privada,
fica-nos a sensao de um dj vu com algumas piscadelas de
olho ao gnero tablide.  Repare-se: descobrem-se homens nus
na Avenida da Liberdade s cinco da tarde, abrem-se telejomais
com mulheres vtimas de espancamento no espao domstico,
pergunta-se aos maridos porque  que eles batem nelas (e eles
dizem: 2Porque elas merecem+; e uma at diz: 2Gosto que ele me
bata+), filmam-se restaurantes de Lisboa que praticam o
2apartheid+, grava-se a respectiva sesso no tribunal;
descobrem-se casos de alegados maus tratos e de morte de uma
criana em casa de uma famlia de acolhimento; junto  prpria
sede da RTP, no centro de Lisboa, uma jomalista persegue o
rasto do violador de uma jovem; acompanha-se a Polcia nas
rusgas antidroga ao Alto da Ajuda e ao Casal Ventoso; etc.,
etc.  Visto assim, no h dvida: a televiso saiu  rua. 
     Embora ao fim de todo este tempo, sau, ou pelo menos
parece ter sado.  O problema, para j,  a dificuldade da
mudana.  Mudar velhas estruturas e velhos alinhamentos de
telejornal clararnente govemamentalizados nos anos 80 (e ainda
dominados, nos anos 90, pelo sistema poltico-partidrio e
pelo fait-divers) no  fcil. Da os estigmas do passado.
Pelo que se v, continua a ser difcil aos blocos dirios e
aos 2talk-shows+ livrarem-se de quanto pesa e vale um ministro
ou um poltico.
     Dir-se-ia que  todo o peso de uma tradio televisiva. 
Couto dos Santos (De Caras), Ferreira do Amaral (Frente a
Frente), Joo de Deus Pinheiro (Interiores), Maria Cavaco
Silva (Olha que Dois), Manuel Monteiro (Jornal de Sbado),
Antnio Gueterres (Jornal de Sbado), -lvaro Cunhal (De
Caras), Cavaco Silva (Jornal das 8), Mrio Soares e Manuel
Monteiro (Conta Corrente), Arlindo de Carvalho (Telejornal),
formam o primeiro ramalhete de govemantes e lderes polticos
que no faltaram  chamada da liberalizao televisiva no
arranque da concorrncia.
     Faamos um esforo para nos lembrarmos, por exemplo, dos
membros da sociedade civil, dos portugueses que falam em
linguagem simples um outro idioma "televisivo" - se calhar no
os h.  E,  falta de outros, os portugueses retratam-se nos
que a caixa contempla como protagonistas do quotidiano.  Com
as devidas distncias, faz lembrar a norma da Censura, de
1968, que proibia toda a informao exterior ao sistema
(mono)partidrio, inclusive e significativamente os
2inquritos e as entrevistas com professores e estudantes+ na
Comunicao Social em geral.
     Comea agora a vislumbrar-se um sentido de mudana,
designadamente no Canal 1, desde sempre o mais 2tutelado+ (no
por acaso, Proena de Carvalho dizia na promoo da sua TVI
que 2 impossvel uma televiso do estado ser totalmente

independente+).
     Numa rpida sntese, pode caracterizar-se esse velho
modelo (em termos de estrutura, no h grandes diferenas
entre o 2antes+ e o 2depois+ do 25 de Abril) da seguinte
maneira: aberturas ora com o sistema poltico-partidrio ora
com a actualidade trgica e o 2fait-divers+; reduo do
nacional  grande poltica, s confederaes patronais e s
centrais sindicais; grande desproporo de meios (e mensagens)
entre os correspondentes do internacional e as pauprrimas
delegaes regionais no plano nacional; puro abandono da
sociedade civil, das minorias (a no ser quando d um bom
reality-show), o mesmo para a cultura e a educao, isto
enquanto o desporto tinha (j no tem) 2pivot+ prprio; e
ausncia quase generalizada do jomalismo de investigao.  Em
traos largos, tm sido estes os contedos, as grandes
categorias e os protagonistas do dispositivo do Telejomal,
praticamente desde que h televiso em Portugal.
     Mesmo assim, as disparidades no tm sido pequenas: em
1991, como vimos, na informao do Canal 1 da RTP, o Govemo de
Cavaco Silva teve 29 horas de tempo de emisso, enquanto o PR
teve cinco horas, a autarquia de Lisboa apenas uma hora, a UGT
tambm uma hora e a AIP e a CIP, por exemplo, apenas 12
minutos cada.  Do conjunto destaca-se uma principal lacuna:
no  atravs do Telejomal que os portugueses conhecem a
experincia social. Ela s tem lugar na grande 'missa das 8' 
se  convenientemente condimentada.  o caso do homem nu na
Avenida   Ou o caso da mulher espancada.  Ou o caso da jovem
violada.  Cada um destes casos expe com certeza fragmentos e
feridas do tecido e do sistema social.  E, enquanto casos
extremos, so obviamente matria noticiosa. Mas com certeza
nenhum deles  notcia (fechada) em si mesmo.  Muito menos com
destaque nas pr-aberturas, antes do sinal horrio. Atravs de
casos como este, expem-se mais claramente as fragilidades do
Estado providencial.  O risco da informao  d-los como
2fait-divers+.
     Sabe-se que a vitalidade de uma sociedade  a do seu
sistema educativo e comunicacional.  A informao-espectculo,
os reality-shows encenados e o sensacionalismo so um factor
grave de distoro do real e de exposio do individual.  No
visam a produo de informao mas sim de audincias. 
Esperava-se que a guerra das audincias no contaminasse
designadamente o temeroso reencontro da televiso pblica com
o mundo, as coisas e as pessoas, enfim, o espectculo desta
2sada  rua+ da televiso. Puro engano.



 
VI. Modelos e profecias da aldeia global: Marshall McLuhan
  

               Se o paradigma de McLuhan  pobre, o seu
sintagma  rico 
                                                   Edgar Morin


      nos anos 40 que a anlise sociolgica da comunicao de
massa toma corpo, nomeadamente nos Estados Unidos da Amrica,

com a investigao quantitativa dos efeitos dos media.
Prosseguiu depois,  logo aps a II Guerra Mundial, entrando
nos domnios do processo de comunicao, analisando os
mecanismos lineares da transmisso da mensagem. 
     Praticamente s nos anos 60 os investigadores europeus,
j sob um ponto de vista sociocultural, comearam a abordar os
fenmenos da comunicao de massa, sendo dada a partir da uma
importncia cada vez maior s funes do emissor e do
receptor, isto , aos 2dois protagonistas do acto de
comunicao+, como Roman Jakobson sintetizou na sua ento
muito citada conferncia da Universidade de Indiana, em 1952
1.
     Inicialmente, o acto de comunicar era descrito, na sua
forma mais simples, num esquema em que se colocava um agente
emissor enviando uma mensagem para um pblico passivo.  Este
modelo, um tanto rudimentar, foi necessariamente evoluindo. Em
1948, enquanto Jakobson prossegue os seus estudos no campo
lingustico, considerando que cada unidade lingustica estava
bipartida  e comportava dois mbitos - um sensvel e o outro
inteligvel - de um lado o signans - o significante de
Saussure - do outro lado o signatum - o significado 2, no
mbito da teoria da comunicao o processo, em toda a sua
extenso,  decomposto por um professor de Direito da
Universidade de Yale, Harold D. Lasswell 3 .  
     O modelo por si proposto,  inscrevia-se num tempo de
pesquisas em que se comeou a observar um alargado estudo do
fenmeno da comunicao aos diversos nveis, desde a produo
da mensagem aos seus efeitos sociais, passando pelos canais de
transmisso e pelo contedo da prpria mensagem.
     O paradigma de Lasswell propunha a diviso do processo de
comunicao em cinco partes: Quem (emissor) diz o qu
(mensagem) atravs de que meio (media) a quem (receptor) e com
que efeito (impacte).
     Ainda no ano em que Lasswell apresenta o seu paradigma
dos efeitos (ao fim e ao cabo baseado na sua frmula
"Politics: who gets, what, when, how?"), ttulo de uma sua
obra de cincia poltica publicada em Nova Iorque em 1936),
dois matemticos norte-americanos publicavam aquilo a que
chamaram a 2teoria matemtica da comunicao+. Tratava-se
aqui, obviamente, de informao quantitativa, a qual remetia
exclusivamente para mensagens denotadas.  Os autores desta
nova teoria, Claude Shannon e Warren Weaver, acabaram por
descrever o processo de comunicao com uma maior preciso,
agregando, por assim dizer, ao modelo elementar, as
componentes de transmisso da mensagem, isto , a
transformao da mensagem em sinal susceptvel de ser
transmitido pelo canal, e ainda a fonte de rudos 4 .
     A grande utilidade desta teoria foi, como notou Jean
Cloutier, distinguir claramente os canais de transmisso das
mensagens que eles prprios comportam 5. Mas vejamos
esquematicamente como estava organizada a teoria matemtica de
Shannon e Weaver: Fonte de informao (produtor da mensagem) -
transmissor (funo de codificao tcnica) - canal (meio de
transmisso) - receptor (que  nessa teoria exclusivamente
tcnico) - destino (destinatrio, pessoa).  A fonte de rudos,
ou seja, qualquer obstculo  transmisso normal da mensagem
(aco sobre o canal transmissor, mas tambm sobre qualquer
outro dos factores), era a nova proposta deste modelo da 

'teoria da comunicao' de ento.
     Estamos pois perante casos em que o receptor j no 
passivo.  Assume, portanto, a sua funo decifradora,
cabendo-lhe captar a mensagem a partir do cdigo comum
utilizado no processo de comunicao.  Entre o grupo humano
emissor - que produz o sinal, ou a mensagem - e o grupo ou
indivduo que a recebe, est a prpria mensagem, como objecto
com autonomia estrutural, seja a sua expresso icnica, verbal
ou sonora.
               Mas voltemos a Jakobson: 2Dans l' tude du
langage en acte, la linguistique s'est trouve solidement
paule par le dveloppement impressionant de deux disciplines
parentes, la thorie mathmatique de la communication et l
thorie de l'nformation. Les recherches des ingnieurs des
communications n' taient pas au programme de cette Confrence
6 , mais il est sympt&matique que l'influence de Shannon et
Weaver, de Wiener, de Fano, ou de l'excellent groupe de
Londres, se soit retrouve dans pratiquement tous les exposs. 
Nous avons involontairement discut dans des termes comme
codage, dcodage, redondance, etc., Quel est donc exactement
la relation entre la thorie de la communication et la
linguistique?  Y a-t-il peut-tre des conflits entre ces deux
modes d'approche?  En aucune faon, Il est un fait que la
linguistique et les recherches des ingnieurs convergent, du
point de vue de leur destination+.
     Como via Jakobson esta proximidade conceptual das duas
teorias?  Na Conferncia de Indiana, a que temos estado a
fazer referncia, ele parte do princpio elementar de que todo
o acto de comunicao coloca em jogo uma mensagem e quatro
elementos que lhe esto ligados: o emissor, o receptor, o tema
da mensagem (topic) e o cdigo utilisado.  Considera depois
que sem um cdigo comum ao emissor e ao receptor no 
possvel a troca das mensagens.  Dez anos mais tarde, num
artigo intitulado "Lingustica e Teoria da Comunicao" 7,
Jakobson volta a abordar este assunto, agora de uma forma mais
clara: 2L' ingnieur admet que l'metteur et le receveur d'un
message verbal ont en commun  peu prs le mme 'systme de
classement' de possibilits prfabriques, et, de l mme
manire, la linguistique saussurienne parle de la langue qui
rend possible l' change de parole entre les interlocuteurs+.
Portanto, do mesmo modo que sem  o cdigo no circula a
mensagem (ou sem a lngua no  possvel a troca da palavra),
tambm toda a comunicao ser impossvel na ausncia de um
certo repertrio de possibilidades preconcebidas, referncia
directa de Jakobson a D. McKay, um dos engenheiros mais
elogiados na abordagem das dicotomias saussurianas.
      de facto a dicotomia cdigo-mensagem, existente em
ambas as disciplinas, que as faz corresponder, nomeadamente na
interaco entre os dois factores.  A descoberta pela
lingustica do princpio dicotmico (que est na base de todo
o sistema dos traos distintivos da linguagem - os morfemas),
tem o seu equivalente na unidade de medida informacional de
Shannon e Weaver, os chamados bits (binary digits).  Como
referia Jakobson: 2Quando os engenheiros definem a informao
selectiva de uma mensagem como o nmero mnimo de decises
binrias que permitem ao receptor reconstruir aquilo que ele
deve apreender da mensagem sobre a base de dados j  sua
disposio, esta frmula realista  perfeitamente aplicvel ao

papel dos traos distintivos na comunicao verbal+  8 .  
     O bit  assim a unidade que mede no a prpria informao
mas o nmero de sinais que a sua transmisso exige, segundo um
sistema binrio de numerao que utiliza somente os smbolos 1
e 0. Assim, uma quantidade de informaes representa um bit 
se consistir simplesmente em operar uma seleco entre 1 e 0,
entre sim e no;  a informao mais simples que se possa
imaginar, aquela que conduzir  opo entre dois casos.
Wilbur Schramm  outro importante terico desta fase. A sua
obra, nos domnios da comunicao de massa, teve a sua
importncia antes de McLuhan, por exemplo, a que nos
referiremos.
     Quanto ao processo de comunicao, Schramm vem dar uma
renovada importncia  questo da codificao e da
descodificao da mensagem aparecendo, por exemplo, pela
primeira vez, a noo de feed-back, isto , o fenmeno de
retroaco numa cadeia interactiva que alinha pelo mesmo
diapaso cdico, digamos assim.  Schramm avanava desde logo a
hiptese to explorada hoje pelas grandes cadeias de televiso
norte-americanas, bem como pelos sistemas de cabo, do emissor
corrigir a sua prpria mensagem em funo de reaces
induzidas. Por fim Schramm inspira-se nalguns dos pressupostos
de Lazarsfeld, propondo o seu "circuito" da mensagem, atravs
dos grupos sociais, do receptor para o grupo, do leader de
opinio para o seu pblico  9. 
     Destes esquemas lineares criados nos Estados Unidos da
Amrica nos anos 40 e 50, passemos agora aos primeiros
esquemas culturais europeus nomeadamente franceses, dos anos
60.  Edgar Morin, com o seu livro L'Esprit du Temps 10   um
dos primeiros tericos europeus a sistematizar de uma forma
inovadora aquilo a que chamou a lndstria Cultural, ou tambm
mass culture, para retomar o estranho neologismo da corrente
sociolgica americana. Morin via no modelo
burocrtico-industrial um verdadeiro obstculo ao poder
cultural do autor: 2A concentrao tcnico-burocrtica pesa
universalmente sobre a produo cultural de massa.  Donde, a
tendncia para a despersonalizao da criao, para o
predomnio da organizao racional da produo (tcnica,
comercial, poltica) sobre a inveno, para a desintegrao do
poder cultural+ Ou ainda: 2A contradio nveno-padronizao
 a contradio dinmica da cultura de massa+. Com Morin surge
ainda a separao de conceitos como produo e criao: 2O
criador, isto , o autor, criador da substncia e da forma da
sua obra, emergiu tardiamente na histria da cultura: 
artista do sculo XIX. Ele afrma-se precisamente no momento
em que comea a era industrial.  Tende a desagregar-se com a
introduo das tcnicas industriais na cultura. A criao
tende a tornar-se produo+. 
     No fundo, em relao ao processo de comunicao, Morin
propunha uma  relao a trs elementos, individualizando a
criao, opondo-a inclusive  produo (standardizada ou
padronizada), sendo esta a zona no-marginal da indstria
cultural isto , a traduo no consumismo, o triunfo da
organizao racional da produo sobre a inveno, com tudo o
que da deriva em termos de uma luta renovada pela
individualizao e pelo novo: 2A relao padronizao-inveno
nunca  estvel nem parada, modifica-se a cada nova obra,
segundo relaes de fora singulares e detalhadas.  Assim, a

nouvelle vague cinematogrfica provocou um recuo real da
padronizao+.
     Pierre Schaeffer 11 vem introduzir novos conceitos ao
modelo embora no venham a ter importncia para a evoluo do
estudo do processo de comunicao: o mediador ser o arteso
ou o manipulador do meio.  Chama s influncias exteriores  os
"meios autorizados" (Shannon havia-lhes chamado "rudo") e
acaba por colocar o mediador-criador no centro do seu sistema
de comunicao.  A mensagem perde aqui, portanto, a sua
posio central no modelo, perdendo mesmo o seu valor em todo
o processo, passando o mediador-produtor a ocup-lo.
     Com a publicao da Sociodynamique de la Culture, de
Abraham Moles 12, a cultura  vista como uma entidade
globalisante, permitindo atravs de uma aproximao
'panciberntica' unificar o fenmeno cultural com o dos media. 
Distingue a cultura 'individual' (a soma da educao e da
experincia de cada indivduo no domnio do conhecimento) da
cultura 'colectiva', ou cultura de uma sociedade,
caracterizada por aquilo a que se poderia chamar a
intertextualidade do grupo social, a sua rede de
conhecimentos, segundo a expresso de Moles.  Esta concepo
era analisada, alis, anos depois, por Edgar Morin  13 :
2(...) privilegia o aspecto "semntico" da cultura, sendo a
esttica concebida exclusivamente do ponto de vista das
"mensagens", como expresso do campo de liberdade em volta de
cada signo normalisado. Em Moles o importante  o 'ciclo
socio-cultural' a partir das estruturas permanentes da
comunicao de massa+, acrescentava Morin.  Este ciclo tem
obviamente uma velocidade de rotao.  Nele vamos encontrar as
unidades de significao - semantemas - e as unidades de forma
- os morfemas, veiculados pelos canais de transmisso, isto ,
os meios, que difundem o fluxo de mensagens.  Os elementos
veiculados - cultura viva e/ou cultura adquirida -, ainda
segundo Morin, 2tomam forma e significado a partir de um
micro-meio criador, transforma-se em produtos culturais
atravs dos mass-media e chegam a um macro-meio consumidor (a
massa, da qual fazem parte os prprios criadores).+
     Esta doutrina dinmica do processo de comunicao,
espcie de 'mosaico' da cultura moderna, comporta ainda
mltiplos elementos secundrios, alguns tomados a Shaeffer,
outros a Morin, e  todo esse conjunto que nos d o amplo e
complexo circuito ''ciberntico'' de Abraham Moles.  Mais
simples era o modelo de Jakobson: 2Le destinateur envoie un
message au destinataire. Pour tre oprant, le message
requiert d'abord un contexte auquel il renvoit (c'est ce qu'on
appelle aussi, dans une terminologie quelque peut ambigue, le
"rfrent"), contexte saisissable par le destinataire, et qui
est, soit verbal, soit susceptible d'tre verbalis; ensuite,
le message requiert un code, commun, en tout ou au moins en
partie, au destinateur et au destinataire (ou, en d'autres
termes,  l'encodeur et au dcodeur du message); enfin, le
message requiert un contact, un canal physique et une
connexion psychologique entre le destinateur et le
destinataire, contact qui leur permet d'tablir et de
maintenir la communication  14 .   
     E chegamos a McLuhan. Nos anos 60, e de maneira
diferente, Marshall McLuhan e Herbert Marcuse fazem com que a
polmica sobre a sociedade de massa atinja um dos seus pontos

mais altos.  Cada um  sua maneira, um "mgico", outro
"apocalptico", analisam os media como detentores de um poder
tanto perigoso (Marcuse) quanto revolucionrio (McLhuan).
     Umberto Eco reconheceu desde logo faltarem nestes
tericos os momentos de anlise e o exame dos documentos:
2(...) Faltam exactamente porque, os dois autores, cada um a
seu modo, decidiram que sobre a anlise dos documentos j se
debruaram demasiado e at com risco de perder de vista o
panorama total+ 15 . McLhuan adverte-nos - continua Eco:  2
intil  analisar os contedos das comunicaes de massa,
aquilo que   transmitido atravs dos varios meios, porque so
os prprios meios, com a sua natureza especfica, o seu modo
de solicitar respostas comportamentais, de favorecer mutaes
conjuntas, que constituem a primeira das mensagens.  intil
perguntar-se como este ou aquele grupo humano reage 
televiso ou  publicidade porque aquilo que conta  o
conjunto das respostas e o conjunto das respostas d-nos um
Homem diferente, que sente o mundo inteiro sob a prpria pele,
entra em contacto tctil com os acontecimentos distantes, vive
todo o universo das comunicaes como uma grande e feliz
alucinao  colectiva, na qual, e depois da qual no ser
nunca a Homem que era dantes+.
     Esta importncia que McLhuan d aos media e ao seu
dispositivo, em oposio  mensagem,  desqualificada, por
exemplo, sempre que no  encontrado destinatrio no processo
de comunicao.  Nessas circunstncias a sua frmula the media
is the message  completamente anulada, por extravio da
mensagem, por assim dizer.  De facto o seu modelo s  vlido,
isto , o media s "existe", sempre que tiver campo de
recepo (Jakobson: 2no h emissor sem receptor+).  Morin,
que j havia respondido ao paradigma mcluhaniano, referiu-se a
esta questo de uma outra forma. 2Examinemos o problema da
recepo ao nvel da teoria da nformao.  Que diz ela?  A
informao corresponde quilo que traz um elemento novo ao
conhecimento, quilo que provoca uma certeza ou liberta uma
incerteza.  Mas o puro desconhecido no existe e toda a
informao se deve enxertar naquilo a que a teoria chama a
redundncia e a que eu chamo uma estrutura de pensamento.  Se
a informao no for introduzida numa tal estrutura no ser
apreendida como tal: ser negada  ou esquecda 16 +. Ainda
Morin: 2La formule de Lasswell 'qui dit quoi,  qui, par quel
medium et avec quel effet' morcelait le systme des
communications de masse et dsintgrait toute notion de
culture de masse.  McLhuan ramne les termes lasswelliens au
"mdium'' qui non seulement englobe le 'quoi' ('le medium est
le message'), mais englobe les deux "qui" dans une unit
anthropologique: l'homme. Le medium technologique est toujours
le prolongement d'un sens ou d'une facult de l' homme; donc,
le message, c'est, en acte, ce prolongement modificateur de la
dialectique sensorielle-psychique 17.+
     Se o aforismo mclhuaniano , em termos de teoria da
comunicao, redutor e polmico, a resposta que Edgar Morin
lhe d, colocando-o nos domnios  da 'antropologia
sensorialista' e da epistemologia, vem clarificar um pouco
mais a questo. Em todo o caso, o aforismo the media is the
message poderia ter despoletado, de algum modo, uma 
clarificao do velho modelo do processo de comunicao. 
Aqui, de facto, no estamos de acordo com o que um prestigiado

crtico de televiso norte-americano, Michael Arlen, publicou
no final dos anos 60 sobre o polmico mcluhanismo, dizendo que
os seus aforismos tinham tido como principal resultado a
'diminuio da discusso'... Talvez que isso, nalguns casos,
at fosse verdade... 2A lot of people, I know, are down on him
these days, because he's been so much in the public eye (...)
and because, they say, he's inconsistent, which he is, and
often wrong, which he is, and unfunny, which he certainly is,
and even (they say) unoriginal.  The thing is, about fifteen
years ago, when McLuhan - then, as now, a teacher of
undergraduate English courses - began writing about print and
type and communications and media. He didnlt claim to be
entirely original. Most of these notions about print and type
and western man had been written about for a number of years
by a number of people  (even though the editions of Life may
not heve been reading them then).  What McLuhan did that was
original was to put them together in a new way and add a sort
of twist of his own that gave them relevance and expensiveness
(...). These days I get the feeling that the principal result
of what he writes and speaks has been to diminish discussion.
When he touches something ("the technology of the railway
created the myth of a green-pasture world of innocence".  "Pop
Art simply tells you the only art form left for you today is
your own natural environment"), he seems to do it in such a
way that although there's often substance or interest in his
thought, the effect is somehow to close the subject off, to
leave it in the end (despite the aphorist crackle) more dead
then alive  18.+  
     De alguma maneira McLuhan coloca em evidncia a
antropo-histria (o meio como extenso do homem) e nesse
sentido a mensagem no  mais seno uma tambm extenso
fortuita, sensorial, no processo de comunicao, e no o
objecto de comunicao.  Mesmo aqueles que consideram que o
aforismo significa, ao fim e ao cabo, que o contedo do que 
comunicado importa menos do que o modo como  feito, no
estaro certamente seguros de que  tenha sido a partir da que
se passou a dar uma renovada importncia  especificidade do
meio 19 .    
     Tido como 2o mais proeminente discpulo+ de Harold Adams
lnnis 20, Marshall McLuhan, cuja obra tentaremos agora
analisar naquilo que tem de mais pertinente, foi, na segunda
metade dos anos 80, uma referncia implcita bvia, ainda que
na maior parte das vezes cuidadosamente evitada, por parte dos
seus quase-epgonos, que, dir-se-ia, proliferam nas cincias
sociais como seus prolongamentos e/ou desenvolvimentos.  Essa
ser, porventura, a melhor homenagem que se lhe poderia
prestar.
     Numa leitura transversal dos seus textos essenciais
passaremos necessariamente por cima da sua fase de crtica
literria, aps formao superior em engenharia (1934),
correspondendo aos anos 30/40; veremos, de passagem, a sua
'fase de transio' - anos 50 - altura em que publica The
Mechanical Bride e insistiremos sobretudo nas suas produes
dos anos 60, perodo em que publicou as suas obras de
maturidade.
     O eixo do seu pensamento, por assim dizer, centra-se em
dois aforismos fundamentais: um, o conhecido the medium is the
message; o outro, o de que  a natureza dos meios, as

tecnologias da comunicao propriamente ditas - e no o modo
de produo, como bem referiu Harold lnnis,  que informa,
estigmatiza e estrutura o modelo das sociedades - e, portanto,
acrescentaramos ns, a prpria histria.
     Isto mesmo nos parece estar claramente presente quando
McLuhan pergunta porque  que Marx no apanhou o comboio da
comunicao.  No fundo, como escreveu Harold Rosenberg 21 ,
McLuhan substituiu o 'fetichismo das mercadorias' de Marx pelo
fetichismo dos media para explicar as diversas crenas que
dominaram o homem nas diferentes pocas.
     The Mechanical Bride , sem dvida, algo mais do que
apenas uma 'obra de transio'.  Devido  sua curiosa
apresentao, com imagens, jogos de composio, um lettering
sugestivo, houve quem lhe chamasse inclusive 'pop art
avant-Ia-lettre'.  Para McLuhan, no entanto, tratar-se-ia, no
fundo, de uma 'obra obsoleta' em plena era da televiso:
'Voil bien des annes, avant que j'crive The Mechanical
Bride, je me plaais  un point de vue moral pour apprcier
les faits de mon environnement.  J'abominais le machinisme,
les grandes viiles,  peu prs tout,  l'exception de
certaines choses qui auraient t du goot de Rousseau.  Peu 
peu je me suis rendu compte  quel point c'tait inutile.  Je
me suis aperu que les artistes du XX me sicle voyaient les
choses diffremment - et j'ai fait comme eux' 22 .  Este, com
efeito, o tempo em que McLuhan tinha em cima da sua secretria
um carto com os dizeres 'Especialistas: abstenham-se!'...
          Concretamente, The Mechanical Bride marca a sua
primeira abordagem - extremamente crtica, nalguns casos - da
questo comunicacional.  Inspirado provavelmente nas
'mquinas' erticas de Duchamp e tendo como imagem obsessiva
essas criaturas hbridas, metade mulheres, metade mquinas,
McLuhan mergulha aqui claramente no maelstr?m -  semelhana
do marinheiro de Edgar Allan P?e - estabelecendo um duro
diagnstico do 'folclore do homem industrial', nomeadamente no
que diz respeito  indstria e ao discurso da publicidade, aos
comics e s sondagens.  Atinge inclusive as raias do paroxismo
quando a propsito de um dos principais 'smbolos' da Amrica,
publicitado num cartaz com uma "doce, inocente e belssima
jovem', diz o seguinte: 'A doce e inocente rapariga no vos
far provavelmente mal nenhum, mas o mesmo no acontecer com
a Coca-Cola.  Na prxima vez que tirem um dente metam-no num
copo de Coca-Cola e observem-no dissolver-se durante alguns
dias'...
      fundamentalmente nos anos 60, concretamente a partir de
A Galxia de Gutenberg, que McLuhan desenvolve uma anlise
alargada, de caractersticas histrico-culturais,  emergncia
da escrita e da tipografia, anlise essa que viria a ter como
que uma fundamentao terica cristalizada em esparsas
formulaes, nos seus postulados, de pendor claramente
epistemolglco, cuja pertinncia, neste caso concreto, at por
derivarem j de lnnis, nos parece menos discutvel do que o
restante da sua obra.
     Para essa fundamentao concorrem, portanto, e
nomeadamente, Harold lnnis, por um lado, e, por outro, o
antroplogo Edmund Carpenter, que edita juntamente com McLuhan
a partir de Dezembro de 1953 a revista Explorations 23 , onde
muitas das suas teses mais conhecidas comeam a surgir em
esboo, se bem que subscritas por ambos.

     A Galxia de Gutenberg, no fundo,  uma circunstanciada
anlise daquilo que o autor designa por estado de catelepsia,
de numbness, em que a tecnologia tipogrfica fez mergulhar o
Ocidente. Para McLuhan, Gutenberg encerra em si, de alguma
forma, o "pecado original" fundador da modernidade e da
civilizao industrial.  Tudo se passa, no fundo, a dois
tempos: em primeiro lugar, McLuhan observa a transio de uma
cultura tribal, fechada, estvel, modelada para um espao
acstico, de relaes totais e simultneas, para uma cultura
destribalizada, 'visual', transio que corresponde  quebra
do 'crculo encantado" e da multiplicidade, isto , 
emergncia do homem alfabetizado, de conscincia fragmentria,
de experincia empobrecido,  emergncia, portanto, do
processo de individuao e especializao, primeiros sintomas
do desequilbrio que, na sua perspectiva, atingiu a sociedade
modema.
     Num segundo tempo, ter-se-ia completado o processo de
alienao do homem, sobretudo do 'homem' como sublinha McLuhan
e no tanto da mulher, porque ela ' a ltima criatura a ser
civilizada pelo homem' conforme escrevia Meredith em 1859
(citado por McLuhan, 1962: 288), ela mantm com efeito a
figura da alteridade uma vez que a seu processo de
fragmentao e especializao  tardio.  Assim, 'a inveno da
tipografia confirmou e fez alastrar a nova tendncia visual do
conhecimento, dando origem  primeira utilidade (commodity
uniformemente reproduzvel,  primeira linha de montagem e 
primeira produo em srie' (1962: 176).  A tipografia vem
pois reforar o culto do indivduo e da 'publicidade', do que
 pblico, o I am / eye am simultaneamente cartesiano e
newtoniano, bem como refora o processo de radicao das
lnguas nacionais e da ideia de nao.  Nacionalismo,
industrialismo e mercados de massa so ainda consequncias da
extenso tipogrfica do homem, da mesma maneira que o so a
exigncia da 'uniformidade social e a fragmentao individual
que encontram a sua expresso natural no Estado-Nao' (1977:
45).
     Num como noutro caso so bvias as interaces entre
tecnologias e civilizao, j que a sua definio de medium
comporta tambm a componente tecnolgica e os seus
prolongamentos enquanto extenses dos sentidos e, claro, do
humano.  Chegados aqui,  bvio que McLuhan no apresenta
nenhuma inovao de fundo relativamente a Harold lnnis, para
quem o advento e o declno das grandes civilizaes, e as
mudanas culturais, deveriam ser entendidas, em primeiro
lugar, em funo do meio de comunicao e das tecnologias
predominantes. lnnis considerava, em sntese, que os media da
Antiguidade eram mais propcios a um controlo no tempo do que
no espao.  As sociedades antigas tinham assim tendncia a
insistir sobre o sagrado e a moral e a criar regimes polticos
hierarquizados que reprimiam o individualismo.  Pelo
contrrio, os media cujo 'biais' se centra sobre o espao
facilitam a emergncia de instituies seculares, o
desenvolvimento da cincia e a administrao dos grandes
territrios, condies que favorecem a ecloso de 'imprios' e
a dominao de grupos perifricos 24 .
McLuhan, de facto, limita-se ou a citar lnnis, ou a propor uma
deriva do seu mais conhecido e original aforismo, referindo,
portanto, que o modelo das sociedades sempre foi mais

influenciado pela natureza dos meios de comunicao do que
pelo contedo da comunicao.  Ele prprio, alis, o reconhece
quando em A Galxia de Gutenberg diz taxativamente: 'Harold
lnnis foi o primeiro a perceber que o processo de mudana
estava implcito nas formas da tecnologia dos meios de
comunicao.  Este meu livro representa apenas notas de p de
pgina  sua obra, visando explic-la' (1962: 82).
     Um dos seus mais severos crticos, Jonathan Miller, via
nessa mxima urna autntica desculpabilizao dos
manipuladores dos meios de comunicao (e da, dizia, uma das
razes do sucesso de um 'improvisador brilhante') e, ainda, do
pblico, que se via eximido de 'crime de autocomplacncia':
'Espectadores inteligentes que s furtivamente ousavam
contemplar a televiso, podem agora prender-se aos aparelhos,
confiantes na crena de que, assim agindo, participam de uma
comunidade nova de auto-interesse humano (...)' 25 .
No deixa, no entanto, de ser importante ressalvar algo que em
McLuhan no se refere tanto  interaco entre a tecnologia e
o social, mas sobretudo s 'metamorfoses de sensibilidade'
entre a tecnologia e o indivduo: ' a contnua adopo da
nossa tecnologia no uso dirio que fazemos dela que nos coloca
no papel de Narciso, de conscincia subliminar, e adormecido
em relao s imagens de ns prprios.  Incorporando
continuamente tecnologias, relacionamo-nos a elas como
servomecanismos (1964: 64).  Da, por exemplo, ele ver o
humano tambm como uma espcie de prtese dos media, pea
elementar na reprodutibilidade do prprio sistema meditico.
Para alm destes 'determinismos' da tcnica que marcam de
facto o seu pensamento, McLuhan pouco adianta relativamente a
lnnis no que concerne  crtica da sociedade mediatizada. 
Como assinalou Daniel Czytrom 26 , o que em lnnis eram
crticas severas quanto ao rumo que tomavam as novas
tecnologias da comunicao transformaram-se em McLuhan numa
espcie de 'celebrao do inevitvel'.  Assim, a questo da
'retribalizao', da 'aldeia global', dando a ideia de um
ganho bvio na recomposio do dispositivo comunicacional
moderno, tendo por consequncia a "imploso" dos media o
prprio fim da especializao: 2L'tat de catalepsie dans
lequel Ia technologie de I'Imprimerie a plong I'Occident a
dur jusqu' aujourd'hui c'est--dire en ce moment o, grce
aux media lectroniques, nous commenons, enfin  tre
'dshypnotiss'+ (1977: 46).
A nova galxia Marconi coloca assim em questo uma regresso
da ordem visual: 'L'emploi des media electroniques constitue
une frontire marquant le clivage entre l'homme fragment de
Gutenberg et l'homme intgral tout comme l'alphabtisation
phontique a marqu le passage de l'homme tribal, centr sur
Ia connaissance oral,  l'homme conditionn par Ia perception
visuelle' (1977:47).
Mas apesar de considerar os media electrnicos como o fim de
um ciclo 'catalptico', McLuhan no deixa de prever que o
choque entre a cultura antiga, fraccionada e visual, e a
cultura nova, integral e electrnica, provoca um eclipse do
eu, uma crise de identidade, que pode resultar em violncia
desmedida e numa procura de identidade que pode revestir
formas pessoais ou colectivas (1977: 55).  No limite,
tratar-se- da desintegrao dos grandes Estados dando lugar
s 'aglomeraes de tribos', de mini-Estados, o que no deixa

de estar em contradio com a tese 'inclusiva' de um mundo
simultneo e imediato, onde tudo estaria em harmonia, como se
se tratasse de um campo magntico, ou de toda uma famlia
humana tecida de uma s membrana, a nova sociedade fechada.
Esta e outras contradies, ou 'boutades', como por exemplo. a
de que a fotocpia conduz ao desaparecimento do livro 27 , ou
a de que a televiso  um 'meio frio' por ter apenas 625
linhas de definio de imagem, ou o de que o verdadeiro factor
de integrao dos negros no Sul dos Estados-Unidos foi o
automvel, entre muitas outras, no ensombram no entanto a
importncia da sua obra nesta segunda metade do sculo.  Ser
certamente difcil omitir o seu nome numa genealogia do saber
e das confiitualidades entre os media e o mundo, a tecnologia
e o indivduo.  No fundo, todas as suas recomendaes poderiam
sintetizar-se neste quadro: estudar os media a fim de extirpar
ao subliminal, ao no-verbai todas as hipotticas afirmaes,
a fim de passar ao crivo, de prever e controlar os objectivos
da humanidade.
A finalizar, e em jeito de post-scriptum, poder-se-ihe-ia
perguntar: E agora, McLuhan?  Se a televiso, essa 'grande
escola', essa 'universidade do ar' (Miller)  por excelncia o
'instrumento da comunicao recproca' (1977: 50); se vai
introduzir novos feedbacks e conduzir a comunicao a
tornar-se dilogo em vez de monlogo (1977: 57); se foi ela
que p&s fim  guerra do Vietname 28 ; se com ela Hitler no
tinha passado de um sargento-pintor; ento, explica-nos,
McLuhan, por favor, porque  que disseste uma vez que, se
interrompssemos as emisses de televiso por uns anos, os
resultados seriam certamente benficos? 29 . H quem concorde
cada vez mais contigo, sabes?




















VII.  O dispositivo comunicacional moderno e os soft-media  



               A era do transpoltico  a da anomalia, do
acontecimento sem        
               consequncias.
                                   Jean Baudrillard


     Foi Harold Innis, portanto, quem comeou por notar que o
processo de mudana social evolui e varia com as prprias
formas da tecnologia dos meios de comunicao.  Na sua
perspectiva, inclusivamente, o advento e a queda das
civilizaes poderiam ser entendidos, em primeiro lugar, em
funo da forma predominante de comunicao.
     Talvez por isso, a histria da comunicao (das mediaes
tecno-simblicas e das 2mquinas de comunicar+) foi quase
sempre a histria de um fluxo unvoco de dominao - 2escutar+
sem ser escutado, 2ver+ sem ser visto.  Patrice Fiichy, na sua
histria social e tcnica da comunicao moderna 1 , que
abrange um longo perodo desde o final do sculo XVII 
actualidade -, comea por levantar essa problemtica face 
emergncia do telgrafo ptico, designando-o como um 2sistema
de comunicao de Estado+, e prosseguindo depois com a gnese
dos 2grandes sistemas+ - o telefone, o fongrafo, a
fotografia, o cinema, a rdio e a televiso.
     Na verdade, com a emergncia do dispositivo
histrico-cultural ps-alfabtico, isto , desde a emergncia
da escrita alfabtica, que  notria a apropriao do campo da
comunicao 2pblica+ pela dominao no tempo, tendo-se
constitudo assim as sociedades hierarquicamente fortes,
despticas.  Com os 2media+ modernos - os 2soft media+ -, a
dominao passa a fazer-se sobre o espao.  A comunicao das
Luzes rompe em definitivo com o velho lema mcluhaniano que
defendia que as estradas do(s) imprio(s) eram as 2estradas do
papel+ - as 'estradas da comunicao'.  Inicialmente o
telgrafo ptico vem sobretudo facilitar a 2coerncia
nacional+ - militar, desde logo - do Estado-Nao
ps-tipogrfico, pemitindo a 2mobilizao nacional
instantnea+: Napoleo , alis, o primeiro a utiliz-lo no
golpe do 18 do Brumrio.
     Mas este 2sistema de Estado+ - e os novos meios -, vm
tambm reforar a homogeneidade do novo espao pblico e,
paradoxalmente, a sua esfera pblica crtica, apesar de esta
no ter tido ento acesso a essas primeiras redes de
comunicao industriais.  Se, por um lado, o telgrafo se
inscreve nos complexos desgnios da 2diviso racional do
tempo+, tal como j havia acontecido com o relgio mecnico no
sculo XIV, (essa 2mquina-chave da idade industrial moderna+
no dizer de Lewis Mumford), por outro lado a sua lgica
normalizadora passa a ser extensvel  linguagem e 
nomenclatura - a lngua 2republicana+, o calendrio
2republicano+ -,  legislao, e, claro,  centralizao
governamental. 2Todas estas reformas do espao, do tempo, dos
sistemas de medida tm as mesmas justificaes: racionalidade,
simplicidade, universalidade.+ A telegrafia era, por isso, 2um
elemento de poder e de ordem+, destinado a 2consolidar o poder
do Estado.+ 1 
          O exemplo do telgrafo e do sistema comunicacional
das Luzes, analisado em detalhe por Patrice Flichy, permite a
transposio para a actualidade, com vista a notar as grandes
diferenas em relao ao dispositivo comunicacional modemo. 
Na actualidade  visvel que as tecnologias e os fluxos de
comunicao so incomparavelmente mais rpidos  que os
sistemas de Estado e a legislao.  Isto apesar dos monoplios
televisivos de Estado terem ainda retomado, neste sculo, o

que se havia passado em Frana no incio do sculo XIX com o
telgrafo ptico...           Mas hoje, com os self-media e a
2comunicao nmada+,  todo um novo contexto que est
emergente.  Para Flichy, a comunicao mvel constitui o ponto
de chegada de uma transformao de longa durao do espao
pblico e do espao privado.  Trata-se de uma ruptura profunda
no sistema de comunicao: 2Hoje, a evoluo social  menos no
sentido da hipertrofia do espao privado (que se cindiria em
micro-espaos individuais) do que na 'mise em mouvement' de
espaos privados no seio de um espao pblico reajustado onde
o indivduo est a cada instante aqui e ali+ 2    
          Polmicas como a do 2fim da Histria+ e do fim das
aventuras de liberdade na construo do sujeito modemo, e
tambm a da crise da modernidade, poderiam, por exemplo, ser
pensadas  luz estrita de conceitos como espao pblico e
esfera privada, sociabilidade, solidariedade, opulncia
comunicacional, telepresena, interactividade,
infocomunicao, etc.
     Tratando-se de problemas de fim de sculo, identificados
 partida em novos contextos histrico-culturais, com uma
2economia+ prpria e um dispositivo comunicacional especfico
em que, com alguma obscenidade, diga-se, rituais de
transparncia retomam lugares de velhas opacidades, a
problematizao do lugar do sujeito, a sua histria e as
modalidades de relacionamento e interaco com o campo social
e meditico trazem, obviamente, importantes avanos s
discusses em aberto neste tempo de todas as incertezas.  
          Sendo mais do que um sinal e um conceito da
modemidade, as 2estticas+ narcsicas e intimistas emergem,
neste final de sculo, com caractersticas muito especficas. 
Se o modelo e o conceito da representao pblica do sujeito
modemo radicavam, por assim dizer, no redescobrir de 2lugares+
da sociabilidade e do cosmopolitismo do classicismo - e nessa
medida os seus gestos e prticas evoluam num lento
alfabetizar em que 2esfera pblica+ e 2esfera privada+ estavam
claramente diferenciadas -, neste final de sculo, se  certo
que se assiste como que  2democratizao+ dos processos de
privacidade do sujeito, no  menos certo que a questo
fundamental deixou de ser a definio das fronteiras da
dualidade pblico/ privado para ser antes a do trabalho de
separao do que resta de 2privado+, de singular, face 
2democratizao+ do que  pblico, ou melhor, do que resta de
nico nas raras fissuras da esfera (de representao) pblica
(e poltica).  
          Mas quanto s singularidades e s 2subjectividades
dissidentes+, veja-se, por exemplo, a questo da fora de
trabalho.  De forma algo diversa do que pretende Antoine Prost
no seu ensaio 2Fronteiras e espaos do privado+ 1 , os ciclos
de 2especializao dos espaos+ de produo retomam agora de
novo, pela crescente individualidade do sujeito, acompanhada,
claro, da emergncia dos novos media (computador, 2fax+,
datamvel, Internet, etc.), os universos privados, os espaos
2domsticos+, se assim se entender.  Quando, ao analisar o
caso francs, Prost fala de uma transformao decisiva -
2(...) no incio do sculo, perto de dois teros dos franceses
trabalhavam em casa.  No final do sculo, pelo contrrio,
quase todos os franceses trabalham fora de casa+ 2  -,
aparenta desconhecer que a esfera de autonomia do sujeito

2produtivo+ (para no falar do sujeito 2reflexivo+)  cada vez
mais importante neste fim de sculo. 
           alis a tendncia que se regista no plano da
deslocao da mo-de-obra, ao longo de todo este sculo, do
sector primrio para o sector das tecnologias de informao,
com as inevitveis consequncias que da advm (a fora de
trabalho que h cem anos estava envolvida na agricultura
norte-americana, desde os anos 70 que foi 2deslocada+ para o
sector das tecnologias de informao, o sector lder da
economia dos pases mais industrializados). Neste sector,
portanto, esto j a surgir os novos 2operrios 
domiciliados+, o teletrabalho e as empresas virtuais.
     O facto  que ao contrrio das 2costureiras ao domiclio+
de princpio de sculo, os 2operrios-terminal+ tm um ganho
bvio no que respeita  crescente soberania do sujeito.  E
participando na socializao da informao, salvaguardam os
interesses das pequenas organizaes e dos grupos autnomos. 
A pergunta, neste caso, tem a ver, necessariamente, com a
intimidade que restar numa 2esfera privada+ cada vez mais
invadida pelas extenses (as 2prteses+ de McLuhan) da esfera
pblica e dos sistemas de comunicao... O espao domstico 
assim cada vez mais um espao 2ligado ao mundo+, e, nesse
sentido, a privacidade pode ser constantemente obliterada
pelos dispositivos de comunicao existentes.
     Num outro plano, o 2culto do corpo+ , sem dvida, como
refere Prost, um dos aspectos marcantes das genealogias da
vida privada.  Porm, aqui no estamos perante nada de
rigorosamente especfico deste sculo: como vimos, a 2ordem
disciplinar do olhar+ ps-medieval comporta j uma clara
autonomizao do corpo - ele deixa progressivamente de ser
pertena de Deus para passar a ser pensado no exterior da
ordem transcendental.  A genealogia do 2estdio do espelho+ 
posterior.  Vincent, alis, corrige minimamente a questo  no
evitando a 2blague+: 2Hoje, as imagens tradicionais da
virilidade e da feminilidade esto fortemente obliteradas. 
Provavelmente, o sexo forte no  aquele que a cultura
proclama como tal: as mulheres fumam, bebem e rejeitam as
doarias que fazem engordar+ .  O 2corpo realizado+,
teatralizado, das sociedades actuais, no  mais seno uma
actualizao, uma reciclagem desse outro 1 .  
     O facto  que poucas dvidas subsistem hoje sobre a
crescente importncia do campo dos media, ao ponto de se
definir este sculo como 2da comunicao+ e a nova revoluo
como a era da 2info-comunicao+.  J quanto ao 2poder+ dos
meios de comunicao propriamente ditos, no se poder dizer o
mesmo: residir a sua importncia no seu carcter
performativo, isto , no seu poder 2totalitrio+ de afirmar
coisas como sendo verdadeiras, ou, mais concretamente, no
facto de deterem o poder de produzir as formas atravs das
quais essas mesmas coisas so ditas?... Em suma, para
simplificar, ser o meio a mensagem ou ser a enunciao a
2massagem+?  Ou sero as duas?
     No fundo,  como se regressssemos  histria das
origens.   Lucien Sfez 1 reenvia-nos para o problema da
emergncia de uma sociedade de comunicao, onde se retoma a
anterior 2critica da comunicao+ deste autor, viagem ao
universo terico e simblico da comunicao, encetando ou
renovando agora a crtica de teses como as de J;rgen Habermas,

de Jacques Ellul, de Jean Baudrillard e de Pierre Legendre,
entre outros, para depois percorrer os labirintos da razo
comunicacional, como se do ltimo avatar do poder totalitrio
e modelizador das sociedades se tratasse.
     Como j algum disse, a 2crtica+ de Sfez da ordem
comunicacional e da crise de representao faz pensar no homem
unidimensional de Marcuse.  Do que anteriormente era exposto
como uma anlise das interaces entre o campo social e/ou
comunicacional, a tcnica e o poder, Sfez apontou registos
simultaneamente mecanicistas, orgnicos e tecnolgicos,
querendo com isso dizer que as tcnicas de comunicao ou eram
um 2instrumento+ do social ou se diluiam nele, numa relao
hbrida, quiasmtica, sendo esta a figura de uma patologia
social - a incapacidade de comunicar, ou mesmo a eliso do
sujeito que designou de tautismo (contraco de 2tautologia+ e
de 2autismo+).  Dessas figuras da repetio e do 2duplo+, o
sujeito partiria ao reencontro de si mesmo, sem talvez nunca
se encontrar...  Lucien Sfez retoma no essencial este
discurso, concluindo em jeito de manifesto - 2Contre Ia
communication confondante: l'interprtation.2 +
     Qual  ento a comunicao 2confondante+ para Sfez? 
Aparentemente,  a nica possvel,  uma vez postergada a
comunicao 2representativa+ (de um sujeito emissor para um
destinatrio) e a 2expressiva+ (a comunicao 2circular+, que
resulta da insero de um sujeito complexo num meio tambm ele
complexo e das trocas entre ambos).  E da o seu carcter
perigoso: os homens comunicam atravs de prteses, a devoo
pela tcnica toma foros de religio, sacraliza os dolos, as
imagens... Neste sentido, a histria recente da comunicao
tem sido, de alguma maneira, para Sfez, a histria de um fluxo
2ex-comunicacional+,  tautolgico, 2imperturbvel+, sintoma da
impossibilidade cada vez maior de um retomo claro a um sistema
dialogal aberto, ou to-s  2palavra+.
     A crtica do discurso redentor sobre os 2media+ e tambm
das virtudes e das vantagens 2teraputicas+ das novas
tecnologias da comunicao, pode ver-se, por exemplo, em
Armand Mattelart. Em textos como 2Comunicao e 'media',
matria de risco+ e 2Mitos e realidades da homogeneizao dos
contedos+ 1 , Armand Mattelart,  retoma  a defesa da
2diversidade+ face  lgica de globalizao de contedos,
prticas, gostos, modos de vida, etc.  No lado oposto,
retomando a j conhecida tese de Dominique Wolton, Nathalie
Coste-Cerdan 2 , considera que 2a televiso chega s classes
da populao at aqui ignoradas pelos 'media', e constitui um
instrumento activo de democratizao+. Longe de favorecer o
isolamento, a televiso  para Coste-Cerdan 2um instrumento de
dilogo+. Em sntese, se no h  uma teoria unitria dos
'media' que parea fazer consenso,  h uma estratgia regular
de esquecimento da pluralidade das teorias.  
     Vejamos agora o ambiente histrico e epistemolgico em
que se integram as diferentes perspectivas analticas dos
media. Questionando o campo comunicacional no entrecruzamento
das suas mediaes tcnicas e simblicas, Louis Qur procura
contribuir em Des miroirs quivoques 3 para um melhor
entendimento dos reajustamentos sociais e culturais sofridos,
sobretudo na modemidade e ps-modemidade, quando novas
estruturas comunicacionais emergem.  Considerando, nesse
sentido, as cincias sociais e, em particular, as cincias da

comunicao de 'impotentes' no avanar da questo, Qur
recorre nomeadamente de uma teoria do espao pblico como
projeto epistemolgico alternativo.
     Dir-se-ia inclusive que a questo epistemolgica  aqui
essencial.  De facto, ao anatemizar a pretensa racionalidade
da aco instrumental empirico-analtica a partir da
constatao de que os sociologismos operam sobre os objectos
deslocados, Qur comea exactamente por criticar os
anquilosados paradigrnas comunicacionais da social-engeneering
bem como os derivados da semiologia estrutural que postulam
efectivamente o primado da conveno e a exterioridade do
sujeito.
     A alternativa que surge  pois uma teoria capaz de
reconstruir o objecto anteriormente destrudo, atenta aos
problemas colocados pela recepo, e pelas dimenses
pragmtica, histrico-estrutural e socio-cultural.   Para o
objectivo, concretamente, de uma teoria do espao pblico, 
fundamental na sua dmarche  2elucidar o processo de
instituio ou especificao histrico-cultural dos suportes
da operacionalidade da comunicao+ 4 , que so, por um lado,
o discurso interpretativo e normativo sobre o social, e, por
outro lado, a figurao das dimenses do Saber, do Poder e da
Lei.  
     De referir que para Qur a interaco social se realiza
por interposio de um plo institucional forte, simblico,
espcie de 2neutro+ fundador da prpria comunicao, no qual
se fundem os prprios modelos culturais, as infraestruturas da
actividade comunicacional, bem como os garantes metasociais da
reflexividade da troca social a partir dos quais se criam as
condies de possibilidade do momento hermenutico.
           sabido que as mediaes simblicas, as funes
interactivas inerentes ao acto de comunicao, o 2trabalho+
social, a intersubjectividade, pem em jogo, no a revelao
total, mas, em ltima instncia, uma lgica de equivalncia 
qual no  estranha a rarefaco de sentido.  Partindo
basicamente deste pressuposto, Qur desenvolveu  uma
importante anlise critica em relao a duas obras fulcrais  1
para uma teorizao do espao pblico: The fall of the public
man, de Richard Sennett  e Strukturwandel der Offenlichkeit,
de J;rgen Habermas. 
          Para Sennett o capitalismo industrial tinha
conduzido ao declnio da teatralidade do jogo social,
pressupondo-se j a, de forma flagrante, a recusa da
indiferenciao social e da neutralizao da subjecfividade.
Qur observa, contrariamente a Sennett, que o
2interconhecimento no interdita a impessoalidade, da mesma
forma que a sociabilidade no exige o anonimato na grande
urbe+ 2  concluindo que  a natureza das mediaes simblicas
postas em jogo no processo de sociabilizao que especifica a
estrutura do espao pblico de uma dada sociedade.
          A grande critica a Sennett , porm, a de que o
declnio do homem pblico corresponde no somente ao
ultrapassar do modelo de espao pblico construdo pelo sculo
das Luzes, mas tambm  destruio da estrutura universal
multimilenar da actividade comunicacional e dos seus suportes
cognitivos e normativos que constituem aquilo a que o autor
chama 2espao pblico+.
          Quanto a Habermas, a grande crtica que surge , em

certa medida, a do desconhecimento da dimenso simblica da
Instituio derivado do seu modelo dito 2jacobinista+ de
criao de um consenso livre de toda a dominao, imbricado na
sua definio de espao pblico, a saber, o lugar onde emerge
o sujeito abstracto, um 2actor+, um pblico esclarecido, e no
2os actores histricos que encarnam o plo do poder e o plo
da discusso crtica+ 3 .
     A dimenso simblica do espao social institui pois o
2vnculo+ social e funda a identidade por uma lgica de
equivalncia, fonte de conhecimentos, motivaes e normas e
no por uma lgica de revelao e transparncia. Na gnese da
esfera moderna da comunicao  sobretudo a lei das
equivalncias que impera.  ela que se sobrepe no regime das
analogias, gerindo a economia de representao da sociedade
industrial em oposio exactamente  fase do capitalismo
nascente.  Nessa medida, o novo regime de representao apaga
o real que induz, isto , exclui qualquer referncia ao
original.  
     A actividade comunicacional passa ento a gerir a
produo de sentido, bem como, alis, a prpria identidade e
unidade do espao social.  O plo institucional realiza-se
assim, instituindo uma lgica (agora simulacral) com a perca
progressiva de todos os referenciais e onde a performatividade
ir tomar o lugar das grandes narrativas de legitimao.
     Ao sujeito focal/reflexivo moderno sucede agora um
sujeito operativo ps-moderno capaz de engendrar, de produzir
um modelo a partir dos fragrnentos de real dos dispositivos
tecnolgicos e simblicos.  Em plena fase de inflao
ilimitada do discurso, o que se verifica finalmente  que a um
discurso legislador e pedaggico se sucede um discurso que
difunde informao, que no prescreve normas de ordem
politico-moral, ou regras determinando as prprias relaes
sociais, mas vulgariza mtodos, procedimentos.  Como diz Louis
Qur, um discurso que no professa a racionalidade imanente
das coisas mas propaga conhecimentos, estabelece condutas. 
Enfim, um discurso que 2no representa mais uma distncia
entre o real-objecto e a sua nomeao e caracterizao; e que
abole a distino entre discurso propriamente dito e objecto,
uma vez que este no  mais do que o produto das operaes e
dos modelos que o constituem, e aquele o enunciado das regras
tcnicas e estratgicas que garantem o domnio destas
operaes+ 1.
     Na sequncia do que ficou dito relativamente ao sujeito
operativo, Louis Qur tentar analisar a mudana do estatuto
da comunicao e da informao na sociedade tecnolgica por
forma a ensaiar como que um esboo de resposta  questo
fundamental: a que mudanas do modo de dominao social e
poltica corresponde a transformao actual nos meios e nos
modos de comunicao? Assim, retomando temas da lingustica e
da antropologia,  Qur ir partir da tese dos primeiros de
que 2a um modo de comunicao corresponde sempre um modo de
dominao+ para desenvolver toda uma argumentao que tem por
objectivo final defender que qualquer funo de comunicao
est sempre ancorada num dispositivo historico-cultural de
sujeio/subordinao.   
     O exemplo da escrita  sem dvida paradigmtico, no
entender de Qur: ao modificar o sistema de comunicao a
escrita transforma no somente o sistema socio-cultural mas

tambm o modo de dominao.  Mais precisamente, ela substitui
uma dominao annima, abstracta e descontextualizada por uma
dominao mediatizada por indivduos.  Fica assim claro, no
s para o exemplo da escrita como para qualquer outra mediao
simblica/tecnolglca, ou nova estrutura comunicacional, que
2a organizao comunicacional da identidade e da aco social
no se reduz a um dispositivo abstracto de produo e de
validao do saber que percorre uma cultura.  Ela 
materializada pelas modalidades prticas dos actos de
comunicao.  Estes, pem em jogo no tanto mquinas mas antes
uma 'tecnologia intelectual'.  Quer dizer, uma matriz
operacional que comporta dispositivos de representao do real
e de transmisso do saber que da deriva+ 2 .  
               Voltando  questo de base: se o trfico da
notcia e a tipografia constituram por excelncia marcos
fundadores de uma nova cultura laica e de um espao pblico
burgus anunciador de novos universos operadores de profundas
mudanas estruturais na idade clssica europeia, poder-se-ia
dizer que o universo das novas mediaes introduzidos pela
tecnocincia na sociedade ps-industrial v encerrar
progressivamente um ciclo de 2publicidade+, de vida pblica,
que teve o seu momento alto nos jogos de teatralidade e no
regime de interpessoalidade que continham j em si o prprio
declnio do Antigo Regime. 
          O fim de um tal ciclo de 2publicidade+ comeou por
observar-se nos processos de individuao romnticos da fase
de arranque da revoluo industrial, no 2encontrar em si+
modelos de conduta, espcie de resposta  Declarao dos
Direitos do Homem atravs de uma declarao dos direitos do
2eu+.
          De ento para c, e com passagem obrigatria, quer
pela emergncia do intimismo, quer pelo reconhecimento
posterior das estratgias de mercado da 2cultura do consumo+,
veremos que a redescoberta do indivduo - e o seu 2abismo+ - o
p&r em causa as diferentes 2soberanias+ do sujeito histrico -
acabam por ser paralelas ao declnio da prpria esfera pblica
e  emergncia de um novo intimismo, no romntico mas
ps-moderno, hiper-individualista.
          O estabelecimento, concretamente, de uma genealogia
da 2cultura do consumo+ e da crescente mass-mediatizao da
sociedade ps-industrial torna-se assim uma necessidade bvia,
isto se quisermos definir com rigor o dispositivo
histrico-cultural que marca este nosso tempo em mudana,  em
que assistimos ao despontar de diferentes dramaturgias
ps-modernas bem como  crise da noo de pblico, ou seja, 
atomizao do pblico enquanto entidade homognea.  
          Assim, a reactualizao do dispositivo de dominao
em plena modernidade pode ser definida atravs de trs ou
quatro grandes parmetros histrico-culturais, a saber, o
dispositivo de sujeio propriamente dito, agora encimado por
um Estado com os seus diferentes rostos ficcionais
(Estado-providncia, Estado-publicitrio, Estado-espectculo,
Estado-virtual, etc.); o regime de percepo/representao
caracterizado pela crise da referencialidade que o atravessa -
de que  exemplo paradigmtico a transio da imagem
fotogrfica para a imagem numrica, havendo a considerar, por
um lado, o carcter siderante das novas imagens - Baudrillard
chamar-lhes-ia 2o nosso verdadeiro objecto sexual+ - e, em

acrscimo, a dissipao do sujeito enunciador e histrico do
novo dispositivo de representao e percepo; ainda o domnio
da esfera pblica onde  patente a pulverizao do pblico,
com a progressiva desintegrao da esfera pblica e a
radicalizao dos intimismos e dos hiper-individualismos; e,
por fim, o prprio regime da tecnocincia com a crise dos
saberes e das grandes narrativas, a continuidade
homem-mquina, os bio-poderes, as bio-mquinas, etc.
     A estes processos no  estranha obviamente a progressiva
importncia que tem vindo a assumir, na economia das grandes
potncias, o sector da informao, relativamente aos sectores
primrio, secundrio e aos servios.    
     Veja-se, por exemplo, segundo Marc Porat 1 que a fora de
trabalho que h cem anos atrs esteve envolvida na agricultura
norte-americana foi hoje deslocada para as tecnologias da
informao, assumindo este sector, a partir dos anos 60-70, a
liderana, em termos globais, na economia de pases como os
Estados Unidos, a Gr-Bretanha e o Japo.
     Se no princpio do sculo, nas naes mais desenvolvidas,
as tecnologias de informao tinham uma funo irrelevante ao
nvel social e econmico, hoje pode dizer-se que elas
constituem a base de todo o sistema econmico das grandes
potncias.
     Com efeito,  diviso tradicional de economia em
agricultura, indstria e servios, foi acrescentado,
designadamente no ps-guerra, um outro sector - o da
informao -, no qual se incluem j os media, a informtica e
a telemtica, e restantes tecnologias de ponta do sector,
fazendo todas estas mediaes parte dessa nova 2indstria de
base+ que fornece  economia os meios essenciais para o seu
desenvolvimento.
     Nos Estados Unidos, desde os anos 60, ainda segundo Marc
Porat, que o sector da informao  o mais importante da
economia.  Na Gr-Bretanha e no Japo, desde meados dos anos
70 que mais de metade da mo-de-obra  absorvida pelas
tecnologias de informao.  Se relacionssemos o sector da
informao com a agricultura, a indstria e os servios, em
termos de fora de trabalho norte-americana, veramos que num
primeiro estdio (l860-1906) o grupo mais numeroso era o dos
trabalhadores agrcolas, num segundo estdio (1906-1954)
predominavam os trabalhadores da indstria; e, a partir de
1970 metade da fora de trabalho norte-americana enquadrava-se
nas diversas categorias de 2trabalhadores da informao+,
auferindo cerca de 53% da massa salarial total.  
     De assinalar que de 1880 para 1980 os sectores primrio
(com 45%, h cem anos, e 4%, em 1980) e secundrio (30-25%,
respectivamente) passam a ficar 2subalternizados+
relativamente aos servios (20-30%) e  informao (5-45%). 
Ou seja, e em termos percentuais, a fora de trabalho que h
cem anos atrs esteve envolvida na agricultura, nos Estados
Unidos, foi 2deslocada+ para as 2indstrias do sol nascente+,
as novas tecnologias de informao.  O editorialista da rea
econmica do New York Times sintetizava assim, no incio dos
anos 80, esta inverso (27.6.80): 2Existem hoje, parafraseando
Disraeli, duas economias: uma que cai e outra que ascende, uma
tecnologicamente estancada ou decadente, a outra jovem e
brilhante.  A tarefa da poltica industrial consiste em ajudar
o novo a levantar-se, e fertilizar ou substituir o velho.+ As

consequncias que este desenvolvimento explosivo da sociedade
informatizada teriam no mundo do trabalho foi obviamente uma
das questes a colocar-se desde incio.  Diga-se a propsito
que j em 1971 a ento AT&T (American Telegraph & Telephon)
previa que dentro de 20 anos, com a proliferao das novas
tecnologias, todos os americanos estariam a trabalhar em
casa...   Dez anos depois, uma central sindical francesa, a
CFDT, diria em tom amargo: 2Aproximamo-nos, sem sobressaltos,
do empregado ideal com que o patronato sonha para 1990:
trabalhador independente, sozinho sobre o seu terminal, muito
aplicado a gerir o seu tempo e a fazer horas extraordinrias
gratuitas para atingir os seus objectivos enquanto aguarda o
renovar do seu contrato de trabalho temporrio 1.+ Como em
tudo o que diz repeito a previses no campo das
infocomunicaes, tambm estas sairam erradas, mas nem por
isso deixam de ter a sua real importncia neste final de
sculo, sobretudo num momento em que o teletrabalho 2  uma
realidade cada vez mais concreta. 
          No  de estranhar, pois, que a nvel sindical sejam
j inmeras as tomadas de posio sobre as repercusses que os
novos sistemas de informao tero no mundo laboral.  Um caso
como exemplo: 2Resguardando a sua prpria identidade nacional
e concepo sindical, os sindicatos europeus decidem
desenvolver todas as formas de lutas unitrias contra uma
utilizao das novas tcnicas audiovisuais em detrimento das
condies de trabalho e de emprego dos trabalhadores que
representam.  Eles esto prontos a negociar face ao patronato
e aos governos para que esta nova tecnologia contribua, no seu
sector e na sociedade no seu conjunto, para o progresso
social, para um novo desenvolvimento das culturas nacionais e
para o intercmbio cultural entre as naes 3 .+
          De facto, se estas questes no so pacficas no
mbito laboral, no o sero menos ao nvel cultural.  Na sua
obra The Geopolitics of Information, Anthony Smith alertava j
para aquilo que considerava ser, no final do sculo XX, a
ameaa  independncia dos povos e das naes, a saber, uma
nova forma de colonialismo, agora bem mais sofisticada,
provocado exactamente pela 2nova electrnica+.
               So, alis, os prprios americanos a reconhecer
implicitamente essa nova forma de dominao: 2Os Estados
Unidos vo  cabea como produtor, consumidor, processador e
exportador de bens e servios de comunicao.  Os
norte-americanos dirigem a maior parte dos canais e contedos
de informao a nvel mundial Profissionalmente, homens e
mulheres de negcios, funcionrios pblicos, professores e
quadros em praticamente todos os campos, todos eles
norte-americanos, trabalham em nmero paulatinamente maior no
mercado internacional, e o mesmo cabe dizer dos guardies da
cultura da nao 4 .+
               Sabemos como na Europa esta atitude
2imperialista+ tem vindo a ser estudada e criticada por
instituies como a UE, o Conselho da Europa, a Unesco, etc. 
O prprio Le Monde Diplomatique, em Outubro de 1981, abria
deste modo o seu dossier 2L' Industrie de Ia Communication aux
tats-Unis+.- 2Como a indstria dos armamentos, a indstria da
comunicao est economicamente vocacionada para a exportao,
mas, contrariamente aos construtores de equipamentos
militares, ela permite-se exportar o melhor e o pior da sua

produo.  Como todas as outras manifestaes de imperialismo,
ela traduz no apenas o poder do pas dominante mas tambm, e
sobretudo, a fraqueza ou a resignao dos pases dominados.+
Alis, toda a estratgia do audiovisual europeu dos anos 80 e
tambm dos anos 90 no fez mais que confirmar esta tese, ainda
que atravs de um discurso mais tcnico, ou 2eurocrata+.
          Conscientes ou no dos cenrios dissensuais que se
avizinham, o que  facto  que a escalada de domnio
informacional prossegue.  A telemtica e as comunicaes e a
infernal panplia que resulta da fuso dos sistemas de
telecomunicaes com a televiso e o telefone e os sistemas de
comunicao por cabo, por satlite,  ou atravs de redes
digitais, vieram adensar ainda mais a complexidade dos
problemas, alterando substancialmente o universo
comunicacional e a prpria sociedade ps-industrial.  Uma tal
escalada impe inclusive uma profunda alterao nos prprios
meios estratgicos de transformao numa sociedade tradicional
de tipo industrial.  Quer dizer que o trabalho e o capital
cedem o seu lugar quilo a que se convencionou chamar a
2modificao do saber terico+, a flexibilidade do saber
fazer, e, enfim, s todas-poderosas tecnologias da informao,
ou melhor,  infocomunicao. A fora de trabalho  agora
representada por 2sujeitos operativos+ que no fazem mais do
que engendrar e produzir o modelo do regime imaginrio
ps-industrial atravs das mediaes tecnolgicas de que
dispem.
          Se essa  j a dura realidade, com a inflao
ilimitada das estratgias discursivas e dos meios tcnicos,
uma crescente modelizao se verificar.  Que esperar ento de
2algum+ que na passagem do sculo ter em sua casa uma
potente e flexvel instalao videocomunicacional, com
hardware e software associados, ligao  Net e a bancos de
dados, recepo de TV que incluir centenas de canais, cadeias
interactivas de televiso por cabo, recepo directa de vrias
cadeias de televiso mundiais, uma ilimitada videoteca e
videodiscoteca disponvel atravs de servers, etc., etc.?
          A simples constatao deste facto levou a que se
passasse a especular demasiado em torno da utilidade dos
cenrios hipermediatizados e da sua 2historicidade+ e no
tanto sobre a diversidade e causalidade das estratgias
envolventes.  o que acontece com Anthony Smith (em Goodbye
Gutenberg) e tambm com Daniel Bell, por exemplo, que se
limitam praticamente a uma atitude de expectativa meramente
funcionalista em relao s transformaes que se avizinham e
satisfazendo-se com uma exegese simplista, atravs de uma mera
2compartimentao+ historicista: 2As telecomunicaes
constituem uma terceira importante revoluo nas comunicaes,
a seguir  escrita e  tipografia.  O aparecimento da escrita
corresponde  criao dos primeiros centros urbanos da
sociedade agrcola:  a base do registo das transaces, da
transmisso codificada do saber e das competncias.  A
tipografia est na base da sociedade industrial, na base do
saber ler e da educao das massas.  As telecomunicaes (do
grego telos, ou "a uma certa distncia"), o cabo, o telgrafo,
o telefone, a televiso e, nos nossos dias, as novas
tecnologias, esto todos na base da sociedade industrial+
(Bell, 1981).
     Nos sistemas integrados de comunicao, primeiro com os

satlites de telecomunicaes - e nomeadamente os de
radiodifuso -, depois com os sistemas digitais, o satlite
foi como que o centro amplificador e difusor por excelncia,
tendo capacidade para a transmisso dos sinais mais diversos -
dados, voz, imagens.  Sem os satlites, as possibilidades de
comunicao intercontinentais ficam extremamente reduzidas. 
bvio, portanto, que, sem eles, as estratgias tecnolgicas de
mediao, planificadas pelas potncias espaciais, ficariam
substancialmente reduzidas. Mas neste final de sculo 
sobretudo o conceito de self-media e o conceito de rede
interactiva que podero permitir um mais rpido acesso 
infocomunicao.
          Quando em 1962 foi lanado o primeiro satlite de
telecomunicaes, o Telstar (que permitiu nomeadamente a
primeira ligao de televiso entre a Amrica e a Europa), no
foram bem entendidas desde logo as suas reais potencialidades. 
Wilbur Schramm, por exemplo, considerava que a era dos
satlites no era de todo comparvel ao aparecimento da
escrita ou da Imprensa.  As telecomunicaes no constituam
ento mais do que um meio 2para alargar e acelerar os meios de
comunicao actuais.  Representam menos um novo avano no
domnio das telecomunicaes humanas do que uma nova fase na
ofensiva em curso desde h quinhentos anos, contra o tempo e
contra o espao+ (Schramm, 1968).
     McLuhan introduz ento a noo de 2aldeia global+ e, a
partir da, passam a no existir tantas dvidas sobre a
sociedade que se avizinhava.  Em 1964, Arthur Clarke (que em
1945 havia 2inventado+ e descrito na revista Wireless World,
pela primeira vez, aquilo que viria a ser um satlite
artificial) dizia  Life: 2Os satlites de telecomunicaes
poro fim  era do isolamento, faro de ns todos membros de
uma mesma famlia e ensinar-nos-o a ler e a falar, por muito
imperfeito que seja, uma s e mesma lngua.+ E acrescentava:
2...nenhuma ditadura poder construir um muro suficientemente
alto que impea os seus cidados de escutar a voz vinda dos
satlites... +
      Nos anos 70 prosseguem os avanos tecnolgicos e tambm
o lanamento de satlites cada vez mais aperfeioados (os
geoestacionrios sucedem-se aos orbitais) e anunciam-se os
satlites de radiodifuso directa.  Simultaneamente, as
esferas institucionais apercebem-se de que a muito curto prazo
podem cair num verdadeiro caos comunicacional.  Sucessivas
reunies internacionais tm ento lugar com vista a
estabelecer, em termos de direito internacional de
telecomunicaes, 2uma utilizao pacfica do espao
extra-atmosfrico+, a primeira das quais foi a Reunio de
Paris, ainda em 1969.  Curiosamente, nessa mesma reunio
afirmava-se o seguinte: 2Se o estado actual da tcnica
espacial permite prever a produo de satlites susceptveis
de difundir directamente programas dirigidos ao grande
pblico, no se prev, para o perodo de 1970-1985, um servio
regular de televiso por satlite utilizando os receptores
domsticos no modificados...+ Raras vezes como esta se ter
previsto to acertadamente..
     Com as Conferncias de Bruxelas (1974) e Genve (1977 e
1979) ficam, por assim dizer, regulamentados todos os aspectos
poltico-culturais, tcnicos e jurdicos, dos mais simples aos
mais complexos, no domnio da radiodifuso por satlite. 

Desde os direitos autorais, de proteco dos artistas,
intrpretes e executantes, ao estabelecimento das rbitas,
orientao das elipses, etc., tudo foi objecto de legislao
internacional.
               Apesar da existncia de toda esta
regulamentao, o que  facto  que pouco parece estar, ainda
hoje, definitivamente resolvido.  Os apelos iniciais  a uma
Nova Ordem Internacional da Informao e o Relatrio McBride
comearam por evidenci-lo, as divergncias entre a ento CEE
e a UER confirmaram-no no final dos anos 80, e nos anos 90 as
discusses em torno da Directiva do audiovisual reconfirmariam
a questo como no  consensual.
               Outro relatrio extremamente importante, mas
menos conhecido, tem origem no Conselho da Europa, em 1981. 
Trata-se de um documento classificado de 2restrito+ e
intitulado 2Liberdade de expresso e outras questes jurdicas
postas pela radiodifuso por satlite+, tambm designado
Relatrio Stoffelen.  A se alertava para os vrios perigos
decorrentes da utilizao dos satlites, nomeadamente a
influncia da propaganda governamental estrangeira, a
dificuldade de aplicao das regras sobre os direitos de
autor, a preservao dos interesses comerciais sobre os
programas de televiso, o empobrecimento cultural e
intelectual, a reduo da diversidade, enfim, um conjunto de
opinies que tm vindo a ser retomadas pelo Conselho da Europa
nos ltimos anos.
               A uma concluso idntica chegava tambm o 
governo socialista francs de Pierre Mauroy, no estudo Pour
une rforme de l'audiovisuel, que antecipava a polmica sobre
a Directiva, j nos anos 90 : 2Ao multiplicar o nmero de
programas (40 canais em 1990) e ao abrir um espao cultural
europeu, os satlites de difuso directa podem certamente
contribuir para o encorajamento da criao audiovisual e
oferecer novas sadas para a produo cinematogrfica.  Mas
podem conduzir tambm a uma produo de massa e a uma reduo
das qualidades de programas. Ao permitir, por ingerncias
recprocas, o alargamento geogrfico da audincia, tanto podem
favorecer a ecloso de uma televiso europeia como levar a uma
standardizao dos produtos, a um empobrecimento da mensagem
cultural de cada um dos Estados e a uma invaso de produes
no europeias.+ O documento prossegue depois chamando a
ateno para eventuais perigos relacionados com a dependncia
industrial da nova tecnologia em relao ao estrangeiro, bem
como para uma previsvel expanso negativa do mercado
publicitrio.  Faz notar ainda que os perigos reais do
desenvolvimento descontrolado do novo meio obriga a uma gesto
europeia comparticipada, desde a distribuio de canais 
co-produo de programas.
               Em meados dos anos 80, foi a prpria CEE a
elaborar, como referimos, o seu 2Livro Verde+ sobre a
radiodifuso por satlite e a televiso por cabo, defendendo
nomeadamente normas nicas europeias em diversos domnios, uns
j contemplados na legislao a que nos referimos, outros no,
como  o caso da proteco das crianas relativamente aos
programas que apelam  pornografia,  violncia e ao racismo.
               De toda esta evoluo jurdico-poltica se
conclui tratar-se de questes de tal forma complexas que ao
optimismo inicial de alguns responderiam mais tarde as

hesitaes institucionais, no dando razo aos crticos, e
sobretudo criando mecanismos mnimos de proteco para no se
tornarem alvo de si prprias, gerindo os limites do seu
imprio performativo, protegendo-se das suas prprias
estratgias polticas, discursivas e tecnolgicas, evitando o
derradeiro efeito 2boomerang+.  Tal no impede, porm, e
finalmente, que o discurso poltico destas organizaes 
supranacionais, apesar de prosseguirem interesses divergentes,
seja idntico ao das prprias empresas multinacionais.
     H quem chame  2nova era da comunicao social+ a 2era
da descomunicao social+.  Digamos que a grande diviso entre
os defensores de uma e os de outra reside na j velha
dualidade entre o optimismo funcionalista e o pessimismo
crtico.  No fundo, a genealogia das diferentes escolas
sociolgicas que tm estudado os media reside tambm a:
grosso modo, uns fazem a apologia da teoria crtica,
debruando-se sobre as causas e a estrutura dos fenmenos, os
outros apoiam-se em processos empricos e divagam sobre os
seus efeitos.  Lanar, pois, um debate sobre uma 2nova era+
no  mais do que ver de que modo as duas posies se afrontam
entre si e s depois reflectir sobre se dessa opinio - e de
novas contribuies - surgiro outras pistas a percorrer. 
     Tudo comeou, por assim dizer, nos idos anos 40, altura
em que Lazarsfeld, um dos fundadores da corrente emprica, fez
a distino entre a administrative e a critical communication
research, a primeira fundamentalmente utilitarista e a segunda
baseada no projecto cultural, crtico, quer relativamente aos
media, quer aos prprios empiristas.  De ento para c, os
adeptos de uma e de outra corrente tm-se travado de razes...
Apesar de irem longe os tempos em que Lazarsfeld acusava
Adorno de no saber verificar empiricamente uma hiptese, a
profunda dualidade de 2critrios+ persiste.  Mesmo as
correntes de segundo plano, como os neo-marxistas,
2mcluhanistas+, etc., persistem tambm.  Apesar de crtico
face s estratgias de fim de dcada em Frana, Dominique
Wolton, considera que as novas tcnicas de comunicao,
olhadas durante muito tempo com grandes reservas e por vezes
mesmo com hostilidade, s recentemente se tornaram em Frana
um valor positivo: 2Para entender esta mudana rpida que se
acaba de verificar, basta recordar as reticncias com que
foram recebidos o telefone, a rdio e, sobretudo, a TV e a
informtica. (...) A TV foi sempre atravancada de discursos
mitolgicos sobre o seu carcter todo-poderoso e sobre o seu
efeito manipulatrio.  Quanto  informtica, ela  talvez a
tcnica que sofreu - provavelmente graas a estes dez anos de
crise -, o volte-face mais rpido.  Depois de ser acusada de
provocar desemprego, de destruir as qualificaes e ameaar as
liberdades pblicas, ela  hoje a tecnologia milagre, criadora
dos empregos do futuro, e smbolo da sociedade desenvolvida. 
Em todo o caso, hoje, um entusiasmo tanto econmico como
industrial e cultural rodeia as tecnologias da comunicao.+
     Perspectiva idntica  a do modelo 2decisionista+ de
Daniel Bell (1981), isto , a defesa de que a funo
regressiva ou emancipadora dos media depende nica e
exclusivamente da vontade do sistema poltico, ou do
utilizador, consideradas que so as tecnologias como
2neutras+: 2A nova revoluo dos meios de comunicao
concretiza, por um lado, um nvel elevado da centralizao do

poder, se a sociedade assim o quiser, e, por outro lado, uma
forte descentralizao graas  multiplicidade,  diversidade
e ao custo pouco elevado dos modos de comunicar.+ Outra
perspectiva  a 2determinista+ que se baseia no aforismo
mcluhaniano medium is message.  Os defensores deste modelo
consideram que a inveno e a difuso de uma tecnologia,
independentemente dos usos que se faam dela, arrastam
inevitavelmente uma srie de transformaes sociais, culturais
e polticas.  Como diria Jacques Piveteau, se a televiso 
m, no  porque os programas sejam maus, mas sim porque ela 
televiso... Simondon diria, de outra forma, que ao nvel
industrial o objecto adquire a sua coerncia, e  o sistema
das necessidades que  menos coerente que o sistema do
objecto...
     Mas, de facto, tal como Habermas notou na sua obra La
technique et Ia science comme 2idologie+ (Gallimard, 1973),
nenhum destes dois modelos consegue definir satisfatoriamente
a relao existente, nas democracias modernas, entre o 2saber
especializado+ e a 2poltica+, o mesmo  dizer, entre as
tecnologias e o seu uso.  O modelo adequado ao tipo de
constituio prpria das democracias desenvolvidas  para
Habermas, o modelo 2pragmtico+, o modelo da inter-relao
crtica, hermenutico por excelncia e de constante
circularidade.
     Nesta linha, a principal crtica que se faz ao empirismo,
seja ele funcionalista ou decisionista,  o de querer
quantificar o real e a sua pretensa 2objectividade+, ignorando
as estratgias discursivas, os nveis histrico-culturais,
simblicos e institucionais.  Como notou Louis Qur (1982), o
paradoxo do funcionalismo  que, ao pretender reconstruir o
social a partir do indivduo, no faz mais do que destruir um
e outro...
          Nada mais justo, pois, seno constatar que a
verdadeira questo no  do mbito funcional, e muito menos do
mbito da quantificao utilitarista dos avanos
tecnolgicos... O que importa, sim,  efectivamente p&r em
questo a nova 2racionalizao+ que resulta do
estabelecimento, do inculcar de novas estratgias discursivas
institucionais, tecnolgicas, enfim, importa resituar o debate
em torno da modelizao e da perda de identidade do sujeito
reflexivo, do sujeito histrico.  J Abraham Moles dizia que a
2sociedade+  um erro de conscincia histrica: a sociedade
acabou, resta um sistema social regido pela telepresena, a
acumulao e a anlise de dados, os fluxos de servios e os
fluxos de coaco.
               Afinal, que comunicao? Quem comunica o qu?,
atravs de que meios?, para quem?  Como refere Paul Beaud
(1984), a histria das tcnicas de comunicao foi desde
sempre colocada sobre o signo da dissimetria. Com efeito, hoje
 comum considerar-se que os meios de comunicao so os
verdadeiros elos de aproximao entre os povos, da difuso da
cultura, do progresso social, mas a verdade  que, olhando
para trs, vemo-nos cada vez mais sujeitos isolados numa
sociedade de comunicao, terminada que est a descontinuidade
entre homem e mquina; vemo-nos mergulhados no intimismo e na
indiferena que a saturao das mediaes tecnolgicas
engendrou.  essa indiferena, essa alienao do sentido em
ltima anlise, a resultante da consolidao desta 2era do

vazio+, do isolamento, que as tecnologias de informao tm
tendncia a aperfeioar, muito embora, com a nova era
interactiva o dispositivo clssico seja claramente posto em
causa.
               O risco da sociedade ps-industrial se
transformar numa caricatura assptica da sociedade industrial
parece assim cada vez maior.  S um modelo matricial pode
romper com os sistemas clssicos. Como disse Wittgenstein, 2no
passado os homens julgavam que os reis podiam fazer chover
(...), hoje julga-se que o avio, a rdio, etc., so meios de
aproximao dos povos e de difuso da cultura...+. Ser que
este 2pessimismo da inteligncia+ wittgensteiniana foi
definitivamente recusado pelo optimismo voluntarista do
Estado-providncia e da inteligentzia das democracias
modernas?
               Com os novos media, a telemtica, a
informtica, as imagens de sntese, etc., o quadro de
referncia do real, se j estava extremamente fragmentado,
desubstancializado, se j era simulacro, passa ento a excluir
positivamente o prprio real, dando dele apenas um modelo sem
referente, como  o caso dos hologramas e das imagens
digitais.  O que os novos media do a ver  fundamentalmente a
excluso do real na ordem de modelizao que emerge.  Mas se o
real  suplantado por uma esttica hiperreal, pela ordem
modelizadora, o prprio sujeito de enunciao no fica
inclume neste processo: 2o que a telemtica sobretudo
proscreve da sua ordem modelizadora  o prprio sujeito de
enunciao, tende assim a desaparecer a instncia legitimadora
clssica do discurso+ (Rodrigues, 1984:86).  De facto, uma das
particularidades mais dolorosas deste sculo  exactamente j
no nos reconhecermos nos media que manipulamos, ultrapassada
que foi a descontinuidade entre o homem e a mquina, surgidos
que so os 2imateriais+.  Eduardo Prado Coelho expunha assim a
questo 1 : 2(...) os novos materiais so 'materiais que no
servem de matria para nenhum projecto', no correspondem a
necessidades formuladas pelo homem, e pem em causa a
pretenso de soberania do sujeito humano.  este 'p&r em
causa' que, na perspectiva desta exposio, (referente aos
Imateriais, realizada em Paris em 1985), constitui a marca da
ps-modernidade - a quarta ferida narcsica, como diria
Lyotard.+ Ser importante ver a este nvel o que  que se
passa com as imagens de sntese, vendo um outro aspecto da
recomposio do dispositivo comunicacional na modernidade. 
               Uma viso pessimista da evoluo das
tecnologias de comunicao poder fazer crer que a  potncia
ou potncias que vierem a dominar as novas tecnologias
dominaro a produo, a indstria, tero o poder militar e
criaro uma nova era, um novo imprio, cujo domnio pertencer
a quem vier a deter essas mesmas tcnicas. A questo no 
nova, como temos vindo a ver, mas tem a utilidade de nos
interpelar sobre algo que  afinal a nossa prpria histria:
com efeito, a dominao poltica, cultural, militar, foi
instituda originariamente com as tecnologias da comunicao
ento emergentes - nomeadamente com a escrita alfabtica - e a
cada nova resposta do dispositivo comunicacional, tecnolgico,
verificou-se uma recomposio do prprio dispositivo de
dominao.  
     Esta questo  de facto fulcral quando se fala em termos

de imagens de sntese.  No esqueamos que - j que estamos na
esfera militar - a guerra do futuro  um jogo de linguagens, e
como tal, primar pela ausncia do humano, delegando a
operao de ataque-resposta a sistemas inteligentes,
algortmicos, processados atravs de cenrios de sntese
(exemplo da Guerra do Golfo, dos ataques da NATO na Bsnia,
etc.).
     Um dos aspectos que se nos coloca em maior evidncia na
recomposio do dispositivo de dominao emergente com as
novas tecnologias e as imagens de sntese, , pois, o da
dissipao do humano, ou das suas hibridaes, no novo regime
da representao. De facto, aps as fases grupal e
individualizada, o sujeito da sociedade mass-meditica v-se
confrontado no propriamente com o seu fim,  mas com a eliso
do seu corpo - e porque no com a dissipao do seu ser -
perante a degradao da possibilidade de se representar e de
inclusive se percepcionar.  O elogio do corpo, hoje to
notado, no ser seno, provavelmente, um dos fluxos de
resistncia ainda no quebrados...      
     De facto, a ordem dos signos e a ordem digital tm-se
vindo progressivamente a substituir  2ordem do homem+ e o que
est portanto agora em causa  exactamente essa 2ausncia do
humano+, o alastramento hipertlico das marcas anunciadoras
dessa eliso, desse desaparecimento do homem do regime de
representao, ou to s da sua transfigurao, ou afinal - e
apenas - do 2p&r em causa+ apenas e justamente a sua imagem..
     Trata-se portanto de uma excluso no no sentido de uma
extino apocalptica, antropolgica - tenhamos f nisso -,
mas no sentido, por um lado, da delegao algortmica da
imagem do sujeito, e, por outro, agora fora do regime de
representao, da transformao do indivduo em sujeito
submetido a nova recomposio do dispositivo de dominao, o
que poder implicar uma submisso a nova razo reguladora, a
um bio-poder, a uma tecnologia, que no limite no deixar
espao para uma razo crtica ou apenas para uma techne, uma
singularidade.
     A progressiva dissipao do sujeito no regime de
representao, a iluso/eliso do sujeito representvel,
deriva do facto das novas mquinas informacionais serem uma
espcie de 2xtase+ da prpria ordem dos signos, agora
digitalizados, traduzidos em nova lgica soft, em bits e
pixels, o que institui de facto a crise no regime de
representao.  S ento  que  possvel conceber imagens a
partir da manipulao de nmeros, imagens sem referente,
portanto, e, mais do que isso, imagens no estveis,
interactivas, revendo-se a cada momento em devir e j no
adistritas ao modelo originrio.  
     So assim imagens em metamorfose: passagem no de uma
forma a outra, mas passagem entre duas formas que no so nem
origem nem fim.  Nessa passagem as novas imagens atropelam-se
numa infinidade de faces possveis, verdadeira
(i)numerabilidade sgnica cujo fluxo deriva da prpria mquina
informacional.  Trata-se sem dvida de um verdadeiro
2escndalo+ ontolgico: o sentido desptico do novo fluxo de
imagens impe doravante a pr-existncia da imagem em relao
ao objecto representado.
     De facto, se a modernidade instituiu um dispositivo de
representao no qual se assistia  provocao das identidades

e das diferenas sobre a analogia, os signos e as similitudes,
no actual regime de representao comea de facto a
assistir-se  2razo cruel+ da areferencialidade: a provocao
inelutvel de todas as anteriores leis de representao...
             A velocidade dos novos fluxos, a infinidade de
faces e de pontos de vista, levantam entretanto algumas
questes que se prendem com a constante (des)actualizao
discursiva, por um lado, e, por outro, com o seu imediatismo -
falando-se inclusive nos imedia - levando o sujeito receptor a
reflectir de forma refractria, no acompanhando portanto a
velocidade das construes algortmicas, e naturalmente, no
acompanhando a 2mensagem+, por assim dizer. A nova ordem
visual  ainda uma nova conveno do real, isto , mais para
alm da iluso/eliso do sujeito, do que se trata agora com as
imagens numricas  de uma delegao da construo de um
real-outro na mquina.
               Esta nova ordem, enquanto proscreve o sujeito
do prprio regime de representao, proscreve-o tambm como
sujeito de enunciao tendendo assim a desaparecer, como
vimos, a instncia legitimadora clssica do discurso, e o
2destinatrio+ enquanto tal.  A nova ordem numrica
substitui-se pois, sem dvida,  ordem do homem, apelando de
novo  incompatibilidade entre a linguagem e o homem: se uma
fala o outro no...
               Outra questo a ver  a da eventual homeostasia
dos novos sistemas bio-maqunicos, de se saber at que ponto 
que a eliso do sujeito do regime de representao e a sua
refraco no regime da percepo, so ou no relativamente
estveis, de se saber, enfim, que tipo de hibridez, que corpos
quimricos emergem da rede de efeitos discursivos, tcnicos,
algortmicos, criando novas imagens, redistribuindo o campo da
representao e as relaes entre a imagem, o corpo, a voz, e
redistribuindo tambm o campo da razo - dando legitimidade ao
temor de alguns de que a racionalidade tcnica se configura na
prpria racionalidade da dominao.  A reflexo aqui no se
poder deter sequer ao nvel da transgentica, das
manipulaes genticas, embriolgicas ou informacionais, reais
ou simuladas... Com efeito, as imagens numricas podem entre
muitas outras coisas visualizar molculas de ADN e simular
reaces qumicas complexas com a utilizao de cdigos
grficos especficos.
          As questes so, pois, necessariamente complexas.  A
admissibilidade das 2totalidades+ maqunicas comunicacionais
se autocorromperem, no dever no entanto ofuscar, sob pena de
total excluso do sujeito, a prpria possibilidade da sua
manipulao minoritria, na medida em que o dispositivo
tecnolgico o permita.  S assim, provavelmente, ser dada
resistncia s fontes do rudo, e por acrscimo, ser mantida
a possibilidade de liberdade para o ver, o ouvir, e o dizer. 
E isto, mesmo sabendo - e cito Couchot (1985:123) - que
2quando vejo televiso (referncia, por exemplo, ao media
TV...) a tecnologia deixa de ser algo que me rodeia.  Ela
deixa de estar cerca de mim, na minha proximidade, no exterior
de um permetro que seria o eu do lado de c e o no-eu do
lado de l, mas passa a estar em mim.  Um tecido finamente
organizado e invisvel toma-me nas suas malhas,
desconjunta-me, atravessa-me e tambm me dispersa.  Quando
utilizo uma tcnica, mais do que me assenhorear dela, fico

ligado a uma das linhas desse tecido, torno-me quiasma,
cruzamento, ponto singular da rede (...). Entre o orgnico e o
maqunico, paralelo mas no exterior, esse tecido, essa rede,
no funciona como uma outra sociedade, subjugada ou dominante,
mas como um duplo polimorfo com o qual cada indivduo compe
inumerveis e temporrias hibridaes (...).+ De facto, o
homem, quer seja o homem pr-histrico ou o homem
contemporneo, passa a cada mudana da tcnica de uma
hibridao a outra, nesse cruzamento desmedido, excessivo, com
a prpria tecnologia.
          Se a experincia medieval nos disse que o momento de
instaurao da verdade coincidia com o acto de fundao da
palavra, resta-nos continuar a resistir, agora, na
modernidade, para que instaurao da verdade deixe de
coincidir com o acto de fundao do simulacro... E, na
verdade, se a tcnica fosse realmente 2neutra+, ou
2impotente+, uma mquina como o relgio - a mquina moderna
por excelncia - no estaria na base da sociedade industrial
mas antes integrada num continuum de uma longa Idade Mdia
onde a sua importncia pouco mais alm iria da do sino da
aldeia ou das cadncias das rcitas de salmos dos
2monges-relgio+ (Grenier, 1943).
     De facto, nada disso aconteceu.  Tcnica no manipulvel,
a mquina-relgio  tambm o primeiro instrumento que no
produz 2trabalho+ mas fornece informao e f-lo em resultado
da complexificao de um cdigo binrio que , de algum modo,
o antepassado do que utilizam os computadores de hoje.  O
relgio  assim, tambm, o ponto charneira - ao nvel da
tecnologia - da passagem do qualitativo e do analgico para o
quantitativo, ou, como dizia Michel Foucault, da passagem do
regime da similitude para o das ordens, das identidades e das
diferenas. 
     A tecnocincia impunha-se assim ao esprito,
apropriava-se dele, aferindo o trabalho industrial, que no se
acomodava de facto com horrios fantasistas. O relgio
aparece, pois, como 2o prottipo de todas as mquinas
modernas, e se ele aspira a tornar-se no modelo de preciso da
automao e da autonomizao  porque a sociedade que o
produziu o desejava, e estava pronta para o receber+ (Meneres,
1983:33).
     A mquina aparece-nos assim com a sua prpria autonomia,
reguladora do tempo, das cadncias, dos ritmos, e dos
espritos, dando crdito  indefectibilidade da lei material
determinista, fundamentando assim a tecnocincia. Da
Jean-Franois Lyotard ter recordado na sua ntula filosfica
apresentada em Lisboa no Seminrio 2A Informao Face s Novas
Tecnologias+ que 2(...) les techniques ne sont, sinon
toujours, du moins depuis l'ge moderne o elles ont fusionn
avec la science, dveloppes par une dynamique autonome, sans
attendre d'hypothtiques besoins humains 1 .
      essa dinmica autnoma, misto de imaterialidade e
racionalidade maqunica, que sustenta, em ltima anlise, a
coerncia do objecto industrial a que se referia Simondon
(Simondon, 1965), e, portanto, o pendor determinista da
prpria tcnica: A tcnica pensa... Da que sejam
problemticas utopias como a de Laborit quando considera que
2se a informao for generalizada, talvez nas sociedades
humanas se possa estabelecer uma harmonia do tipo da que se

encontra nos organismos vivos+ (1985:221). Mas esta 
decididamente a utopia que nos conforta, aquela que, como
dissemos, a matricialidade poder permitir.
     Dando resposta a Henry Ford e ao taylorismo, o imaginrio
consumista da sociedade industrial pretendia sobretudo criar
consumidores para as mercadorias que produzia.  Por outro
lado, a distino entre o real em si e a sua representao -
herana do mundo cultural pr-industrial - entra
definitivamente em crise.  E com ela, a prpria legitimidade
da grande narrativa histrica como narrativa fundadora, como
reificao de um real passado.
     Ao invs, o imaginrio ps-industrial ir criar sobretudo
consumidores de informao, ir modelizar o sujeito,
2esconjurar o real nos sinais do real+. Na fase ps-industrial
os dispositivos simblicos e tecnolgicos surgem j como
dispositivos reguladores e geradores de sentido.  E, na medida
em que integram j um efeito siderante, prenunciador de um
eventual 2dispositivo total+, obrigam a que a 2massa+, entre
outras coisas, no tenha necessidades outras seno aquelas que
lhe  dado ver.  Por isso lonesco dizia que 2a realidade no 
realista+... E Bachelard que 2o real no se mostra,
demonstra-se+...
     Simultaneamente, a massa, como 2xtase do social+, perde
o seu estatuto de sujeito. Escutadas atravs de rede de
dispositivos de auscultao (sondagens, testes, referendos,
soft-media), as massas passaram a ser uma 2entidade nebulosa
com existncia estatstica+ e se funcionam como referente 
no enquanto massa, mas sim enquanto maioria silenciosa+
(Baudrillard, 1982:25). Idntica anulao dos sujeitos
histricos se verifca atravs das estratgias siderantes do
Estado.  Lo Scheer j havia notado que a realidade
concentracionria, a realidade do campo de extermnio nazi 
inclusive indissocivel da realidade social contempornea. E
com Lyotard iramos um pouco mais longe.  Ele coloca a
vertigem dessa indissociabilidade e, simultaneamente, a
possibilidade de auto-anulao do sujeito, enfim, a
inviabilizao da totalidade histrica.  A questo  que a
realidade, a histria, comporta o diferendo: 2J'ai analys des
milliers de documents - j'ai inlassablement poursuivi de mes
questions spcialistes et historiens.  Jai cherch, mais en
vain, un seul ancien dport capable de me prouver qu'il avait
rellement vu, de ses propes yeux, une chambre  gaz
(Faurisson, in Vidal-Naquet, 1981: 227, Les juifs, Ia mmoire,
le prsent).  Avoir "rellement vu de ses propes yeux" une
chambre  gaz serait Ia condition qui donne l'autorit de dire
qu'elle existe et de persuader l'incrdule.  Encore faut-il
prouver qu'elle tuait au moment o l'a vue.  La seule preuve
recevable qu'elle tuait est qu'on en est mort.  Mais, si l'on
est mort, on ne peut tmoigner que l'est du fait de Ia chambre
 gaz. - Le plaignant se plaint qu'on l'a tromp sur
l'existence des chambres  gaz, c'est--dire, sur Ia situation
dite Solution finale.  Son argument est: pour identifier qu'un
local est une chambre  gaz, je n'accepte comme tmoin qu'une
victime de cette chambre  gaz; or il ne doit y avoir, selon
mon adversaire, de victime que morte, sinon cette chambre 
gaz ne serait pas ce qu'il prtend,- il n'y a donc pas de
chambre  gaz+ 1. Poder-se-ia dizer portanto que a sociedade
hiperreal se transcende na sua 2essncia vazia+... 2L o se

dressait le camp de Dachau, il n'y a plus aujourd'hui qu'un
muse.  Ce muse est la cristallisation de notre mmoire et le
condens de notre hyperrealit.  L'vocation mme du camp y
est  peu prs impossible+ 2 .
          Neste jogo letal da crise contempornea, so os
media, por excelncia, os transmissores da chamada 2peste
branca+.  Pior do que a negra, a peste branca, assente na
ideologia, na tecnologia e nos seus prolongamentos 2soft+,
seria mais destruidora, mais exterminadora inclusive do
prprio real. A questo no  nova.  A emergncia das novas
tecnologias veio introduzir no regime da percepo, segundo
Leroi-Gourhan, um cada vez maior e inclusive totalizante
restringimento da interpretao individual: 2A linguagem
audiovisual tende a concentrar a elaborao total das imagens
nos crebros de uma minoria de especialistas que transmitem
aos indivduos matria totalmente depurada+ 3.  Da  que as
massas passassem a ser consideradas como 2rgos de
assimilao pura e simples+, perdendo as variantes de
imaginao, ou, como dizia Marcuse, convertendo-se o poder
2libertador+ da tecnologia em 2obstculo  libertao+.
          A questo  que nos media tradicionais a rarefaco
do sentido  uma constante.  O que fica do ritual dirio de
narrativas e mitos que a TV reproduz exaustivamente, numa
autntica 2vertigem+ do real,  sobretudo um discurso
desorganizado privado de sentido por abuso de linguagem, assim
se constituindo em 2mosaico+ da mega-mquina ficcional
moderna. Esse 2vazio de sentido+ , no fundo, desejado pelas
massas.  Elas preferem, passivamente, o fascnio do medium e o
seu efeito siderante,  exigncia crtica da mensagem, como
bem assinalou Baudrillard.  O fascnio no releva do sentido
mas sim da sua dissimulao.  No  o sentido, nem to pouco o
aumento de sentido que apelam ao prazer -  a sua
neutralizao que fascina: estamos no limite do regime de
representao.  Diria, melhor, passmos esse limite.  Passmos
o real, estamos em pleno xtase do real.  Veja-se que  um
2real deslocado+, pr-anunciador da prpria pulverizao do
referente, que a televiso clssica, por exemplo, institui no
seu regime de banalizao do quotidiano.
          Depois da crise que atravessou a descontinuidade
homem-mquina, a ltima grande crise narcsica deste sculo -
e porventura a ltima de todas as feridas narcsicas - 
efectivamente a da vertigem do real.  Somos com efeito um
repositrio de simulacros, vivemos a plena fico, o grande
dispositivo meditico reinjecta constantemente um real que no
 mais do que a crise do prprio referente, a sua
volatilizao.
          Pensando objectos to diversos - mas paradigmticos
- como a Disneylndia e Zelig, vemos que enquanto a
Disneylndia esconde que o real j no  real (salvando assim
o princpio da realidade), Zelig destri-o, evidenciando o
hiperreal, a simulao mxima, como parte integrante da
quotidianidade.  Talvez o cinema nunca (se) tenha mostrado
este logro como Zelig o fez. Zelig  o paradigma dos
paradigmas da simulao: faz a prova do real pela constante
hiperreal, sem referentes.  Lgica idntica preside 
emergncia dos imateriais.
          Submersos pela luxuriante fertilidade das mquinas
mediticas, vivemos confrontados com a prpria raridade da

experincia real, com um mundo 2usado+, um mundo de fantasmas,
no qual cada um vive uma vida em segunda mo e indirecta.  Os
Gregos tinham um nome para este plido simulacro da existncia
real - chamavam-lhes Hades - e este reino das sombras parece
ser o destino ltimo da nossa cultura mecanstica, orientada
pelo esprito do lucro  1 .  Plato, alis, j temia que se
tomasse a sombra pelo ser... 2Encaminhamo-nos velozmente para
uma diviso do mundo em duas classes - uma minoria que age,
cada vez mais, em benefcio dos processos reprodutivos, e uma
maioria que gasta toda a sua vida a servir de apreciadora
passiva ou vtima condescendente desse processo reprodutivo. 
Deliberadamente, em todas as ocasies histricas, falsificamos
piedosamente os acontecimentos em proveito dos fotgrafos, ao
passo que o acontecimento real se d, muitas vezes, de maneira
diferente; e temos o descaramento de chamar a estas engenhosas
encenaes documentos histricos autnticos+ 2 .
     De facto, os media, como extenses  do homem, a pouco e
pouco, merc do aperfeioamento tecnolgico e da sua prpria
capacidade performativa tornam-se agentes modelizadores do
prprio sujeito histrico, 2exterminando-o+. Vemos portanto
que  o prprio sujeito histrico, e o acontecimento, que se
projectam numa crise-en-ab-me sem consequncia: 2Il y a des
vnements - quelque chose arrive qui n'est pas tautologique
avec ce qui est arriv+ 3 .
     Alis, e como referia Ricoeur, o acontecimento 
construdo, finalmente, ao mesmo tempo que o so as narrativas
que o enquadram: 2Nest-ce pas Ia fonction de la notion
d'vnement de prserver, par del les constructions de
l'historien, la conviction que quelque chose s'est
effectivement produit qui n'est pas l'ouvre de l'historien?+
(Ricoeur, 1980).  Como diria Domenach, o que hoje resta de
histrico na histria  o historiador... Um pouco com o mesmo
sentido, e referindo-se  ltima fico de Borges, Eduardo
Loureno ironizava: 2Que a histria copiasse a histria era j
suficientemente prodigioso, que a histria copie a literatura
 inconcebvel...+ A verdade  que, como sabemos, hoje  a
carta que precede o territrio...
     Como dizia Baudrillard 2tout vnement aujourd'hui est
virtuellement sans consquences, il ouvre sur toutes les
interprtations possibles, aucune ne saurait arrter le sens,
- quiprobabilit de toutes les causes et de toutes les
consquences - imputation multiple et alatoire. Si les ondes
de sens, si les ondes de la mmoire et du temps historique
autour de l'vnement se retrcissent, si les ondes de
causalit autour de l'effet s'effacent (et l'vnement
aujourd'hui nous parvient bien comme une onde, il ne voyage
pas seulement 'sur les ondes', il est une onde indchiffrable
en termes de langage et de sens, dchiffrable seulement et
instantanment en termes de couleur, de tactilit, d'ambiance,
en termes d'effets sensoriels), c'est que la lumire se
ralentit, c'est que quelque part un effet gravitationnel fait
que Ia lumire de l'vnement, celle qui porte son sens
au-del de l'vnement mme, la lumire porteuse des messages
se ralentit jusqu' s'arrter, et ainsi Ia lumire du
politique et de l'histoire, que nous ne percevons plus que
faiblement, et ainsi Ia lumire des corps, dont nous ne
recevons plus que des simulacres attnus+ 1.
     O regime ps-industrial  assim o do transpoltico - e da

organizao - em oposio  anterior era do 2poltico+ e da
2produo+.  O tempo perdeu a memria; a ordem 2ps-moderna+
aparece como uma estrutura com sentido e a crise como uma
reestruturao permanente, uma reescrita constante do
manuscrito histrico. 2La croissance s'immobilise dans
l'excroissance telle est la forme de l'hypertelie, de ce qui
va plus loin que sa propre fin+ 2.  de facto este nvel de
hipertelia generalizada o que melhor caracteriza o
transpoltico:  a escalada fantasmtica das finalidades, o
que vai mais longe que o seu prprio fim, o que ultrapassa os
limites da sua funo, a hiperespecializao de homens e
objectos - a cancerigenao do sistema - o ultrapassar da
prpria ordem natural das coisas.
          O sujeito reflexivo, histrico, passa assim a
sujeito ps-histrico, exorcizado do - e no seu tempo -,
ultrapassado pela velocidade da luz e da informao...  o
prprio Baudrillard que chama a essa volatilizao, tal  como
Canetti alis, o 2colapso da histria+ ou o seu 2estado de
coma+.
          A questo  pois a de que o extermnio da realidade
da cmara de gs  conforme ao extermnio da realidade do
referente nos procedimentos de verificao (...). 2Cest qu'il
n'y a de ralit qu'atteste par le 'papier'+ (...). 2La
ralit n'est jamais certaine+ 3.
          Perguntar-se- se esta deriva hertica sobre os
historicismos no ser finalmente um novo pressuposto da
modernidade, invocador (ainda) da emancipao.  que, tal como
notou Lyotard 1 2En deux sicles, nous avons appris que le
dveloppement des technosciences, l'acroissement des richesses
et du savoir, l'avance des avant-gardes, la conqute des
liberts dmocratiques, ne conduisent pas ncessairement  un
progrs universal pour l'humanit.+ Que dizer ento?  Habermas
(1973:86) afirmava que 2l'irrationalit de Ia domination qui a
pris maintenant les proportions d'un danger mortel collectif
ne pourrait tre surmonte que par la formation d'une volont
politique, lie au principe d'une discussion gnrale et
exempte de domination.  II n'est permis d'esprer une
rationalisation de la domination que d'une situation o serait
dveloppe la puissance politique d'une pense lie au
dialogue.  La force libratrice de la rflxion ne peut tre
remplace par un dploiement de savoir techniquement
utilisable.+
          Aceitemos ambas as propostas; aceitemos o nosso
2destin de pense+... Mesmo que isso queira dizer 2continuar
moderno+ ou 2restaurar a primacia da pessoa humana+ ou ainda
2humanizar as aplicaes+.  Salve-se, no mnimo, o embarao da
complexidade.












VIII.  A questo televisiva: a paisagem audiovisual portuguesa


                               televiso restam-lhe dez anos
de vida
                                        Umberto Eco (1995) 

 
     J de h alguns anos a esta parte que existem estimativas
pessimistas quanto  possibilidade do pequeno mercado
publicitrio nacional poder manter quatro canais generalistas
de televiso 1. Esta ideia pode ser pertinente num contexto de
redes nacionais, mas no o ser, do nosso ponto de vista, num
contexto de redes diversificadas - locais, regionais, por
cabo, "pay TV" e no contexto ainda dos novos servios.
     Com efeito, fala-se, agora, cada vez mais, em canais
regionais privados e a TV por cabo  j uma realidade a nvel
nacional.  Mas este  s o comeo do crescimento da paisagem
televisiva portuguesa. Para alm das televises nacionais,
locais e regionais - que no tardaro por a -, h que contar
com as que nos chegaro - s centenas - do exterior, como a
Direct TV, a televiso interactiva em modalidades segmentadas
de "pay TV", o "video-on-demand", etc.  E h ainda que contar
com a emergncia dos tais "canais-nicho", para pblicos
especficos, que sero uma realidade a curto/mdio prazo, pelo
menos se pensarmos em termos de teledistribuio. Neste texto
pretende-se avaliar em que condies a paisagem audiovisual
portuguesa pode evoluir para um sistema diversificado,
analisando a reconverso do quadro legal, e tendo sobretudo em
ateno a evoluo tecnolgica.
     Faamos uma rpida restrospectiva ao passado recente da
televiso em Portugal. A 6 de Outubro de 1992 e a 20 de
Fevereiro de 1993, respectivamente, comeavam em Portugal as
emisses regulares dos dois canais privados de televiso
portugueses - a SIC (Sociedade Independente de Comunicao),
projecto liderado pelo ex-primeiro ministro Francisco Pinto
Balsemo 2 , e a ento TVI/Quatro (Televiso Independente),
dirigida pelo ex-ministro da Educao, Roberto Carneiro, e
participada maioritariamente por organismos da Igreja Catlica
portuguesa 3 . Com o arranque dos dois canais privados,
terminava um longo ciclo de predomnio do monoplio do Estado,
assegurado desde 1957 pela Radioteleviso Portuguesa.
     Com efeito, nesse ano, a 7 de Maro, dava-se incio em
Portugal s emisses regulares de televiso atravs da RTP,
designada como concessionria do servio pblico de televiso,
ento uma sociedade annima gerida por um administrador
nomeado pelo Governo. O Estado portugus, no entanto, apenas
detinha um tero do capital da sociedade, pertencendo os
outros dois teros aos emissores particulares de radiodifuso
e ainda a subscritores privados. Primeiro com Salazar e mais
tarde com Marcello Caetano, a RTP foi sempre, designadamente
atravs dos seus servios noticiosos regulares, o principal
porta-voz da poltica totalitria dos dois ditadores do Estado
Novo. Nessa medida, enquanto modelo protocolar e instrumento
de propaganda, a RTP foi, necessariamente, a par do sistema
repressivo policial e do sistema censrio, um dos elos
fundamentais do campo comunicacional do sistema
monopartidrio, campo esse tambm historicamente responsvel

pela manuteno de um regime poltico esclerosado, cujo fim se
anuncia a 25 de Abril de 1974, ao fim de 48 anos de ditadura. 
     Emitindo a nvel nacional apenas a partir de meados dos
anos 60, s em finais de 1968 (25 de Dezembro) a RTP v nascer
o seu segundo canal - a RTP-2. Datas importantes nesse longo
percurso histrico, so as relativas ao incio das emisses
regulares do Centro Regional da RTP- Madeira, a 6 de Agosto de
1972, e da RTP-Aores a 10 de Agosto de 1975.
     Aps o 25 de Abril verifica-se a nacionalizao da RTP e
a sua transformao em empresa pblica - RTP, EP. Datas
importantes destas quase duas dcadas da II Repblica, so o
incio das emisses a cores em 7 de Maro de 1980 e o arranque
da RTP Internacional, a 10 de Junho de 1992. E a 6 de Outubro
de 1992, como referimos, o arranque das emisses do primeiro
operador privado de televiso em Portugal - a SIC, ao que se
seguiria a TVI, a 20 de Fevereiro de 1993.
     Importante  ainda a assinatura, em Maro de 1993, do
contrato de concesso do servio pblico de televiso, entre a
RTP e o Governo do primeiro-ministro Cavaco Silva. Atravs
deste documento, a RTP fica obrigada a cumprir as atribuies 
especficas do servio pblico de televiso, alis j
previstas na Lei da Televiso, datada de Setembro de 1990,
nomeadamente no que diz respeito ao pagamento de indemnizaes
compensatrias retiradas do Oramento do Estado portugus, e
atribudas  RTP pela sua actividade especfica enquanto
concessionria do servio pblico de TV. Entre essas
competncias, o Governo apontava os custos da difuso por
satlite da programao do Canal 1 e da TV2 para as regies
autnomas dos Aores e da Madeira; os custos de explorao dos
respectivos centros regionais; os custos da RTP Internacional;
a cooperao com os PALOP (Pases africanos de lngua oficial
portuguesa); a manuteno e conservao dos arquivos
audiovisuais; e, finalmente, as despesas com os tempos de
antena dos partidos polticos. Todos eles factores que no se
enquadram naquilo que define, nas mais importantes
organizaes internacionais, um "servio pblico de
televiso". Com efeito, como tivemos oportunidade de referir
4, o servio pblico de televiso identifica-se em primeiro
lugar pelos contedos da programao e no por imputao de
custos de explorao, manuteno ou difuso.
     Vejamos desde j como estava a RTP no final dos anos 90,
antes de aparecerem os operadores privados. No Relatrio e
Contas da RTP referente ao ano de 1988 (que apresenta um lucro
de 2,5 milhes de contos) a RTP considerava 2anulados os 
prejuzos acumulados at 1985 e saneada a situao economica e
financeira da empresa+, dado ter atingido resultados positivos
no trinio 1985-1988.  As estimativas para 1989 eram ento
positivas (atingiriam os 1,5 a 1,8 milhes de contos de lucro,
com valores lquidos na publicidade de 15 e 18.2 milhes de
contos para 1989 e 1990 respectivamente), o que era
considerado bom, uma vez que, no que respeitava a este ano,
nem tinham sido atribudas pelo governo as habituais
indemnizaes compensatrias (750 mil contos em 1987), nem to
pouco se havia registado um crescimento real das taxas de
televiso ainda existentes nessa altura.
     Este ltimo aspecto, fulcral para a RTP, era inclusive
motivo de curioso reparo, no referido relatrio, exactamente
nestes termos: 2Com efeito, e apesar da Empresa continuar a

dispender grandes esforos e avultadas quantias no controlo e
fiscalizao da cobrana de taxas de televiso, no tem havido
por parte do estado a ajuda necessria para a maior eficincia
desta cobrana. Assim, os comerciantes continuam impunemente a
no efectuar o registo dos televisores que vendem, os
Tribunais no efectuam a tempo a cobrana coerciva e o nmero
de pedidos de iseno ultrapassa com facilidade o aumento de
subscritores+. 
     Positivos eram, tambm, os resultados estratgicos.  Com
efeito, na segunda metade dos anos 80, a actividade da RTP
incidiu prioritariamente no s na recuperao da situao
econmico-financeira, mas tambm no 2aumento do nmero de
horas de emisso na acelerao da cobertura do Pas com sinal
dos dois canais e no reforo da aco de cooperao  com as
estaes de lngua portuguesa+. De uma forma geral, o prprio
Conselho de Gerncia reconhecia terem sido entretanto
alcanados esses objectivos - ou pelo menos estarem ento em
vias disso.
     Em termos de futuro dizia-se que as grandes linhas
estratgicas da empresa passavam pelo aluguer de um
"transponder" num satlite Eutelsat de mdia potncia, na
construo de um novo Centro de Produo em Lisboa, na
reestruturao e optimizao organizaconal da empresa, e na
introduo dos "meters", - o sistema electrnico de medida de
audincia, com vista a um conhecimento mais rigoroso das
preferncias dos telespectadores.  Do ponto de vista da gesto
estratgica,  o servio pblico pretendia assim posicionar-se
para enfrentar, no mercado, as perspectivas de liberalizao
da lei da televiso e a chegada, portanto, de operadores
privados.  
     Trs aspectos da gesto da empresa perfilavam-se assim no
horizonte  da RTP: 2moldar a estrutura organizativa em esquema
mais simples e operacional,  aumentar a eficcia do processo
produtivo com o reordenamento das carreiras profissionais e
reestruturar as grelhas salariais+.  Mais concretamente era
inteno do Conselho de Gerncia presidido por Coelho Ribeiro,
dar resposta urgente a um conjunto de linhas de orientao
estratgica face aos desafios dos anos 90, nos diferentes
domnios fundamentais para a empresa, nomeadamente a
programao e a produo, sistemas de redes e equipamentos,
pessoal e gesto. Tratava-se de um programa fundamentalmente
para "consumo interno" - na prtica era verdadeiramente
utpico, tal como se veio a demonstrar.  De entre a
multiplicidade de linhas orientadoras destacaramos 2a
crescente importncia da produo portuguesa - interna e
externa sendo prioritrio fortalecer servios e qualidade
visando produo para o estrangeiro, designadamente para a
Europa; concluir a cobertura total do Pas pelos canais 1 e 2;
aproveitar  todo o potencial das novas tecnologias (TVAD,
estereofonia, fibras pticas, etc.); melhorar o aproveitamento
da capacidade instalada da rede de emisso; formar; promover o
rejuvenescimento do quadro do pessoal; melhorar a gesto
estratgica e a aco comercial (RTC)+
     Um dos pontos que veio criar uma certa perturbao na
empresa  foi a reestruturao organizacional da RTP, com a
aprovao do novo organigrama, a nomeao dos novos directores
e a criao de novos departamentos e subdepartamentos.
Surgiram assim mudanas de orientao estratgica desde a fase

em que se pretendia Condorcet Costa (que depois passou pela
direco da Antena 3 espanhola e pela TVI) para Director-Geral
da RTP, passando pela previsvel nomeao de trs
"superdirectores" (Jos Eduardo Moniz, Franco Dias e Vieira
Machado) na estrutura da empresa, at   reformulao efectiva
que reforou claramente a posio de Jos Eduardo Moniz nessa
fase. 
     Mas com a multiplicao de centros de deciso que
provocaram inevitavelmente o aumento a burocracia da empresa,
criou-se uma estrutura demasiado pesada, exactamente o
contrrio do que estabeleciam as linhas de orientao
estratgica, sendo assim no mnimo duvidoso que a empresa se
estivesse a preparar da melhor maneira para o embate com os
operadores privados. Embate que, ao fim e ao cabo, no fazia
qualquer sentido, isto , no era sequer uma das atribuies
do servio pblico  Por outro lado, em termos de estratgia
global, a RTP continuava a descurar aces fundamentais como 
a criao do novo Centro de Produo e a diversificao em
holding.  
     Voltando, porm, ao Relatrio, so destacados como
factores de melhoria da qualidade da programao a abertura,
iniciada em 1987,  produo nacional de fico, com doze
peas de teatro gravadas,  bem como o arranque da produo de
quatro telefilmes aprovados no famoso protocolo RTP/SEC. 
Continuava entretanto a registar-se uma programao criteriosa
no que respeitava ao cinema bem como um aumento significativo
das co-produes internacionais.  Foi ainda constitudo o
Ncleo de Pr-Produo de Teledramticos, que  elaborou
sinopses e guies para mini-sries dramticas a partir de uma
seleco das obras da literatura portuguesa contempornea com
maiores potencialidades de adaptao televisiva. Foi sol de
pouca dura. Fortalecida ficava tambm a componente recreativa
da programao atravs nomeadamente dos "talk-shows",
concursos, etc., como forma de optimizar segmentos de tipo
claramente comercial.  
     Em relao  informao era realada a poltica de
descentralizao informativa com a abertura de delegaes em
Vila Real, Coimbra e vora e um maior investimento na poltica
de cobertura dos grandes acontecimentos mundiais, quer atravs
dos enviados especiais, quer atravs dos correspondentes. Uma
estratgia que seria invertida na era ps-concorrencial.  
     Entre o Canal 1 e a "2" vivia-se ento uma espcie de
coabitao "em alternativa". Esta opo havia sido expressa da
Restruturao Organizacional de 1989. Nessa altura a RTP
considerava que a existncia de gesto distinta para cada um
dos canais (...) visava a diversificao de programas
dirigidos ao gosto dos nossos pblicos, e, consequentemente, a
maximizao da audincia+.  Porm, em Setembro de 1990,
Adriano Cerqueira na brochura de promoo da RTP expunha novos
argumentos: o Canal 2 seria para "minorias qualificadas",
acreditando que o desafio da TV privada poderia 2ser vencido
com dois canais pblicos igualmente fortes, polarizadores das
atenes do pas e espelhos de uma realidade nacional bem
viva+. Mas com o aproximar das televises privadas a
estratgia passou a ser a da "complementaridade". Eram feitos
grandes investimentos em programao, considerada "uma das
melhores da Europa". Pouco aps a atribuio das licenas a
operadores privados tudo volta  estaca zero. A "2"  como que

despromovida, deixa de ser um projecto autnomo, passa a
subsidirio do Canal 1 na guerra de audincias e este recentra
as baterias numa estratgia comercial agressiva.  ento 
criado um terceiro canal - a RTP Internacional (RTPi)
     SIC e TVI surgem, portanto, nos anos 1992-93. Segundo o
dossier de candidatura da SIC, o ponto a partir do qual
comearia a ser gerado lucro deveria ser conseguido no final
do terceiro ano (Out. 96). As previses econmicas do grupo
no iam alm dos 19 milhes de contos para 1996 (58,2 milhes
de contos previstos no total do mercado televisivo) e a
respectiva quota de audincia seria de 30 por cento. Quanto 
TVI a quota de mercado prevista inicialmente para 1995 era de
21 por cento para um investimento global em publicidade de 52
milhes de contos. A audincia prevista era ento de 25 por
cento.
     No conjunto, para o ano de 1993, estavam apontados cerca
de 7,5 milhes de contos a conceder  RTP a ttulo de
"indemnizao compensatria". Refira-se que, extinta a taxa da
TV pelo governo de Cavaco Silva em 1991, taxa que foi durante
muitos anos a principal fonte de receitas da RTP, a televiso
pblica portuguesa passou a depender quase exclusivamente das
receitas da publicidade e, claro, dos apoios estatais. No
final do ano, o Canal 1 apresentava um share pouco acima dos
50 por cento, o que permitia s privadas uma audincia
conjunta superior a 30 por cento.
     Os operadores privados de televiso - SIC e TVI - tomavam
entretanto uma posio clara face a estes apoios  televiso
pblica. Francisco Pinto Balsemo, lder do projecto SIC
criticava o poder excessivo do Estado na sociedade portuguesa,
dando como exemplo, justamente, os apoios  televiso pblica
5 e pedia a revogao da atribuio de indemnizaes
compensatrias  RTP com base no Tratado da Comunidade
Europeia que impe regras sobre a concorrncia: 2Como 
possvel que a RTP v receber, este ano, tanto como o capital
social da SIC?+ - perguntava-se F. P. Balsemo.  Por seu lado,
a TVI, acusava o governo de agravar a "concorrncia desleal"
que o operador pblico habitualmente promovia, apresentava no
Supremo tribunal de Justia pedindo a anulao da deciso do
governo relativamente  atribuio das indemnizaes
compensatrias 6 e ameaava avanar com uma queixa em
Bruxelas. Outros sectores, entretanto, reconheciam que o
contrato de concesso do servio pblico no respeitava um dos
vectores essenciais de um servio pblico de televiso - a sua
programao, no constituindo uma alternativa real  oferta
dos operadores privados, mas, antes, adoptando estratgias de
programao em tudo idnticas.  
     O ex-coordenador do Secretariado Nacional para o
Audiovisual, Antnio-Pedro Vasconcelos, demitia-se por esta
altura, aquando da aprovao em Conselho de ministros, em
Fevereiro de 1993, da Lei Base do Audiovisual. Um dos seus
objectivos estratgicos,  frente do SNA, era precisamente
lutar pela aprovao governamental de um "envelope financeiro"
de 1 milho de contos de apoio  produo de fico para
televiso. De facto, as atribuies e competncias da
televiso pblica relativamente ao apoio e promoo da
produo de fico portuguesa, do cinema e demais formas de
expresso e produo audiovisual, estavam j contempladas na
Lei 21/92, mas continuam na verdade, ainda hoje, a no ter uma

concretizao atravs de formas reais de apoio, como, por
exemplo, um caderno de encargos com financiamento e quotas de
programao especficas, e reais, para a produo
independente.
     Dir-se-ia, na globalidade, que o sistema audiovisual em
Portugal alimenta uma lgica algo ambgua, comum alis aos
Estados-membros em geral, que radica na manuteno de um
sector pblico de Rdio e Televiso demasiado pesado, cuja
situao econmica , na maioria dos casos, muito deficitria.
E como se tem vindo a verificar um pouco por toda a Europa,
por razes estratgicas, que tm a ver designadamente com
estratgias comerciais e com a conquista das audincias, as
televises pblicas europeias introduzem nas suas grelhas uma
oferta de programas cada vez mais concorrencial, apenas
cumprindo as atribuies e competncias de um servio pblico
"mnimo", atravs de mdulos, segmentos e programas marginais
s grelhas clssicas, como acontece, no caso portugus, com a
obrigatoriedade de garantir os direitos de antena dos partidos
polticos e a cedncia de tempo s confisses religiosas.
Nada, absolutamente nada, no que se refere a incentivos 
produo de fico. Pouco, ou muito pouco, no que se refere 
programao cultural,  defesa das minorias, da lngua, da
produo nacional, etc. Apenas os mnimos previstos na
Directiva comunitria "Televiso Sem Fronteiras", que ainda
por cima esto desvirtuados em Portugal com a  as estratgias
comerciais, o sensacionalismo e as novelas e seriados
brasileiros.
     Da a transparncia do financiamento e a moralizao do 
servio pblico de televiso europeu ser hoje uma das questes
decisivas na luta pela melhoria da qualidade da oferta
televisiva em geral. Embora por outras razes, essa  tambm a
luta da ACT, a associao europeia dos operadores privados de
televiso, que tm vindo a insistir nas crticas ao que
consideram ser a "concorrncia desleal" - o duplo e por vezes
triplo financiamento (taxas + publicidade + subvenes
estatais) das empresas pblicas de televiso, suas directas
concorrentes. E isso est tambm a verificar-se, em parte, em
Portugal. 
     Tudo se agrava um pouco mais quando ao se invocar o
direito do cidado os canais pblicos respondem com a
"irracionalidade do mercado" e as estratgias de programao
ultracomerciais.  certo que haver atribuies especficas
que conferem o direito a indemnizaes compensatrias  TV
pblica, mas por exemplo a TVI defendeu, em documento entregue
ao Governo portugus que 2a RTP s pode ser objecto de
tratamento especial e diferenciado pelo Estado+ nos casos em
que essa atribuio 2no impenda por lei igualmente sobre os
operadores privados, em matria onde esses operadores privados
no titulem a seu respeito igual interesse, legtimo e directo
(...) e em termos que, ainda indirectamente, no sirvam para
distorcer as condies do mercado e da igualdade
concorrencial+.
     Por outro lado, no plano interno, e para uma optimizao
da paisagem audiovisual, esto ainda por aplicar algumas
medidas que embora no sejam suficientes poderiam contribuir
para uma nova dinmica no audiovisual portugus. Refiro
designadamente os incentivos  produo de fico de qualidade
- nas redes pblicas e privadas -, atravs de modalidades de

desagravamento fiscal,  criao de sociedades de capital de
risco e de sociedades para o financiamento da produo.
Crucial seria tambm,  a proposta de criao do envelope
financeiro para a produo nacional de qualidade.  No domnio
do apoio  produo independente, no entanto, a lei da TV
ficou aqum do necessrio, uma vez que se quedou pelo mnimo
previsto na Directiva comunitria para a "emisso" (e no
"produo") de programas de produtores independentes - apenas
10%.
     Com efeito, o que se tem verificado quanto  estratgia
de programao do servio pblico portugus  na verdade uma
aposta deliberada na compra de programas de fico
estrangeira, onde imperam os "enlatados" norte-americanos e
brasileiros, estes na esmagadora maioria constitudos por
telenovelas. Em 1991, um ano antes da entrada dos operadres
privados, apenas 5,6 por cento dos programas de fico
emitidos pelo Canal 1 eram de origem portuguesa.  
     A primeira realidade em termos de compra de espao  o
"dumping" praticado nas tabelas de publicidade. Visto no seu
conjunto, segundo dados da Marktest, o investimento
publicitrio global em Televiso crescia nos primeiros meses
de 1993  mdia de 45%/ano, o que aparentemente significava
que com a chegada dos operadores privados os investimentos em
publicidade televisiva cresciam de tal forma que a televiso
no s ultrapassava o meio que liderava o mercado - a Imprensa
- em termos do total investido nos primeiros quatro meses do
ano (e por comparao com igual perodo do ano anterior), como
tambm atingia montantes insuspeitados pelos mltiplos estudos
e projeces do sector. Quanto a canais, o Canal 1 liderava os
investimentos no perodo de Janeiro a Abril desse ano, com
12,049 milhes de contos, enquanto a SIC, que ento obtinha
audincias prximas das da TV2, conseguia um resultado quase
triplo em termos de investimento publicitrio: 2,081 milhes
de contos contra 780 mil contos, respectivamente. Mas h que
ver que enquanto a estimativa de progresso global era de 45%,
o Canal 1 apenas tinha um crescimento de 20%/ano, enquanto a
TV2 apresentava j um balano negativo (-5%), tendo apenas
realizado 780 mil contos quando entre Janeiro e Abril de 1992
havia obtido 820 mil contos de receitas. Entre os canais
privados, a SIC obtinha um volume de receitas que foi 
praticamente o dobro do da TVI, embora esta s tenha iniciado
as suas emisses em 20 de Fevereiro de 93.
     No ms de Maro de 93, em que os dois canais privados
esto pela primeira vez em confronto directo, a TVI realizava
483 mil contos de publicidade e a SIC 545 mil contos. Mas j
no ms de Abril a TVI cai para os 155 mil contos e a SIC sobe
para os 675 mil contos, o que pode ter sido o reflexo imediato
das baixas audincias iniciais da TVI. Este conjunto de dados
da Marktest, surgiu assim hiperinflacionado relativamente s
projeces mais optimistas devido no s ao facto de se tratar
de uma fase de arranque de dois novos canais privados, como
ainda por haver situaes de "dumping" no controladas. 
Recorde-se que o crescimento de 1992 face a 1991 havia sido de
26,5%.
     Entre Televiso e Imprensa as coisas estavam a mudar.
Repare-se que nos primeiros quatro meses de 1992, entre ambos
os sectores, a Imprensa detinha 51% do "bolo" comum, com 11,3
milhes de contos, enquanto a televiso realizava 10,9

milhes. Mas j em 1993, o investimento em TV sobe para 56,1%
face aos 43,9% da imprensa (15,8 milhes de contos contra 12,4
milhes). Refira-se, no entanto, que estes so dados que no
tm contabilizados os pequenos anncios classificados. 
curioso notar que  precisamente no ms de Maro de 1993,
primeiro ms a quatro canais, que a diferena entre TV e
Imprensa  maior: 58,8% vs 41,2%, respectivamente. Em Abril a
diferena foi reduzida: 53,3% vs 43,9%. ano. Aqui a
curiosidade ia para a promoo dos prprios canais de
televiso. A TVI encontrava-se no 7 lugar dos anunciantes na
Imprensa (144 mil contos) e a SIC aparecia no 11 lugar, com
96 mil contos investidos.   
      A televiso teve em 1994 uma quota de mercado
correspondente a 56% do sector publicitrio, o que significa
cerca de 45 milhes de contos de receitas ilquidas. 
Descontada as comisses de agncias e centrais e o "dumping"
do mercado, as receitas lquidas do sector televisivo no
ultrapassaram os 33,5 milhes de contos.   
     Comparando as receitas globais do sector com o total dos
custos operacionais de cada estao verifica-se que, 2para
receitas de 44,8 milhes de contos (incluindo 7 milhes de
contos de subsdios  RTP), as estaes tm custos
operacionais de 65,4 nlhes de contos, quase 50% mais+  7. 
Na RTP o dfice ascendia aos 20 milhes de contos em 1994
sendo previsvel para 1995 o aumento desses prejuzos.  
Segundo o mesmo estudo, apesar da SIC ter apresentado um
prejuzo de 2 milhes de contos,  a sua situao financeira
era de "endividamento nulo", prevendo-se o surgimento de
lucros em 1995. No mesmo trabalho a  TVI era descrita  como
estando "em boa situao financeira", muito embora
apresentasse  prejuzos elevados da ordem dos cinco milhes de
contos, e acrescentava-se: 2A empresa est longe de alcanar a
fase de libertao de fundos, necessitando de contar com a boa
vontade dos seus accionistas para o reforo do capital nos
prximos anos.  A manuteno da quota de audincia e
publicidade em tomo dos 14% nos ltimos dez meses, no permite
prever qualquer melhoria na situao para este ano+. 
     No primeiro semestre de 1995, segundo o estudo de tabela
da Marktest, os investimentos em publicidade teriam ascendido,
a preos de tabela, aos 43,2 milhes de contos (18,7 milhes
para a SIC, 17,4 milhes para o Canal 1, 6,6 milhes para a
TVI e 680 mil contos para a TV2). Descontado o dumping, a
previso lquida vai para os 25-30 milhes de contos nesse
mesmo perodo, sendo as estimativas para 1995 de cerca de 47
milhes de contos, de acordo com as prprias estimativas dos
diferentes canais para 1995 (SIC, 21, RTP 18, TVI 8).  
     A Directiva comunitria para o audiovisual comea por
defender um mercado comum de produo e distribuio de
programas que crie 2condies de concorrncia leal sem
prejuzo da funo de interesse pblico que imcumbe aos
servios de radiodifuso televisiva+.  
     Embora se tratando, pelo menos aparentemente, de um
eufemismo (na maior parte dos casos, na Europa, nem os
servios pblicos de televiso se regem pelo 'interesse
pblico', nem se v vontade poltica para que o venham a
fazer), o certo  que essa  a posio mais coerente e justa,
quer de um ponto de vista institucional e de Estado, quer
ainda do ponto de vista econmico estrito. O respeito pela

Directiva, ou to somente por esta orientao, implica, em
Portugal, para alm do cumprimento efectivo que no se tem
verificado, acertos da Lei de TV e na da Alta Autoridade, para
alm de uma reformulao do quadro global do audiovisual.
     Outros aspectos h, no entanto, a ter em ateno.  o
caso do risco da criao de 2posies dominantes susceptveis
de conduzir a restries ao pluralismo e  liberdade da
informao televisiva bem como da informao o no seu
conjunto+. A este respeito a Comunidade tem orientaes
prprias, mas seria conveniente  precaver situaes de quase
monoplio no campo dos media.
     Quanto  difuso,  conhecido que, sempre que tal se
revelar exequvel, as produes europeias devem ser
maioritrias na programao dos Estados-membros, excluindo o
tempo consagrado aos noticirios, ao desporto, concursos,
publicidade e servios de teletexto O que no acontece de
momento.  Portugal, no entanto, beneficia de uma prorrogao
na aplicao deste ponto: sempre que no for possvel atingir
essa percentagem maioritria o valor a considerar no deve ser
inferior  percentagem mdia registada em 1990.
     Tambm, na medida do possvel, uma certa percentagem das
emisses deve ser reservada  produo externa a operadores
pblicos e privados.  De acordo com o artigo 5 da Directiva
de 3 de Outubro de 1989 2Os Estados-membros velaro por que os
organismos de radiodifuso televisiva reservem pelo menos 10 %
do seu tempo de antena. com excluso do tempo consagrado aos
servios de noticirios, desporto, concursos, publicidade ou
servios teletexto. ou em alternativa,  escolha do
Estado-membro, pelo menos 10 % do seu oramento de programao
a obras europeias provenientes de produtores independentes dos
organismos de radiodifuso televisiva+.
     Para alm da produo/difuso, outro ponto importante  o
da difuso da publicidade.  Nos filmes, as interrupes para
publicidade podem ser feitas uma vez por cada perodo completo
de 45 minutos.  Aps a segunda interrupo, a terceira poder
ser feita aos 20 minutos.  Quanto aos restantes programas, a
publicidade no deve atentar contra a sua integridade e valor. 
 2Nos programas compostos por partes autnomas ou nas emisses
desportivas e em manifestaes ou espectculos de estrutura
semelhante que compreendem  intervalos, a publicidade s pode
ser inserida entre as partes autnomas ou nos intervalos+
(artigo 11/2).
     No que respeita os telejornais, estes no podem ser
interrompidos por publicidade sempre que a sua durao seja
inferior a 30 minutos.  Quanto aos outros programas, sempre
que sejam interropidos por publicidade, devem decorrer pelo
menos 20 minutos at que outra interrupo seja realizada.
     Quanto ao tempo de publicidade por cada hora de emisso,
de acordo com a Directiva, no deve ser superior a 20 % (12
minutos/hora).  No total, o tempo consagrado  publicidade no
deve ultrapassar 15 % do tempo de transmisso dirio. Estes
eram os tpicos fundamentais, que, no entanto, so motivo de
grande polmica, e acabam por no resolver o essencial.
     O Livro Verde do ex-Comissrio europeu Deus Pinheiro, por
exemplo, considerava necessria a criao de estruturas
"pan-europeias" de produo e distribuio bem como a criao
de fundos de investimentos para a dinamizao do sector, 
forma de superar a situao mais gritante: o mercado europeu

representa um volume de negcios da ordem dos 3,5 mil milhes
de contos, 80 por cento dos quais so controlados pelos
americanos.
     Entretanto, o novo comissrio europeu, Marcelino Oreja,
caracterizava  as "fraquezas" do audiovisual europeu 8 ,
definindo para a sua superao uma "estratgia de contedos": 
     1. No cinema,  os europeus no ocupam mais de 20 por
cento do seu mercado, o que faz com que a Europa beneficie
muito pouco da dimenso do espao europeu, ao contrrio dos
produtos americanos.
     2. Na televiso, a fico europeia  minoritria (40% dos
programas difundidos), circulam muito pouco e no beneficiam
de um segundo mercado
     3. No domnio dos novos produtos multimedia, a parte de
mercado dos produtos europeus no supera os 25 %. 
     Impe-se assim, de acordo com Oreja, que o Programa MEDIA
II (1996-2000) seja suportado por um instrumento financeiro
que favorea a mobilizao de recursos a favor da produo
audiovisual, sob a forma de um fundo europeu de garantia e de
investimento. Paralelamente, procurar-se-o outros objectivos
em funo das concluses de um novo Livro Verde, desta feita
sobre o desenvolvimento dos novos servios audiovisuais.
     Ora se esta  a estratgia europeia, deve ser tambm a
estratgia da televiso pblica europeia - e dos operdores
pblicos em cada um dos Estados-membros. E no  nada disso
que se verifica.
     Ainda em relao a este ponto convm relembrar as
concluses do Conselho de ministros do Audiovisual e da
Cultura do Luxemburgo (de 21 de Junho de 1995). No chamado
"programa mnimo" para o audiovisual europeu, o conselho no
se pronunciava sobre a prorrogao do sistema de quotas. O
Media II ficava com uma dotao de 310 milhes de Ecus (200
milhes haviam sido dados para o Media I, e a proposta da
Comisso de duplicar esse investimento acabou por no ser
aprovada pelos 15); ficava tambm no ar a proposta de Oreja de
ser lanado um pacote complementar ao Media II que
configurasse um fundo de investimento potenciador da indstria
de programas. 
     O facto dos Estados-membros defenderam uma coisa em
Bruxelas e aplicarem outra no seu prprio pas pode ver-se
pelo que sucede em Portugal. O contrato de concesso do
servio pblico de televiso,  estabelecido entre o Governo e
a RTP em Maro de 1994, mais pareceu um contrato de
obrigatoriedade do Estado para com a RTP, do que desta para
com o Estado e os cidados.  Por este documento, o operador
pblico, a RTP, fica obrigado a cumprir as atribuies e
competncias especficas j previstas na Lei da Televiso,
aprovada em Setembro de 1990, sem que fique,  no entanto,
claramente definido um caderno de encargos para a indstria de
programas - que  o ponto estratgico da Comisso Europeia. 
Paralelamente  Lei de 1990, um outro diploma de Agosto 1992
transformava a RTP em sociedade annima (que inclua os
estatutos da empresa) - e tambm neste se fazia meno
explcita do contedo das mesmas atribuies.
     O referido contrato pouco acrescenta  legislao
existente. Fica para as calendas, por exemplo, a produo
nacional de qualidade como 2servio pblico+, dotando-a de um
2envelope financeiro+ prprio.  Seria a que a RTP mais

argumentos teria para se bater junto da tutela, mas no o
quis, ou no o soube.
     Parece, no entanto, que no chegavam dois diplomas como
os citados para definir cabalmente o conjunto das
responsabilidades pblicas da RTP.  Assim, pelo contrato
elaborado pelo gabinete do subsecretrio de Estado para a
Comunicao Social, Amndio de Oliveira, pela Secretaria de
Estado das Finanas e pela prpria RTP, o servio pblico de
televiso  ligeiramente redefinido nas suas grandes linhas
orientadoras.  Trata-se de um documento fundamentalmente
poltico-financeiro, no qual so patentes as dificuldades do
legislador em encarar a questo crucial de um servio pblico
de televiso - a sua programao.
     De facto, a importncia do arquivo, da cobertura
hertziana, das emisses internacionais, etc., depende das
opes de fundo e do cumprimento da funo de servio pblico;
o mesmo  dizer que se a programao no for uma programao
altemativa  oferta dos operadores privados, de pouco servir
tudo o resto.  E, como foi referido, hoje, o Canal 1 em nada
difere de uma televiso comercial, no se percebendo por que
carga de gua  que o errio pblico est a financiar um canal
que copia os privados e ainda por cima d milhes de contos de
prejuzo.
       aceite, no referido contrato de concesso, que a RTP
facilitar o seu arquivo s estaes privadas e que abrir a
programao da RTP Internacional  SIC e  TVI.   ainda
reafirmada a instituio do Conselho de Opinio, que emitir
pareceres no vinculativos, organismo previsto na tal Lei
21/92, de 14 de Agosto, que tambm criava os Estatutos da RTP. 
     
     O argumento forte para o estabelecimento do contrato em
causa  de ordem financeira: o Governo defendia que estavam
criadas as condies para estabelecer com total rigor quanto
custa o 2servio pblico de televiso+ e assim atribuir
atravs do Oramento de Estado as devidas indemnizaes
compensatrias, no correndo o risco de estar a agravar a
2concorrncia desleal+ que o operador pblico habitualmente
promove.       
     Assim, a difuso da RTP para os Aores e Madeira e os
custos de explorao dos respectivos centros regionais, os
custos da RTP lntemacional, a cooperao com os PALOP, a
manuteno dos arquivos, e ainda as despesas com os tempos de
antena, sero, todas elas, reas onde a RTP no necessita de
se autofinanciar.  Mas para que estes custos sejam devidamente
confirrnados, o governo impe a existncia de duas auditorias,
por forma a que as verbas disponibilizadas correspondam de
facto ao custo real do que  considerado ser o 2servio
pblico+.
     Resta acrescentar que as atribuies e competncias da
televiso pblica relativamente ao apoio e promoo da
produo de fico portuguesa, do cinema e demais formas de
expresso e produo audiovisuais, j contempladas na Lei
21/92, continuam, portanto, a no ser concretizadas atravs de
formas reais de apoio.  Os 7 milhes de contos que o Governo
tem entregue com regularidade  RTP em 1993, 94 e 95, a ttulo
de indemnizaes compensatrias, voltam assim a ser o melhor
argumento para os privados reclamarem do Estado no o servio
pblico mnimo, mas um mnimo de coerncia no sector,

distorcido sobretudo pelo perfil ultracomercial do Canal 1 da
RTP e pela contnua ausncia de medidas inequvocas de apoio 
rea dos contedos.
     De um ponto de vista sociolgico pode dizer-se que em
Portugal, o efeito desregulamentador e a liberalizao da lei
da TV, ao permitir a emergncia de operadores privados de
televiso em condies concorrenciais desfavorveis, contribui
para tornar a abertura do sistema audiovisual como um novo
discurso de legitimao, mantendo o "statu quo", na convico,
certamente, de que o vnculo social passa pelo velho modelo
pedaggico da televiso pblica, criador dos grandes consensos
sociais 9 . Na realidade, tudo se passa ao contrrio. Como
diria Pierre Bourdieu 10 , toda a gente j percebeu que  h
demasiados problemas verdadeiros para que possa ser deixado
aos homens polticos o cuidado de inventar os falsos problemas
necessrios  sua perpetuao. Da o cuidado do campo poltico
em fazer passar a informao pelo indiferentismo activo,
"mimando" os jogos do prncipe, a "actualidade trgica", a
catstrofe, o "fait- divers", os eventos desportivos, etc.
Veja-se por exemplo que eram os governos de maioria absoluta
do primeiro-ministro Cavaco Silva os grandes beneficirios da
informao televisiva diria do Canal 1 da RTP. No conjunto
dos blocos de informao dirios antes da concorrncia, nos
anos 1990 e 1991, Governo e PSD monopolizaram a informao
televisiva, com 55,1% e 45,3% do tempo total conferido aos
principais rgos de poder (includo o Presidente da Repblica
e a Assembleia da Repblica) e partidos polticos na RTP/Canal
1. Nos anos seguintes, veio a confirmar-se a tendncia ainda
que com base em valores menos elevados 11 . 
     Uma situao de crise, designadamente nas redes de
servio pblico europeias, e o progressivo declneo das redes
generalistas face ao cabo,  Pay TV, ao satlite e  ao Pay
per view -  o que est j a acontecer no mercado
norte-americano, e  a tendncia visvel dos grandes mercados
ocidentais 
     Em Portugal - e se bem que as redes generalistas ainda
sejam a principal alternativa durante alguns anos mais - no
t havido receitas publicitrias suficientes para suportar
quatro redes generalistas em concorrncia.
      consensual que  exclusiva competncia do Estado
assegurar um servio pblico de televiso cuja oferta de
programas seja complementar da dos operadores privados e no
concorrencial com ela.  por isso indispensvel que seja
reexaminada a Lei da Televiso, no sentido de melhorar o
actual modelo audiovisual, adequando-o s condies do mercado
nacional e s tendncias do sector a nvel internacional.,
dando simultaneamente mais garantias aos futuros operadores
privados, na medida em que a funo do servio pblico no 
propriamente a de assegurar ao Estado uma fonte de receitas.
     Dever-se-  caminhar para que o servio pblico de
televiso seja constitudo apenas por dois canais - um canal
internacional e  um canal nacional no comercial, isto , um
canal que garanta uma programao diversificada no
concorrencial com os canais privados, deixando para estes as
estratgias de maximizao das audincias.  
     A alienao da dimenso comercial do chamado "servio
pblico de televiso"  poder ser feita ou pela privatizao
do Canal 1, ou por fuso dos dois canais pblicos tranformados

ento em autntico servio pblico de TV, ou por concesses
e/ou subconcesses nacionais e/ou regionais de um dos canais
da RTP, mantendo-se o outro, servio pblico 'de jure'. 
     Como se tem vindo a defender, deve ser reexaminado o modo
de nomeao dos gestores da televiso e da rdio pblica
(tornando-o o mais consensual possvel no mbito do sistema
politico-partidrio) e deve ser dada uma redobrada ateno aos
pareceres emanados do conselho de programas, ou de opinio. 
     Mas do nosso ponto de vista importa tambm rever a Lei
15/90, relativa as atribuies, competncias, organizao e
funcionamento da AACS - Alta Autoridade para a Comunicao
Social 12 . Parece-nos fundamental, designadamente,  haver
renovadas atribuies e um outro empenho no que concerne aos
seguintes domnios: a concentrao econmica excessiva de
rgos de comunicao social num mesmo grupo; a progressiva
melhoria do servio pblico de televiso, dando parecer prvio
sobre as suas grelhas de programao; o desenvolvimento da
produo e da criao audiovisuais, designadamente da produo
independente e da sua quota nas produes do servio pblico,
incentivando desse modo o aparecimento de novos produtores; a
defesa da lngua e da cultura portuguesas; a proteco das
crianas e adolescentes na programao dos difusores pblicos
e privados; a criao de estruturas internas no sentido de
controlar as obrigaes legais dos operadores no que concerne
 quotas de produo e difuso de programas e publicidade.  
     Do nosso ponto de vista a questo decisiva  portanto a
da produo de fico. Importa notar que quando se fala de
"mercado" e de "audiovisual", se est a falar de fluxos e de
produo de programas, de "contedos", e que portanto se est
a falar de dois sistemas aparentemente antagnicos - indstria
e cultura. De facto, no o so. A "aposta no mercado" no que
concerne ao audiovisual , em primeiro lugar, uma aposta na
cultura, nas chamadas "indstrias culturais", nesse imenso
saber e "saber fazer" em que a cultura europeia sempre foi
prdiga. E a, seguramente, nada haver a temer. 
     Em termos da aldeia global pode considerar-se que a
partir do momento em que as indstrias do audiovisual e das
comunicaes ultrapassaram, no grande mercado norte-americano,
a indstria aeronutica como principal fonte de receitas, pode
dizer-se que a convergncia do audiovisual com as
telecomunicaes se configura de facto como um sector
estratgico por excelncia para o sculo XXI. Alis, as
megafuses que temos vindo a conhecer ao longo deste ano de
1995 confirmam-no plenamente.
     No que diz respeito, em concreto, aos sistemas futuros, e
nomeadamente  interactividade, ela  sobretudo possvel, para
j, nas redes por cabo e no nas hertzianas. O satlite
provavelmente continuar a desempenhar a sua tradicional
funo como complemento da difuso hertziana, enquanto o cabo
surge, para j, como o meio privilegiado no contexto dos
diversos programas e servios avanados de televiso  Novos
mercados e novos servios surgem entretanto.   a aposta nos
segmentos-nicho (tematizao e/ou diversificao da oferta:
novos canais para audincias pr-fidelizadas por temticas;
nichos na rea da cultura, micro-nichos); novos servios
diversificados; aposta tambm nas mltiplas capacidades da
interactividade (teleshopping, jogos, bases de dados,
transferncia de ficheiros, etc). A tendncia que se vai

verificando  para a construo de redes de servios completos
desenvolvidas a partir de standards comuns.  Complementarmente
trabalha-se na definio de um "home interface unit", aquilo a
que se poder chamar um "server" domstico, capaz de gerir o
conjunto dos equipamentos. 
     A "pay per view" teve, por exemplo, um grande crescimento
no final da dcada de 80 nos EUA, embora no tenha realizado
receitas significativas (representava 1,4% do negcio do cabo
em 1990). Luta pela simultaneidade ou mesmo antecipao de
difuso dos filmes face ao video. Tem uma interactividade
reduzida e uma resposta lenta. A aposta do mercado vai j no
sentido do "near-video-on-demand".  A procura no "video on
demand", em comparao  "pay per view",  em geral
multiplicada por cinco. O  "near video on demand"  o segmento
que emerge com maiores potencialidades. Permite a "programao
global" escalonada aos 15 minutos, por exemplo. Apresenta
dificuldades relacionadas com os custos dos terminais mas
prepara-se j a sua evoluo para as redes interactivas do
gnero Full Service Network (experincia da Time Warner em
Orlando). A Direct TV pode ser uma ameaa ao cabo, embora
dispute apenas, at ao ano 2000, 10% do seu mercado potencial.
No tem a mesma capacidade do cabo no plano da
interactividade. 
     Alguns factores contriburam directamente para o
reenquadramento do sector do cabo numa perspectiva de
convergncia de sectores, tornando-o a plataforma mais
importante para o sculo XXI  (o cobre, e mesmo o ADSL, no
tero mais capacidade que as redes de banda larga dos
operadores do cabo para oferecer o video on demand): as
capacidades acrescidas dos suportes e interfaces tecnolgicos
(fibra, compresso, interactividade);  a desregulamentao,
criando novos concorrentes, e a diversificao de mercados; a
re-regulao  americana, que requer o consentimento dos
broadcasters para retransmisso no cabo e que portanto lhes
assegura agora o direito de cobrar s redes do cabo sobre o
que anteriormente passava gratuitamente (excepes tm
acontecido com retransmisses de novos canais).  
     O paradigma da produo reemerge assim com um novo
sentido que volta a fazer lembrar o tempo da revoluo
industrial. Muito embora do que se trate agora seja dos
mirficos "self-media" e das suas exponenciais capacidades. Ou
seja, do sistema em pirmide est a passar-se progressivamente
para o sistema matricial do sculo XXI.
     Do conjunto das interaces entre industrias, tecnologias
e produtos, emerge sobretudo uma estratgia de integrao
vertical de produtos, equipamentos e suportes tecnolgicos. 
Emerge tambm o conceito de auto-estrada da comunicao,
desenvolvido na prtica a partir das redes cabladas, restando
saber como iro sendo normalizadas as futuras componentes
desse sistema complexo.  O cabo est  a atravessar uma fase 
"implosiva", como plataforma que centra em si todas as
potencialidades do desenvolvimento tecnolgico e de mercado. A
curto prazo o conceito de "cabo" evoluir para "servios de
comunicaes" - multiplexagem, multi-interactividade em tempo
real; integrao de servios de dados e voz.  
     A introduo de estruturas cabladas em toda a extenso,  
especialmente no caso dos pases mais desenvolvidos (opo j
tomada no Japo e nos EUA para o final da primeira dcada do

sculo XXI), configura uma estratgia que aponta o cabo como a
provvel plataforma das futuras auto-estradas da informao.   

     Vendo a questo numa perspectiva integrada, e relevando
de facto os sectores concorrenciais mais directos - a
televiso hertziana, o satlite e o video e os sistemas
multimedia, o certo  que a tendncia  para uma cada vez
maior quota de mercado das redes interactivas, tanto mais que
ela pode integrar  todos os sectores concorrentes e ainda os
servios de valor acrescentado. Resolvidos os problemas de
ordem tecnolgica, resta ao legislador cumprir as suas
atribuies e competncias, no se deixando ultrapassar pelas
capacidades tecnolgicas e pelas exigncias de mercado.  
     Finalmente, clarificado todo o processo comercial,
tecnolgico e jurdico, resta saber quais, efectivamente, as
potencialidades concretas dos servios de tipo interactivo
para gerar recursos e fazer amortizar os custos da instalao
das redes e dos sistemas digitais e interactivos.  Parece
claro que se o servio bsico e os servios interactivos no
so suficientes para suprir, a mdio prazo, os vultuosos
investimentos previstos em plataformas cabladas, dever-se-
estudar a hiptese de a legislao autorizar, paralelamente ao
servio bsico, o lanamento de canais prprios, sem prejuzo
do equilbrio de todo o sistema audiovisual.  
     Julgamos que essa seria a forma dos operadores do cabo e
dos servios avanados participarem na estratgia mais ampla
da Europa, procurando-se conseguir a produo de programas e
filmes que equilibrem o mercado, controlado esmagadoramente,
com se sabe, pelos produtos audiovisuais americanos - e assim
potenciar tambm a competitividade da Europa nos mercados
internacionais.  
      Por isso, a estratgia de desenvolvimento do sistema
televisivo em Portugal, passa necessariamente pela sua
democratizao no plano das comunidades locais, com as
televises locais e regionais, pela correco da estratgia do
servio pblico de televiso - com um s canal nacional, a par
da RTPi, podendo ser o outro subconcessionado, por exemplo, ou
mesmo com a privatizao de ambos os canais, neste caso sendo
concessionados espaos de 'servio pblico' nos prprios
canais privados -, com o incentivo  produo de fico
nacional,  com a criao de um Instituto do Audiovisual com
competncias na rea do arquivo e da investigao e finalmente
com a cablagem do territrio nacional preparando-o para as
grandes auto-estradas da informao, com a necessria
actualizao da legislao por forma a uma mais rpida
introduo dos novos servios.






 

IX.  Dramaturgias da videocultura




                    La vitesse audiovisuelle sert-elle dabord
 voir,  entendre,           
                    autrement dit,  avancer dans Ia lumire
du temps rel 
                                             Paul Virilio


          Se  certo, como vimos, que o trfico da notcia, em
pleno declnio da Idade Mdia, e a tipografia, constituram
momentos fundadores do que viria a ser o espao pblico
burgus, no  menos certo que as telecomunicaes e as novas
tecnologias tm vindo a encerrar um ciclo de 2publicidade+, de
vida pblica, que teve o seu auge nas redes de sociabilidade,
nos lugares de quotidianidade do cosmopolitismo
pr-industrial.
          Depois, foi o incio do fim, como defendem alguns
socilogos contemporneos.  O capitalismo novecentista
introduz por assim dizer uma primeira importante ruptura ao
nvel do modo de indvidualizao da sociedade:  toda uma
cultura em torno da personalidade, do eu, que emerge,
acompanhando o hedonismo e a repolitizao da esfera social. 
A, exactamente, a grande fissura entre a esfera pblica e a
privada.  De ento para c, que universo a ter primeiramente
em conta, a no ser o de uma certa indiferena, o do
intimismo?
                bvio que a televiso e os novos media, e,
enfim, a sociedade informatizada, tm vindo neste final de
sculo a agravar o processo de declnio do espao pblico. 
No sero o nico responsvel por isso, mas sero certamente o
seu executor.  Para se entender de que forma  que se torna
evidente essa desintegrao  importante referir que um tal
processo passa, entre outros conceitos, por aquilo a que Jean
Baudrillard chamou a precesso dos simulacros e, por outro,
por aquilo a que Richard Sennett designou por esfera
intimista.  
               Entrando precisamente no universo do simulacro
atravs do mundo da imagem electrnica seria bom considerar,
com Abraham Moles, que a televiso nunca foi de facto uma
janela aberta sobre o mundo: ele preferiu chamar-lhe 2um
periscpio sobre o oceano do social+.  Entre o real e o modelo
qua dele se instala, medeia, pois, um mar de individualismo
sobre cujo anonimato todos os jogos de verosimilhana so
legtimos e onde, portanto, a permissividade  praticamente
total.  A nomeao  assim extremamente redutora: o periscpio
s v o que est no 2alvo+.  Tudo o resto  opacidade. 
               O quadro de referncia do real passou assim a
ser dado, em boa medida, atravs da univocidade do monitor de
TV.  O que fica  margem , sobretudo, o real.  O quadro de
referncia, desubstancializado, hiperreal, exclui-se, pois, ao
prprio real.  O que ele d a ver  o real fragmentado,
modulado. Nele s nos  permitido ler as diferentes mediaes
sedutoras e siderantes que se interpem  verdade.  a
2mediao televisionria+ de que Martin-Serrano falava; 
enfim, a nova ordem de modelizao que comea.
     Medium siderante por excelncia, mais do que qualquer
outro, a televiso clssica contribui em grande parte para que
a carta preceda o territrio, ou, no mnimo, para a criao de
uma esttica hiperreal que confunde o real com o seu modelo

mantendo constante, para alm do mais, a iluso de uma
vnementialit.  
          Uma perspectiva integrada, histrico-social  da
televiso nas sociedades democrticas nestes ltimos 40-50
anos  hoje fundamental para o entendimento do plo
institucional que a rege, da sua dinmica emissora e da
esttica de recepo que dela resulta.  Em ltima anlise  da
conjugao recorrente destes factores que o historiador e 
socilogo tiraro alguns dos dados fundamentais para o
estabelecimento de um primeiro quadro epistmico, se bem que
fragmentrio, que nos permitir visualizar de forma um pouco
mais clara qual o papel que os media tm vindo a desempenhar
na sociedade contempornea.
          Com a TV, o espao pblico sofre um golpe,
dir-se-ia, quase definitivo. A apatia e a indiferena vencem.
Com os novos media a sociedade intimista sem dvida que se
consolida: e uma certa passividade  sem dvida superada  So,
alis, estas as questes que tm vindo a interessar filsofos
e socilogos nos cenrios de final de sculo que emergem.
     Digamos que este declnio da vida pblica e da esfera
social tradicionalmente burguesa se processa, de certa forma
em simultneo com a emergncia do Estado industrial moderno,
do Estado providencial-publicitrio, que reconverte tudo o que
 pblico em privado ou, dito de outro modo, que procede
instituindo uma espcie de 2privatizao do pblico+ e do que
 pblico.  Uma das questes fundamentais hoje  tambm a da
limitao do poder do Estado.  Quando, portanto, a vida
pblica se torna uma obrigao formal e se configura
politicamente, emergem as associaes, os partidos, os rgos
representativos: e as decises, os compromissos, os contratos
sociais, tm lugar, em geral, de forma no pblica.  O prprio
Parlamento das democracias ocidentais no  seno um simulacro
do gora ateniense - tudo o que l se passa j est
previamente decidido em privado.  H pois uma constante
rarefaco poltica dos interesses particulares nos interesses
organizados das diversas associaes representativas.  Numa
srie de campos (educao, assistncia, etc.) a prpria
famlia perde cada vez mais a sua capacidade de criar normas
de conduta e o indivduo a possibilidade de acreditar na
presena de um Estado-securitrio.   
          Desde o sculo passado que  na esfera intimista que
o conhecer-se a si prprio vai tomando corpo, sendo
progressivamente preterida a experincia impessoal, o contacto
informal com o outro.  Hoje vivemos uma poca narcsica por
excelncia.  Lipovetsky  inclusive da opinio que o
narcisismo inaugura, pela sua indiferena histrica, a
ps-modernidade.  Enfim, o automvel, a televiso, o
panopticon no escritrio, toda uma assepsia do espao pblico,
reenviam as pessoas para a intimidade, para um hiper
investimento do eu.  Para Sennett, contudo, a destruio
massiva do domnio pblico s se verifica aps a II Guerra
Mundial, terminado que foi um perodo de longa gestao: urna
tal desintegrao 2resulta de mudanas ligadas ao declnio do
Antigo Regime e  formao de uma nova cultura, capitalista,
laica e urbana+.  A televiso, mais uma vez, no  estranha a
esta periodizao.  Como no  estranha, finalmente,  eroso
progressiva das identidades desta segunda revoluo
'individualista' que vivemos.  Com as novas formas de

homogeneizao do corpo social nomeadamente, e ainda atravs
da televiso, o reforo da subjectividade - e das
singularidades individuais ou minoritrias -  a forma
encontrada de escapar a essa eroso.         H uma lgica
individualista extremamente forte na sociedade ps-moderna em
oposio  anterior lgica disciplinar comunicacional onde
reinava a 2indiferena de massa+, e onde s relaes de
produo e  revoluo se vieram substituir as relaes de
seduo, a informao e os narcisimos radicais.  
           comum pensar-se que todas as questes complexas
ficaro resolvidas se se optar por uma 2estratgia de
desmassificao+, o que significa, em referncia a Toffler e
em termos de televiso, que a regionalizao, as redes
interactivas e a sua coordenao com os complexos multimedia,
sero num futuro prximo uma resposta 2 previso monoltica e
passiva, dcil instrumento de massificao e consolidao de
poderes polticos tradicionais+ 1. 
          Nesta perspectiva h inclusive quem defenda que o
final do sculo assistir ao desaparecimento dos organismos
pblicos de televiso, espcie de 2nova Reforma+, tal como h
quatro sculos aconteceu com os mosteiros (Anthony Smith).  Em
Frana h opinies tambm perigosamente idnticas: 2...com o
fim da televiso de massa novas relaes se passam a
estabelecer entre TV, sociedade e democracia - a TV
fragmentada inaugura um novo perodo da histria (...) o
telespectador deixa de ser passivo (...) a televiso passa a
ser o objecto mais democrtico das sociedades democrticas+ 1 
          Acreditar neste optimismo consensual entre
universitrios, polticos e grupos econmicos , por estranho
que parea, resignar-se ao senso comum.  Os sistemas
multimedia integrados acentuaro ainda mais o carcter
massificador, siderante, dos media, ou pelo contrrio sero
sistemas de abertura?   
          Para alguns, a tirania do simulacro  cada vez mais
o Gulag do Ocidente.  A sociedade informatizada concorre para
uma inevitvel individualizao das actividades e consequente
crise de identidades e da prpria subjectividade.  A questo
no estaria sequer no possvel uso regressivo ou emancipador
dos meios de comunicao.  Caminhamos, sem dvida, para a
dissoluo das televises de Estado, mas o processo ser pelo
menos to moroso como o da liberalizao: 2se apesar de todas
as criticas o princpio do monoplio tem sido mantido na
Europa  porque os responsveis polticos recearam p&r-lhe fim
em benefcio de organismos privados, de igual forma poderosos
e gigantescos, mas que estariam nas mos de interesses
comerciais por detrs dos quais se poderiam esconder
inquietantes lobbies e vontades polticas obscuras.  Em
virtude dos constrangimentos tcnicos - limitao das
frequncias - a ruptura do monoplio no poderia criar seno
televises idnticas que teriam os mesmos defeitos que os
organismos de servio pblico sem dar as mesmas garantias de
respeito pelo interesse geral+ 2.   Aos monoplios seguem-se,
pois, os oligoplios.  Mas, como vimos atrs, as questes
principais no passam por aqui.  Se me  permitido, que venham
os oligoplios, a concorrncia no cabo, os piratas, que venha
o interactivo, os satlites digitais, e o que mais houver.
     Uma das particularidades mais dolorosas deste sculo,
talvez a grande ferida narcsica do sculo,  efectivamente j

no nos reconhecermos nos media que manipulamos.  A prpria
descontinuidade entre o homem e a mquina j foi ultrapassada. 
Tudo  efeito meditico.  E ns, o corpo social, estamos
condenados a ser animais sacrificiais, no dizer de Ren
Girard.  Aguardamos assim, com uma certa passividade, a
institucionalizao dos gigantescos processos de simulao. 
Ainda assim, reconhea-se o optimismo de Octavio Paz:
2McLuhan' disse que a TV inaugurava a aldeia global.  Eu creio
o contrrio.  Penso que essa uniformidade significaria a
morte.  Creio no pluralismo, creio na vida.+ 
     Nos limites da grande narrativa televisiva, no lugar de
saturao do modelo, l onde se desespera  pela ausncia de
respostas, pela manuteno at  exausto de uma pedagogia do
que j foi esquecido, encontram-se, em transe, telecomandos na
mo, todos os zappeurs. 
     Aparentemente em estado hipntico, aguardando justamente
e apenas uma imagem, dessintonizado do alvo do seu prprio
olhar, o zappeur viaja no seu nicho tecnolgico ao interior de
si prprio em pleno xtase sinestsico, ao mesmo tempo que
prime sem regra tecla a tecla, 'varrendo' canais atrs de
canais, procurando o sinal sbito de parar, de se deter
perante uma imagem, apenas uma imagem. 
     Desliga ento o seu complexo dispositivo video, com
capacidade para recepo DBS de duas centenas de canais de
alta-definio, com DVD, conectado com diferentes bases de
dados de sofisticados videoservios integradas em redes
digitais interactivas. Por momentos, olha agora o cran negro,
repara no reflexo da sua imagem, aproxima a mo da superfcie
do televisor e sente pequenas cargas elctricas em repouso
passarem-se para dentro de si, como se pensasse ser essa
electricidade esttica a nica coisa a poder ainda habitar o
seu corpo, o nico cruzamento possvel com aquele
objecto-Babel, espcie de excrescncia da doxamania, de todos
os lugares-comuns.
          On, de novo.  Introduz um DVD gravado h uma boa
dzia de anos pelo pai: Max Headroom,  mistura com uns clips
da poca, coisas do Elvis, Lloyd Cole... Duas ou trs
passagens ainda pelos canais sem grelha, o 1171, o 'Plus
Plus', 'desbundas' da net, e regresso a Headroom: a
arqueologia da sntese, lbios que se movem hesitantes, o
princpio da animao.  Mas sobretudo a histria: a televiso
oficial que no deixava mudar de canal, uma rede 'pirata' no
malstrom catdico, mais do que pirata: criminal.  A
inevitvel, a inelutvel sintonia do canal 'nico'! A ditadura
mais horrvel - o estar adstrito sempre ao mesmo canal - e, no
entanto, os primeiros trinta anos de televiso o que foram
seno isso?' - pensa o zappeur, - 2E agora o que teria mudado? 
Muitos canais, repetio de modelos, imagens que citam
imagens, e isto que se v - marketing social: 'mais
seguran...', agora em 3-D.    bvio:    multiplicado o
fenmeno de anacoresis atravs do regime de indiferena a que
o zappeur  submetido, a velocidade a que passam os
acontecimentos televisivos no s evidencia que nada disso
est realmente a acontecer como quebra esse crculo encantado
que permitia ainda acreditar que, de facto, por a passava o
'sentido da histria': definitivamente passa apenas por a o
sentido da televiso, a 'conscincia televisiva do mundo', no
de olhar nico, orwelliano, mas caleidoscpico, mitologizante

-  o retorno da maioridade do receptor.  tambm o
desaparecimento da obra no fluxo, na logorreia discursiva,
desaparecimento do contedo no continuum, eliso do autor pela
'mquina produtora'.
     Supe-se, por exemplo, que o novo receptor converge com a
crise do modelo pblico da televiso, derivada dos seus
impasses, do seguidismo das estratgias privadas, perda da
iniciativa na produo.  Mas tambm com a progressiva
fragmentao/especializao de redes o do cabo; tambm com a
crise e natural reviso de estratgias e discursos da
publicidade devido ao zapping, o que pode naturalmente operar
algumas transformaes no   prprio  modelo tradicional de
programao e informao.  Por enquanto  ainda vlido o
princpio de que a poltica se tornou, com o actual
dispositivo televisivo, numa questo de imagens e dos seus
efeitos vistos atravs das sondagens e dos estudos de
audincias.  possvel que a expanso das redes obrigue 
prpria reviso do modelo desta estratgia, permanecendo o
princpio... Mas o maior cinismo com que se pode acolher os
tempos emergentes do zapping est em crer que as sociedades
desenvolvidas de final de sculo se preparam para reduzir a
ideia de liberdade  faculdade de... mudar de canal!  Falso
alarme, contudo.  O 'velho' telecomando, para alm de apagar o
televisor, apaga tambm o cinismo. 
          A telefila existe!, diz o 2zappeur+.  Fenmeno que
comea a ser estudado agora tambm em  pases como Portugal, 
o 2zapping+  uma espcie de desassossego do receptor face ao
fluxo televisivo que tem vindo a tomar corpo com a
multiplicao do nmero de canais, o que provoca essa reaco
do telespectador de 2zarpar+ de umas imagens para outras, na
busca do seu prprio canal. 2Le zapping est depuis toujours
une invention de Ia tlvision, il lui est inhrent et,
zappant comme des fous, nous ne faisons qu'en gnraliser
l'usage et en raliser le concept+ 1 .
          Serge Daney foi um dos pensadores mais estimulantes
da televiso generalista. Poder-se-ia perguntar o que  que
levou um ex-crtico de cinema dos Cahiers du Cinma, admirador
de Straub e dos outros (Vertov, Welles, Godard...) a mergulhar
nessa zona incestuosa, nesse cruzamento hbrido entre cinema e
televiso, rendendo-se aos encantos, por exemplo, de Fellini? 
Ele prprio esclarece: 2(...) L'opposition exalte ou
manichenne, entre cinma et tlevision ne me disait qui
vaille.  Elle empchait de penser ce qui, du cinema, avait
transit vers la tl+ 1 .  A questo para Daney 
efectivamente a de aceitar as virtudes dessa impureza, reter a
ecologia do caos.  Da ele dizer: 2C'est en ruminant ces
choses que je me mis,  partir du 15 septembre de 1987 
regarder systmatiquement de Ia tlvision+.  E, reflectindo a
posteriori sobre todo esse trabalho: 2(...) La tl relevait
de l'cologie parce qu'elle touchait en nous le citoyen
responsable, c'est--dire l'adulte.  A lui de dire non au
risque permanent d'tre infantilis.  Mas le cinma, lui avait
tir sa force et sa longevit (un sicle!) du fait qu'il
s'appuyait sur une part d'enfance (...). Si Ia tlvision
vhicule de Ia culture, le cinma fait passer par des
expriences.  Si la tl doit avoir sa dontologie, les
travellings de cinma ont pu tre des 2affaires de morale+. 
Si la tl peut avoir du talent dans Ia programmation, rien ne

dispensara jamais le cinma du dsir de produire.  Si enfin Ia
tl est notre prose (et on ne parlera jamais assez bien), le
cinema na plus de chance que dans Ia posie+ 2 . 
          Uma das vantagens evidentes do zapping est
relacionada com a prpria 2liberdade de escolha+ de que agora
se pode desfrutar, nomeadamente com os satlites, e permite
recolocar a questo da banalizao do discurso televisivo
atribuindo-se ao zapping, como o faz Mercier, a
desdramatizao definitiva do objecto e do sistema televisivo
o que provoca inevitavelmente a dissipao das tradicionais
representaes excessivas, como, por exemplo, a caracterizao
da televiso como prodigioso meio de aculturao das massas,
ou de instrumento diablico de alienao, etc.
          Seria j demasiado se ficssemos por aqui, mas
extasiados nesta apoteose barroca do mundo catdico, neste
regime de excesso, deixemo-nos vaguear... Max Headroom, por
exemplo: 2O Ia possibilit pour des robots d'excuter  Ia
place des speakerins humains tous les petits boulots de
l'information est envisage avec le plus grande srieux+ 3. 
Ou 2Averty For Ever+: 2Jean-Luc Godard, trs en forme,
rappelait que si Ia tl produsait de l'oubli, le cinma lui,
avait cre ses souvenirs.  Or si, malgr le rgne des
sondages, insondable est l'oubli, grands restent les
souvenirs.  Le rve d'Averty - et semble-t-il, de lui seul
aura t de se servir quand mme de Ia tlvision por tenir
l'amnsie en respect (tout comme il l'a fait  Ia radio avec
ses missions sur le music-hall).  Lorsque au lieu de lui
construire un pidestal, Ia tl aura digr le message
avertyen, elle sera more,  son tour, pour rester dans les
mmoires.  Oui, mais quand?+ 1 .
          Considere-se ento que a televiso enquanto mquina
industrial, permite apenas a produo em srie e no
propriamente a produo de 2srie+.  Nesse aspecto ela  com
certeza uma mquina que perfecciona sobretudo os pequenos
dispositivos spots, clips, separadores, etc.  Dificilmente se
poderia considerar uma soap opera numa linha de produco
perfeccionista... Aqui, de facto, mais uma das suas distncias
face ao cinema: 2S'il existait une "histoire de Ia
communication", le cinma en reprsenterait  la fois l'ag
dor et l're du soupon.  La tl n'en serait que Ia gestion
et Ia digestion+ 1 .  A televiso encerra ainda em si prpria,
no se desfazendo dela de forma nenhuma, essa ignorncia
convicta de que a opacidade no nasce do excesso de luz.  Como
diz Daney, 2qu'il faut l'ombre et Ia lumire pour dvoiler les
choses et que partager le souci de ce dvoilement na rien 
voir avec Ia jouissance perverse des choses toujours-dj
dvoiles. + Daney fala-nos ainda por entre uma multiplicidade
de olhares e de palavras de Serge July, 2o primeiro aedo da
televiso+ (Donnez-nous des conteurs et nous ne zapperons
plus), da M6, 2Ia cha-ne qui informe plus blanc+ (on comprend
que le germe 'journal tlvis" qui semble une mtaphore,
devient chaque jour plus pertinent, comme si,  l'poque de Ia
soit-disant domination de l'image, c'tait l'crit qui servait
de norma), (p. 55), da crtica de televiso 2o les raisons ne
manquent pas de soutenir que Ia critique de tlvision est
sans doute impossible+ (p. 93), ou ainda sobre o clip Mia boca
(2ce pur chef-d'oeuvre+) de Jean-Baptiste Mondino, ou ainda,
finalmente, entre outras opes, sobre a 2grande missa+

(sobrit quasi zen, Ia scheresse mme) que  a informao
televisiva norte-americana: 2II y a quelque chose d'humiliant
 rencontrer ds huit heures du matin, le regard glac de Dan
Rather.  L'trange dcision de Canal+ de diffuser le bulletin
de CBS Evening News de Ia veille expose le zappeur matinal 
se sentir, lui que se lve, dfinitivement minoris.  Une star
de Ia tl amricaine le regarde droit dans les yeux, lui dit
non seulement les nouvelles, mais lui signifique qu'il n'y a
que lui pour les dire comme on doit les dire+ (p. 147).
          O zapping  assim sem sombra de dvida um sintoma da
emergncia de problemticas novas no campo terico da
televiso, pondo em evidncia questes eventualmente no to
2novas+ como se poderia julgar, como, por exemplo, a prpria
coerncia do programa 2coproduzido+ pelo zappeur - no remete
ela - TV - no fundo, para fenmenos de sintonia/dessintonia
que podem igualmente ser pertinentes na anlise tradicional da
recepo televisiva?
          Aparentemente a lgica do zapping tem a ver com a
inevitalidade de acontecer algo j conhecido e no desejado,
com uma lgica de antecipao que coloca de facto a questo da
renegociao do contrato de comunicao entre o emissor e o
receptor, introduzindo dessa forma algo de novo na prpria
lgica do discurso televisivo: 2L'metteur perd ce pouvoir
quasi absolu d'imposition de son rcit qui tait jusqu'alors
le sien.  Face  un rcepteur dsormais dot d'une arme
technique (dans le cas du tlspectateur, la tlcommande qui
lui permet de couper  sa guise le rcit sans tre oblig
d'teindre le poste en renonant  l'attrait hypnotique de
l'cran) et d'une comptence (celle qui lui permet
d'identifier presque immdiatement un programme, d'anticiper
sur l'action et d'en reconstituer la tramme  partir de
simples fragments), l'metteur se voit contraint de ngocier 
chaque seconde l'attention mais aussi l'adhsion de son
partenaire+ 1 .
     Simultaneamente a grande narrativa televisiva tende a
sofrer uma inverso resultante do prprio processo de
fragmentao a que a televiso est a ser sujeita: 
tradicional programao de canal nico sucede um fluxo com
opes distintas, gerais e temticas, 24 horas sobre 24, onde
a dificuldade de escolha tender a ser cada vez mais prxima
da 2boa+ escolha, desde que ela esteja no 2menu+; com ela,
acontecer provavelmente o prprio declneo da televiso nesta
primeira fase da sua histria, caracterizada por um modelo
referencial, pedaggico, redistributivo de acontecimentos e
convenes.  Doravante falar-se- cada vez menos da
2televiso+ como a certa altura, aps Gutenberg, se passou a
falar cada vez menos do 2livro+ de todos os livros.  
     Desde os tempos da 2antiteleviso+, ou seja, desde as
primeiras experincias de video, que geralmente remontam ao
ps-experimentalismo do novo cinema americano dos anos 40 e
50, onde se destacam nomes como Deren, Menken e Markopoulos,
tem-se vindo a registar uma to rpida evoluo na tecnologia
video que hoje so as prprias concepes tradicionais de
campo de representao, de tempo e de referente que esto em
causa.
     Essas primeiras experincias em video-tape remetem-nos
para esses momentos fundadores como as Dcollages de Vostell
na Europa e as bandas de Nam June Paik apresentadas no caf 

Gogo de Nova lorque nos finais dos anos 60, cidade onde pouco
depois seria apresentada a importante exposio 'TV as a
Creative Medium' na Howard Wise Gallery.
     Se  verdade que da para c o video se tem mantido
autnomo face  televiso,  excepo talvez de alguma
inovao nos videoclips e tambm nalguma publicidade, o facto
 que, de uma forma geral, o carcter descontnuo e
experimental da linguagem video, as suas propostas estticas
diversificadas e excessivas no conseguiram 2comover+ - ou
demover -, salvo honrosas excepes, o discurso da televiso
pblica e/ou privada 1.
          Os pioneiros do video caracterizavam-se de facto
pela sua atitude crtica face s convenes da televiso e
propunham uma espcie de self-media, uma televiso que
2qualquer um podia ter+, jogando na utopia da redefinio do
sistema audiovisual no seu conjunto, e tambm na prpria
recomposio do campo social, nas mentalidades, etc. 
Sobretudo os diferentes colectivos-video dos Estados Unidos,
nomeadamente, propunham nas suas street tapes uma espcie de
2histria alternativa+  dos grandes meios.  Da, obviamente,
alguns desses colectivos se terem lanado em experincias de
televiso local e comunitria, como foi o caso do Videofreex.
          Para o historiador, o imenso arquivo video que as
ltimas dcadas produziram, e, de alguma forma, conseguiram
reter, levanta de incio dois problemas: em primeiro lugar
trata-se de um novo media, de uma nova tecnologia que se
confronta j, por paradoxal que possa parecer, com a
efemeridade da sua sua prpria conservao, quer em termos de
uma vontade poltica para uma correcta gesto de arquivos,
quer em termos da sua natural deteriorao tcnica; em segundo
lugar, dado tratar-se de um arquivo essencial para a histria
do ps-guerra, a sua progressiva eroso vem a colocar a
tecnologia de que se esperava que constitusse por excelncia
um fundo de memria recente, ao lado da ideologia e da
2poltica do esquecimento+ dominantes que instituem uma
espcie de amnsia do tempo e da histria, denegando o
acontecimento, as singularidades, instituindo um saber
circunscrito pelo campo poltico.
          A prpria memria, hoje,  algortmica.  Perdeu-se o
sentido do conceito tradicional de memria do mundo e das
coisas. + sabido que hoje, a memria, quando existe, 
2curta+: de pouco valem as imagens de Auchwitz, ou de Three
Mile lsland, ou da Etipia... Os novos holocaustos, sejam eles
a procura perversa de legitimao do nazismo, o nuclear, a
fome, aguardam a sua oportunidade, a sua hipertelia.  A
memria-das-coisas quase que deixa de fazer sentido, deu lugar
 memria-informtica,  ordem dos pixels.  O processo do
video, que se poder traduzir, neste sentido, por 2vertigem e
obsolescncia+, incrusta-se, transfere-se enquanto bio-poder
para a sua 2prtese humana+ em termos de
memria-em-degradao, salva em ltima instncia pela ordem
digital... E se f&r esta apenas a imperar ento o processo
ser em definitivo areferencial, ser o 2coma+ da histria.
Como refere Florence de Mredieu, 2Tout le systme du visible
et de Ia reprsentation, si prcisement et si patiemment
construir depuis Ia Renaissance, sembie ainsi aboutir et se
dsagrger brutalement dans les dimensions succintes de
l'cran vido+ 1  

          Como estancar essa 2hemorragia+  uma das questes
que se deve colocar hoje.  Como subtrair desse fluxo
degradvel elementos de recomposio do acontecimento,
enviando-os para uma memria inexpugnvel, activa e
circulante, reenviada para a produo do prprio real,
interagindo de novo com a irrupo do acontecimento?  De
facto, toda a poltica, toda a histria, tem sido fundada
sobre o esquecimento.  E, como diria Lyotard, o esquecimento
gera o monstro...  
          Importa pois no fazer papel de ingnuo.  Mesmo a
possibilidade de memria tem o seu horizonte de acontecimento. 
Foucault assim o reconhecia: 2On montre aux gens non pas ce
qu'ils ont t, mais ce qu'il faut qu'ils se souviennent
qu'ils ont t+... Ora, para alm do processo de degradao da
memria e da experincia histrica, que tem uma correspondente
tecnolgica no vdeo, importa considerar um outro problema da
nossa poca, de que o video se no separa uma vez mais, e que
 a progressiva tomada de conscincia da emergncia de
processos de normalizao que se constituem como novas formas
e prticas de poder que se inscrevem, se internalizam, nas
prticas do quotidiano.  Foucault caracterizava esse processo
como a expanso de mecanismos annimos que normalisam o espao
social, as instituies, o saber, a lei, tecendo como que uma
quadrcula vinculante, um solo fundador, homogeneizante,
modelizador do corpo social, e agindo particularmente sobre as
prticas do sujeito, colonizando as microprticas, agindo como
bio-poder.  Ser em boa parte esta normatividade que
caracteriza uma das faces do diferendo das sociedades
contemporneas pois elas tendem neste final de sculo para uma
especializao e uma totalizao cada vez maiores.
          + bvio, no entanto, que este processo a que Lyotard
certamente apelidaria de 2inumano+ produz de igual modo o seu
contrrio, isto ,  especializao e  totalizao ope-se a
resistncia, tambm ela no limite do humano, mas irreprimvel,
tanto mais forte quanto mais  objecto de dissuaso, pemitindo
assim a construo dos novos teatros da memria, anotando
pulses, indo ao encontro dos acontecimentos, l onde os media
os no vm irromper, tal como referia Geoffrey Reggio: os
acontecimentos relatados pelos media no interessam - no 
isso que est a acontecer.1 .
     A tendncia para um dispositivo de representao total,
dispositivo de vigilncia (como o dos circuitos fechados) de
viso e integrao total do espao e/ou dispositivo de
sntese, a fantasmtica dos imateriais, o 2teatro virtual+ num
espao tridimensional,  outra das 'dramaturgias' do
dispositivo da videocultura 2A Ia fois machine et machination
(au sens de la mchan grecque), tout dispositif vise 
produire des effets spcifiques.  Cet 'agencement des pices
d'un mcanisme' est demble un systme gnrateur qui
structure l'exprience sensible chaque fois de faon
originale. Plus qu'une simple organization technique, le
dispositif met en jeu diffrents instances nonciatrices ou
figuratives, engage des situations institutionelles comme des
procs de perception.  Si le dispositif est ncessairement de
l'ordre de Ia scnographie, il n'est pas pour autant le fait
des seules installations.  Dans les bandes aussi bien sont
actualiss certains rglages du regard ou des modes
particuliers d'implication du spectateur+ 2  .

     Neste processo que pode ser interpretado como a reduo
da diversidade  unidade, nesta terapia que no incide apenas
sobre os corpos desviantes, o trabalho a realizar 
fundamentalmente o de recusa das prticas e dos modelos
constitudos, antes ainda da sua anlise, reencontrado o 2grau
zero+ a partir do qual poder irromper a paixo, o 2mundo da
vida+.  Diversos textos, diversas perspectivas, apontam
exactamente para a.  Veja-se por exemplo 2Vido et Utopie+ de
Gene Youngblood: 2La question est de parvenir  des socits
autonomes, vritables laboratoires de resocialisation,
autorisant de nouvelles technologies du moi+, ou ainda: 2(...)
il faut alimenter le dsir de dvelloper une alternativa au
mode de grande diffusion.  Cela implique videmment d'laborer
le prototype d'une rvolution de Ia communication, de Ia
simuler: en dveloppant une mta-architecture sociale, nous
devons permettre un large accs public  des modles de
rseaux conversationnels autogrs par les usagers+  1 .
          Da experincias como Paper Tiger Television  terem
irrompido no mbito do prprio PBS norte-americano
confrontando-se com esse 2espao impossvel+ da telerealidade,
novo  espao-tempo que segundo Virilio 2, apresenta um 2tempo
real+ que suplanta a realidade da presena do espao real, dos
objectos e dos lugares  La vitesse audiovisuelle sert-elle
dabord  voir,  entendre, autrement dit,  avancer dans Ia
lumire du temps rel 
          A proposta de Raymond Bellour 3 problematiza a
emergncia do video, mais concretamente da arte video,
enquanto ndice-limite da expresso dos traos constitutivos
do sujeito moderno, correspondendo  transformao da tradio
retrica no espao moderno da subjectividade: 2(...)
l'autoportrait transforme les dones de Ia rhtorique
classique, par un processes gnral de subjectivation, de
distorsion et de drive.  II transforme ainsi en particulier
le systme des topiques, encyclopdiques et dialectiques, qui
rglent le fonctionnement de Ia mmoire et de l'invention, les
relations d'engendrement entre les sons et les images.  Si les
communications de masse remplissent plus ou moins dans le
monde contemporain les fonctions positives qui taient
autrefois celles de l'ancience rhtorique, si Ia tlvision,
plus particulirement, dtient aujourd'hui une fonction
globale de rgulation de i'invention et de Ia mmoire,
l'autoportait est naturellement l'expression Ia plus
subjective de Ia rsistance que l'art vido oppose de faon
spcifique  Ia tlvision (contre, tout contre)+ 4.
          O vdeo participa assim no s na esttica do
narcisismo+ contemporneo (Rosalind Krauss) como obviamente na
sua vertigem, no seu abismo: na impossibilidade do corpo - 
procura de si prprio - ver e se ver, tal como se de uma
mnemotcnica se tratasse: inscrio e disseminao na
elaborao de um corpo de memria.  Veja-se por exemplo em
Bill Viola: 2(...) II y a un moniteur ou Viola appara-t,
dfuit, frapp par-derrire  ntervalles rguliers. Le
dispositif est ainsi l'instrument d'une ducation et le moyen
d'une rssurection. II fournit Ia rgle, Ia discipline
consentie qui donne accs au mtier de vivre.  Le regard est
son exercice, le monde son thtre, Ia perception son mode de
passage, la mmoire sa condition+ 1.
          Figura do presente e do diferendo que o encerra, as

prticas e as representaes singulares, subjectivas, do
video, expem sobretudo o trabalho de memria que resiste ao
seu processo de dissipao, conjugando o presente na sua
vertigem a-temporal, em pleno processo sem retorno possvel,
no seu devir irreversvel, demarcando ainda a irreconcilivel
tenso entre a tecnocincia e o processo de individuao do
Eu.
          No se trata aqui portanto de resolver as ntimas
convices de alguns tericos, encenando a especificidade de
uma linguagem, por exemplo 1 , mas de pensar a potica do
mundo que o video d a ver, no que diz respeito concretamente
s confidncias do sujeito,  sua histria ntima,  sua
2autobiografia+, onde passa uma apresentao do 2eu+ no
propriamente naturalista, atravs de um qualquer cran-espelho
do mundo, mas atravs da figura da alteridade e da fico: o
Mesmo  o Outro... 2(...) II n' y a aujourd'hui plus dcart
mais que des passages insensibles, rversibles, entre le
mythe, le rcit et l'autobiographie du Moi, l'autoportrait. 
Cela implique aussi qu'il n' y a plus de pass (vraiment)
simple, plus de vrai vie  raconter, plus de 2Je+ ni de 2Moi+
rellement identifiables.  L' gotisme n'est plus la matire
d'un souvenir mais Ia note indlbile d'un prsent perptuel
et suspendu selon lequel, au travers des mots-images, l'avant
et l'aprs, l'intrieur et l'extrieur talent en surface Ia
profondeur autrefois constitue par l'effet de contrast entre
diffrents modes+ 2.
     Se ao video cabe ento o desvelar dos segredos do 2Eu+ e
do seu processo de individuao, provocando as suas fices e
as suas hibridaes,  televiso poderia restar em definitivo
a 2transparncia das relaes sociais+, a prosa do mundo 3, o
campo-contracampo da intersubjectividade, operando obviamente
 transformao do sujeito-estatstico, destinatrio fantasma,
em sujeito operante, ou mesmo em 2actor+, em corpo
dramatizado, mas verdadeiro corpo pensante e desejante.
          A arte vdeo e o vdeo experimental inscrevem-se na
produo audiovisual de uma forma muito particular: trata-se
de um gnero de produes que apesar de terem emergido no
ps-televiso, aparentemente numa zona que quer o cinema quer
a televiso no recobriam, no saldam sequer dvidas
contradas, tcnicas e discursivas, antes se afirmam por essa
vertigem que o mundo dos seus possveis (polticos,
tecnolgicos, estticos) consagra na disponibilidade
2domstica+ e 2branca+ ainda que no efmera, dos seus
materiais. 
     O ponto de vista j conhecido nos anos 40/50 sobre os
esteretipos da comunicao de massa e das indstrias
culturais  redefinido para a Televiso comercial e formulado
como 2cdigo hegemnico+, como conscincia televisiva do
mundo.  Desde ento, trata-se  sobretudo de redefinir uma "
alternativa ao modo de grande difuso.
     O sentido que o 2medium+ institua, atravs da sua lgica
criadora dos consensos sociais e dos modelos no
contraditrios, provocou ento nos finais dos anos 50 o
aparecimento das primeiras 2performances+ (Nam June Paik, Wolf
Vostell, Fluxus), e, em meados dos anos 60, dos primeiros
vdeos.  Datam portanto dessa altura as primeiras
experincias: inicialmente, apenas desconstruo 2tcnica+
directa da narrativa televisiva; depois, com a 2portapak+ de

1/2 polegada da Sony, Nam June Paik far as primeiras
gravaes em Nova Iorque.  Ainda nos finais dos anos 60
aparecero os primeiros colectivos 2antiteleviso+ - Guerilla
Television, Raindance, Videofreex, TVTV, e muitos outros e
novas 2Street Tapes+ surgiam - 2radical software+, como ento
se dizia.
       Trabalhos de alguma forma subsidirios foram produzidos
em Berlim pela Fernsehn-Gelerie (programa de Serralves,
organizado pelo Museu de Arte Contempornea de Los Angeles e
pelo Stedelijk Museum de Amsterdo): TV as a Fireplace, de Jan
Dibbets (1969) e Land Art, de Gerry Schum, tambm de 69.  O
primeiro, nomeadamente,  um exerccio de reduo funcional e
de sentido da televiso: as imagens nada mais so seno fogo e
cinza... Tambm Television Delivers People, de Richard Serra,
sendo um 2clssico+ que apenas expe frases condenatrias
sobre fundo azul,  j herdeiro das primeiras aces.
     + portanto nos limites do dispositivo tecnolgico e
discursivo da televiso, nas fracturas que o desligitimam
enquanto dispositivo total, que se funda a genealogia da arte
vdeo e do vdeo experimental. +, tambm, por outro lado, em
plena crise das grandes narrativas e dos sistemas de ideias
que desponta este novo tipo de produo, refractrio por
princpio  razo tecnolgica e industrial, embora
deparando-se a cada momento com a dificuldade ou mesmo a
impossibilidade de lhe ser lateral - recorde-se por exemplo o
2no future+ tecnodiscursivo de Leaving the 20 th Century de
Max Almy (82). + pois na presena de um 2hbrido+ imagtico de
mltiplos interfaces, contaminado de incio pelo vrus do
dispositivo televisivo, que estamos.  E, dir-se-ia, num
processo insano de procura da reversibilidade do tempo perdido
ou to-s de reencontro com a 2aura+ perdida.
          Enquanto possibilidade de registo, nostlgico ou
no, de conflitos irresolveis e paroxsticos - das
identidades s subjectividades dissidentes - a banda vdeo
resiste hoje nomeadamente atravs do processamento digital a
tornar-se numa prtica consumptvel,  prtica que de facto
denunciava a  suprema ironia da condio histrica e da
condio de criador - o participar involuntariamente num
processo de esquecimento, isto , e  semelhana do humano,
ser uma tecnologia cuja materializao comportava j a sua
prpria degradao e cujo real no era mais seno a melancolia
dos lugares de memria, as marcas esquecidas nos corpos.  Essa
resistncia tcnica , talvez, um dos acontecimentos do sculo
e um dado antiapocalptico por excelncia para os anos que
restam.
     A digitalizao no seria assim o ponto culminante de um
processo de alienao, mas, provavelmente, a impossibilidade
da razo instrumental ascender  dominao pelo simples facto
de que doravante ser ao cdigo binrio que competir, entre
outras coisas, aproximar a lgica e a esttica.  A
2videoscopia+ enquanto macroscopia, aproximar-se- tambm com
certeza do 2lebenswelt+, do mundo da vida, afastando-se
progressivamente do sistema da eficcia.
     No  este, no entanto, o ponto de vista de Bill Viola,
um dos nomes maiores do vdeo norte-americano, o primeiro
videasta a ter uma retrospectiva da sua obra no Museu de Arte
Moderna de Nova lorque.  Em Anthem (83), imagens industriais,
lugares, objectos, sobre uma banda de sete pistas que reproduz

o grito de uma rapariga, e o fabuloso Chott el-Djerid (a
portrait in Light and Heat), de 1979, um video de  uma
extraordinria beleza: a cmara face ao deserto, face 
refraco da Iuz e ao calor que se solta da terra.  Os corpos
tornam-se cor, a paisagem flutua e transcorre frente 
teleobjectiva como se de um rio se tratasse, do-se os efeitos
de miragem, aparecem as superfcies espalhadas, o vdeo
toma-se pintura viva, o tempo  2esculpido+ nas imagens.
     Com o vdeo, naturalmente, emergem j lugares
perceptveis onde anteriormente no se apresentavam sequer
imperceptveis.  Esse lugar , alis, um 2no lugar+ (veja-se
exactamente os trabalhos de Bill Viola), definido
essencialmente pela quebra da unidade do espao em benefcio
exclusivo da unidade do tempo, como defendeu Paul Virilio, mas
de um 2tempo real que afecta gravemente o espao das coisas
reais+ e que assim produz a 2luz+, seja num processo de
ecr-vertigem, seja por dilao temporal ou por efeito
diferido, mas sempre de uma forma descontnua, no-narrativa. 
          Um dos documentos mais interessantes que nos foi
dado ver - a par de Bill Viola, de Robert Wilson (Deafman
Glance, de 81), de Paik (Global Groove, de 73, e Merce by
Merce by Paik, de 75, este insere uma passagem de uma
instalao vdeo famosa de Shigeko Kubota em homenagem ao Nu
Descendo uma Escada, de Marcel Duchamp) -,  Amida, de Dan
Reeves (1983).   Dir-se-ia que Reeves rev atravs do vdeo a
histria do cinematgrafo e o trabalho artesanal dos 2motion
studies+ do sculo passado, para depois enfrentar o desafio
maior que o paradoxo da tecnologia vdeo encerra: tratando-se
de imagens expostas ao olhar alfabetizado, lidas at aos
limites do ecr, distanciadamente, elas so retrabalhadas por
Reeves por forma a inverter a conveno do olhar
cinematogrfico-narrativo de ler no enquadramento, provocando
um olhar tctil, no interior e na superfcie do ecr: da o
rosto marmreo do Buda simular verdadeiras e estranhas
expresses; da a gua transformar-se aos nossos olhos numa
massa que se solidifica; da os flashes de luz e a tenso da
imagem alterarem o sentido dos objectos: a ordem disciplinar
do olhar  assim de novo questionada pelo 2sense of touch+
pelo retorno do audio-tctil, problema retomado noutros vdeos
(de forma anedtica em The Touch (86), de Nora
Ligorano/Marshall Reese ou em The Games (84-85), de Michel
Auder), de forma dramtica em They Are Lost to Vision
Altogether, de Tom Kalin (1989), um documento pungente sobre a
sndrome do sculo: 2I tremble at your touch, I know I
shouldn't, but that's the way it is...+. O novo imprio dos
sentidos v o rudo nas ms imagens, apercebe-se de
sonoridades atravs de movimentos, tacteia atravs da luz, do
olhar.
     Nos estudos do movimento patentes sobretudo nos trabalhos
de videodana (alis no programa As Artes na Televiso, esta 
talvez a seco que apresenta um conjunto de trabalhos mais
homogneo) destaca-se o rigor conceptual de Hans van Manen em
Portrait (83), Waterproof (86), de Jean-Louis Le Tacon, Lament
(85), de James Byrne, Eiko e Koma, e os estudos de cmara e
montagem para coreografias de Trisha Brown e de Anne Teresa
Keersmaeker.  Em Visual Shuffle, de John Sanbom/Mary Perillo
(86),  todo um imaginrio de anamorfoses, de 2zoomings+, de
movimentos caleidoscpicos  trabalhado a partir da mais

sofisticada tecnologia - Harry Paintbox e ADO, nomeadamente. 
          E tambm alguns (poucos) dos 2magos+ da 2vidblitz+:
Byrne, Laurie Anderson com Sharkey's Day (84) e O Superman
(81).  Ainda na seco 2videomsica+  so de referir trabalhos
de Ashley (The Lessons, de 81) que por sua vez participa em
The Commission (83), de Woody Vasulka, representando Berlioz. 
Trabalhos de grande criatividade visual, com referncias 
pintura e  histria, so The Flood (85), de Jaap Drupsteen,
para a NOS, e As lf Memories Could Deceive Me, de Marcel
Odenbach (86).  
      Nomes como Vito Acconci, Baldessari, William Wegman,
Bruce Nauman, Robert Serra, todos eles, no fundo, provenientes
do conceptualismo e do minimalismo, alguns ligados
inicialmente  escultura, hoje aos 2mixed-media+, foram de
facto determinantes no princpio dos anos 70 na consumao
desse efeito de distanciao que a tecnologia vdeo assumiu
face ao discurso televisivo clssico. Processo em que o
2autoretrato+, no dizer de Raymond Bellour,  naturalmente a
2expresso mais subjectiva da resistncia que a arte vdeo
ope de modo especfico  televiso  Desta descida ao
2maelstrom+ da produo vdeo, que mais do que uma antecipao
da noite  uma antecipao da luz, emerge muito claramente um
sentido de dissoluo da forma plstica tradicionalmente
restrita sobre um campo inexpugnvel de espao-tempo.
          As figuras notveis inscrevem-se na potica do mundo
(da vida) face  prosa e  matria incomunicvel, desptica,
do mundo, que a televiso veicula. O vdeo recompe e
fragmenta essa imagem, salva o princpio do horizonte de
acontecimento: a televiso no est onde esto a acontecer as
coisas. Mas  sobretudo na imaterialidade plstica das
imagens, na disponibilidade videoplstica e nmada desta
tecnologia que encontramos o mundo dos possveis, irredutvel,
em boa parte, ao discurso televisivo.  
           Bill Viola - sem dvida um dos nomes marcantes da
produo vdeo norte-americana. Nascido em Nova Iorque, em
1951, desde princpios dos anos 70 que realiza trabalhos em
vdeo, inicialmente na Universidade de Siracusa e mais tarde
em Itlia, no conhecido estdio de criao vdeo Art's Tapes
22.  De 76 a 84 foi artista-residente no centro de estudos de
um dos canais pblicos nova-iorquinos, o Channel 13, onde
curiosamente passaram todas as suas bandas, mesmo contra a
vontade dos seus produtores que o censuravam de 2no produzir
para TV+.  Posteriormente foi tambm artista-residente da
Sony, no Japo. Duas das suas obras mais conhecidas, Chott
el-Djerid (79) e Anthem (81),  The Reflecting Poll e Moonblood
(1977-79), Silent Life (79), Ancient of Days (1979-81),
Vegetable Memory (1978-80) e I do not know what it is I am
like (86). 
          Tambm a instalao Reasons for Knocking at an Empty
House.  Trata-se aqui de um trabalho dedicado a um operrio
mineiro que, em meados do sculo passado, num incrvel
acidente, ficou com o crnio trespassado por uma barra de
ferro com um metro de comprimento e seis quilos de peso, tendo
recuperado os sentidos mais tarde e, quase inacreditvel,
voltado ao trabalho algumas semanas depois.  Mas j no era a
mesma pessoa: o trabalhador afvel era agora irascvel e
irresponsvel.  Restou-lhe pois tomar-se em 2atraco de
feira+, passeando-se como freak por todo o pas, acompanhado

da famosa barra, hoje exposta no Museu da Escola Mdica de
Harvard, juntamente com o crnio do operrio.  A instalao de
Bill Viola est disposta num espao sepulcral: ao centro, um
monitor com uma banda vdeo - grande plano nico do autor que
olha em frente na direco de uma cadeira com um dispositivo
inquisitorial (projector apontado, encaixe com auscultadores
para a cabea).  Viola provoca assim, atravs deste
dispositivo simblico demasiado bvio, uma primeira
interrogao em tomo do prprio objecto televisivo e da
passividade, enquanto 2conscincia do mundo+, que
tradicionalmente impe.
     Substancialmente mais interessantes so os seus trabalhos
em vdeo, os quais nos remetem sobretudo para concepes de
espao-tempo que a narrativa clssica necessariamente no
contempla.  Viola, curiosamente, procede com uma conscincia
filosfica das dimenses essenciais do tempo: a conscincia
ntima e potica do correr do tempo e da sua funo
remitificadora; e o tempo csmico, no qual se reinscreve e
resolve, atravs quer da potica quer da fico, o que 
negligenciado pelo tempo vivido, pelo tempo dos historiadores.
     Num dos seus poucos artigos de reflexo sobre a prtica
do vdeo, Bill Viola desvela um dos 2ns+ da sua obra,
precisamente a questo da mnemotcnica, ou melhor, o lado
conflitual entre a memria artificial e a mnemnica, entre o
conhecimento interior e a memria-iluso, um pouco 
semelhana do que aconteceu aquando da emergncia da escrita
nas sociedades ps-alfabticas: no Fedro Plato diz que seria
do exterior de  si, pela negligncia da memria, e no de
dentro, atravs de um trabalho interior, que seria possvel
ceder ao conhecimento, ou apenas  recordao das coisas. 
Nesse texto, intitulado 2Haver copropriedade no espao de
dados?+ 1 , Viola conta esta histria: 2Em 1981 assisti a uma
festa dos mortos num dos locais mais sagrados do Japo, a
montanha Osoresan.  A, vi sacerdotisas cegas, chamadas itako,
invocar os espritos dos mortos a pedido das suas famlias,
prtica antiga de muitos sculos.  At ento, tive sempre a
impresso de que as grandes companhias japonesas de
electrnica estavam na vanguarda do desenvolvimento da
tecnologia da comunicao.  Aps a experincia das itako,
dei-me conta de que se passava o inverso. Sem sair de suas
casas, sem cabos nem mquinas electrnicas, havia pessoas que,
h j muito tempo, conseguiam estabelecer uma comunicao
regular, atravs do espao e do tempo, com os antepassados, h
muito desaparecidos.+
          Na sua perspectiva, o desenvolvimento do Eu deve
preceder o da tecnologia.  O prprio acto de aceder 
liberdade configurar-se-ia assim no regime mnemnico que opera
no por uma linearidade de tpicos, ou por um continuum, mas
por descentramentos, por efeitos-luz e por pulses que apelam
e convocam o sujeito no tempo e no espao.  O mesmo se passa
de algum modo com a prpria imagem videogrfica, autntico
palimpsesto electrnico, cujo ecr, mais do que reproduzir
imagens, produ-las a partir da 2neve electrnica+, grau zero
de onde emergem todas as imagens vdeo, e atravs da lgica
binria a que  Viola chama o modelo 2holstico+, que integra o
vdeo, a informtica e o processamento de imagens.
          Tempo cronolgico, tempo descontnuo; espao
homogneo, espao nmada; a conscincia e a experincia do

tempo como modulao do espao e reciclagem do mundo (o
tempo-luz - s o tempo 2deixa ver+), ou como figurao do
magma histrico profundo: tais so alguns dos grandes temas
que podemos encontrar ao longo dos diferentes vdeos de Bill
Viola.  Mas, simultaneamente, encontramos actos de memria,
traos do tempo que no ascendem  dignidade histrica, na
medida em que expem o seu contnuo questionamento, o seu
inacabamento, a sua deriva.
          Dir-se-ia que Bill Viola parte de um paradoxo Zen:
uma multiplicidade de imagens  apenas uma imagem, uma nica,
muitas imagens.  Cita um sbio sufi: 2Qualquer conhecimento 
um ponto nico -  o ignorante que o multiplica+.  Nos seus
vdeos retm objectos, imagens, paisagens, corpos, modula o
tempo, prolonga o olhar sobre eles, deixa o tempo agir sobre
essas imagens, dando a ver transmutaes de sentido, sombras
sem os seus corpos, 'metamorfoses, pretendendo sempre
aproximar-se da essncia da percepo, do 2momento cognitivo+.
          A forma de utilizao dos seus dispositivos tcnicos
no contraria a sua filosofia:  excepo de The Reflecting
Pool, onde a imagem  dividida em duas (pretendendo-se criar
diferentes temporalidades no interior de uma mesma imagem como
forma de destruir o 2tempo absoluto+), em cima, elidindo-se os
corpos (o primeiro plano deste vdeo  belssimo: o
mergulhador suspenso no espao acaba por nele se dissipar) e,
em baixo, deixando-se as sombras, os efeitos so sobretudo
dispositivos 2naturais+ que procuram revelar urna essncia do
real.
          Enfim, h a famosa teleobjectiva de 800 mm acoplada
 cmara em Chott el-Djerid (que nos d imagens-miragens), o
controlo electrnico da cmara em Ancient of Days, (outro
vdeo de extraordinria beleza) mas de uma forma geral do que
se trata  de atravs de 2efeitos naturais+ (Silent Life, por
exemplo, no tem qualquer efeito), incrustaes, aceleraes,
retardamentos, criar e destruir espaos que desfilam sob o
tempo, ciclos da vida e da morte - de que alis os 2collected
works+ reunidos em tomo de The Reflecting Pool (o baptismo) e
indo at Vegetable Memory (a morte) so uma parbola.   



          



X. O retorno da techne



                    Dsormais, avec le triomphe du simulacre,
commence            
                    rellement la dmocratie virtuelle
                                        Lo Scheer



     No Fedro de Plato (1978: 88), Scrates, falando de Toth,
o 'incomparvel mestre das artes' e o inventor dos caracteres
da escrita, segundo a mitologia, pe na boca de Thamous, rei

do Egipto, o antema desses mesmos caracteres: 2(...) porque
esse conhecimento ter por resultado, naqueles que o
adquirirem, tornarem-se as suas almas esquecidas porque
deixaro de exercitar a sua memria.  Confiando na escrita 
do exterior de si e no de si prprios que eles se recordaro
das coisas+.
     A escrita seria para Plato, efectivamente, um simulacro
do real, uma 'arte da iluso', tal como alis a pintura tambm
o era, de forma quase obsessiva.  Plato via assim o acto de
delegao do saber na escrita como uma clara perca do sujeito,
dado os caracteres obrigarem a uma mnemotcnica, a um
'conhecimento tcnico" que desabituava do 'esforo interior' e
que, portanto, engendrava a iluso de um saber no crtico e
facilmente adquirido para ser solidamente fundado.  A escrita
surgia assim, em Plato, como uma espcie de fim da techne.
     Ser assim bvia a razo de Michel Serres, ao dizer a
propsito da sua obra Les Cinq Sens que 'ce que j'cris, ce
n'est pas de l'criture, c'est de l'oral crit' (1985a:132). 
De facto, o carcter sobretudo hipersensorial desta obra
afirma-se, no fundo, com uma espcie de grito desesperado, um
'mort  Ia mort' aps cclicas e sucessivas percas da
soberania do sujeito.  Os sentidos deixaram assim, por to
estranho - e rpido - que pudesse parecer, de ser enganadores. 
Deveriam ento, doravante, deixar de ser 'frgidos',
induzidos, recuperar das percas, reencontrar-se de certa forma
em Plato, aprendendo a esquecer os rudos mnemotcnicos para
aceder  cultura,  liberdade.  Da, Serres dizer que a
revolta contra o rudo  a revolta contra o poder,  a revolta
moderna do reino de Hermes, isto , do reino dos media.
     Embora assim se dissipe parte da questo que se nos
coloca, no deixa de ser com alguma perturbao que ainda
agora, em pleno trajecto moderno, transcorrido que foi um
curto tempo de predomnio da tcnica 'autoritria' sobre a
techne, sobre a tcnica democrtica, desviado que foi o
Prncipe para o discurso, se v reemergir a sacrossanta
pergunta - 'que fazer?' - que liberdade reivindicar 
tecnocincia como estado da razo?
     Se o nacionalismo clssico no foi de todo o instrumento
libertador do homem pelas Luzes, mas sim um instrumento
carceral, de sujeio e excluso do homem, como bem notou
Clavel (1977:96), para Lyotard, a racionalidade ps-moderna, o
novo estatuto da razo,  indubitavelmente tomado da ideologia
tecnicista, sendo a 'transparncia' da comunicao uma espcie
de novo crcere.  A razo cientfica hoje no  questionada
segundo os critrios do verdadeiro e do falso, mas segundo a
performatividade dos seus enunciados, o que implicar, por
conseguinte, que 'o laboratrio melhor equipado tem mais
possibilidades de ter razo.  A verdadeira razo ser ento a
do mais forte?' (Lyotard, 1984).  Decisivamente, 'far' melhor
quem 'disser' melhor, sendo certo que uma nova eficcia da
performatividade dos enunciados deriva da utilizao das
mquinas informacionais, bem como uma nova ordem de
legitimaco (Lyotard, 1979:77).  Esse delrio de
autolegitimao da tcnica que d pelo nome de 'guerra
virtual' ilustra bem a latncia de um regime de terror.  A
so j, de facto, os sistemas e os programas mais eficazes a
'ter razo' - e, note-se,  revelia do prprio sujeito.  Em
acrscimo,  o prprio regime da tecnocincia que se configura

como auto-regulador de 'tecno-desejos' e de
'tecno-imaginrios'  margem de eventuais solicitaes do
humano.
     Assim sendo, nada mais imediato do que temer, no que
respeita concretamente ao regime da representao, que as
novas formas narrativas do saber tendam a p&r fim progressivo
ao regime da referencialidade, ao 'temps des histoires',
obviamente tambm  instncia tradicional de legitimao do
discurso (Rodrigues, 1984:86) e  prpria historicidade.
     De facto, se a histria se rev ainda nas narrativas do
mundo, o futuro da histria rever-se- muito provavelmente num
mundo de narrativas de 'tecno-imaginrios' em gestao,
a-referenciais, onde o acontecimento jamais se poder
configurar nas narrativas que o descrevem pela simples mas
esfriante razo de que passar a ser uma 'no-ocorrncia' ou
um micro-acontecimento evanescente, ou um dado decomposto numa
lgica binria, ou ainda um simulacro total.
     A razo moderna e os novos tecno-imaginrios perdem-se
assim nesse espao disseminado, nessa fronteira difusa entre o
acontecimento-ocorrncia, na sua efectiva realidade  e o
acontecimento narrado, na sua virtualidade.  E  justamente
nessa zona de sombra e de incredulidade que se reencontrar
hipoteticamente o sujeito perdido, e de onde inevitavelmente
proceder  sua reciclagem com o mundo.
     Vejamos em concreto, no regime imaginrio da modernidade,
o que se passa com algo que algum definiu como autntico
'escndalo ontolgico' (Moles, 1985).  De facto, o sentido
desptico do novo fluxo de imagens a que se referia Abraham
Moles - as imagens numricas - impe doravante, com uma
eficcia radicalmente nova, a preexistncia absoluta da imagem
em relao ao objecto representado.  Se essa anterioridade
continuar a evoluir no sentido da verosimilhana, como tudo
leva a crer, ento chegar-se-  criao de perfeitas
narrativas simuladas a partir de informaes algortmicas - e
o 'escndalo ontolgico' ser total.
     Mas efectivamente no seria necessrio chegar 
conjugao dos possveis algortmicos para se perceber que, no
fundo, h como que uma lgica do real a configurar-se, tomando
corpo, a partir de imaginrios soberanos.  No ser necessrio
muito mais do que reivindicar o poder da fico na prpria
fundao do real.  Dir-se-ia sobretudo que a abertura da
fico ao irreal,  utopia, nos conduz prioritariamente ao
essencial e no imediatamente aos 'possveis' histricos, ou
ao real.  Veja-se por exemplo a polmica obra de L. V. Thomas,
Fantasmes au quotidien (1985): trabalhando sobre um corpus de
vrias centenas de ttulos, acaba por demonstrar como a fico
cientfica torna mais legvel a nossa sociedade: a influncia
da mquina, a inquietante realidade da tcnica, os avatares do
tempo, o fascnio da decadncia (cf.  Chesneaux, 1986).
     Num outro campo, o das estratgias consumistas da
publicidade, Baudrillard (1983) j os havia definido como a
utopia do imaginrio materializado, colocando assim fim ao
princpio do prprio imaginrio.  E Stuart Ewen (1977) notava
que desde os anos 30, nos Estados Unidos, as estratgias
publicitrias das grandes sociedades norte-americanas
auxiliadas pelos seus 'capites da conscincia' j tinham
traado as grandes linhas da paisagem social da Amrica.
     Se efectivamente os primeiros esboos perfeitos do 'novo

mundo' se cruzam com o taylorismo, a sua 'arte final'  dada
pelos imaginrios do cinema. + bvia, hoje, a dificuldade em
contrariar a ideia de que o Ocidente se rev constantemente
nos paradigmas, nos modelos e mitos de Hollywood.  Wim Wenders
(1986:182) dizia que o 'sonho americano'  cinematogrfico:
'A-t-on fini de rver ce 'rve amricain'?  Est-ce que
quelqu'un le rve encore, ou ne le rve-t-on plus qu'au
cinema?  Est-ce que I'Amrique n'est pas une dcouverte du
cinma?  Trouverai-t-on  travers le monde le rve de
I'Amrique sans le cinma?'.  A ideia no  nova, de facto. 
Muito antes de Wenders j um importante socilogo americano o
havia notado: refiro-me a Daniel Boorstin (1971), crtico
radical do 'establishment', para quem o americano se
caracteriza por se deixar governar pelo extravagante exagero
das suas prprias esperanas, acreditando nas expresses
mticas dessa espcie de Olimpo da pennsula californiana. 
"La fabrication des illusions qui remplissent notre exprience
est devenue l'affaire de I'Amrique, l'une des affaires les
plus honntes, les plus ncessaires et les plus respectables
(Boorstin, 1971:24) (...) Ainsi, le citoyen amricain vit dans
un monde o le fantastique est plus rel que Ia ralit, o
l'image a plus de dignit que son original' (1971:67).   
Baudrillard diria com algum despudor: 'En Amrique en
parliculier (...) tout le pays est cinmatographique.  Vous
parcourez le dsert comme un western, vous parcourez les
mtropoles comme un cran continuel de signes et de formules. 
La vie est un travelling, c'est un parcours cintique,
cinmatique, cinmatographique' (1986:158).
     Ora, quer atravs dos imaginrios actuais, quer sobretudo
atravs daqueles que se configuram como possveis, h uma
constante  fabulao hiperreal, demencial, perversa, que se
substitui ao real por 'histrias' que, ao contrrio das
fbulas, so histrias em que todos acreditam.  A sua
instituio como 'real' adia o fim do sonho, isto , adia um
primeiro reencontro com o mundo (a fome, o nuclear, a sida).
     Assim, se h de facto um 'escndalo ontolgico' acerca
das imagens de sntese, devido ao facto de elas se anteciparem
ou de preexistirem relativamente ao objecto representado, um
outro escndalo haver, portanto, que  o do prprio 'gro' do
real ter como hipottica origem o 'gro' da imagem
cinematogrfica, electrnica, etc.
     Enlouquecido nesta vertigem, o sujeito est claramente
demissionrio em termos histricos, polticos.  E estar ainda
relativamente ao prprio regime da representao: elidida a
voz, elide o corpo - a nova ertica  imagtica.  De facto, se
a Idade Moderna se caracterizou inicialmente por uma
progressiva ausncia do corpo de Deus, ausncia essa tomada
pela afirmao da ertica do corpo do sujeito, hoje de uma
outra ausncia-demisso se trata. E essa  agora retomada, de
forma obscena, pelo frenesim da imagem: 'La sollicitation et
Ia voracit en fait d'images grandissent dmesurment.  Elles
sont devenues notre vritable objet sexuel, le seul objet de
notre dsir.  Et c'est dans cette substitution, dans cette
confusion du dsir et de son quivalent matrialis dans
l'image (et pas seulement du dsir sexuei, mais du dsir de
savoir et de sont quivalent matrialis dans l'information',
du dsir de rve et de son quivaient matrialis dans tous
les Disneylands du monde (...) c'est dans cette promiscuit,

dans cette contamination virale des choses par les images que
sont Ia transparence et l'obscnit de notre culture'
(Baudrillard, 1986: 162).
     + pois nesse sentido que dever ser pensada a
subordinao/excluso dos corpos do universo tecno-meditico,
a iluso/eliso do sujeito operativo e representvel naquilo
que se constitui como a ferida narcsica por excelncia da
ratio tecnolgica: o Mesmo d lugar ao Outro, o sujeito
dissipa-se na nova racionalidade de dominao e no regime de
representao de final de sculo.  Enquanto sujeito reflexivo,
resistente, criar campos de legitimao, fechados, celulares,
ntimos, resgatando parcas soberanias, mas arriscando
porventura demasiado.  Resta saber se a experincia esttica
deixar de compartilhar o Mesmo, e as suas hibridaes, das
quais a mais temvel ser a hibridao-limite, transio do
corpo biolgico para o corpo-terminal, bio-maqunico.
Ora, se desde 1930 as estratgias publicitrias e os capites
das conscincias norte-americanas haviam j traado as grandes
linhas da paisagem social da Amrica, a partir dos anos 50, a
televiso, como 'o nosso big brother' (Loureno, 1984), como
verdadeiro agente do esprito consumista, como modelizadora do
social, e na sua funo ftica de manter o contacto fazendo do
imaginrio uma 'mundoviso', vem reforar essas grandes
linhas, redimension-las de uma forma homogeneizante e
transnacional, substituindo-se s instituies tradicionais na
criao de formas de conduta, na radicao do dispositivo de
dominao, atravs daquilo a que se poderia chamar uma
teraputica dos desvios, uma ortopedia dos corpos e das vozes,
uma gesto subiiminar da massa silenciada.
     E, progressivamente, mais para alm do imaginrio dos
imaginrios,  o prprio regime da tcnica que nos interpela,
uma vez que ambos interagem com o humano nas suas
metamorfoses, nas suas hibridaes.  Sobre a Lei dizia
Bernanos: 'Ce n'est pas Ia loi qui nous garde, mais nous qui
gardons Ia loi'... Seria interessante ver at que ponto o
mesmo  verdade se substituirmos na frase 'lei" por
'tcnica'... At que ponto somos ns, os other-determined de
que falava Riesman, os 'verdadeiros guardies da tcnica', ou
bem pelo contrrio no ser ela a nossa guardi?  Esta, de
facto, uma das complexas questes do nosso tempo. No entanto,
se somos habitados pelo imaginrio de todos os imaginrios, de
forma mais velada somo-lo pela prpria tcnica: dir-se-ia que
a tcnica, mais do que nos habitar, habitua-nos, provoca-nos
contnuas "catstrofes" no biolgico.
     A tese de McLuhan (1979:65) a partir do mito grego de
Narciso de que fisiologicamente, quando em pleno uso da
tecnologia, o homem  continuamente modificado por ela,
interagindo simultaneamente na sua transformao e evoluo
como se se tratasse do 'rgo sexual do mundo da mquina'
parece comear agora a ter uma renovada legitimidade, finda
que foi a descontinuidade homem-mquina.  Tambm Leroi-Gourhan
(1965: 72) acertava para o facto de a prpria tcnica
comportar em si mesma uma vertente autonmica, no conferindo
ao sujeito, por exemplo, a possibilidade de responder em tempo
ao seu avanado perfeccionismo.  Esta tambm a perspectiva de
Simondon (1969: 24) para quem a independncia do objecto
tcnico e o seu carcter implosivo relativamente ao social se
acentuava paralelamente ao prprio 'processo de

concretizao'.  Para Simondon, se no seu estdio artesanal o
objecto tcnico possui uma certa margem de indeterminao e 
susceptvel de diversas utilizaes consoante as diferentes
necessidades sociais, 'pelo contrrio, ao nvel industrial o
objecto adquiriu a sua coerncia e  o sistema das
necessidades que  menos coerente do que o sistema do objecto;
as necessidades moldam-se ao objecto tcnico-industrial, que
adquire assim o poder de modelar uma civilizao'.  A tcnica
no ser, portanto, neutra.  A sua essncia, se assim se pode
dizer, residir porventura numa dinmica reguladora e geradora
de bio-sentidos cuja autonomia variar consoante o sujeito se
ajuste melhor ou pior como 'prtese' da tecnologia, consoante
a sua gestao, o seu percurso, as suas 'hibridaes'.
     Foi Edmond Couchot quem melhor caracterizou o papel da
tecnologia nas suas relaes com o sujeito em termos do
dispositivo comunicacional moderno: 2Quando vejo televiso, a
tecnologia deixa de ser algo que me rodeia.  Ela deixa de
estar cerca de mim, na minha proximidade, no exterior de um
permetro que seria o eu do lado de c e o no-eu do lado de
l, mas passa a estar em mim.  Um tecido finamente organizado
e invisvel toma-me nas suas malhas, desconjunta-me,
atravessa-me e tambm me dispersa.  Quando utilizo uma
tcnica, mais do que me assenhorear dela, fico ligado a uma
das linhas desse tecido, torno-me quiasma, cruzamento, ponto
singular da rede (...). Entre o orgnico e o maqunico,
paralelo mas no exterior, esse tecido, essa rede, no
funciona como outra sociedade, subjugado ou dominante, mas
como um duplo polimorfo com o qual cada indivduo compe
inumerveis e temporrias hibridaes (...)+ (Couchot,
1985:123).
     O quiasma habita-nos, portanto. + inelutvel a quebra do
sonho: o xtase do real, a fabulao hiperreal marca-nos o
ser.  Da ser urgente encontrar formas de coabitao entre a
irreversibilidade (diria "visceral") das 'fbricas de sonhos'
que nos desconjuntam e de ns fazem, a cada momento, novas
'ligas' refractrias ao real, e a necessidade de um
apaziguamento dos conflitos entre o homem e o mundo. 
Dir-se-ia estarmos perante  irreconciliveis... Ora, se
estamos, aparentemente, pelo menos, perante essa realidade
modelizada pelo imaginrio total e pelos tecno-imaginrios, e
se a sua resultante hiperreal se configura sobretudo nas
estratgias multimedia de fim de sculo, ser ento a altura
de nos confrontarmos com esse rudo, essa sobreinformao,
essa anomia, autntica crise de solidariedade entre o sentido
e o ser, que se autoprocria extasiada, ultrapassando o seu,
por assim dizer, 'limite funcional ptimo'.  Essa ser
porventura a questo essencial.
     Reivindicando uma espcie de retorno da techne, ser mais
visvel, em plena sociedade mass-mediatizada, um primeiro
confronto entre a hipertelia que degenera em obsolescncia, em
desaparecimento gradativo, e a 'arte dos pequenos passos'. 
Confronto que se poderia ver, mais expiicitado, entre um
'messianismo cientfico-tecnolgico' (Balandier, 1986) e uma
prtica minimal, criativa, local, da tcnica maximal, como
forma de obviar a uma configurao da prpria racionalidade
tecno-imaginria em racionalidade de dominao massificante.
     Mumford, em The Myth of the Machine (1967-70), situava
inclusive a emergncia dessa oposio, entre aquilo que

considerava como "tecnologias autoritrias' e 'tecnologias
democrticas', nos tempos efectivamente prximos,  certo, do
neoltico.  Corroborando de certa forma Plato, Mumford via, a
primeira, centrada num sistema, imensamente poderosa mas pouco
estvel, a outra centrada no homem, relativamente dbil mas
duradoura e pictrica de recursos (Mumford, 1964): 'O que eu
denominaria tcnica democrtica  o mtodo de produo em
pequena escala (... )'.
     Transpondo esta reflexo para o universo mass-meditico,
e citando Guattari (1980), dir-se-ia que do que se trata  de
facto de libertar as sujectividades dissidentes atravs de
sistemas de mediao hipoconcentrados em oposio aos sistemas
hiperconcentrados que caracterizam o dispositivo
comunicacional moderno, depositrio de uma razo que se
confunde em racionalidade de dominao, quer o emissor seja o
aparelho de Estado, quer sejam as suas subsidirias
'privadas', os grupos econmicos, etc.
     A estratgia minimal surge assim como estratgia
alternativa, e como alternativa a inventar. + efectivamente
disso que se trata quando Ren Berger (1976) fala em 'meso' e
'micro' televiso em oposio  televiso 'de massa'; ou
quando Ploman (1975) fala nos processos de individuao e de
descentralizao das tcnicas de comunicao; ou quando Simon
Nora e Alain Minc (1978) ressalvam a 'socializao da
informao' atravs da salvaguarda dos interesses das pequenas
organizaes e dos grupos autnomos; ou quando Umberto Eco
(1977-78) fala de 'uma nova era na liberdade de expresso'
referindo-se  exploso das rdios livres em Itlia; ou ainda
quando Gillo Dorfles (1978) apela a uma nova 'poitica', a uma
expresso criativa, minimal, atravs de uma nova
expressividade visual que o video comporta, e, finalmente,
entre muitas outras referncias possveis, Murray Bookchin
(1981-82) apela s tecnologias libertadoras, a uma ecologia
comunalista desenvolvida nos 'town meetings' e nas
'tecno-comunas'.
     Os anos 80 todos estes apelos crticos ressoaram mas,
convenhamos, sem grandes resultados.  A dificuldade em
contrapor as micropolticas s macro tem sido de certa forma a
responsvel pelos fenmenos da 'ma-trise de soi' (Foucault,
1984) ou dos 'minimal self' (Lasch, 1985).  Dir-se-ia que 
dificuldade em contrapor uma poltica dos 'self media' 
sociedade meditica, acaba por prevalecer um regime de
reapropriao do eu, radicalizado pela tcnica e refractrio
de certo modo aos seus usos.  Mas, de facto, o retorno da
techne no  plenamente compatvel, por assim dizer, com as
diferentes reciclagens ntimas do sujeito.  O que se joga com
a realizao pessoal, com as tcnicas do eu, no se deve
alhear de uma experimentao atomizada - ou mesmo 2bitizada+
-, dos possveis tecnolgicos da sociedade mediatizada.  No
limite, diramos, com Foucault, que do que se trata  de
inflectir os fluxos atravs dos quais se radicam os
bio-poderes e os dispositivos de dominao.  O 'fazer de cada
vida uma obra de arte'  perfeitamente compreensvel numa
estratgia de exploso das univocidades e dos 'self media':
'hbridos' sim, talvez, mas jogados na autonomia.
     Fica-nos uma dvida mais: este reencontro possvel da
soberania do sujeito atravs da techne moderna poder ou no
respeitar na sua hipottica transitoriedade a assero de

algum que pensava deste modo, com ironia, o fim de sculo:
'Les robots sont-ils destins  nous remplacer?  Je n'en sais
rien et je ne suis pas sr de le souhaiter.  Mais quand je
suis d'humeur vraiment cynique, je dis que le vrai danger est
que cela n'arrive pas' (Asimov, 1985).





































XI.  O futuro interactivo

 
               O novo modo de comunicao favorece a
emergncia de                 comunidades virtuais e actualiza
a noo de 'aldeia global'                   popularisada por
McLuhan nos anos 60.
                                        Howard Rheingold


     Desde que McLuhan defendeu a importncia das mediaes
simblicas e tecnolgicas na compreenso das sociedades
histricas - do aparecimento da escrita e da tipografia s
sociedades de comunicao global -, que tem vindo a ganhar
corpo um novo ponto de vista na interpretao do campo social,
que tende a privilegiar o paradigma da comunicao face ao

"velho" paradigma da produo.
     As tecnologias da comunicao so hoje, claramente, um
factor de mudana social, o que significa que as sociedades
desenvolvidas de fim de sculo caminham para um novo tipo de
relaes interpessoais, e comeam a reger-se por novos cdigos
de conduta e evoluem para um novo tipo de experincia social e
poltica.
     Novas tecnologias, nova poltica, portanto. Em causa
est, no fundo, a crise de representao que atravessa o
actual sistema poltico. Face  desintegrao do sistema
poltico das democracias ocidentais, um novo sistema poltico
comea a ganhar corpo marcado pela procura das identidades,
dos novos nacionalismos,  dos particularismos - tnicos,
minoritrios, "dissidentes", "tribais", etc. 
     Uma procura que  comum  necessidade de progressiva
autonomia do sujeito moderno e simultaneamente da sua
experincia participativa no campo social, cultural e
poltico, aquilo a que se pode chamar tambm o transpoltico.
As novas tecnologias vm em seu auxlio uma vez que mudam a
base da estrutura social e do poder. Da poder chamar-se hoje
ao campo dos media o universo emergente dos self-media. 
     O facto de haverem cada vez mais formas de democratizao
da comunicao atravs dos meios de utilizao individual -  
computador porttil  ao datamvel, passando pela Internet e
por outros meios interactivos -, permite a emergncia desse
novo campo de mediao protagonizado agora por uma rede
matricial e no pela rede clssica em pirmide do "escutar sem
ser escutado". 
     Doravante ser, por isso, cada vez mais difcil sustentar
o discurso clssico da televiso, por exemplo, como discurso
de legitimao. Fundamentalmente porque nele se remete o
acontecimento-catstrofe para a 'ordem natural das coisas',
onde as estratgias de governamentalizao reaparecem como
providenciais, relanando assim o protagonismo poltico em
crise.
              O que a lgica dos self-media e a
interactividade evidenciam  sobretudo a crise das estratgias
de encenao do actual campo meditico, que insiste de modo
insuportvel no discurso da actualidade trgica e no pequeno
mundo da poltica e do fait-divers.    
     Pensar hoje  o 'Audiovisual' no s em termos de modelo
televisivo, mas tambm no conjunto de interrelaes deste
sistema com o cinema, o video, e 'novos media'  e as
tecnologias interactivas, releva desde logo do paradoxo de
estarmos perante uma espcie de 'no-lugar', reconhecido, no
limite, atravs das prprias hibridaes que as diferentes
discursividades e interfaces compem - e expem. 
     Assim, diferentes especificidades remetem para diferentes
saberes sobre outros tantos objectos, o que permite visualizar
naturezas e materialidades prprias  distintas do dispositivo
tecnodiscursivo televisivo, e distintas ainda das novas
prticas comuns aos media interactivos o digitais.  Dir-se-ia
ainda que a distino das diferentes reas no plano dos
contedos no  da mesma forma evidente no plano da indstria,
verificando-se complexas sinergias entre sectores e meios e
entre estes e os modos de produo, difuso e distribuio. 
          No que concerne, em concreto, ao 'cran fundador'
televisivo, um conflito interno permanece: a mquina residual

de 'fices' diversas (cultura, informao, entretenimentos) 
o continuum generalista, actua, atravs das suas tcnicas de
difuso, no como um 'self-media' (como o video, por exemplo),
ou mesmo como o cinema, mas como um 'soft media' regressivo,
apontando tendencialmente para uma espcie de 'hard-media'
(meios que facilitavam a dominao no tempo e no j no espao
- como o veio a fazer a tecnologia tipogrfica, por exemplo). 
     Designadamente a 'mquina de organizao' televisiva,
segmenta o selecciona atravs da sua prpria tcnica criando
um tempo, uma 'conscincia' do mundo especfica e criando,
ainda, mais do que um mundo de possveis - ou a probabilidade
da comunicao - a probabilidade do consenso.  Isto , a
salvaguarda do seu procedimento de seleco  a garantia do
seu dispositivo tecnodiscursivo e instrumental e, portanto, a
garantia da perenidade do carcter selectivo e condicionante
desse modo de comunicao. 
     No seriam necessrias razes suplementares para
justificar um modo de relacionamento crtico com as tcnicas
de seleco, produo e difuso, e ainda com os prprios
contedos da mquina televisiva, podendo essa reflexo
configurar uma rea especfica, ou uma 'especialidade' no
campo da Televiso.  
     H, no entanto, que no esquecer o campo 'experimental',
cujas modalidades de enunciao esto porventura mais prximas
de meios autnomos, como o video.  + justamente neste ltimo
plano que actualmente emergem  dinmicas novas.  A primeira
questo a ter em conta  de facto a da convergncia entre
sectores: o Audiovisual hoje est tambm ele em mutao
radical e na resistir s solicitaes das telecomunicaes e
da informtica, designadamente no plano dos suportes, da
difuso, e da recepo. Estas possibilidades de multiplexagem 
(redes de comunicao com emisso de informao independente e
simultnea) fazem  da convergncia entre sectores a razo da
abertura ao objectivo matricial dos diferentes modos de
produo/difuso de imagens.  E a verdade  que tambm as
prprias normas tcnicas de produo/difuso deixam j antever
o aprofundar de um primeiro nvel de interconexo entre
prticas no electrnicas (como o cinema o tem sido) e as
electrnicas.  Alis, o prprio mercado, o fluxo de programas,
j o havia antecipado de uma forma 'horizontal': hoje, a
indstria cinematogrfica americana  em boa parte suportada
pela 'abertura' (mais de 30% dos grandes estdios de produo
esto nas mos da indstria electrnica japonesa) e pela
diversificao de mercados que ela prpria gerou.
     Mas apesar do anncio de uma mutao a verdade  que a
mquina televisiva prossegue o seu monlogo com o grande
pblico, no abandonando as prticas de outrora: a fragilidade
da fragmentao do modelo no trouxe a fragmentao do
discurso: a lgica global continua instrumental e produtora
dos grandes consensos e das motivaes universais. 
     Problematizar portanto a evoluo do conceito clssico,
descrever as novas modalidades enunciativas e os contextos da
emergncia da interactividade, as novas discursividades da
resultantes, a concepo e o design interactivo, a sua relao
com o campo da recepo, a reconfigurao de dispositivos e
paradigmas, o plano da inovao tecnolgica, as virtualidades
no campo cientfico e no acesso  informao, as dramaturgias
do contentware, os jogos interactivos, os direitos e

liberdades perante as 'mega-mquinas' de gesto da informao,
etc.,  o objectivo deste nosso texto.     
     Umberto Eco j havia alertado para a "bulimia
intelectual" e para a disperso extrema, ou mesmo para a
inutilidade da curiosidade insaciada, aquando do lanamento da
sua enciclopdia multimedia - a Enciclomedia -, a primeira do
gnero na Europa, um autntico guia multimedia da civilizao
europeia, que em Abril de 1995, aparecia com o primeiro
captulo dedicado ao sculo XVII. O fomento da bulimia era,
para Eco, o hipottico resultado de uma utilizao dogmtica,
por assim dizer, dos CD-Rom's enciclopdicos.
     Apesar do hipertexto funcionar num regime de no
linearidade, tal como o crebro humano, o certo  que ele 
tanto mais linear quanto mais o nevegador se aproximar da
figura do "nufrago"... 
     A revoluo multimedia tem origem  no contexto emergente
da integrao da indstria informtica (software e hardware),
do entretenimento (cinema, video, TV) e da comunicao em
geral (empresas jornalsticas, editoriais, gestores de redes,
etc.).
     Da interaco entre os diferentes sistemas resulta a
possibilidade de operar com aplicaes com elevada capacidade
interactiva. O utilizador pode seleccionar, receber, tratar e
enviar qualquer tipo de informao desde o seu terminal para
outro qualquer ponto da rede.
     At h pouco tudo se passava em boa medida no plano do
off line, no campo dos produtos polivalentes e interactivos,
armazenados sobre suportes digitais fixos, concebidos para
consolas do tipo CD-Rom,  ou outras.  Mas est a   j o
sistema on line,   o que anuncia sistemas interactivos
avanados e tambm a televiso interactiva, distribuda pelas
autoestradas da informao, e mesmo pela Internet... 
     A interactividade, o multimedia, etc., surgem no incio
de uma nova era, o que no quer dizer que a sua chegada ao
mercado se tenha feito sem problemas. Como dizia Ted Turner
(para citar apenas o exemplo da TV), "Every single interactive
TV experiment has failed". 
     Doravante, no entanto, no dever ser assim. E o facto 
que a prpria Internet j est a passar produes especficas,
escritas e produzidas para a "net". The Spot entrou j na Net,
em exclusividade. + uma espcie de Melrose Place, embora
permita muito mais do que estar passivamente sentado no sof 
espera do desenrolar da histria... + alis  o conceito de
interactividade que permite imaginar a Internet como "o maior
mercado do mundo".   
     Pode dizer-se que o ano de 1995 foi o ano da Internet em
Portugal. Foi em 95 que saram os primeiros livros de autores
portugueses sobre a net. Foi tambm neste ano que se
organizaram mltiplos colquios e seminrios sobre a rede,
foi, enfim, em 1995 que os media olharam para a Internet como
uma plataforma comunicacional incontornvel nesta sociedade de
informao de fim de sculo. Ao ponto dos prprios jornais
terem j as suas edies electrnicas a correr na net 1.
     Os primeiros acessos  Internet em Portugal datam de 1986
e eram ento facilitados pela FCCN - Fundao para a
Computao Cientfica Nacional.  Mais tarde, em 1990, o PUUG -
Grupo de Utilizadores do Sistema Unix, inicia tambm a
prestao de servios E-mail e de acesso aos 2newsgroups+,

lanando trs anos volvidos outras facilidades na Internet.
     Mas quantos portugueses esto neste final de 1995 ligados
 Internet? Sabemos que se trata de uma unio com 21 mil
redes, cerca de 40 milhes de utilizadores em 2 milhes de
computadores, distribudos por 68 pases. Em Portugal existem
cerca de 10 mil terminais ligados  net. Mais de dois teros
desses servidores esto a funcionar atravs das redes
universitrias, o que significa que cada um deles  um
terminal disponvel para, em mdia, 6 a 10 utilizadores
regulares. Assim, em nmero total, poderemos dizer que existem
j em Portugal cerca de 70 mil utilizadores regulares da
Internet. E a adeso est a fazer-se, em Novembro de 1995, 
mdia de 50 novos contratos dirios na Telepac (operador
pblico da rede de comunicao de dados), que disponibiliza o
servio desde Setembro de 1994. Mas para alm deste operador
existem mais seis entidades que fornecem acessos  rede.
     E h ainda as instituies e as empresas. Muitas delas j
com a sua prpria 'homepage'. + j claramente uma oportunidade
de negcio para muitas empresas portuguesas. O simples acesso
ao E-mail pode trazer benefcios incalculveis para as grandes
organizaes. So j algumas centenas de empresas portuguesas
que utilizam a net para receber e disponibilizar informao,
como correio electrnico, como montra de venda de produtos
on-line, para a criao de servios e informao destinados 
World Wide Web e inclusivamente para servios e operaes
bancrias. Mas isto  s o princpio. Apesar de tudo, ainda
existem universidades portugueses que no esto on-line. 
     Naturalmente, hoje j no faz qualquer sentido estar fora
da rede. + tambm um espao virtual de poder que participar
na evoluo das sociedades representativas para as sociedades
solidrias e participativas. Nessa media, a Internet  j hoje
uma rede vital, estratgica, para pases como Portugal. Hoje,
quatro anos antes do novo sculo, j ningum  capaz de
neg-lo. E todos estamos a perceber do que  que se trata: a
net  o novo alfabeto na comunicao entre os homens.
     Mas, como dizamos, a net pode vir a ser o maior mercado
do mundo. Conta-se a histria de um concessionrio americano
que lanou um anncio sobre o seu produto na Internet e em
menos de um ms recebeu 10 mil pedidos de informaes, e
vendeu algumas centenas de automveis.
     Mas poder ser a Internet, tambm, o principal suporte da
televiso interactiva do futuro?. + possvel que sim. O
computador-televiso est a  porta, e  bem possvel que
atravs das set-top-boxes e dos servers do futuro os
operadores e os grandes grupos de comunicao economizem
esforos deixando as imagens circular em redes mais simples do
que a fibra ptica... como por exemplo, atravs de simples
cabos telefnicos em cobre...  
     O dispositivo comunicacional de fim de sculo est assim
fortemente marcado por um novo campo 'hipermeditico', que
veio introduzir uma nova complexidade nos estudos sobre os
media, a informao, a tcnica e o simblico.
     O tempo dos oligoplios televisivos est portanto a
acabar.  Assim como est a chegar ao seu fim o tempo do
predomnio de um sistema televisivo fechado dominado de forma
exclusivista pelos grupos de interesses e pelos grandes grupos
de comunicao.  Significa isto que est a  uma nova era de
fragmentao dos sistemas de comunicao clssicos, originando

paisagens audiovisuais complexas, diversificadas e sobretudo
biunvocas, optimizando os sistemas tecnolgicos de difuso e
redistribuio dos sinais de televiso.
     Se h um paradigma tecnolgico, em termos de suporte dos
novos fluxos de comunicao, esse chama-se 'fibra ptica' e
dar-nos- total tranquilidade em relao  nova era
comunicacional, caracterizada essencialmente por um modelo
matricial que democratiza efectivamente os canais de
comunicao, dando a cada cidado a capacidade de ultrapassar
a sua condio de 'consumidor' ou de 'espectador' e passar a
ser um 'destinador', um sujeito operativo, reflexivo,
participativo. 
     Pelas auto-estradas da informao passaro as comunidades
virtuais do sculo XXI que, na opinio de um cada vez maior
nmero de especialistas, conduziro o sistema poltico e
social para uma espcie de democracia directa. Com todos os
desafios que da decorrem, o primeiro deles no ser o menos
saliente e provavelmente o mais problemtico: a nova era
comunicacional vai no s radicalizar as distncias entre os
'inforicos' e os 'infopobres', como vai tambm fazer novos
analfabetos, ou seja, os analfabetos funcionais do sculo XXI
sero aqueles que no dominam o 'novo alfabeto'.
     Que alfabeto  esse? J no  voclico nem consonntico.
Nem sequer  um cdigo convencional de escrita, ou simblico.
Cada vez mais estaremos perante uma espcie de hipertelia de
cdigos, em que cada comunicador ter a sua prpria
especificidade simblica e comunicacional, sendo previsvel
que haja como que um novo 'excesso de objecto', uma
pluralidade de convenes que anularo pura e simplesmente o
conceito de cdigo convencional, compreendido de igual forma
por todos. A nova escrita ser como que 'hipertextual', o que
inviabilizar a estabilizao da futura ordem simblica.   
       Emerge portanto o novo conceito de auto-estrada da
comunicao, desenvolvido a partir das redes digitais,
restando saber como iro ser normalizadas as futuras
componentes desse sistema complexo.  O cabo est  a afirmar-se
como plataforma que centra em si enormes potencialidades para
o desenvolvimento tecnolgico e comunicacional. A curto prazo
o conceito de "cabo" evoluir para "servios de comunicaes"
multimedia, integrao de servios de dados e voz, e  para a
interactividade em tempo real. A introduo de grandes redes
cabladas especialmente no caso dos  EUA e do Japo, e tambm
da Europa, para o final da primeira dcada do sculo XXI,
configura uma estratgia que sugere de facto o cabo como a
plataforma provvel das futuras auto-estradas da informao. A
tendncia  para uma afirmao lenta mas progressiva das redes
interactivas, tanto mais que  podem integrar  todos os
sectores concorrentes e ainda os servios de valor
acrescentado. Resolvidos os problemas de ordem tecnolgica,
resta ao legislador cumprir as suas atribuies e
competncias, no se deixando ultrapassar pelas capacidades
tecnolgicas e pelas exigncias de mercado. Clarificado todo o
processo comercial, tecnolgico - tico e filosfico, tambm
-, e jurdico, resta saber quais, efectivamente, as
potencialidades  dos servios de tipo multimedia e
interactivo.  Por isso mesmo, a estratgia de desenvolvimento
do sistema audiovisual e multimedia designadamente em
Portugal, passa necessariamente pela sua 'democratizao' no

plano da administrao pblica, das comunidades cientficas,
dos centros de produo e das comunidades locais, caminhando a
par com a cablagem do territrio nacional, preparando-o para
as auto-estradas da informao,  preparando-o tambm, enfim,
para a produo dos contedos necessrios  criao de uma
imagem multimedia da cultura portuguesa, embrio, finalmente,
do grande trfego comunicacional - em portugus - das futuras
redes interactivas. Embrio tambm das virtualidades de um
pequeno pas como o nosso na procura de um espao de afirmao
no 'ciberespao', nesse contexto mais complexo da produo
multimedia global. 
     Doravante no far, por isso, muito sentido, pensar o
"audiovisual" enquanto sistema estratgico de narratividades
especficas - flmicas ou televisivas. Essa impossibilidade
remete, alis, para a identificao dos prprios limites
desses mesmos processos narrativos clssicos. O novo complexo
multimedia interactivo configura-se numa nova discursividade,
na qual, ao contrrio dos sistema clssicos, cada um de ns
ter a sua prpria expressividade, a sua prpria participao. 
     Pensar as novas linguagens e tcnicas do multimedia,
hoje, requer de facto uma reflexo sobre as prticas,
estratgias e tecnologias do novo campo comunicacional, j no
apenas enquanto sistema repartido entre grandes famlias
mediticas, concentrando meios, uniformizando fluxos,
instituindo novas legitimidades, mas enquanto abismo desse
modelo, isto , enquanto modelo alternativo, na medida em que
comporta um espao virtual de poder que reverte a favor da
progressiva automizao do sujeito moderno. 
     Com efeito, a progressiva integrao das tecnologias
digitais e interactivas no campo dos media, na informao, nos
servios, etc., veio estabelecer um novo modelo de acesso aos
fluxos de informao. No limite, um novo espao, de complexas
relaes pblicas e privadas. Em sntese, um novo campo de
mediao que  cada vez mais um novo espao-tempo onde "real"
e "virtual" interagem entre si, repondo de uma nova forma a
questo da dominao e do poltico, e evidenciando novas
microfsicas de poder disseminadas cada vez mais pelo campo
social. Essa , no fundo, a nova virtude civil.
     Trata-se agora, em funo desse novo processo, de
analisar o dispositivo comunicacional em evoluo de um modelo
clssico para um modelo interactivo, atravs do qual se joga
essa autonomia crescente do cidado. + a era  da
infocomunicao, dos media que se destinam aos utilizadores
individuais e que interactuam atravs de redes digitais, de
banda larga, celulares, por satlite, por cabo, de forma
interactiva ou no.
     +, em suma, a era de convergncia entre o audiovisual, as
telecomunicaes e a informtica - um complexo integrador que
conduzir ao reforo do paradigma comunicacional e seguramente
 recomposio da esfera pblica e poltica. Desse modo
esbater-se-o os receios de Alain Touraine, quando
disgnosticava a crise de modernidade pelo excesso de
passividade. O futuro ser ganho pela participao do cidado
- e essa s emergir com o suporte das redes matriciais.
     A interactividade remete para nova lgica comunicacional
- para um mundo de possveis que se configura no facto de
deixar de existir "o mesmo programa", para passar a existir um
mundo de "programas" e de "navegaes", tantos quantos os

respectivos utilizadores. Esse , de facto, o conceito. Essa 
a nova lgica comunicacional.
     A interposio de uma logotcnica biunvoca e multimodal
neste novo sistema potencia, por assim dizer, as suas
virtualidades de forma exponencial. A aparente limitao, ou
mesmo subordinao, do mundo de possveis da poitica
cinematogrfica  - ou das videoplastias -  lgica
algortmica,  reconvertida na sua prpria disponibilidade em
tempo real. O esquecimento torna-se memria e, virtualmente,
todos acederemos, de forma descontinuada, a esse arquivo. Que
ser, no fundo, o repositrio global da informao, do saber,
da arte e da fico, isto , o patrimnio fundamental do 
conhecimento.
     Por outro lado, a lgica hipertextual, as contnuas
recorrncias e navegaes, podem configurar porventura a
contextualizao e a organizao de uma realidade, mas
dificilmente deixaro submeter  ordem da tcnica a lgica do
utilizador. Poder-se-ia inclusivamente prever que a
iconicidade dos novos sistemas multimedia reenviam para
ideografismos que repem o excesso de objecto que a escrita,
enquanto "sistema da crueldade", enquanto lgica fechada de
convenes, como dizia Nietzsche, sempre reprimiu. Essa no
ser certamente a sua menor qualidade.
     Finalmente, o dispositivo interactivo, ao suspender a
lgica audiovisual, deixa tambm emergir progressivamente o
fim da noo de receptor passivo. As novas navegaes
interactivas sero, assim, uma nova libertao face  lgica
unvoca do sistema mass-meditico predominante neste sculo
XX. Doravante viveremos a superao desse constrangimento.  
     A interactividade chegou, entretanto, tambm  televiso.
De agora em diante, como bem disse Umberto Eco muito
recentemente, restam  televiso tradicional meia dzia de
anos... De facto, a era multimedia integra tecnologias e
sistemas de comunicao interactivos de potencialidades
exponenciais que determinaro uma nova era no 'audiovisual'.
     + a era da comunicao biunvoca que se anuncia. No
limite, assistir-se-  progressiva transformao dos
telespectadores passivos em produtores de mensagens e
contedos, em sujeitos reflexivos, participativos. 
     Hoje  claro que a TV interactiva, atravs dos
'video-servers' do sculo XXI e dos novos catlogos e
videogravadores virtuais, poder armazenar a "videoteca
universal" no s no que se refere ao conjunto dos filmes dos
grandes catlogos, mas  totalidade dos filmes. E aqui a
utopia de Borges cumprir-se-: o "mapa" ser idntico ao
territrio. 
     Mas a outra grande utopia, a da interactividade plena,
matricial, pode no passar de um sonho. + o risco de passarmos
a estar em presena de servios de video 'assimtricos', isto
, onde o fluxo de informao acaba por ser o sinal de retorno
do consumidor...
     Dos filmes "on-demand" ao "home-shopping", dos jogos
interactivos s video-conferncias, do "entertainment video"
ao video educacional, do acesso a dados  telesondagem, das
telecompras ao telebanco, dos programas educativos
interactivos aos programas multimedia ao domiclio, do
telealarme  televigilncia, da telegesto da energia ao
"teleswitching" (gesto da "chauffage" por satlite), do

audio-numrico ("pay per listen") aos servios de informao
nos mais variados ramos - economia, sade, educao, viagens,
compras -, do correio electrnico ao "Alternate Access"
(transmisso de dados ou de telefone privado nas redes por
cabo), etc., etc,  todo um leque de novos servios que est
a  porta.  
     Veja-se por exemplo o projecto Videotron/Videoway, no
Canad e nos EUA, e tambm no Reino Unido. Atravs de um
telecomando e de um descodificador so fornecidos servios de
modo bi-direccional. Existe um terminal telemtico
(telecompras, telebanco, telereservas), um terminal domtico
(televigilncia, telegesto de equipamentos), correio
electrnico, com comunicao entre os diferentes utilizadores
e um fornecedor de servios. Existe tambm um modo "imagem",
com acesso a catlogos ou bancos de imagens digitalizadas
combinadas com bancos de dados. O cliente, neste caso, pode
jogar no casino virtual, consultar o astrlogo,  ler os
jornais electrnicos, etc.
     O pioneirismo  do sistema QUBE, lanado  pela Warner  em
Dezembro de 1977.  Tratava-se de um sistema de televiso que
pretendia   corresponder  tendncia dos anos 70 para uma
maior individualizao do consumo de programas de televiso.
     Mais tarde surgiram as experincias da Time Warner. Na
sua experincia de "pay per view" em Queens e Brooklin,
lanada em Dezembro de 1991. Cerca de um tero dos 150 canais
da rede integravam servios de  "video on demand",
telecompras, servios financeiros, informao mdica, formao
profissional, e "ppp"  ("pay per play" - jogos video). 
     Mais recentemente surgia a experincia de Orlando, na
Florida, tambm da Time Warner, realizada no contexto do
projecto das  autoestradas da informao. + um sistema  "on
demand", designado por Full Service Network (FSN). Entre os
diversos servios podia contar-se o "video on demand", jogos
vdeo em pleno cran e tempo real, bases de dados, telecompras
interactivas, educao e formao "ao domiclio", servios de
comunicao interpessoal, etc.
     Aos sistemas "on demand" pode acrescentar-se o "home
shopping". A venda atravs da televiso tornou-se uma
verdadeira indstria nos EUA, onde se diz, com alguma razo,
que o teleshopping  como 2uma verdadeira histria de amor que
rene dois dos passatempos preferidos dos americanos: o
consumo e a televiso+. Recorde-se o projecto QVC (Quality,
Value, Convenience), que aposta nos produtos de grande
consumo. Recorde-se a HSN (Home Shopping Network),
praticamente a rede pioneira deste novo servio. O arranque a
nvel nacional d-se em 1985 e em 1991 este canal tinha j 5,5
milhes de clientes, dos quais quatro milhes efectuavam pelo
menos quatro compras por ano.  
     Outros so os servios especficos na rea da educao,
que permitem obter "masters" das universidades promotoras. O
projecto Mind Extension, desenvolvido em colaborao com a
Universidade de Denver,  um servio de teleformao.
Propem-se diferentes cursos e por correio estabelece-se a
comunicao entre professores e alunos.
     Finalmente:  conhecido o indicador de base do
desenvolvimento do mercado mundial das telecomunicaes - 7,2
% ao ano at ao final do sculo, o que significa um
crescimento que praticamente duplica o do conjunto da

economia. Neste contexto, o contributo das auto-estradas da
informao  decisivo. O famoso lema de Al Gore - 2levar a
revoluo da informao a cada aula, hospital e biblioteca
antes do final do sculo+ poder ser, com efeito, uma
realidade. Lema presente tambm na opo estratgica japonesa
que pretende ter cada lar japons ligado ao sistema das
"auto-estradas" at ao ano 2010.
     O mercado dos tel-servios dever por isso mesmo ser uma
rea francamente promissora. Veja-se o relatrio francs - "Os
tele-servios em Frana: que mercado para as auto-estradas da
informao", coordenado por Thierry Breton, na altura director
da rea de estratgia da Bull, que considerava que esse
mercado  j uma realidade na Frana de hoje, e movimenta
negcios na casa dos mil milhes de contos/ano.   
     As opes so, portanto, bastante claras. Tambm um
relatrio norte-americano do Banco de Investimento, prev uma
2exploso+ interactiva iminente no mercado norte-americano nos
prximos cinco anos. De acordo com o estudo, os consumidores
americanos devero gastar 5,2 mil milhes de dlares por ano
at 1998 em servios interactivos de telecompras. As receitas
publicitrias crescero 5 por cento ao ano. O mercado
interactivo global representar 22,3 mil milhes de dlares em
1998 e ter uma taxa de crescimento anual da ordem dos 11,7
por cento. Nmeros que confirmam claramente a metfora: o
audiovisual e os seus hbridos - do off-line ao on-line - so
j o petrleo do sculo XXI.

1    Refira-se que parte dos textos agora editados resultam de
trabalhos revistos da minha dissertao de Mestrado - A
Emergncia dos Media - e de textos e actualizaes de artigos
dispersos, anteriormente publicados no Jornal de Letras,
Dirio de Notcias, Expresso, Revista de Comunicao e
Linguagens, e Tendncias XXI -
Audiovisual-Telecomunicaes-Multimedia. 

1 Lucien Sfez, Critique de la communication, Seuil, Paris,
1990.
1 Michel Foucault, Portuglia Editora, Lisboa, s/d.  
2 Cf. 2Michel Foucault ou o fim do humanismo+, Prefcio de
Eduardo Loureno a As Palavras e as Coisas, Portuglia
Editora, Lisboa s/d. 

1 Jean-Paul Sartre, L'Arc, n 30, 1966, citado por Dominique
Grisoni, 2Filosofias e Polticas - pequena cronologia dos
ltimos vinte anos+, Lisboa, Arcdia, 1980.
2 Louis Althusser, Resposta a John Lewis, Lisboa, Estampa,
1973.
3 Cf., por exemplo, Capitalismo e Esquizofrenia - Dossier
Anti-+dipo, Lisboa, Assrio e Alvim, 1976.
4 Michel Foucault, op. cit., p. 14.
1 Foucault, op. cit., p.131.
2 Foucault, op. cit., pp. 14-15.
3 Michel Foucault, L'ordre du discours, Gallimard, Paris,
1971.
1 Cf. A Nova Histria, Lisboa, Edies 70, 1983, p.32.
2 Jacques Legoff, 2Documento-Monumento+, Enciclopdia Einaudi,
Vol. I, Lisboa, IN/CM,1984.
3 Pierre Nora, 2O acontecimento e o historiador do presente+,

A Nova Histria, pp.45-56.
1 Raymond Bellour, Le livre des autres, 2Entretien avec Michel
Foucault+, Paris, UGE, 1978.
2 Jean Baudrillard, A sociedade de consumo, Lisboa, Edies
70, 1975, pp. 29-30.
3 Baudrillard, ibid., p.31.
4 Michel de Certeau, A Nova Histria, Lisboa, Edies 70,
1983, p. 14.
1 Certeau, op. cit., p. 16.
1 Franois Ewald, 2Foucault, um pensamento inconfesso+, Os
deuses na cozinha, Lisboa, Arcdia, 1980.
1 Veja-se, por exemplo, a ideia de 'fait-divers' enquanto
objecto de histria privilegiado proposto por Marc Ferro no
dossier 2Fait-divers, fait d'histoire+, Annales, Juillet/Aoot,
1983.
1 Michel de Certeau, 2A operao histrica+, Fazer Histria 1,
Bertrand, Lisboa, 1977, pp.46-47.
2 Franois Ewald, op. cit., p. 63.
1 Aubier-Montaigne, Paris, 1982.
2 Louis Qur, Des Miroirs +quivoques, Paris,
Aubier-Montaigne, , p.46.
1 Qur, op. cit., p. 10.
1Michel Foucault, Larchologie du savoir, Gallimard, Paris,
1969, p. 9. 

2 Fernand Braudel, +crits de l'Histoire, Flammarion, Paris,
1969, p. 50. 
1 Op. cit., p. 61
2 Marc Ferro, 2Fait-divers, fait d'histoire+, Annales,
Juillet-Aoot, 1983, pp.821-825.
3 Pierre Nora,  2O acontecimento e o historiador do presente+,
A Nova Histria, Edies 70, Lisboa, 1983, p. 48.

4 Michel de Certeau, e outros, 2A Histria, uma Paixo Nova+,
A Nova Histria, Edies 70, Lisboa,             1983, p.
21.  

5 Fernando Gil, Provas, Imprensa Nacional/Casa da Moeda,
Lisboa, 1986.

1 Michel Foucault, op. cit., p. 170. 

2 Op. cit., p. 18.

1 Michel Foucault, 2La poussire et le nuage+ L'impossible
prison - Recherches sur le systme
pnitentiaire au XIXe sicle, dir.  Michelle Perrot, Paris,
+ditions du Seuil, 1980, pp. 34-35, citado por Roger Chartier
in 2Le pass compos+, Traverses, Thtres de la Mmoire, n
40, Avril 1987, Paris. 

2 Roger Chartier, 2Le pass compos+, Traverses, Thtres de
Ia Mmoire, n 40, Avril
1987,     Paris. 

3 Manuel Maria Carrilho, 2Palomar, a essencial desarmonia do
mundo+, Expresso (Revista),
     Dezembro de 1987, Lisboa, p. 69-R.

4 Michel de Certeau, Lcriture de l'histoire, Gallimard,
Paris, 1984, p. 8

1 Roland Barthes, in Potique, Fvrier 1982, Paris.

2 Op. cit., p. 15.

1 Communications, n 8, EHESS, Nov. 1966, Paris.
2 Paul Ricoeur, La Narrativit, CNRS, Paris, 1980.
3 Op. cit., p. 13.
1 Op. cit., p. 16.

2 Paul Ricoeur, Temps et Rcit, Tome I, +ditions du Seuil,
Paris, 1983, pp. 289-290.

1 Paul Ricoeur, La narrativit, p. 21. 

1 Op. cit., p. 39
2 Op. cit., p. 41.
1 Op. cit., p. 67.

1 Andr Leroi-Gourhan, O Gesto e a Palavra, Vol. I, 2Tcnica e
Linguagem+, Lisboa, Edies 70, s/d, p.197. Ver tambm, do
mesmo autor, L'art parital - Langage de la prhistoire,
Grenoble, ed. Jer&me Millon, 1992.
1 Gilles Deleuze e Felix Guattari, O anti-dipo, Lisboa,
Assrio e Alvim, s/d., p.162.
2 Andr Leroi-Gourhan, O Gesto e a Palavra, Vol I, p. 210.
1 Julia Kristeva, Le langage, cet inconnu, Paris, +ditions du
Seuil, 1981, p. 29.
2 Leroi-Gourhan, O Gesto e a Palavra, Vol II, 2Memria e
Ritmos+, Lisboa, Edies 70, 1983, p. 221.
3 Deleuze/Guattari, O anti-dipo, p. 161.
1 Citado por Julia Kristeva, Le langage cet inconnu, p. 52.
2 Leroi-Gourhan, O Gesto e a Palavra, Vol I, p. 201.
3 Deleuze/Guattari, Mille Plateaux, Paris, +ditions de Minuit,
1980, p. 123. No que concerne  questo da linguagem ver
tambm Robert Lafont, Anthropologie de l'criture, Paris, CGP,
1984, p. 11: 2A questo da origem da linguagem e da sua data
de emergncia no processo de hominizao da espcie 
simultaneamente inelutvel ( central na antropologia) e, 
falta de documentos, indecidvel. O mais simples e menos
arriscado  crer na nica referncia existente de uma
actividade humana que poder se inscrever em linha evolutiva
na rbita da lingugem: o trao como antepassado da escrita+.
1 Deleuze/Guattari, O anti-dipo, p. 164.
2 Claude Lvi-Strauss, Tristes trpicos, Lisboa, Edies 70,
1981, pp. 295-296.
1 Ver designadamente Jack Goody, La raison graphique, Paris,
+ditions de Minuit, 1979.
2 Deluze/Guattari, O anti-dipo, p. 193.
3 Georges Charbonnier, Entretiens avec Claude Lvi-Strauss,
Paris UGE, 1971, p.32.
1 Marshall McLuhan, A Galxia de Gutenberg, So Paulo, CEN,
1977, p.97.
2 Jack Goody, La raison graphique, Paris, +ditions de Minuit,
1979, p. 46. Ver ainda do mesmo autor 2Alfabetos y escritura+,
Historia de la Comunicacin, Raymond Willims (ed.),

Barcelona, Bosch Comunicacin, 1992.
3 Goody, La raison graphique, p. 56.
4 Pierre Clastres, A sociedade contra o Estado, Porto,
Afrontamento, 1975, p.9.

1 Clastres, op. cit., p. 11

1 Jacques Derrida, 2Scribble+, Essai sur les hiroglyphes des
+gyptiens de William Warburton, Paris, Aubier-Flammarion,
1978.

2 Cf. Marc Abls, Poder, Sociedade, Simblico, Lisboa, A
Regra do Jogo, 1977.
3 Abls, op. cit., p. 34.
4 O anti-dipo, p. 155.
1 Jacques Derrida, 2Scribble+, p. 32.
1  Marshall McLuhan, Os meios de comunicao como extenses do
homem, So Paulo, Cultrix, 1979, p. 101.
2 Marcel Cohen, A escrita, Lisboa, Europa-Amrica, s/d., pp.
36 e ss.
3 Deleuze/Guattari, O anti-dipo, p. 161.
1 Deleuze/Guattari, op. cit., p. 164.
2 Ibid., p. 175. 
3 Patrick Tort, 2Transfigurations+, Essai sur les hiroglyphes
des +gyptiens de William Warburton, Paris, Aubier-Flammarion,
1978.

4 Jacques Derrida, 2Scribble+, op. cit., p.42.
1 Louis Qur, Des miroirs quivoques - aux origines de la
communication moderne, Paris, Aubier-Montaigne, 1982, pp.
124-125. 
1 J. Huizinga, O declneo da Idade Mdia, Lisboa, Ulisseia,
s/d.
2 Marshall McLuhan, A galxia de Gutenberg, So Paulo, CEN,
1977, p.88.
1 McLuhan, idem, pp. 72 e 99.
2 Michel Butor, 2+loge de la machine  crire+, L'Arc, nmero
especial sobre Gutenberg, Paris, 1972.
1 Giovanni Beccati, A escultura grega, Lisboa, Arcdia,1965,
p.22.
2 Erwin Panofsky, La perspective comme forme symbolique,
Paris, +ditions de Minuit, 1976, p.79.
1 Georges Charbonnier, Entretiens avec Lvi-Strauss, Paris,
UGE, 1961, p.69.
2 Charbonnier, op. cit., p.73
3 Idem, p.75.
4 Gilbert Durand, A imaginao simblica, Lisboa, Arcdia,
1979, pp.40-41.
1 Durand, op. cit., pp. 33-35.
2 Andr Bazin, 2Ontologie de l'image photographique+,
Qu'est-ce que le cinma, Paris, +ditions du Cerf.
3 Jean Franklin, Le discours du pouvoir, UGE, Paris, 1975, p.
66.
1 Durand, op. cit., p. 35
2 Marisa D. +miliani, 2La question de la perspective+, La
perspective comme forme symbolique, Paris, +ditions de Minuit,
1976.
3 Erwin Panofsky, op. cit., p. 91.

1 Michel Foucault, 2Usages des plaisirs et techniques de soi+,
Dbat, Novembre 1983, p. 63.
2 Vasco Ronchi, Histoire de la lumire, Paris, Armand Colin,
1956.
3 M. D. +miliani, op. cit., p. 17.
4 Pierre Francastel, Peinture et socit, Paris, Galimmard,
1951.
1 Erwin Panofsky, op. cit., p. 159.
2 Citado por Jean-Louis Baudry, 2Effets idologiques produits
par l'appareil de base+, Cintique, n 7/8, 1970
3 Jean Duvignaud, Lieux et non-lieux, Paris, Galile, 1977.
1 Duvignaud, idem, p. 145.
2 Michel de Certeau, La fable mystique, Paris, Gallimard,
1982.
3 Jos Gil, Metamorfoses do corpo, Lisboa, A Regra do Jogo,
1980, p. 103.
4 Tese de doutoramento, sob orientao de Serge Moscovici,
dactilografada, Paris, 1980
1 Bruno Zevi, Saber ver a arquitectura, Lisboa, Arcdia, 1966.
2 Duvignaud, op. cit., pp. 13-14.
3 Norbert Elias, La civilisation des moeurs, Paris,
Calmann-Lvy, 1973.
1 Erasmo, A civlidade pueril, Lisboa, Estampa, 1978, p. 78.
1 Philippe Aris, prefcio a A civilidade pueril de Erasmo,
op. cit.
2 Michel de Certeau, L'criture de l'histoire, Paris,
Gallimard, 1975, p.242.
3 Marc Lescarbot, L'histoire de la nouvelle France, Paris,
1609, citado por Certeau, op. cit., p. 245.
1 Michel Foucault, L'histoire de la folie a l'age classique,
Paris, Gallimard, 1982, pp 74-75.
2 Foucault, op. cit., p.64.
3 Antonin Artaud, Vie et mort de Satan le feu, citado por
Foucault, Histoire de la Folie, p. 41.
4 Michel de Certeau, L'criture de l'histoire, pp. 9-10.
1 Gilbert Durand, A imaginao simblica, p. 37.

2 Georges Charbonnier, op. cit., p. 91
1 Alberto Pimenta, 2Cinco teses para uma determinao do
simblico+, A (ms)cara diante da cara, Lisboa, Arcdia, 1982.
2 Michel Foucault, As palavras e as coisas, Lisboa,
Portuglia, s/d, p. 77.
3 Foucault, op. cit., pp. 49 e 67.
1 Jurgen Habermas, Historia y critica de la opinin publica,
Barcelona, Gustavo Gili, 1981, pp. 53. 
2 Jacques Legoff, La civilisation de l'Occident mdivale,
Paris, 1965, p.341.
3 Henri-Jean Martin, 2Pour une histoire de la lecture+, Dbat,
Novembre de 1982, p. 166.
4 Cf. Marshall McLuhan e P. Babin, Era electrnica, um novo
homem, um cristo diferente, Lisboa, Multinova, 1978.
5 Marshall McLuhan, A galxia de Gutenberg, So Paulo, CEN,
1977.
6 Habermas, op. cit., pp. 53.
7 Lucien Febvre e Henri-Jean Martin, L'apparition du livre,
Paris, Albin Michel, 1971, p. 175.
8 Elisabeth Eisenstein, 2La culture de l'imprim+, Dbat,
Novembre de 1982. Trata-se de um texto apresentado por Jacques

Revel a partir da obra de E. Eisenstein The printing press as
an agent of change, Cambridge University Press, 1979.
9 Op. cit., pp. 178-192.
10 Richard Sennett, Les tyrannies de l'intimit, Paris,
+ditions du Seuil, 1979.
11 Elisabeth Eisenstein, op. cit., p. 119.
12 Citado por L. Febvre/H-J Martin, op. cit., p. 30.
13 Louis Qur, Des miroirs quivoques - aux origines de la
communication moderne, Paris, Aubier-Montaigne, 1982, p.54.
14 Qur, op. cit., p.79.
15 Fernando Guerreiro, 2Da mimesis  metfora e da metfora 
verdade+, in Ensaio sobre a origem das lnguas de Jean-Jacques
Rousseau, Lisboa, Estampa, 1981, p. 11.
16 Paul Heyer, 2Pour une histoire des communications+,
Communication/Information, Vol. V, n 2/3, 1983.
17 Michel Foucault, As palavras e as coisas, Lisboa,
Portuglia, s/d., pp. 91-92.
18 Foucault, op. cit., p. 107.
19 Idem, p. 177.
20 Ibidem, p. 278.
21 Cf. Bernard Cerquiglini, La parole mdivale, Paris,
+ditions de Minuit, 1981.
22 Michel de Certeau, La fable mystique, Paris, Gallimard,
1982.
23 Cf. Julia Kristeva, O texto do romance,Lisboa, Livros
Horizonte, 1984.
24 Mikhail Bahktine, Esthtique et thorie du roman, Paris,
Gallimard, 1978, p. 409.
25 Kristeva, op. cit., p. 36.
26 Franklin, Le discours du pouvoir, Paris, UGE, 1975, p. 16.
27 Jos Tengarrinha, Histria da imprensa peridica
portuguesa, Lisboa, Portuglia editora, pp. 31-32.
1  Emmanuel Leroy Ladurie, entrevista a Franoise Docquiert,
Antennes, n 6, Paris, Mars 1981. Outro autor insuspeito,
Alain Touraine (em entrevista ao El Pas de 16 de Outubro de
1993), dizia: 2(...) O ponto capital  a formao da opinio
pblica, e da a respondabiliadde dos intelectuais, dos
jornalistas e dos meiso de comunicao nos tempos que correm.
A vida poltica encontra-se hoje atrasada no que diz respeito
 realidade social, tal como ocoreu noutas pocas da histria.
+ preciso, portanto, criar uma conscincia social que ajude a
modificar as decises, tanto do ponto de vista dos governos
nacionais como dos organismos internacionais+. 

1  Jean Baudrillard, A sociedade de consumo, Lisboa, Edies
70, 1975.

1 Sobre esta questo e sobre a telerealidade e a inrcia
domiciliria, questes recorrentes em Virilio, ver, por
exemplo, um texto editado em Portugal, A Inrcia Polar, Dom
Quixote, Lisboa, 1993.
1 Felix Guattari, La Rvolution Molculaire, Paris, UGE, 1980.

1 Roland Barthes, 2L'criture de l'vnement+, Communications,
n12, 1968. 
1 Cf. Seltman, Approach to Greek Art, citado por McLuhan, A
Galxia de Gutenberg.
2 Carlos Rizzini, O Jornalismo Antes da Tipografia, Companhia

Editora Nacional, So Paulo, 1977.
3 PEREIRA, Maria Helana da Rocha, Estudos de Histria da
Cultura Clssica, I Vol., Cultura Grega, 4? edio, FCG,
Lisboa, 1976, pp. 121-122.
1 Cf. +mile Zola, Carnets d'Enqutes, Plon, Paris, 1987.
2 Le Journal de Samuel Pepys (1632-1703)  considerado no
Reino Unido como um verdadeiro clssico, um testemunho
inigualvel sobre o quotidiano na Inglaterra do sculo XVII.
1 Habermas, op.  cit., citando B;cher, p. 209.
1 Pierre Albert e Franois Terrou, Histoire de la Presse, PUF,
2 Comunicacin y Sociedad, edio da Universidade Complutense
de Madrid, 1983.
1 Fenda Edies, Coimbra, 1986.
1 Walter Benjamin, ""Foi ao desmascarar a inautenticidade que
Kraus se lanou na luta contra a imprensa", Pravda, n4, Fenda
Edies, Coimbra, 1986 - excerto de um texto publicado no
Frankfurter Zeitung (Maro de 1931) reeditado no livro
Illuminationen, Suhrkamp Verlag, 1961. O ttulo original deste
texto  "Karl Kraus".
2 Traquina, Jornalismo: Questes, Teorias, 'Estrias', Vega, 
1 Histria, n 53, Lisboa, Maro de 1983, pp. 32-54.

1 Le JT - Mise-en-scne de l'actualit  Ia tlvision Bemard
Mige (org.), INA, Paris, 1968, p. 123.
2 Cf. Pierre Moeglin, Mige, op. cit., "Une scnographie en
qute de modemit: de nouveaux traitements de I' image au
joumal tlvis".
3 Mige, op. cit., p. 186
1 Cf. Dominique Wolton e Jean-Louis Missika, La Folle du Logis
- La tlvision dans les socits dmocratiques, Gallimard,
Paris, 1983.
1 Op. cit., p. 97
2 Op. cit., p. 105
1 Bourdon, op. cit, p. 285
2 Ibidem, 285-286.
3 Jean-Pierre Hutin, em entrevista a Jean-Pierre Filiu, Mai
1968  l'ORTF, INA, Paris, p. 168.
1 Cf. Jacques Sellebert, citado por J. Bourdon (1990:83).
1 Os primeiros spots eram emitidos a 1 de Fevereiro de 1968,
pelas 19h40.
1 Thibau, op. cit., p. 152
1 Cf. Cdima, F. Rui, Salazar, Caetano e a Televiso
Portuguesa, Editorial Presena, Lisboa, 1996.
1 Jakobson, Roman, "Le langage commun des linguistiques et des
antropologues", Essais de Linguistique Gnrale, Vol. I, Les
+ditions de Minuit, Paris, 1963.
2 Op. cit., "L'aspect phonologique et l'aspect grammatical du
langage dans leurs interrelations", texto apresentado pela
primeira vez por R. J. no sexto Congresso Internacional dos
Linguistas (Paris, 1948).
3 Cf. o seu artigo "The Structure ans Functions of
Communication in Society", The Communications of Ideas, Lyman
Bryson , Harper, New York, 1948.
4 Shannon e Weaver, "The Mathematical Theory of
Communication", Bell System Technical Journal, 1948.
5 CLOUTIER, Jean, A Era do Emerec, ITE, Lisboa, s/d.
6 Jakobson, op. cit. 
7 Publicado pela primeira vez em 1961 - cf. Essais de

Linguistique Gnrale, op. cit.
8 Cf. "Linguistique et Thorie de la Communication", Jakobson,
op. cit.
9 Referimo-nos aqui concretamente  sua obra The Process and
Effects of Mass Communications, co-editada com Donald F.
Roberts, UIP, Illinois, 1954. 
10 Morin, Edgar, L'Esprit du Temps, Essai sur la culture de
masse, +ditions Bernard Grasset, Paris, 1962.
11 Schaeffer, Pierre, Les Machines  Communiquer, +ditions du
Seuil, I e II, Paris, 1972.
12 Moles, Abraham, Sociodynamique de la Culture, +ditions la
Haye, Paris, 1967.
13 Cf. "Nouveaux courants dans l'tude des communications de
masse", Essais sur les mass-media et la culture, Unesco, 1971.
14 Jakobson, Roman, "Linguistique et potique", Essais (...)
op. cit., chapitre XI.
15 Eco, Umberto, "Introduo" a A Indstria da Cultura, Edio
Meridiano, Lisboa, Outubro de 1981.
16 Morin, "Receptores Selectivos", citado na antologia
Comunicao Social e Jornalismo, Regra do Jogo, 1981.
17 Morin, "Nouveaux courants dans l'tude de la communication
de masse", op. cit.
18 Arlen, Michel J. "Marshall McLuhan and the Technological
Embrace", Living Room War, The Viking Press, NY, 1969.
19 Cf. o artigo de J. M. Paquete de Oliveira "Marshall
McLuhan, Profeta ou Impostor?", Expresso, 10 de Janeiro de
1981. 
20 Harold Adams lnnis, importante historiador econmico
canadiano (1894-1952), discpulo de Veblen, autor,
nomeadamente de Empire and Communication (1950), The Bias ot
Communication (1951) e Changing Concepts of Time (1952),  ed.
University of Toronto Press. 

21 Rosenberg, Harold, cf.  'Pour comprendre McLuhan'  Pour ou
Contre McLuhan, sob dir. de G. E. Stearn, Seuil, Paris, 1969.
22  Op. cit., Dialogue, G.E.Stearn-McLuhan, p. 287.

23 Explorations, revista trimestral de estudos sobre cultura e
comunicao. Foram apenas publicados sete nmeros, entre 1953
e 1957.  Edio da Fundao  Ford.
24 Miller, Jonathan, McLuhan,  Cultrix, So Paulo, 1982, p.
14. 
25 Heyer, Paul, "Pour une histoire des communications:
quelquer paralles et contrastes entre Michel Foucault et la
filire canadienne", Communication, Information, Vol. V, n
2/3, 1983, pp.247-264.
26 Czytrom, Daniel, "Metahistory, mythology and the media: the
american thought of Harold Innis and Marshall McLuhan",
Theorists of modern communication, New York, pp. 147-182.
27 McLuhan, Marshall, "Xrox, simulacre et mort du livre", Les
Imaginaires, UGE, Col. 10-18, Paris, 1972.
28 Pour ou contre McLuhan, pp. 267-8.
29 Idem, p. 293.
1 Patrice Flichy, Une histoire de la communication moderne, La
Dcouverte, Paris, 1991
1 Patrice Flichy, op. cit., p. 33.
2 Flichy, op. cit., p. 236.
1 Histria da Vida Privada - Da Primeira Guerra Mundial aos

Nossos Dias (dir. Vol. 5, Antoine Prevost e Grard Vincent)
2 Op. cit., p. 21.
1 Op. cit., pg. 316
1 Ver designadamente La Communication, Paris, PUF, Col. Que
sais-je? n 2567, 1991.
2 Sfez, op. cit., p. 124.
1 Ver L'+tat des Mdias (dir. Jean-Marie Charon), La
Dcouverte - Mdiaspouvoirs - CFPJ, Paris, 1991.
2 Op. cit., Cerdan, 2Tlvision et socit - un r&le
controvers+, pp. 247-251. 
3 Louis Qur, Des miroirs quivoques - aux origines de la
communication moderne, Aubier-Montaigne, Paris, 1981.
4 Op. cit., p. 46.
1 The fall of the public man, de Richard Sennett (Alfred A.
Knopf Inc., New York, 1974) e Strukturwandel der
Offenlichkeit, de J;rgen Habermas (Hermann Luchterhand Verlag,
Darmstadt, 1962), traduo francesa: L'espace public,  Payot,
1978.
2 Qur, op. cit., p. 54.
3 Op. cit., p. 79.
1 Op. cit., p. 109
2 Op. cit., pp. 125-126.
1 Porat, Marc, 2Global Implications in the Informatiom
Society+, Journal of Communication, Winter, 1981
1 2Les travailleurs du 3e. type+, Le Monde, 27 de Novembre de
1983..
2 Cf. Declarao dos participantes na Conferncia
Internacional dos Sindicatos do Audiovisual da Europa
Ocidental, Roma, 1982
3 Ver, por exemplo, Teletrabajo, de Prez, Remigio e Leandro,
Jos, MOPT, Madrid, 1994.
4 Chronicle of International Communication, Vol. I, n 1,
Janeiro de 1980, citado por Herbert Schiller, El Poder
Informtico, Barcelona, Gustavo Gili, 1983. 
1 
1 
1 Lyotard, J-F., Le diffrend, pp.16-17
2 Scheer, Lo, La socit sans ma-tre, p. 123.
3 Leroi-Gourhan, O Gesto e a Palavra - Tcnica e Linguagem,
Edies 70, p.213.
1 Mumford, Lewis, Arte e Tcnica, Edies 70, Lisboa, 1980, p.
89.
2 Mumford, op. cit., p. 87.
3 Lyotard, op. cit., p. 120.
1 Baudrillard, Jean, Les stratgies fatales, Paris, Grasset,
p. 17
2 Baudrillard, op. cit., p. 17.
3 Lyotard, op. cit., pp. 56 e 72.
1 Op. cit., p. 56.
1 Ver designadamente o artigo de P. Jorge Braumann e  F. Rui
Cdima "Televiso - Osis ou Miragem", Marketing &
Publicidade, n 40, Outubro de 1990.
2 Entre os accionistas da SIC est uma das principais network
mundiais - a Rede Globo do Brasil, com 15 por cento do
capital.

3 Entre eles esto a Rdio Renascena, a Universidade Catlica
Portuguesa e a Unio das Misericrdias. Faz tambm parte do

capital da TVI a rede espanhola Antena 3 TV, com 5 por cento.  

4  Veja-se o nosso livro O Fenmeno Televisivo, Crculo de
Leitores, Lisboa, 1996, designadamente o captulo subordinado
 questo do servio pblico de televiso.
5 Em Julho de 1994, o Supremo Tribunal Administrativo vinha
dar razo  RTP, indeferindo o pedido da SIC para a revogao
do decreto-lei 29/94, que atribua  RTP uma indemnizao
compensatria de 7,05 milhes de contos, para o ano de 1994
(ver Pblico de 16/7/94). Segundo o Tribunal, no havia
violao das regras da concorrncia, apenas o cumprimento do
contrato de servio pblico assinado entre RTP e Estado em
1993.
6 Cf. "Santos recursos", Independente, 9 de Junho de 1994.
7 Cf. Filipe Simes dos Santos - Nova Jnior - "As contas das
televises", Valor, n 192,  6 de Julho de 1995.
8 Marcelino Oreja, "Un cadre solide et des leviers puissants
pour l'audoiovisuel europen", Politique Audiovisuelle, DGX,
Avril 1995.
9  Cdima, F. R., "Servio pblico, interesses privados",
Expresso, 1 de Fevereiro de 1992.

10 Bourdieu, Pierre, "La vertu civile", Le Monde, 16 de
Setembro de 1988, util. traduo portuguesa, Revista de
Comunicao e Linguagens, n 9, Maio de 1989.

11 Cf. Pblico, de 10 de Setembro de 1995
12  Ento na oposio, Alberto Arons de Carvalho ("Uma Alta
Autoridade para Qu?", Pblico, 15 de Maro de 1994), escrevia
o seguinte: Ser s a lei a culpada do pesado e insustentvel
silncio da AACS sobre a forma como os dois canais da RTP
desrespeitam o contrato de concesso do servio pblico de
televiso e fazem concorrncia desleal aos canais privados?+
1 Cf. Carlos de Sousa e Brito, 2A televiso, instrumento de
desmassificao+, Seminrio sobre TV, IPSD, Setembro 84
 1Jean-Louis Missika/Dominique Wolton, La Folle du Logis - La
tlvision dans les socits dmocratiques, Gallimard, 1983.

2  Robert Wengerme, no Conselho da Europa, em 1974
1 2L'art d'accomoder les rogatons tlvisuels+, assim lhe
chamou Pierre-Alain Mercier num estudo sobre a questo
(Communication et Langages, n 76, 2 trimestre de 1988). 

1 Daney, Serge, Le salaire du zappeur, Paris, Ramsey, p. 247.
2 Daney, op. cit., pp. 251-252.
3 Op. cit., p. 188.
1 Op. cit., p. 240.
1 Daney, op. cit., p. 244.
1 Mercier, op. cit., pp. 88/89.
1 Cf.  Marita Sturken, 2Les grandes esprances et Ia
construction d'une histoire+ Communications, n 48, Paris,
1988, pp. 125-147.

1 Mredieu, Florence de, 2L'implosion dans le champs des
coleurs+, Communications, n 48, Paris, 1988, p. 248.
1 Cf. o texto de Bill Viola 2Y aura-t-il copropriet dans
l'espace des donnes?+, Communications, n 48, Paris, 1988.


2 Anne-Marie Duguet, Communications, n 48, Paris, 1988, p.
226.

1 Youngblood, op. cit., p. 181.

2 Virilio, 2La lumire indirecte+, Communications, n 48,
Paris, 1988, pp. 45-52.
3 Bellour, 2Autoportraits+, Communications, n 48, Paris,
1988, pp. 327-387.
4 Op. cit., pp 345-346.
1 Krauss, Rosalind, op. cit., p. 372.
1 Veja-se o texto de Jean-Paul Fargier, 2Les effets de mes
effets son mes effets+, Communications, n 48, Paris, 1988,
pp. 93-100.
2 Op. cit., p. 385.
3 Cf.  Phillipe Dubois et altri 2Cinma et Vido:
lnterpntrations+, Communications, n 48, Paris, 1988, pp.
267-319.
1 Cf.  Revista de Comunicao e Linguagens, n 9, Maio de
1989.
1 Vejam-se designadamente as edies do Pblico
(http://www.publico.pt/publico/hoje), do Jornal de Notcias
(http://www.jnoticias.pt/index.htm) e do Dirio de Notcias
www.dn.pt:8080.

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